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sexta-feira, 31 de julho de 2020

Tales from the Loop

sexta-feira, julho 31, 2020 0
De Twin Peaks à Riverdale, cultura pop não faltam séries que abordam acontecimentos estranhos em cidadezinhas, nos mais diversos estilos e com diferentes explicações (ou mesmo a ausência delas) para tais fenômenos. Tales from the Loop da Amazon Prime Video, tenta construir sua própria identidade na premissa.


A cidadezinha estadunidense de Mercer abriga em seu subsolo, um artefato ou fenômeno misterioso conhecido por Loop, e claros uma instalação dedicada à estudá-lo. Graças à eles, seus moradores vivenciam experiências inexplicáveis e com consequências curiosas e quase sempre infelizes.

A imprevisibilidade da série começa pelo roteiro que fica no meio do caminho entre uma série de antologias, e a tradicional história desenvolvida ao longo da temporada. Os episódios trazem histórias isoladas, que se resolvem em seus próprios capítulos, como em uma antologia. Por outro lado, o fato de se passarem uma cidade pequena, e estarem relacionadas ao mesmo fenômeno, faz com que as tramas se conectem, compartilhem personagens, e influenciem umas as outras. Infelizmente, essa interessante conexão não parece ter função alguma ao longo da primeira temporada, fazendo com que a jornada soe sem propósito. Problema que pode ser contornado caso mais temporadas sejam produzidas.


Outro fator criado para gerar estranheza, é o tom mais lento e contemplativo da narrativa. Bem diferente do frenesi das séries atuais, a calmaria faz evidencia tanto à época em que se passa, quanto ao lugar incomum em que se passa. Mercer pode até ser uma cidadezinha aparentemente comum do interior dos EUA, mas vida é diferente, o ritmo é outro.

E já falamos da época em que se passa a história, trata-se de uma segunda metade do século XX, entre os anos de 1960 e 1980, cheia de anacronismos e tecnologias impossíveis. É na criação desde universo futurista retrô, que a série se sai melhor. As máquinas inexplicáveis, e que ainda não existem, parecem artefatos criados com a tecnologia dos anos 60, 70 e 80. Além de aparentarem realismo, mesmo quando feitas completamente em computação gráfica. O acerto não é surpresa, a série foi inspirada nos trabalhos do artista sueco Simon Stålenhag, especializado em paisagens retro-futuristas em ambientes nostálgicos e rurais.

Jonathan Pryce, Rebecca Hall e Paul Schneider são os nomes mais conhecidos, de um elenco que atende bem ao que a história pede, mas não traz grandes destaques. Embora os finais trágicos trouxessem possibilidade para tal, aqui os problemas irremediáveis são tratados como desfechos agridoces. Fazendo com que questionemos a apatia com que são encarados pela população. É sério que tanta coisa acontece nessa cidade e ninguém faz nada? Novamente, talvez temporadas futuras explorem isso.

Contemplativa, e cheia de boa ficção-cientifica,  desfechos devastadores, Tales from the Loop, poderia ser um fenômeno como Black Mirror. Mas acaba se tornando um programa que pede por mais episódios, ao explorar pouco as origens e consequências dos fenômenos incomuns. Não que a série precise explicar tudo, os questionamentos fazem parte da experiência. Entretanto, o programa deve ao menos construir uma sensação de propósito para seus incomuns contos do Loop.

Tales from the Loop  tem oito episódios com cerca de uma hora cada, todos disponíveis na Amazon Prime Video
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terça-feira, 28 de julho de 2020

Informações úteis para sua maratona de The Umbrella Academy

terça-feira, julho 28, 2020 0
A segunda temporada de The Umbrella Academy está prestes a estrear na Netflix. Se você ainda não viu, ainda da tempo de maratonar. Para quem viu, uma revisão sempre é bem vinda. Este texto atende a necessidade de ambos os casos, com uma lista de informações que vão aprimorar sua experiência com a série.

Em um dia qualquer, sem nenhuma relação aparente, 43 crianças extraordinárias nasceram ao redor do mundo. Todas de mulheres que não estavam grávidas horas antes. O cientista milionário Sir Reginald Hargreeves (Colm Feore) vê potencial nestes nascimentos incomuns e resolve adotar quantas destas crianças conseguir. Os sete bebês adquiridos por eles serão treinados para um dia salvar o mundo como a força-tarefa The Umbrella Academy.

Informações úteis para sua maratona de The Umbrella Academy


1 - A série The Umbrella Academy é baseada nos quadrinhos homônimos criados Gerard Way (sim, oex-vocalista da banda My Chemical Romance). As ilustrações são do brasileiro Gabriel Bá. A dupla esteve no Brasil falando sobre seu trabalho em 2016, durante a CCXP (confira aqui como foi!), e está envolvida com a produção da série.

2 - Gerard Way gravou dois covers que aparecem no porgrama "Happy Together" e "Hazy Shade of Winter".

3 - Além de habilidades especiais, a premissa da série também traz viagens no tempo, robôs, macacos falantes e criaturas sobrenaturais. Tenha a mente aberta!

4 - O Sr. Hargreeves numerou os membro de sua academia de superdotados, mas é claro que eles também tem nomes normais, e alcunhas de heróis. Estas últimas mais usadas nos quadrinhos. Que tal uma listinha para ajudar a decorar quem é quem?

  • Número 1 - Luther (Tom Hopper) - Spaceboy
  • Numero 2 - Diego (David Castañeda) - Kraken
  • Número 3 - Alison (Emmy Raver-Lampman) - Rumor
  • Número 4 - Klaus (Robert Sheehan) - Séanance
  • Número 5 - é o único que não teve seu nome revelado (Aidan Gallagher) - The Boy
  • Número 6 - Ben (Justin H. Min) - Horror
  • Número 7 - Vanya (Ellen Page) Violino Branco

5 - O Sr. Hargreeves também tem seu codinome, O Monóculo.

6 - Nos quadrinhos, os membros da academia são em geral brancos. Na série as crianças ganharam diferentes etnias, o que é muito mais coerente com o fato das crianças virem de diferentes partes do mundo.

7 - É possível que você fique em dúvida de quando a série se passa. Apesar da maioria dos carros serem das décadas de 1990 e anteriores, e não haverem celulares em cena, a primeira temporada se passa em 2019. A tecnologia "defasada" em comparação com a realidade é proposital e cria uma atmosfera própria para a série.

8 - E já que estamos falando de datas e tempo, Cinco desaparece em 10 de Novembro 2002. A data do apocalipse é 1º de abril de 2019. (sim, no Dia da Mentira, será que significa algo?).

9 - A Mansão Umbrella, parece unir construções distintas através de buracos mal feitos nas pareces que os conectam, oferecendo ambientes completamente diferentes. Desde uma área comum com um grande saguão que lembra um imaculado museu, até o "puxadinho" mal decorado onde ficam seus quartos, a mansão parece uma combinação mal planejada de coisas completamente diferentes. Exatamente como como seus moradores.


10 - A resenha no verso do livro de Vanya foi escrita por Gerard Way.

11 - O medley de O Fantasma da Ópera que Vanya toca no primeiro episódio, é um arranjo criado pela violinista Lindsey Sterling. Já conhece o canal dela no YouTube? Tem várias versões no violino de trilhas de filmes, séries e games.



12 - Número Cinco, é um homem de 58 anos preso em um corpo de 13. Quem não queria ter essa sabedoria e ainda ser fisicamente jovem?

13 - Heather Sanderson interpreta quatro personagens diferentes em quatro episódios diferentes. Procure por ela!

14 - Preste atenção às musicas e figurinos, elas ajudam a contar a história, e  pontuam os arcos dos personagens.

15 - O logo da série aparece de uma forma diferente em cada episódio, assim como uma sombrinha.

16 - A primeira temporada termina com um irritante cliffhanger!

Felizmente, a segunda temporada estreia dia 31 de Julho de 2020. As duas temporadas tem 10 episódios cada. 

Aqui no blog tem crítica do primeiro ano da série, e do primeiro volume da HQ,  The Umbrella Academy: Suíte do Apocalipse.

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sexta-feira, 24 de julho de 2020

Warrior Nun - 1ª temporada

sexta-feira, julho 24, 2020 0
A primeira vista, a proposta de Warrior Nun soa bastante absurda e exagerada. O que de fato a série é! Entretanto, a produção da Netflix parece ter consciência de sua proposta, abraça sua proposta duvidosa, tira o melhor proveito dela, e não tem medo de rir de si mesma. O resultado, é uma produção juvenil divertida e com mitologia própria.

Recém falecida, a órfã tetraplégica Ava (Alba Baptista) acorda em um necrotério, com total controle do seu corpo. Sua ressurreição se deve à um artefato mágico escondido em suas costas, que também lhe concede poderes sobrenaturais e sobre-humanos. Trata-se da mais poderosa arma de um grupo de freiras que secretamente combatem demônios há séculos. Enquanto a igreja tem urgência em recuperar o artefato, a jovem deseja apenas experimentar a vida pela primeira vez.

É isso mesmo que você leu, freiras que combatem demônios, trajando "hábitos táticos" e empunhando armas, e na maioria adolescentes, ou jovens adultas. Esta última parte pode soar irrealista, mas é coerente com a ideia de que a vida de uma guerreira desta ordem é curta, e poucas chegam à maturidade, além de dar o tom da produção. É uma aventura juvenil, com ares de Buffy, a Caça-Vampiros, ou Supernatural nas temporadas mais recentes e piadistas.


É por causa dessa natureza adolescente, que a série demora um pouco a engrenar. Enquanto já estamos interessados no "Halo" (o tal artefato), e toda a história por trás da ordem, Ava ainda quer ser uma adolescente comum. Assim, a primeira metade da série soa mais arrastada do que deveria para quem não está tão interessado assim em intrigas juvenis. O que é agravado por uma narração intrusiva e redundante da própria protagonista.

Entretanto, quando a protagonista finalmente aceita o chamado para a aventura, a série deslancha. A narração é deixada de lado, a série fica focada, desenvolve sua mitologia, intrigas e apresenta as habilidades de suas guerreiras. E sim, elas tem muitas, as cenas de luta são bem coreografadas e divertidas. Os efeitos especiais não são os melhores, mas combinam com o tom absurdo e atendem ao que a trama exige.

Em um arco secundário, Shotgun Mary (Toya Turner) investiga a conspiração que causou a morte da portadora do halo anterior. E uma curiosa subtrama que contrapõe ciência e magia. Eventualmente, estas jornadas se encontram e completam no ápice da aventura.

Os diálogos são exageradamente didáticos, mesmo para quem não está habituado com mitologia de anjos e demônios. Mas o carisma de seu elenco jovem compensa a verborragia. Alba Baptista segura bem o protagonismo, mesmo no início quando a personagem age de forma mais egoísta. Toya Turner consegue imprimir toda a determinação de sua freira renegada. Enquanto o restante do elenco jovem, consegue marcar bem as as características bem definidas de suas personagens. É fácil diferenciar e compreender as motivações de cada uma, mesmo que todo mundo fique meio parecido em seus hábitos pretos.

Entre o elenco experiente, o destaque fica com Joaquim de Almeida. O ator português que volta e meia faz trabalhos aqui no Brasil, encarna perfeitamente aquela imagem de autoridade corrompida, que existe e assombra a igreja católica há séculos. 

E por falar na igreja, a série tanto critica seu sistema hierárquico, que abriga indivíduos com intenções escusas, quando elogia a entrega e determinação dos bem intencionados. As críticas são sutis, afinal é uma série juvenil, e não chegam perto da comoção que a HQ em que foi inspirada. Warrior Nun Areala de criada por Ben Dunn, foi lançada em 1994, sua trama serve de inspiração para a série, embora a personagem principal seja outra.

O figurino das freiras é estiloso e irreal, no bom sentido. Enquanto as locações na Espanha surpreendem com cenários antigos e belos. A sensação de se estar acompanhando uma história dentro da igreja católica, é em grande parte mérito dos prédios históricos e imponentes que abrigam a produção.

Warrior Nun começa devagar, mas quando deslancha, diverte e surpreende. Sim, existem algumas reviravoltas guardadas. A satisfação pós-maratona, seria de 100%, não fosse o obrigatório final em aberto para criação de uma franquia, e o temor da não renovação que vem com ele (ainda não foi confirmada uma segunda temporada). Uma pena apenas que a Netflix deixou passar a oportunidade de o título, afinal o sonoro "Freira Guerreira", completaria o pacote acertado e propositalmente absurdo da série.

A primeira temporada de Freira Guerreira tem 10 episódios com cerca de uma hora cada, todos já disponíveis na Netflix.

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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Cursed: A Lenda do Lago - 1ª temporada

quarta-feira, julho 22, 2020 0
Historiadores apontam, existem mais dúvidas que certezas quando se fala de lendas arturianas. Com diversas versões construídas ao longo de séculos, e muito presente no imaginário popular, parece que sempre há uma nova adaptação da história chegando às telas. Escolhendo detalhes da lena, de acordo com o público que pretende atingir, temas que quer discutir ou mensagens que deseja passar. A série Cursed: A Lenda do Lago, da Netflix, é a mais recente delas.

Nimue (Katherine Langford de 13 Reasons Why) é uma jovem feérica que é hostilizada em sua vila, por ter poderes incontroláveis. Sua vida toma novos rumos, quando seu povo é atacado, e ela recebe a missão de levar uma espada para Merlin (Gustaf Skarsgård). Fugindo da igreja católica que persegue e elimina feéricos e dos reis que reivindicam a relíquia em forma de arma.

Não trata-se apenas de uma história “pré-Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda”. É uma nova possibilidade para os acontecimentos que criaram o mito do Rei Arthur, com universo rico e mitologia própria. Uma disputa de poder entre reis e a igreja, e o extermínio de um povo.

Baseado no livro Cursed – A lenda do lago de Thomas Wheeler com ilustrações de Frank Miller´, é na rica reinvenção do universo que a série tem seus maiores méritos. Puristas das lendas arturianas, no entanto, podem se incomodar com as liberdades que vão além das escolhas narrativas, atingindo design de produção e elenco.

Assim, temos um Arthur mercenário e negro (Devon Terrell,carismático e eficiente), apontando diversidade de elenco coerente com o discurso sobre tolerância e diversidade da história. O povo feérico não é apenas diferente dos humanos, mas tem características distintas de acordo com seu clã de origem. Diferenças que aumentam ainda mais a intolerância e violência contra eles.

Katherine Langford tem presença e carisma, e sustenta bem o protagonismo, apesar das mudanças bruscas nas escolhas da personagem, especialmente nos últimos episódios. Particularmente, eu gostaria de ver um trabalho corporal mais esforçado nos momentos “cotidianos”. Fora de grandes momentos épicos, propositalmente “posados”, os trejeitos e postura da moça me lembram constantemente que ela é uma jovem do século XXI em roupas de época. Outro destaque do elenco é Gustaf Skarsgård, que consegue imprimir tormenta e bagagem, em seu Merlim de aparência jovem, desprovido de magia e desgostoso da vida.

Seguindo a jornada do herói à risca, a série espalha referências e personagens clássicos das histórias de Artur, por vezes os reinventando e resinificando. É aqui que estão as surpresas, enquanto a heroína segue um caminho bastante conhecido em narrativas de fantasia, com desfecho coerente, porém não definitivo. Afinal, tem que haver possibilidade de sequência.

Merlim e Arthur também tem seus arcos bem claros. Enquanto outros personagens como Morgana, Iris e o Monge Lacrimoso (Shalom Brune-Franklin, Emily Coates e Daniel Sharman, respectivamente), por vezes parecem apenas estar por ali, esperando seu momento de agir. Que no caso destes três, são ações resolvidas às pressas nos episódios finais.

Sequencias de luta e efeitos especiais não trazem grandes surpresas. Seguem o padrão de qualidade Netflix e atendem à trama. Belas locações ajudam o design de produção à imaginar os cenários místicos que dão o tom de fantasia. Assim como a maquiagem, que criam diferentes espécies com eficiência. O figurino se saia relativamente bem, até resolver caracterizar duas personagens da mesma forma, nos confundindo e criando um estranho efeito de espelho quando estas se encontram em batalha.

Nas encarnações mais recentes dos mitos arturianos nas telas, fraco Rei Arthur – A Lenda da Espada, pretendia atingir um público que buscava aventura e ação. O divertido O Menino que Queria ser Rei, busca apresentar e envolver novas gerações. Cursed: A Lenda do Lago escolhe colocar os holofotes sob uma personagem pouco explorada, e consequentemente cheia de possibilidades. Empoderando personagens femininas, e libertando todos de estereótipos. A jornada não é original, mas a construção de mundo é criativa, e o resultado bastante divertido. É fantasia para quem gosta de explorar todas as possibilidades, e não se apega ao passado.

A primeira temporada de Cursed: A Lenda do Lago tem dez episódios com cerca de uma hora cada, todos já disponíveis na Netflix.

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sexta-feira, 17 de julho de 2020

Expresso do Amanhã - 1ª temporada

sexta-feira, julho 17, 2020 0
Pouca gente prestou atenção quando a primeira adaptação audio-visual da HQ francesa Le Transperceneige chegou às telas. O filme Expresso do Amanhã, tinha produção caprichada e a direção de Bong Joon-ho pré Parasita. Agora, em formato de série, a história chega em um cenário bem diferente.

O argumento é o mesmo do filme, em nossa tentativa de reverter o aquecimento global, condenamos a Terra à uma era do gelo. Os únicos sobreviventes do planeta habitam o Snowpiercer, uma locomotiva auto-sustentável criada pelas indústrias Willford. Dividida em classes, com uma primeira classe regada de luxos, segunda e terceira classes trabalhadoras, e os clandestinos do fundos, relegados à uma vida a margem desta sociedade.

Qualquer semelhança a nossa sociedade, não é mera coincidência, desde sua origem nas páginas Expresso do Amanhã é sim uma crítica ao sistema de classes. Mas a série chega em um momento em que a desigualdade está agravada por uma pandemia, um evento que assim como o gelo eterno da ficção tem potencial para extinção em massa, e logo após o sucesso de Parasita. Bong Joon-ho, está novamente envolvido com a adaptação, chamando atenção que esta obra sempre mereceu.

Apesar do argumento e crítica semelhantes, a série da TNT, distribuída mundialmente pela Netflix, segue rumo próprio, com personagens e situações distintas. Apesar de os fundistas estarem sempre planejando uma revolução, é um assassinato que move a trama. O crime faz com que o fundista ex-policial Andre Layton (Daveed Diggs) seja recrutado pelos Sr. Willford. É o acesso dele às castas mais abastadas, que abala o sistema e dá oportunidade para o conflito entre castas evoluir. Falar mais que isso, estragaria a experiência.

Ao longo de dez episódios esta primeira temporada, aponta as discrepâncias gritantes entre o luxo dos habitantes da primeira classe, e a miséria dos fundistas. E todo o contexto por trás disso, o sentimento de superioridade dos abastados, o desespero dos miseráveis, e o esforço de quem vive entre estas lasses. Apresenta o trem como um sistema complexo, que depende de muitas engrenagens distintas para funcionar. Basta uma informação mal administrada para tudo colapsar. É claro, isso vai acontecer, de forma gradual e constante, com uma tensão crescente que explode nos episódios finais.

E por falar em administração, vale observar a adoração à figura do Sr. Willford, o grande salvador da humanidade. Adorados por aqueles que beneficia, odiado por quem explora, é tido quase como uma divindade, um mito, usado para controlar as massas de uma forma ou de outra.

Iniciando todo episódio com a narração de um personagem que situa o tom e foco da trama, o roteiro não perde tempo para explicar como tudo funciona ao longo dos 1001 vagões de comprimento. As informações são dadas organicamente, ao longo da trama. Uma passagem por vagões de agricultura nos informa como são produzido alimentos, um mapa em uma parede mostra a rota da locomotiva, um defeito explica como determinado sistema funciona, e por aí vai. É convidando a audiência à vivenciar o cotidiano do trem, que o roteiro aos poucos explica seu funcionamento. 

A direção de arte acerta ao criar ambientes claustrofóbicos necessários para reforçar o óbvio: estão todos presos no mesmo barco trem, seja nas grandes cabines da primeira classe, ou no amontoado de camas improvisadas no fundo. A convivência entre classes não é apenas constante, é inevitável. Isso, sem nunca deixar de apontar bem as discrepância de recursos entre eles.

A iluminação é um exemplo evidentes disso. Os vagões do fundo não tem janelas, e pouquíssima iluminação artificial. Conforme evoluímos para os vagões iniciais, a luz aumenta, passando pelos neons do vagão leito, até as iluminadas cabines da primeira classe. Chegando e finalmente à locomotiva, não apenas clara e iluminada, mas o único ponto onde é possível ver à frente.

Já as sequencias externas, que mostram o trem circulando, nem sempre escapam da artificialidade da computação gráfica. O trem é de CGI, obviamente, e muitas vezes isso é evidente. Nada, no entanto, que atrapalhe a narrativa, afinal a ação está no interior do veículo. 

Daveed Diggs traz o carisma e presença ao forte, porém não desprovido de dúvidas, líder de revolução. Enquanto Jennifer Connelly consegue nos fazer torcer pela austera e aparentemente infalível administradora do trem, Melanie Cavill, mostrando que há mais na personagem que apenas eficiência e devoção à manutenção do trem. O elenco secundário mantém o alto nível, com destaque para personagens que de fato tiveram maior desenvolvimento, como a operadora Till (Mickey Sumner), a funcionária da secretaria Ruth (Alison Wright) e a patricinha da primeira classe LJ (Annalise Basso).

Expresso do Amanhã traz uma nova chance de uma excelente premissa chegar ao grande público, com mais tempo para explorar suas possibilidades. Uma ficção-científica, que recria a sociedade em escala, agravando seus dilemas colocando uma lupa sobre seus problemas. Pode não parecer uma grande inovação temática, mas as maneiras de explorar esta premissa são inesgotáveis, com discussões que tanto refletem o momento atual, como apontam problemas recorrentes da humanidade. Além disso é uma série bem produzida e absurdamente empolgante. E chega em um momento que precisamos mais do que nunca, reavivar estas discussões.

A primeira temporada de Expresso do Amanhã tem  10 episódios com cerca de uma hora cada, todos disponíveis na Netflix. A segunda temporada já foi confirmada e deve chegar em 2021.

Leia também a crítica do filme Expresso do Amanhã
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terça-feira, 14 de julho de 2020

O que faz do Studio Ghibli tão especial?

terça-feira, julho 14, 2020 0
Escrito por: José Renato
Site: Pllano Geral
Página no Facebook: Pllano Geral

Há alguns meses atrás a Netflix finalmente conseguiu disponibilizar a maioria dos filmes do Studio Ghibli em seu catálogo, e em poucos dias, obras como A Viagem de Chihiro e Meu Amigo Tororo ficaram um bom período entre os mais assistidos, feito que deram mais fama a esse estúdio que já é considerado único.
Meu Amigo Totoro - 1988
O Studio Ghibli Inc. é um estúdio de animações japonesas com sede em Tóquio, mais precisamente em Koganei. Foi fundado em 1985 pelos incríveis Hayao Miyazaki, Isao Takahata, Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma. Dentre seus diversos prêmios, A Viagem de Chihiro foi ganhador do Oscar de Melhor Animação em 2003, sendo o único filme de língua não-inglesa a ganhar o prêmio até agora.

Mas afinal, o que faz do Studio Ghibli tão especial?

Para começar, todos os personagens protagonistas de suas histórias são completamente inundados de carisma, uma habilidade tão especial, que faz com queiramos acompanhar a aventura daquela pessoa pelo simples fato de gostarmos dela logo de cara, isso faz com que a animação seja agradável de ser assistida do início ao fim, deixando a gente com o gostinho de quero mais. Personagens como Satsuki de Meu Amigo Tororo e Chihiro são encantadoras, e é muito fácil ser envolvido por personagens assim. Suas simplicidades de lidar com os percalços da vida, gera empatia e nos deixa à flor da pele.

Já em O Serviço de Entregas da KiKi, é fantástico como animação aborda a puberdade da personagem, uma sutil mais notável mudança de humor tão bem trabalhada que é inegável o quão real é aquele tipo de comportamento. A mesma forma de lidar esse período das moças é mostrado em O Conto da Princesa Kaguya (considerando os diferentes contextos obviamente), uma forma tão especial que faz com tais filmes sejam os favoritos de muitas meninas, pois estamos falando novamente de empatia, de reconhecimento de nossas próprias vidas.

O Serviço de Entregas da Kiki - 1989
Além de tal aspecto, algo que o estúdio aborda de forma sempre especial, são as nuances da magia. Se você assistir obras como A Viagem de Chihiro, Princesa Mononoke e Meu Amigo Tororo, três das mais famosas obras do Ghibli, você verá que algo é muito comum entre eles, a MÁGICA. Através de aspectos fantásticos, o mestre Hayao Miyazaki consegue correlacionar a fantasia, que muitas vezes envolve o folclore japonês, à situações cotidianas, fazendo com que aquelas situações incríveis pareçam comuns, simples, palpáveis, e isso também nos encanta, nos envolvendo de uma forma gradual através de todos aqueles universos. A mágica em questão é uma ferramenta que agrega também a sensibilidade, humanizando, por exemplo, a natureza e os animais.

Não posso esquecer é claro, que o estúdio foi capaz também de demonstrar um período de guerra de forma tão assustadora e sensível, que faz cair lágrimas na maioria daqueles que o assistem. O filme em questão se chama O Túmulo de Vagalumes, considerado por muitos o melhor longa do gênero. A sensibilidade com que é tratada as relações de irmãos, e o aspecto das dificuldades de alguém sem recursos, nos joga novamente no túnel da empatia, nós sofremos juntos, torcemos juntos e choramos juntos naquela que é sem dúvidas a história mais triste e mais realista da equipe.

Apesar de seus filmes mais clássicos parecem ser antigos demais, não se engane, pois suas discussões são sempre muito atuais, e é possível tirar boas reflexões a cada filme que é assistido. A empatia, como já citado, é um dos aspectos que mais nos envolve com todos esses longas, porém, também preciso citar aspectos técnicos, como a qualidade da animação, que deixa tudo mais incrível.

Sim, o Studio Ghibli é tudo aquilo de bom que você já conhece.

Leia os outros textos desta parceria com o Pllano Geral

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