Supergirl

A gente vive a era do "hype", que também pode ser chamada de a era dos extremos. Não há meio termo, uma obra só pode ser excepcional ou excecrável. O que cria o estranho fenômeno onde obras medianas -  e convenhamos a maioria delas é assim - dividem mais o público que os extremos. Parece que as pessoas não sabem lidar com filmes e séries que não despertam imediato amor ou ódio. É esse um dos desafios que o novo Supergirl precisa enfrentar. 

Outro desafio é o fato de talvez ser tarde demais para um novo universo compartilhado de heróis. O mercado está sim saturado, e o público cansado pode não ser tão receptivo com mais histórias de origem. E tem ainda a obrigatoriedade da excelência criada pelo mundo misógino em que vivemos. Um mundo onde mulheres tem que se esforçar infinitamente mais, ser praticamente perfeitas, para talvez ter algo próximo do reconhecimento que um homem medíocre, mas dentro dos padrões, recebe. 

Os roteiristas de Supergirl podem até estar cientes disso. Provavelmente estão, mas, aparentemente não dão a mínima! Eles escolheram uma história para contar, tentam contá-la da melhor forma possível, e nos convidam para embarcar. Cabe a cada um superar os empecílios mercadológicos e sociais, e embarcar, ou não na aventura. Eu escolhi me divertir!

Supergirl atualiza as origens da heroína kriptoniana para o novo universo da DC nos cinemas. As cenas de flashback da queda de Kripton e da chegada de Kara Zor-El (Milly Alcock) são de longe o ponto alto do filme. Construindo a bagagem de uma sobrevivente, com culpa, saudade e sem um lugar no mundo. Diferente do primo que cresceu na Terra, a protagonista aqui tem memórias dos pais e de sua terra natal. Um luto gigantesco que impede que ela siga em frente, e que ela precisa, e vai superar ao longo da aventura. 

Anos após a destruição de seu planeta, Kara vive de bar em bar, afogando suas mágoas em planetas de sol vermelho, onde não tem poderes e pode aproveitar dos efeitos do álcool no organismo. Mas sua maratona de bebedeira é interrompida quando um grupo de bandidos, rouba sua nave e envenena seu cachorro. Com apenas alguns dias para encontrar o antídoto para Kripto, cara cai nas estradas espaciais à caça do grupo de malfeitores. Acompanhada à contragostpo por Ruthye (Eve Ridley), uma menina que tem sua própria richa com o grupo de mercenários, em particular com Krem (Matthias Schoenaerts).

Goste ou odeie, Supergirl tem o jeitão de Guardiões da Galáxia, o que não é surpresa já que apesar de não dirigir, o arquiteto desse universo é o James Gun, diretor das aventuras espaciais da marvel. A mocinha visita vários planetas, conhece e luta com diferentes tipos de aliens, em uma aventura frenética guiada por boa música, muita ação e humor. A semelhança pode tanto agradar quem gosta do estilo, quanto irritar quem esperava por algo novo. Novamente, vai do gosto do freguês!

Milly Alcock tem carisma e talento o suficiente para carregar uma personagem que, apesar de ranzinza e com o objetivo de se isolar do mundo, não consegue escapar de sua essência. Kara está desgostosa da vida sim, mas ainda é uma boa pessoa, cheia de empatia. E a atriz vai desfazendo essa casca de isolamento ao longo da jornada de forma bastante convincente. 

Eve Ridley consegue acompahar Alcock, a determinação de Ruthye serve de contraponto à desistência da protagonista. Enquanto o vilão de Matthias Schoenaerts, é apenas isso mesmo, um vilão que serve à narrativa. De fato, não fosse a catacterização com metais no rosto que o diferencia dos outros bandidos, certamente teríamos dificuldade de encontrar ele no bando. 

Há ainda participações muito pontuais de David Corenswet. O Superman aqui acertadamente não interfere em nada na aventura, sua presença apenas dá contexto ao momento em que a protagonista vive. E por último, e bem desimportante, a apresentação de Lobo, personagem de Jason Mommoa, que é, assim como a maioria dos personagens, outra versão do próprio ator. À excessão da caracterização , que segue os quadrinhos criando uma figura bastante diferente e interessante, o personagem é o mesmo brutamonte, motoqueiro, bem humorado que Mommoa sempre entrega. Sua presença na trama é acessória, ou seja desnecessária. Lobo só entra em cena, porque queriam introduzir o personagem no universo, não porque tinha uma função nessa história em particular. 

As cenas de ação são muitas e apostam no caos e no humor do improviso. Especialmente porque a protagonista nem sempre está em posse de seus super poderes. Já os efeitos especiais, assim como os elementos que compõem o visual do filme, fotografia, direção de arte, figurino e maquiagem não surpreendem nem inovam dando continuidade ao estilo do universo já apresentado em Superman de 2025. 

A direção de Craig Gillespie também segue o padrão criado por Gunn para o filme de Kal-El. Sem imprimir grande personalidade, ou invencionices. Ele faz o básico bem feitinho, e apenas isso. O que é suficiente para apresentar a protagonista adequadamente, e levar o público em uma boa aventura.

O segundo longa metragem do novo universo cinematográfico da DC comandando por James Gun, adapta a HQ Supergirl: Mulher do Amanhã (2021–2022), escrita por Tom King e ilustrada pela artista brasileira Bilquis Evely. E entrega a nova versão de Kara, voltada para o público feminino jovem. Não é por acaso que a companheira de aventura da protagonista é uma garota de treze anos. As meninas são o público alvo. 

Esse foco faz com que a nova Supergirl, aposte no girl power, sororidade e fazendo até algumas críticas superficiais à forma como a sociedade vê e trata as garotas. Sem se importa muito com a figura esperada pelo público geral. Sainha curta, emblema de S, botas e saia não são o foco! O filme quer apresentar Kara, solitária, em luto, sem esperança, e vê-la se transformar lentamente na Supergirl que será heroína de aventuras futuras. E muitos fãs das antigas, podem não estar preparados para isso. 

Concordo que Supergirl não é excepecional, mas não precisa e nem pretende ser. O filem entretém, diverte quem estiver disposto a embarcar na aventura. E apresenta uma heroína, humana, vivida, esperta, carismática e bem humorada para o futuro da franquia. 

Supergirl
2026 - EUA - 107min
Aventura, Ação, Ficção-científica

Leia a crítica de Superman (2025)!

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