Maio 2019 - Ah! E por falar nisso...

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Godzilla II: Rei dos Monstros

quinta-feira, maio 30, 2019 0
Em 2014 Godzilla reapresentou o kaiju mais famoso do mundo para o público ocidental. A nova versão não trazia uma aventura muito empolgante, mas era coerente em seu argumento, construção e até na forma de trazer o personagem para os dias de hoje. Some isso à promessa de um encontro com a também nova, e muito bem apresentada, versão de King Kong, e temos motivos suficientes para novas aventuras do monstrão. Mas, ainda não é agora que este encontro de celebridades acontece.

Godzilla II: Rei dos Monstros se passa cinco anos após os eventos do longa de 2014, e mostra um mundo que lidar tanto com a existência dos kaijus, quanto com as consequências da primeira grande batalha entre eles. A agência Monarch continua estudando as criaturas, até que uma de suas tecnologias é desviada causando o despertar de vários monstros como a Mothra, Rodan e Ghidorah. Os humanos até tentam consertar o estrago, mas o trabalho duro fica mesmo para o personagem título.

Reparou que não mencionei os nomes de nenhum dos personagens humanos na sinopse acima? Isso porque eles são absurdamente genéricos e de motivações confusas. Temos o cientista que acredita cegamente no monstro-protagonista, o que odeia os kaijus mas curiosamente sabe tudo sobre eles, aquele que tem um plano mirabolante para salvar o mundo usando as criaturas, a criança que não devia estar ali, e por aí vai... O que não é na verdade um problema, já que sua função aqui é motivar o inicio da batalha, e dar um vislumbre das consequências para as demais especies que habitam este planeta.

Assim encontramos Vera Farmiga, Kyle Chandler, Ziyi Zhang, Bradley Whitford, Charles Dance e vários outros rostos conhecidos de Hollywood se esforçando bastante para tornar críveis as motivações, atitudes e falas de seus personagens. É Ken Watanabe quem melhor se sai nesta tarefa. Um dos únicos remanescentes do longa anterior, e responsável oficial pela pronúncia japonesa do nome do protagonista - Gojira -, sua fé cega na criatura é compensada em uma breve cena de interação entre os dois.

Já Sally Hawkins (de A Forma da Água) de tão mal aproveitada parece ter sido incluída no roteiro às pressas, apenas como easter-egg, por ter protagonizado um filme de monstro oscarizado. Mas, não se deixe enganar, ela é outra dos remanescentes do Godzilla de 2014. Millie Bobby Brown, em sua primeira grande produção pós Stranger Things, soa um pouco intensa demais, mesmo nas cenas menos dramáticas. Há tempo de um ajuste no tom da intérprete mirim para o próximo filme, no qual sua personagem está confirmada e deve ser melhor aproveitada.

Se os humanos são apenas um pretexto para colocar as criaturas num ringue de luta do tamanho do planeta, há de se esperar que esta motivação seja ao menos coerente. Entretanto, nem os planos dos vilões, nem as atitudes dos mocinhos convencem os mais exigentes. As temáticas de ausência de limites em uma instituição cientifica, humanos tentando brincar de deus, e de salvar o planeta a todos e qualquer custo, são sembre boas quando bem trabalhadas. Mas aqui estas temáticas extrapolam a lógica e obrigam os personagens à ações que na maioria das vezes não se justificam. Até mesmo todo o conhecimento cientifico, no qual os cientistas da Monarch baseiam suas escolhas parecem saídos de lendas, ao invés de estudos. Godzilla e Mothra tem uma conexão? Beleza, mas como vocês sabem disso se acabaram de descobrir a mariposa gigante, e o protagonista pouco dá as caras na superfície? Geralmente a resposta à perguntas assim vem de uma antiga lenda de determinada região, ou de uma pintura antiga em uma caverna.

A abordagem do próprio Godzilla também é um problema. Para a população em geral ele é uma ameça como qualquer outro kaiju, mas para os personagens é visto como a salvação, o herói da humanidade. Entretanto, não há construção do monstro como tal. Nós, do lado de cá da tela, sabemos que ele é o herói, já que é o personagem título e um ícone da cultura pop, mas os personagens não deveriam saber disso. Nada que o Gojira fez desde sua aparição em 2014, justifica a crença de Watanabe e companhia de que o personagem está do lado da humanidade. De fato, talvez ele nem mesmo perceba a existência de criaturas tão pequenas e insignificantes como nós.

Ok. Talvez eu esteja sendo muito exigente com um filme cujo propósito é colocar monstros para brigar, então vamos ao interesse principal da produção, os kaijus. Novas espécies para a atual franquia, mas antigos conhecidos do universo de Godzilla, garantem o quesito nostalgia para os fãs. Seu design de produção é excelente, faz alusão à suas versões originais, sem soar pouco realista em um bem construido CGI. Entretanto, o filme é escuro. Boa parte das sequencias se passam não apenas à noite, mas também na chuva, prejudicando a visibilidade e consequentemente o impacto das lutas. Ou seja, não conseguimos ver o bastante para nos empolgar, salvo quando as criaturas entram em um pico de seus "poderes luminescentes". Estes momentos são diginos de posteres.

Em meio à toda a pancadaria, há ainda tempo para anunciar o encontro entre Godzilla e King Kong, previsto para 2020. Além de uma cena pós-créditos, que deixa ganchos para esta, ou outra aventura do MonsterVerse.

Godzilla II: Rei dos Monstros deixa claro seu real objetivo, colocar monstros gigantes para brigar. O longa é relativamente eficiente nesta tarefa, mas poderia causar mais impacto se trabalhasse melhor o roteiro, construindo situações mais críveis e coerentes para motivar estas disputas. Ao menos, a produção já deixa o cenário pronto para a próxima, e bastante promissora nova aventura. Que venha o encontro entre o lagarto e o macaco gigantes!

Godzilla II: Rei dos Monstros (Godzilla: King of the Monsters)
2019 - EUA - 131min
Ação, Ficção-cientifica

Leia as críticas do primeiro Godzilla e de Kong: A Ilha da Caveira.
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quarta-feira, 29 de maio de 2019

Rocketman

quarta-feira, maio 29, 2019 1
Descoberta do talento, as dificuldades para explorá-lo, ascensão, estrelato, queda e renascimento. A maioria das cinebiografias de astros da música não consegue evitar esta cartilha de eventos, é a personalidade singular de seu retratado e a forma de contar estas etapas que vão diferenciar uma produção de outra. Rocketman está disposto a experimentar para tentar alcançar a mesma aura extravagante da persona de Sir Elton John.

Assim, somos apresentados a um Elton (Taron Egerton) à beira do total colapso, disposto a se desnudar literal e metaforicamente para combater seus demônios e superar a tal fase da queda. À partir desta sessão de terapia o protagonista relata os principais eventos de sua vida desde a infância, até o renascimento.

O formato é aquele tradicional que mencionei no primeiro parágrafo deste texto. À diferença está na opção de não apresentar os sucessos do cantor cronologicamente, conforme foram compostos, mas atrelá-los tematicamente aos momentos chave da vida do personagem. Além de se permitir criar números grandiosos, fantasiosos e metafóricos para várias destas sequencias musicais, como a canção inicial onde as versões adulta e criança de Elton se destacam ao serem os únicos com cores vivas em meio à um número de dança com a paleta dessaturada. Ou ainda seu primeiro grande show, onde artista e platéia flutuam em êxtase pela canção. Conferindo assim, mais cara de espetáculo musical, que de biografia ao longa.

A escolha é mais que acertada, já que a jornada em si não foge dos clichês do gênero, que vão desde o empresário mal intencionado, até a paternidade complicada. Tudo atrelado à uma abordagem psicológica (começamos em uma sessão de terapia, lembra?), onde a maioria dos desvios na vida do protagonista se dá pela falta ou busca pelo amor.

São seus "antagonistas" quem mais saem perdendo com a abordagem, já que ganham contornos exagerados, sob a perspectiva de Elton. Desde o pai desnaturado (Steven Mackintosh), passando pela mãe sempre irritada Sheila (Bryce Dallas Howard) e o assumidamente vilão da narrativa o empresário John Reid (Richard Madden). O parceiro de composição e amigo de longa data Bernie Taupin (Jamie Bell, sempre eficiente) é quem ganha uma abordagem mais humana e bem construída, mesmo no auge da paranoia do protagonista.

Mas os holofotes estão mesmo sobre Elton John, que mesmo envolvido no projeto se mostra mais aberto à exposição que outros astros em suas biografias. Há sim, um elogio exacerbado à sua genialidade musical, e a sua capacidade de superar a queda praticamente sozinho, mas não há pudores quando ao uso de drogas, a sexualidade, e a atos condenáveis que o artista posse ter cometido em sua jornada. Taron Egerton não é fisicamente parecido com Elton, mesmo com ajuda da maquiagem, mas ele consegue nos fazer enxergar o astro através da postura, maneirismo e trejeitos, especialmente nas sequencias no palco. Uma pena a produção se encerrar com uma comparação de momentos reais da vida do compositor, e as recriações da produção, nos recordando das diferenças físicas entre o ator e o retratado. Vale mencionar Egerton canta todas as canções do filme, assim como boa parte do elenco.

Outro ponto que inevitavelmente chamaria a atenção é o figurino. Afinal as recriações das exageradas, brilhantes e espalhafatosas roupas de show do protagonista são deslumbrantes. Os figurinos também ajudam também a compor o personagem, servido de distinção entre o tímido de roupas simples em tons terrosos Reginald Dwight (nome de batismo do compositor), e a persona que escolheu ser. Elton Hercules John nasce como uma persona de palco, mas logo extrapola para os bastidores da vida do protagonista, que diminui a escala mas nunca abandoa o glamour, mesmo que decadente, fora dos palcos.

O extenso e excelente repertório de Elton John são a cereja do bolo. Apresentados tanto e momentos doces intimistas, como a sequencia do nascimento de Your Song. Quanto em exageros criativos e coloridos como Saturday Night's Alright.

Rocketman não consegue escapar da tradicional fórmula de biografias de astro de rock, descoberta, ascensão, sucesso, queda e renascimento. Cai inclusive, no clichê da demonização das companhias, da vida de luxo, e do empresário com más intenções que recebe grande parte da culpa dos infortúnios do protagonista. Mas, compensa tudo isso ao assumir em seu espírito a persona de seu retratado. O resultado é uma produção luxuosa, exagerada, e até brega em alguns momentos, mas extremamente cativante, e cheia de excelentes músicas. Exatamente a imagem vem à mente quando pensamos em Sir Elton John.

Rocketman
2019 - Reino Unido - 121min
Biografia, Drama, Musical


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segunda-feira, 27 de maio de 2019

DC's Legends of Tomorrow - 4ª temporada

segunda-feira, maio 27, 2019 0
Ano passado as Lendas do Amanhã juntaram algumas jóias mágicas na mesma época de um certo titã roxo da editora rival. Entretanto, ao invés de dizimar o universo, usaram seus poderes para derrotar um demônio com a ajuda de um bichinho de pelúcia azul gigante. Achou o desfecho do terceiro ano de DC's Legends of Tomorrow meio ridículo e absurdo? Esta loucura foi proposital, e definiu o tom para a quarta e mais recente temporada das aventuras do supergrupo. Suas histórias nunca foram as mais sérias ou simples do Arrowverse, e o programa finalmente abraçou todo este potencial caótico e cômico.

Ao aprisionar o demônio Mallus com a ajuda do Beebo, as Lendas deixaram escapar para nosso mundo - em diferentes momentos históricos, claro - várias criaturas mágicas de outra dimensão. Sua missão oficial muda, mas não muito. Ao invés de procurar por anacronismos que bagunçam a linha do tempo, eles buscam criaturas mágicas que bagunçam a linha do tempo. O plot absurdamente semelhante no entanto provém duas mudanças interessantes. A primeira é presença constante do especialista em sobrenatural, John Constantine (Matt Ryan). A segunda a aparente ausência de um grande vilão, que dá aos personagens uma sensação de segurança, lhes permitindo transitar mais entre as missões e vida pessoal.

Assim, Mick Rory (Dominic Purcell) continua sua divertida nova atividade, autor de romances. Sarah Lance (Caity Lotz) e Ava (Jes Macallan) desenvolvem seu relacionamento, na subtrama mais fraca da temporada, não apenas pela obviedade, mas pela mudança drástica na personalidade de Lance. A personagem não carrega mais nenhum resquício, do drama pelo qual passou em Arrow, que a transformou em uma assassina de alma atormentada. Zari Thomaz (Tala Ashe), é quem tem menor desenvolvimento, atendendo apenas ao que a história exige, até quase seu desfecho. O gancho para o quinto ano, deixa brechas para desenvolver melhor a personagem.

São Nate Heywood (Nick Zano), Constantine e Ray Palmer (Brandon Routh) aqueles que tem arcos mais interessantes. A primeira metade da temporada explora a relação de Nate com o pai Henry Heywood (Thomas F. Wilson, o Biff de De Volta para o Futuro). Enquanto a presença do demonologista e seu passado conturbado, traz a ameaça invisível e crescente que vai culminar no ápice do arco de Ray. O Átomo começa com sentimento de culpa por ter libertado Norah (Courtney Ford), passa por um breve romance, antes de virar o centro das atenções.

Entre as novas aquisições, o nerd da agência do tempo Gary (Adam Tsekhman), ganha mais espaço. A metamorfa Charlie, convenientemente presa na imagem de Amaya (e trazendo de volta a sua intérprete Maisie Richardson-Sellers), tem o papel de relembrar que nem todas as criaturas mágicas são maléficas. E a otimista Mona (Ramona Young), é uma divertida surpresa.

Aliás, surpresas e reviravoltas não faltam, é nelas que Legends se diferencia de Arrow, Flash e Supergirl. Deixando de lado a obrigação de se levar a sério, a série parece assumir que é o programa formado "pelos personagens que sobraram", e tenta a partir deles criar as situações mais divertidas possíveis. Resultando em subversão de expectativas e estereótipos, especialmente nas criaturas enfrentadas por eles, e uma miscelânea de períodos temporais e referências. Um bom exemplo é o primeiro episódio da temporada onde os heróis vão para Woodstock, caçar um belo unicórnio que devora corações humanos. Até mesmo o formato da série muda de acordo com o tema da semana.

Este tipo de entrega ao nonsense, pode desagradar que não tem um razoável nível de suspensão de descrença. Mas funciona para um público que já estava acostumado com as loucuras da viagem no tempo, que sempre fora a proposta da série. O auge desta loucura cria o melhor episódio da temporada. O oitavo capítulo deveria ser o crossover entre as séries, que as Lendas dispensaram para viver o Legends of To-Meow-Meow, onde as ramificações absurdas de múltiplas alterações na linha do tempo são enfatizadas pela magia presente na temporada. Referências, reviravoltas, consequências esdrúxulas, mudanças de personalidade e até de especie, tem de um tudo neste episódio.

Os absurdos, e a capacidade de rir de si mesmo, também são um prato cheio para o elenco que pode brincar com diferentes versões de seus personagens. Seja por curtos períodos de tempo, ou por vários capítulos. A maioria se sai razoavelmente bem, o ponto fraco continua sendo a pouca expressividade de Lotz. Ao menos sua Canário Branco ganha mais sequencias de luta, coerentemente absurdamente coreografadas, para combinar com o tom da temporada. Assim como no anto anterior, os demais super-heróis pouco usam seus poderes, à exceção da novata Charlie. Talvez uma contenção escolhida para dar mais tempo e verba para as criaturas mágicas e os diferentes períodos históricos.

Enfrentando criaturas criadas com um orçamento de série de TV, e vilões com motivação questionável, o grupo de super-heróis desajustados com um quê de Doctor Who, somam um pouco de Supernatural ao seu repertório já cheio de referências. Loucura define o resultado. Uma loucura assumida e totalmente proposital, que convida o espectador a embarcar na viagem. A série escolheu rir de si mesma, um caminho acertado para não esgotar tão rapidamente seu tema de viagem no tempo, abraçando as falhas, furos e possibilidades da premissa.

DC's Legends of Tomorrow abraçou a comédia de absurdos definitivamente, o que pode torná-la absurda e boba demais para alguns. Para aqueles que compreenderem e gostarem da proposta, é provavelmente a série mais divertida da DC atualmente.

Leia mais sobre DC's Legends of Tomorrow
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quarta-feira, 22 de maio de 2019

Aladdin

quarta-feira, maio 22, 2019 0

A fase de remakes live-action da Disney, tem trazido filmes que se dividem em três vertentes distintas. Há aqueles que criam histórias e mitologias completamente novas, como Alice no País das Maravilhas e Malévola. Os que trazem uma atualização necessária à clássicos de outros tempos como Dumbo e Mogli. E aqueles que apenas recriam uma obra que ainda funciona muito bem para o público atual, como A Bela e a Fera, e por isso podem ter sua existência questionada. Aladdin se encaixa neste último grupo, mas sua execução vibrante e carismática tem potencial para afastar as dúvidas quanto a necessidade de sua existência da mente da maioria das pessoas.

A trama é exatamente a mesma da animação de 1992. Aladdin (Mena Massoud) e um jovem de bom coração que vive de pequenos roubos nas ruas de Agrabah. Jasmine (Naomi Scott) é uma princesa obrigada por lei a se casar, que foge para ver o mundo. A dupla se esbarra e se apaixona, mas logo o jovem é sequestrado por Jafar (Marwan Kenzari). O grão-vizir do sultanato pretende usar o rapaz para recuperar uma lâmpada mágica, lar de um Gênio (Will Smith) que garante três desejos ao dono do artefato.

É Jasmine quem tem seu arco aprimorado pela adaptação, embora a original já fosse uma das princesas Disney mais cheias de atitude. Enquanto na animação a moça se recusa a se casar por obrigação, a personagem de Naomi Scott quer governar seu povo, ao invés de entregar a responsabilidade a um estrangeiro qualquer que a tomaria por esposa. A bem vinda atualização torna a moça um exemplo melhor para seu público mirim, ao invés de distrair Jaffar seduzindo-o (sim, na animação ela seduz o vilão!) ela o enfrenta com autoridade e conhecimento. A mudança também oferece à sua interprete a música original da produção, e chance de brilhar em sua interpretação, um solo com intensidade de tirar o fôlego e direção impecável.

Mena Massoud não se destaca tanto, mas oferece o que o protagonista necessita para carregar a história, além de acertar nas sequencias de canto e dança. O mesmo não pode ser dito de Marwan Kenzari, cujo Jaffar carece de personalidade em meio à bons personagens. O vilão fica muito aquém da sua personificação animada, mas não chega a comprometer o andamento da produção. Já, Nasim Pedrad é a grande surpresa, interpretando uma personagem complemente nova, a comediante mantém o nível de atuação à altura de Will Smith.

E por falar nele, hora de tirar o elefante azul da sala, o desafio de estar à altura do Gênio criado por Robin Williams. O acerto começa pela escalação, Smith se compara à Williams em personalidade e carisma. E na criação de uma persona que funciona melhor para seu novo intérprete, sem deixar de lado o espírito do personagem e até algumas de suas características marcantes. Ainda abusado, piadista, acelerado e boa praça, este novo Gênio soa como uma versão super-poderosa do Fresh Prince of Bell Air (ou Um Maluco no Pedaço, para quem acompanhava no SBT). Se não supera o original, o reverencia enquanto traz algo novo, atendendo à narrativa e satisfazendo o público.

De volta a narrativa, para preencher a duração mais longa e dar estofo aos personagens de carne e osso, o roteiro gasta mais tempo trabalhando as relações entre os personagens. Desde o romance entre Aladdin e Jasmine, passando pela amizade da moça com a criada Dalia e o impasse com seu pai, até a construção da amizade entre o jovem e o Gênio à partir da dinâmica de mestre e criado. Há também mais sequências de ação, e vôos de tapete.

Iago, Abu, Rajah e o Tapete Mágico, criados inteiramente em computação gráfica, funcionam bem com elenco de carne e osso. Abu e o tapete, são bastante expressivos sem soar artificiais por isso. Enquanto o papagaio do vilão ficou menos eloquente, mas ainda fala bastante, de uma forma similar as aves do mundo real, mas com um vocabulário mais extenso e a voz de Alan Tudyk.

A maioria das canções está de volta com roupagem nova, e boas interpretações do elenco. Particularmente, senti falta de energia na sequencia de Prince Ali, mas não sei se seria humanamente possível emular o frenesi da animação. É também na parte musical que os fãs mais nostálgicos vão reparar maiores alterações, seja para encaixar no novo formato, ou para torná-las mais adequadas para o público infantil. Algumas mudanças, inclusive, já estavam presentes em relançamentos em DVD da animação. Como quem cresceu com as "violenta versão original" (onde Jasmine quase perde a mão como punição por roubo), e não cresceu traumatizada por isso, não acho que precisemos amenizar tanto o tom. O que acabou tornando o casal principal um pouco menos ousado, e mais "bons moços", por assim dizer. Mas novamente, as mudanças não comprometem a produção. São apenas reflexos de seu tempo.

Já a direção de arte e figurino cria uma Agrabah colorida, rica (em elementos culturais, e em ouro mesmo) e cheia de vida. Os tons fortes e misturas de cores dos figurinos lembram produções de Bollywood, ajudam a dar vida às sequências musicais e mais personalidade as figuras em cena. Os figurinos do Gênio, por exemplo fazem alusão à versão do personagem na Broadway. Para quem gosta de referências, não faltam homenagens também à animação, como a maquete da cidade no escritório do Sultão e trechos que recriam cenas do original.

Da atual e grande leva de recriações da Disney, esta é provavelmente a mais acertada. Guy Ritchie conseguiu entregar uma produção com personalidade própria, sem se afastar do material original. É vibrante, divertido e visualmente deslumbrante. Aladdin é um jovem clássico que não ainda não precisava de uma nova versão. Mas, já que esta foi produzida, fico feliz em dizer que o saldo é positivo!

Aladdin
2019 - EUA - 129min
Aventura, Fantasia, Musical
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terça-feira, 21 de maio de 2019

Tolkien

terça-feira, maio 21, 2019 0
Mesmo quando escrevemos ficção sobre personagens mágicos em reinos distantes, nossas histórias contam muito mais sobre nós mesmos do que pretendemos revelar. Tolkien, biografia do autor de O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion retrata exatamente isso.

Retratando a juventude do autor, o filme apresenta todos os elementos que transformaram o órfão John Ronald (Harry Gilby/Nicholas Hoult) no J.R.R.Tolkien que criou os mundos que amamos. Desde a perda da mãe, passando pela T.C.B.S. (Tea Club, Barrowian Society), pelo romance impossível com Edith (Mimi Keene/Lily Collins), e pela guerra. Todos elementos formadores de sua personalidade e obra.

À começar pelo evento mais evocativo as batalhas épicas de suas aventuras, a "guerra para acabar com todas as guerras". A 1º Guerra Mundial é o ponto de partida da produção, e também de maior virada na vida do autor. A narrativa alterna entre seus instantes mais críticos no conflito, e a formação do protagonista desde a infância. Em ambas as linhas temporais, os mais atentos encontrarão, nomes, elementos, eventos e conceitos que inspiraram o vasto mundo literário de Tolkien. Alguns em sequências que poderiam ter saído das trilogias de Peter Jackson, outros apresentados de forma mais sutil.

O formato, com duas linhas do tempo alternadas, não é revolucionário, mas é eficiente. O vai-e-vem ente a tensão das trincheiras e dos momentos menos explosivos de sua infância se equilibram. Além de permitir que um tempo maior seja gasto em sua formação. O que não significa que a infância de Tolkien tenha sido calma ou simples.

Hoult e Gilby, que vive a versão mais jovem do protagonista, são eficientes em apresentar sua personalidade contida, sem que este se desanimado ou apático. Este Tolkien tem atitudes ponderadas, tanto pela condição precária em que vive, quanto pela genialidade que o destaca dos demais. Mas consegue demonstrar entusiasmo, empatia, paixão e até um certo nível de obsessão por trás de seu comportamento mais "recatado". É claro, o destaque aqui é de Hoult, que encena a maioria dos momentos decisivos e complexos, com bastante verdade em suas escolhas.

Também são coerentes e bastante fluidas, a passagem de tempo que transformam o elenco mirim em jovens adultos. O elenco apresenta um trabalho acertado entre as duas versões de cada personagem, especialmente os membros da T.C.B.S.. O grupo de quatro amigos formado por Tolkien, Christopher Wiseman (Ty Tennant/Tom Glynn-Carney), Robert Gilson (Albie Marber/Patrick Gibson) e Geoffrey Smith (Adam Bregman/Anthony Boyle), onde os jovens começaram a  nutrir e encorajar os trabalhos e ambições uns dos outros.


Há ainda tempo para mostrar um pouco da sociedade britânica da época, já que suas obras também são um reflexo de seu tempo. Mostrando a forma como a sociedade lidava com alguns órfãos, o sistema educacional e de classes em que estavam inseridos. A reconstrução de época bem executada ajuda na criação desta Inglaterra nas primeiras décadas do século XX.

Menos fantasiosa que o mundo que ele criou, a vida de John Ronald Reuel Tolkien não foi pacata ou desprovida de desafios. Essa bagagem é o que fornece os dilemas com os quais facilmente nos relacionamos nas aventuras de Bilbo e companhia. Longe de insinuar que a criação da Terra Média fora um efeito colateral de suas experiências, ou um brilhantismo de momento, Tolkien deixa claro que uma obra tão rica, só poderia ter uma origem igualmente complexa.

Tolkien
2019 - Reino Unido - 112min
Biografia, Drama

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segunda-feira, 20 de maio de 2019

Um adeus pouco satisfatório

segunda-feira, maio 20, 2019 0
Eu já havia apontado lá na sexta temporada que adaptar é bem diferente de criar.... Criar com pressa é ainda pior. Não que os criadores de Game of Thrones não tenham tido tempo de planejar seus episódios finais, a pressa aqui era para encerrar logo a história.

Não faltava muito para resolver em Westeros (não vemos Essos desde a sexta temporada), se comparado ao enorme número de personagens e tramas que a produção cobria em seus primeiros anos. A batalha contra o Rei da Noite, a disputa pelo Trono de Ferro e o desfecho dos personagens restantes eram as tramas a serem apresentadas nestes seis episódios..

Geralmente reclamamos que as séries são longas demais, e fazem uso de muitos fillers (aqueles episódios que apenas enchem a temporada, sem contribuir com a trama principal). Game of Thrones tem um raro caso inverso, precisava de mais temporadas. Mais tempo para construir os eventos, e dar peso as suas consequências.

Episódios em detalhes

Os dois episódios iniciais, são os únicos realmente criados para construir algo. No caso a tensão para a grande batalha contra os White Walkers. Reunir o elenco, resolver suas rusgas, mesmo que de forma corrida e posicionar todos para o confronto, a preparação funciona, já a guerra poderia ser melhor.


A Longa Noite foi conseguiu deixar todos aflitos por seus personagens queridos e surpreender por resolver em uma tacada só o maior enredo da série, e não explicar absolutamente nada das intenções do vilão (provavelmente poupadas para serem mostradas em um dos spin-offs da série). Mas o falho plano de batalha desafiou a suspensão de descrença dos mais exigentes. Enquanto a fotografia escura impediu que víssemos grande parte do que se passava em tela. As alegações posteriores do diretor de fotografia, que culpou os espectadores por "assistir da forma errada", também não agradaram. Sabemos que você pensou em criar algo com "qualidade de cinema" e esqueceu que o pessoal assistiria em TVs, PCs e celulares. Custava admitir o erro?

Mas, até então a série dividiu opiniões, mas não enfureceu ninguém. Foi a reta final que manchou permanentemente o currículo do programa. The Last of the Starks se divide entre as consequências da batalha e a preparação para enfrentar Cersei. É nesta segunda metade, que soluções mal feitas e atalhos tornam gritantes as falhas de roteiro. O exemplo mais emblemático é morte de Reaghal, e a incapacidade de Daennerys de eliminar a frota de Euron.

The Bells apenas reforça as falhas anteriores ao mostrar a mãe dos dragões resolvendo apenas com um dragão o que ela não conseguira solucionar com dois. Os atalhos e escolhas preguiçosas continuam. A desistência repentina da Arya de riscar o último nome de sua lista, apenas para situar a garota como ponto de vista em uma área da cidade que eles desejavam mostrar, mas não tinham personagem para torná-la impactante. O herói construído ao longo de sete anos, Jon mal reage ao que está a sua volta. Enquanto o desenvolvimento da loucura de Daenerys, que vinha acontecendo lentamente há tempos, é acelerado e mal apresentado. O penúltimo episódio, tradicionalmente o mais impactante da série, tornou-se mais frustante e confuso do que marcante.

Diante da bagunça do capítulo anterior, até que The Iron Throne não foi tão decepcionante, mas também não foi conclusivo. Foi coerente com o que estava em jogo, mas faltaram aprofundamentos e explicações, como as motivações de Drogon para poupar Jon e onde estavam aqueles lordes até então (apresentar alguns deles também seria bom). Como Sam pode ser Gran Meistre sem ser de fato Meistre, e ainda manter uma família? Faltou tempo para construir estes detalhes, enquanto outros como a possibilidade de gravidez de Daenerys e a verdadeira identidade de Jon, alardeados nas últimas temporadas, de nada serviram no final das contas. Nem mesmo uma visão aérea de Porto Real em recuperação foi oferecida, tirando o peso da matança do episódio anterior.

Não queríamos um conto de fadas...

Antes que me acusem de esperar por um conto de fadas, vale explicar, eu concordo com a maioria dos desfechos. A loucura e morte da mãe dos dragões, o exílio de Jon, a morte de Jaime e Cersey, o sacrifício do Cão, o reinado de Sansa, a exploração de Arya e até as posições que personagens menores assumem no novo governo. A grande maioria faz sentido, mesmo que a construção de seus arcos tenha sido falha, os obrigando a agir de forma incoerente com suas personalidades e bagagens, e a nós preencher as lacunas com a imaginação.

A exceção fica por conta de Bran, que teve a jornada inteira ligada ao Rei da Noite e foi jogado de paraquedas nas maquinações de Porto Real, mesmo depois de afirmar que não tem desejos e vive passado. Não é coerente, e não faz sentido nem para o personagem, nem para os demais que o escolheram.

Houveram acertos. Assim como na temporada anterior, estes episódios ecoaram e fizeram paralelos com situações, momentos e falas de diferentes épocas da série, e até dos livros. E momentos icônicos foram criados, como Brienne sendo sagrada cavaleira, a iluminação dos arakhs (as espadas dos dothraki) por Melisandre e a morte do Rei da Noite. 

Garrafas d'água e copos do Starbuks à parte, há também momentos de brilhantismo técnico, como as sequencias de chuva de zumbis em Winterfell, do caos em Porto Real, e montagem combinada do Clegane Bown e da sobrevivência de Arya. Mas vários destes perdem impacto graças à construção fraca.

Um discurso no último episódio chama atenção. Ao falar sobre a natureza da rainha Targaryen com Jon, o anão aponta algo que especulamos na última semana: enquanto ela matava inimigos com que concordávamos, não a achavamos louca. 

Game of Thrones é mais que sexo, violência, zumbis e dragões...

Apesar do que alguns possam pensar, Game of Thrones não é sobre violência, sexo, surpresas, dragões e zumbis de gelo. Essas coisas são incríveis e empolgantes, mas só tem grande impacto pela forma como são apresentadas. A morte de Ned é marcante pois somos levados a acreditar e torcer por sua salvação até o último segundo. Nos decepcionando por um breve momento, antes de perceber que a série já havia nos mostrado que acontecem coisas terríveis nesse mundo, e ninguém esta a salvo. Finalmente ficando satisfeitos pela coerência e coragem. Nesta colcha de retalhos das duas últimas temporadas, o roteiro pula de um grande evento para outro, sem a construção, as consequências e a pausa para nossa compreensão. Se tudo é épico, nada de fato se destaca.

Quanto a nós, não precisamos contratar homens sem rosto e mercenários para dar uma lição nos criadores. Duas temporadas ruins, não vão apagar os seis bons anos anteriores. Muito menos a experiência de acompanhar o programa por tanto tempo, especulando, criando teorias, revendo nossos conceitos e nos surpreendendo. Esta maneira de assistir séries, semanalmente e comentando com os amigos enquanto esperamos o próximo episódio, pode se extinguir em breve graças as maratonas do streaming. Se for o caso, fico feliz por participar de um dos últimos grande fenômenos do tipo. Se tudo isso ainda não for suficiente para te consolar, vale lembrar G.R.R.Martim ainda não terminou de contar a história do jeito dele.


David Benioff  e D. B. Weiss entregaram um final burocrático e corrido. Se a dupla ficou perdida quando os livros acabaram (sabiam os finais, mas não como chegar lá), ou se simplesmente perderam o interesse e queriam fazer coisas novas (já estão contratados para comandar a nova trilogia de Star Wars), é uma coisa a se discutir. É uma pena apenas, que tenham deixado passar a oportunidade de terminar este evento de uma geração de forma exemplar, como fãs e personagens mereciam.

Poderíamos ter nos despedido de Game of Thrones com pompa, circunstância e as bençãos dos deuses novos, antigos e do senhor da luz. Ao invés disso, fomos apenas expulsos de lá, sem muito tempo para uma última olhada.

A oitava e última temporada de Game of Thrones teve seis episódios, alguns com mais de uma hora de duração. Exibidos pela HBO desde 2011, os 73 episódios estão disponíveis na HBO Go.

Aqui no blog tem muitas curiosidades sobre a série, e textos sobre todas as temporadas confira:
7ª - Teletranspote e referências;
6ª - Adaptar é diferente de criar...;
5ª - Quem liga para os livros? Todos os homens devem morrer...
4ª - Valar Morghulis... Valar Dohaeris!
3ª - The North will Never Forget;
2ª - Valar Morghulis;
1ª - Conheça Game of Thrones
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