Um adeus pouco satisfatório - Ah! E por falar nisso...

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Um adeus pouco satisfatório

Eu já havia apontado lá na sexta temporada que adaptar é bem diferente de criar.... Criar com pressa é ainda pior. Não que os criadores de Game of Thrones não tenham tido tempo de planejar seus episódios finais, a pressa aqui era para encerrar logo a história.

Não faltava muito para resolver em Westeros (não vemos Essos desde a sexta temporada), se comparado ao enorme número de personagens e tramas que a produção cobria em seus primeiros anos. A batalha contra o Rei da Noite, a disputa pelo Trono de Ferro e o desfecho dos personagens restantes eram as tramas a serem apresentadas nestes seis episódios..

Geralmente reclamamos que as séries são longas demais, e fazem uso de muitos fillers (aqueles episódios que apenas enchem a temporada, sem contribuir com a trama principal). Game of Thrones tem um raro caso inverso, precisava de mais temporadas. Mais tempo para construir os eventos, e dar peso as suas consequências.

Episódios em detalhes

Os dois episódios iniciais, são os únicos realmente criados para construir algo. No caso a tensão para a grande batalha contra os White Walkers. Reunir o elenco, resolver suas rusgas, mesmo que de forma corrida e posicionar todos para o confronto, a preparação funciona, já a guerra poderia ser melhor.


A Longa Noite foi conseguiu deixar todos aflitos por seus personagens queridos e surpreender por resolver em uma tacada só o maior enredo da série, e não explicar absolutamente nada das intenções do vilão (provavelmente poupadas para serem mostradas em um dos spin-offs da série). Mas o falho plano de batalha desafiou a suspensão de descrença dos mais exigentes. Enquanto a fotografia escura impediu que víssemos grande parte do que se passava em tela. As alegações posteriores do diretor de fotografia, que culpou os espectadores por "assistir da forma errada", também não agradaram. Sabemos que você pensou em criar algo com "qualidade de cinema" e esqueceu que o pessoal assistiria em TVs, PCs e celulares. Custava admitir o erro?

Mas, até então a série dividiu opiniões, mas não enfureceu ninguém. Foi a reta final que manchou permanentemente o currículo do programa. The Last of the Starks se divide entre as consequências da batalha e a preparação para enfrentar Cersei. É nesta segunda metade, que soluções mal feitas e atalhos tornam gritantes as falhas de roteiro. O exemplo mais emblemático é morte de Reaghal, e a incapacidade de Daennerys de eliminar a frota de Euron.

The Bells apenas reforça as falhas anteriores ao mostrar a mãe dos dragões resolvendo apenas com um dragão o que ela não conseguira solucionar com dois. Os atalhos e escolhas preguiçosas continuam. A desistência repentina da Arya de riscar o último nome de sua lista, apenas para situar a garota como ponto de vista em uma área da cidade que eles desejavam mostrar, mas não tinham personagem para torná-la impactante. O herói construído ao longo de sete anos, Jon mal reage ao que está a sua volta. Enquanto o desenvolvimento da loucura de Daenerys, que vinha acontecendo lentamente há tempos, é acelerado e mal apresentado. O penúltimo episódio, tradicionalmente o mais impactante da série, tornou-se mais frustante e confuso do que marcante.

Diante da bagunça do capítulo anterior, até que The Iron Throne não foi tão decepcionante, mas também não foi conclusivo. Foi coerente com o que estava em jogo, mas faltaram aprofundamentos e explicações, como as motivações de Drogon para poupar Jon e onde estavam aqueles lordes até então (apresentar alguns deles também seria bom). Como Sam pode ser Gran Meistre sem ser de fato Meistre, e ainda manter uma família? Faltou tempo para construir estes detalhes, enquanto outros como a possibilidade de gravidez de Daenerys e a verdadeira identidade de Jon, alardeados nas últimas temporadas, de nada serviram no final das contas. Nem mesmo uma visão aérea de Porto Real em recuperação foi oferecida, tirando o peso da matança do episódio anterior.

Não queríamos um conto de fadas...

Antes que me acusem de esperar por um conto de fadas, vale explicar, eu concordo com a maioria dos desfechos. A loucura e morte da mãe dos dragões, o exílio de Jon, a morte de Jaime e Cersey, o sacrifício do Cão, o reinado de Sansa, a exploração de Arya e até as posições que personagens menores assumem no novo governo. A grande maioria faz sentido, mesmo que a construção de seus arcos tenha sido falha, os obrigando a agir de forma incoerente com suas personalidades e bagagens, e a nós preencher as lacunas com a imaginação.

A exceção fica por conta de Bran, que teve a jornada inteira ligada ao Rei da Noite e foi jogado de paraquedas nas maquinações de Porto Real, mesmo depois de afirmar que não tem desejos e vive passado. Não é coerente, e não faz sentido nem para o personagem, nem para os demais que o escolheram.

Houveram acertos. Assim como na temporada anterior, estes episódios ecoaram e fizeram paralelos com situações, momentos e falas de diferentes épocas da série, e até dos livros. E momentos icônicos foram criados, como Brienne sendo sagrada cavaleira, a iluminação dos arakhs (as espadas dos dothraki) por Melisandre e a morte do Rei da Noite. 

Garrafas d'água e copos do Starbuks à parte, há também momentos de brilhantismo técnico, como as sequencias de chuva de zumbis em Winterfell, do caos em Porto Real, e montagem combinada do Clegane Bown e da sobrevivência de Arya. Mas vários destes perdem impacto graças à construção fraca.

Um discurso no último episódio chama atenção. Ao falar sobre a natureza da rainha Targaryen com Jon, o anão aponta algo que especulamos na última semana: enquanto ela matava inimigos com que concordávamos, não a achavamos louca. 

Game of Thrones é mais que sexo, violência, zumbis e dragões...

Apesar do que alguns possam pensar, Game of Thrones não é sobre violência, sexo, surpresas, dragões e zumbis de gelo. Essas coisas são incríveis e empolgantes, mas só tem grande impacto pela forma como são apresentadas. A morte de Ned é marcante pois somos levados a acreditar e torcer por sua salvação até o último segundo. Nos decepcionando por um breve momento, antes de perceber que a série já havia nos mostrado que acontecem coisas terríveis nesse mundo, e ninguém esta a salvo. Finalmente ficando satisfeitos pela coerência e coragem. Nesta colcha de retalhos das duas últimas temporadas, o roteiro pula de um grande evento para outro, sem a construção, as consequências e a pausa para nossa compreensão. Se tudo é épico, nada de fato se destaca.

Quanto a nós, não precisamos contratar homens sem rosto e mercenários para dar uma lição nos criadores. Duas temporadas ruins, não vão apagar os seis bons anos anteriores. Muito menos a experiência de acompanhar o programa por tanto tempo, especulando, criando teorias, revendo nossos conceitos e nos surpreendendo. Esta maneira de assistir séries, semanalmente e comentando com os amigos enquanto esperamos o próximo episódio, pode se extinguir em breve graças as maratonas do streaming. Se for o caso, fico feliz por participar de um dos últimos grande fenômenos do tipo. Se tudo isso ainda não for suficiente para te consolar, vale lembrar G.R.R.Martim ainda não terminou de contar a história do jeito dele.


David Benioff  e D. B. Weiss entregaram um final burocrático e corrido. Se a dupla ficou perdida quando os livros acabaram (sabiam os finais, mas não como chegar lá), ou se simplesmente perderam o interesse e queriam fazer coisas novas (já estão contratados para comandar a nova trilogia de Star Wars), é uma coisa a se discutir. É uma pena apenas, que tenham deixado passar a oportunidade de terminar este evento de uma geração de forma exemplar, como fãs e personagens mereciam.

Poderíamos ter nos despedido de Game of Thrones com pompa, circunstância e as bençãos dos deuses novos, antigos e do senhor da luz. Ao invés disso, fomos apenas expulsos de lá, sem muito tempo para uma última olhada.

A oitava e última temporada de Game of Thrones teve seis episódios, alguns com mais de uma hora de duração. Exibidos pela HBO desde 2011, os 73 episódios estão disponíveis na HBO Go.

Aqui no blog tem muitas curiosidades sobre a série, e textos sobre todas as temporadas confira:
7ª - Teletranspote e referências;
6ª - Adaptar é diferente de criar...;
5ª - Quem liga para os livros? Todos os homens devem morrer...
4ª - Valar Morghulis... Valar Dohaeris!
3ª - The North will Never Forget;
2ª - Valar Morghulis;
1ª - Conheça Game of Thrones

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