quarta-feira, 22 de maio de 2019

Aladdin

A fase de remakes live-action da Disney, tem trazido filmes que se dividem em três vertentes distintas. Há aqueles que criam histórias e mitologias completamente novas, como Alice no País das Maravilhas e Malévola. Os que trazem uma atualização necessária à clássicos de outros tempos como Dumbo e Mogli. E aqueles que apenas recriam uma obra que ainda funciona muito bem para o público atual, como A Bela e a Fera, e por isso podem ter sua existência questionada. Aladdin se encaixa neste último grupo, mas sua execução vibrante e carismática tem potencial para afastar as dúvidas quanto a necessidade de sua existência da mente da maioria das pessoas.

A trama é exatamente a mesma da animação de 1992. Aladdin (Mena Massoud) e um jovem de bom coração que vive de pequenos roubos nas ruas de Agrabah. Jasmine (Naomi Scott) é uma princesa obrigada por lei a se casar, que foge para ver o mundo. A dupla se esbarra e se apaixona, mas logo o jovem é sequestrado por Jafar (Marwan Kenzari). O grão-vizir do sultanato pretende usar o rapaz para recuperar uma lâmpada mágica, lar de um Gênio (Will Smith) que garante três desejos ao dono do artefato.

É Jasmine quem tem seu arco aprimorado pela adaptação, embora a original já fosse uma das princesas Disney mais cheias de atitude. Enquanto na animação a moça se recusa a se casar por obrigação, a personagem de Naomi Scott quer governar seu povo, ao invés de entregar a responsabilidade a um estrangeiro qualquer que a tomaria por esposa. A bem vinda atualização torna a moça um exemplo melhor para seu público mirim, ao invés de distrair Jaffar seduzindo-o (sim, na animação ela seduz o vilão!) ela o enfrenta com autoridade e conhecimento. A mudança também oferece à sua interprete a música original da produção, e chance de brilhar em sua interpretação, um solo com intensidade de tirar o fôlego e direção impecável.

Mena Massoud não se destaca tanto, mas oferece o que o protagonista necessita para carregar a história, além de acertar nas sequencias de canto e dança. O mesmo não pode ser dito de Marwan Kenzari, cujo Jaffar carece de personalidade em meio à bons personagens. O vilão fica muito aquém da sua personificação animada, mas não chega a comprometer o andamento da produção. Já, Nasim Pedrad é a grande surpresa, interpretando uma personagem complemente nova, a comediante mantém o nível de atuação à altura de Will Smith.

E por falar nele, hora de tirar o elefante azul da sala, o desafio de estar à altura do Gênio criado por Robin Williams. O acerto começa pela escalação, Smith se compara à Williams em personalidade e carisma. E na criação de uma persona que funciona melhor para seu novo intérprete, sem deixar de lado o espírito do personagem e até algumas de suas características marcantes. Ainda abusado, piadista, acelerado e boa praça, este novo Gênio soa como uma versão super-poderosa do Fresh Prince of Bell Air (ou Um Maluco no Pedaço, para quem acompanhava no SBT). Se não supera o original, o reverencia enquanto traz algo novo, atendendo à narrativa e satisfazendo o público.

De volta a narrativa, para preencher a duração mais longa e dar estofo aos personagens de carne e osso, o roteiro gasta mais tempo trabalhando as relações entre os personagens. Desde o romance entre Aladdin e Jasmine, passando pela amizade da moça com a criada Dalia e o impasse com seu pai, até a construção da amizade entre o jovem e o Gênio à partir da dinâmica de mestre e criado. Há também mais sequências de ação, e vôos de tapete.

Iago, Abu, Rajah e o Tapete Mágico, criados inteiramente em computação gráfica, funcionam bem com elenco de carne e osso. Abu e o tapete, são bastante expressivos sem soar artificiais por isso. Enquanto o papagaio do vilão ficou menos eloquente, mas ainda fala bastante, de uma forma similar as aves do mundo real, mas com um vocabulário mais extenso e a voz de Alan Tudyk.

A maioria das canções está de volta com roupagem nova, e boas interpretações do elenco. Particularmente, senti falta de energia na sequencia de Prince Ali, mas não sei se seria humanamente possível emular o frenesi da animação. É também na parte musical que os fãs mais nostálgicos vão reparar maiores alterações, seja para encaixar no novo formato, ou para torná-las mais adequadas para o público infantil. Algumas mudanças, inclusive, já estavam presentes em relançamentos em DVD da animação. Como quem cresceu com as "violenta versão original" (onde Jasmine quase perde a mão como punição por roubo), e não cresceu traumatizada por isso, não acho que precisemos amenizar tanto o tom. O que acabou tornando o casal principal um pouco menos ousado, e mais "bons moços", por assim dizer. Mas novamente, as mudanças não comprometem a produção. São apenas reflexos de seu tempo.

Já a direção de arte e figurino cria uma Agrabah colorida, rica (em elementos culturais, e em ouro mesmo) e cheia de vida. Os tons fortes e misturas de cores dos figurinos lembram produções de Bollywood, ajudam a dar vida às sequências musicais e mais personalidade as figuras em cena. Os figurinos do Gênio, por exemplo fazem alusão à versão do personagem na Broadway. Para quem gosta de referências, não faltam homenagens também à animação, como a maquete da cidade no escritório do Sultão e trechos que recriam cenas do original.

Da atual e grande leva de recriações da Disney, esta é provavelmente a mais acertada. Guy Ritchie conseguiu entregar uma produção com personalidade própria, sem se afastar do material original. É vibrante, divertido e visualmente deslumbrante. Aladdin é um jovem clássico que não ainda não precisava de uma nova versão. Mas, já que esta foi produzida, fico feliz em dizer que o saldo é positivo!

Aladdin
2019 - EUA - 129min
Aventura, Fantasia, Musical

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terça-feira, 21 de maio de 2019

Tolkien

Mesmo quando escrevemos ficção sobre personagens mágicos em reinos distantes, nossas histórias contam muito mais sobre nós mesmos do que pretendemos revelar. Tolkien, biografia do autor de O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion retrata exatamente isso.

Retratando a juventude do autor, o filme apresenta todos os elementos que transformaram o órfão John Ronald (Harry Gilby/Nicholas Hoult) no J.R.R.Tolkien que criou os mundos que amamos. Desde a perda da mãe, passando pela T.C.B.S. (Tea Club, Barrowian Society), pelo romance impossível com Edith (Mimi Keene/Lily Collins), e pela guerra. Todos elementos formadores de sua personalidade e obra.

À começar pelo evento mais evocativo as batalhas épicas de suas aventuras, a "guerra para acabar com todas as guerras". A 1º Guerra Mundial é o ponto de partida da produção, e também de maior virada na vida do autor. A narrativa alterna entre seus instantes mais críticos no conflito, e a formação do protagonista desde a infância. Em ambas as linhas temporais, os mais atentos encontrarão, nomes, elementos, eventos e conceitos que inspiraram o vasto mundo literário de Tolkien. Alguns em sequências que poderiam ter saído das trilogias de Peter Jackson, outros apresentados de forma mais sutil.

O formato, com duas linhas do tempo alternadas, não é revolucionário, mas é eficiente. O vai-e-vem ente a tensão das trincheiras e dos momentos menos explosivos de sua infância se equilibram. Além de permitir que um tempo maior seja gasto em sua formação. O que não significa que a infância de Tolkien tenha sido calma ou simples.

Hoult e Gilby, que vive a versão mais jovem do protagonista, são eficientes em apresentar sua personalidade contida, sem que este se desanimado ou apático. Este Tolkien tem atitudes ponderadas, tanto pela condição precária em que vive, quanto pela genialidade que o destaca dos demais. Mas consegue demonstrar entusiasmo, empatia, paixão e até um certo nível de obsessão por trás de seu comportamento mais "recatado". É claro, o destaque aqui é de Hoult, que encena a maioria dos momentos decisivos e complexos, com bastante verdade em suas escolhas.

Também são coerentes e bastante fluidas, a passagem de tempo que transformam o elenco mirim em jovens adultos. O elenco apresenta um trabalho acertado entre as duas versões de cada personagem, especialmente os membros da T.C.B.S.. O grupo de quatro amigos formado por Tolkien, Christopher Wiseman (Ty Tennant/Tom Glynn-Carney), Robert Gilson (Albie Marber/Patrick Gibson) e Geoffrey Smith (Adam Bregman/Anthony Boyle), onde os jovens começaram a  nutrir e encorajar os trabalhos e ambições uns dos outros.


Há ainda tempo para mostrar um pouco da sociedade britânica da época, já que suas obras também são um reflexo de seu tempo. Mostrando a forma como a sociedade lidava com alguns órfãos, o sistema educacional e de classes em que estavam inseridos. A reconstrução de época bem executada ajuda na criação desta Inglaterra nas primeiras décadas do século XX.

Menos fantasiosa que o mundo que ele criou, a vida de John Ronald Reuel Tolkien não foi pacata ou desprovida de desafios. Essa bagagem é o que fornece os dilemas com os quais facilmente nos relacionamos nas aventuras de Bilbo e companhia. Longe de insinuar que a criação da Terra Média fora um efeito colateral de suas experiências, ou um brilhantismo de momento, Tolkien deixa claro que uma obra tão rica, só poderia ter uma origem igualmente complexa.

Tolkien
2019 - Reino Unido - 112min
Biografia, Drama

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segunda-feira, 20 de maio de 2019

Um adeus pouco satisfatório

Eu já havia apontado lá na sexta temporada que adaptar é bem diferente de criar.... Criar com pressa é ainda pior. Não que os criadores de Game of Thrones não tenham tido tempo de planejar seus episódios finais, a pressa aqui era para encerrar logo a história.

Não faltava muito para resolver em Westeros (não vemos Essos desde a sexta temporada), se comparado ao enorme número de personagens e tramas que a produção cobria em seus primeiros anos. A batalha contra o Rei da Noite, a disputa pelo Trono de Ferro e o desfecho dos personagens restantes eram as tramas a serem apresentadas nestes seis episódios..

Geralmente reclamamos que as séries são longas demais, e fazem uso de muitos fillers (aqueles episódios que apenas enchem a temporada, sem contribuir com a trama principal). Game of Thrones tem um raro caso inverso, precisava de mais temporadas. Mais tempo para construir os eventos, e dar peso as suas consequências.

Episódios em detalhes

Os dois episódios iniciais, são os únicos realmente criados para construir algo. No caso a tensão para a grande batalha contra os White Walkers. Reunir o elenco, resolver suas rusgas, mesmo que de forma corrida e posicionar todos para o confronto, a preparação funciona, já a guerra poderia ser melhor.


A Longa Noite foi conseguiu deixar todos aflitos por seus personagens queridos e surpreender por resolver em uma tacada só o maior enredo da série, e não explicar absolutamente nada das intenções do vilão (provavelmente poupadas para serem mostradas em um dos spin-offs da série). Mas o falho plano de batalha desafiou a suspensão de descrença dos mais exigentes. Enquanto a fotografia escura impediu que víssemos grande parte do que se passava em tela. As alegações posteriores do diretor de fotografia, que culpou os espectadores por "assistir da forma errada", também não agradaram. Sabemos que você pensou em criar algo com "qualidade de cinema" e esqueceu que o pessoal assistiria em TVs, PCs e celulares. Custava admitir o erro?

Mas, até então a série dividiu opiniões, mas não enfureceu ninguém. Foi a reta final que manchou permanentemente o currículo do programa. The Last of the Starks se divide entre as consequências da batalha e a preparação para enfrentar Cersei. É nesta segunda metade, que soluções mal feitas e atalhos tornam gritantes as falhas de roteiro. O exemplo mais emblemático é morte de Reaghal, e a incapacidade de Daennerys de eliminar a frota de Euron.

The Bells apenas reforça as falhas anteriores ao mostrar a mãe dos dragões resolvendo apenas com um dragão o que ela não conseguira solucionar com dois. Os atalhos e escolhas preguiçosas continuam. A desistência repentina da Arya de riscar o último nome de sua lista, apenas para situar a garota como ponto de vista em uma área da cidade que eles desejavam mostrar, mas não tinham personagem para torná-la impactante. O herói construído ao longo de sete anos, Jon mal reage ao que está a sua volta. Enquanto o desenvolvimento da loucura de Daenerys, que vinha acontecendo lentamente há tempos, é acelerado e mal apresentado. O penúltimo episódio, tradicionalmente o mais impactante da série, tornou-se mais frustante e confuso do que marcante.

Diante da bagunça do capítulo anterior, até que The Iron Throne não foi tão decepcionante, mas também não foi conclusivo. Foi coerente com o que estava em jogo, mas faltaram aprofundamentos e explicações, como as motivações de Drogon para poupar Jon e onde estavam aqueles lordes até então (apresentar alguns deles também seria bom). Como Sam pode ser Gran Meistre sem ser de fato Meistre, e ainda manter uma família? Faltou tempo para construir estes detalhes, enquanto outros como a possibilidade de gravidez de Daenerys e a verdadeira identidade de Jon, alardeados nas últimas temporadas, de nada serviram no final das contas. Nem mesmo uma visão aérea de Porto Real em recuperação foi oferecida, tirando o peso da matança do episódio anterior.

Não queríamos um conto de fadas...

Antes que me acusem de esperar por um conto de fadas, vale explicar, eu concordo com a maioria dos desfechos. A loucura e morte da mãe dos dragões, o exílio de Jon, a morte de Jaime e Cersey, o sacrifício do Cão, o reinado de Sansa, a exploração de Arya e até as posições que personagens menores assumem no novo governo. A grande maioria faz sentido, mesmo que a construção de seus arcos tenha sido falha, os obrigando a agir de forma incoerente com suas personalidades e bagagens, e a nós preencher as lacunas com a imaginação.

A exceção fica por conta de Bran, que teve a jornada inteira ligada ao Rei da Noite e foi jogado de paraquedas nas maquinações de Porto Real, mesmo depois de afirmar que não tem desejos e vive passado. Não é coerente, e não faz sentido nem para o personagem, nem para os demais que o escolheram.

Houveram acertos. Assim como na temporada anterior, estes episódios ecoaram e fizeram paralelos com situações, momentos e falas de diferentes épocas da série, e até dos livros. E momentos icônicos foram criados, como Brienne sendo sagrada cavaleira, a iluminação dos arakhs (as espadas dos dothraki) por Melisandre e a morte do Rei da Noite. 

Garrafas d'água e copos do Starbuks à parte, há também momentos de brilhantismo técnico, como as sequencias de chuva de zumbis em Winterfell, do caos em Porto Real, e montagem combinada do Clegane Bown e da sobrevivência de Arya. Mas vários destes perdem impacto graças à construção fraca.

Um discurso no último episódio chama atenção. Ao falar sobre a natureza da rainha Targaryen com Jon, o anão aponta algo que especulamos na última semana: enquanto ela matava inimigos com que concordávamos, não a achavamos louca. 

Game of Thrones é mais que sexo, violência, zumbis e dragões...

Apesar do que alguns possam pensar, Game of Thrones não é sobre violência, sexo, surpresas, dragões e zumbis de gelo. Essas coisas são incríveis e empolgantes, mas só tem grande impacto pela forma como são apresentadas. A morte de Ned é marcante pois somos levados a acreditar e torcer por sua salvação até o último segundo. Nos decepcionando por um breve momento, antes de perceber que a série já havia nos mostrado que acontecem coisas terríveis nesse mundo, e ninguém esta a salvo. Finalmente ficando satisfeitos pela coerência e coragem. Nesta colcha de retalhos das duas últimas temporadas, o roteiro pula de um grande evento para outro, sem a construção, as consequências e a pausa para nossa compreensão. Se tudo é épico, nada de fato se destaca.

Quanto a nós, não precisamos contratar homens sem rosto e mercenários para dar uma lição nos criadores. Duas temporadas ruins, não vão apagar os seis bons anos anteriores. Muito menos a experiência de acompanhar o programa por tanto tempo, especulando, criando teorias, revendo nossos conceitos e nos surpreendendo. Esta maneira de assistir séries, semanalmente e comentando com os amigos enquanto esperamos o próximo episódio, pode se extinguir em breve graças as maratonas do streaming. Se for o caso, fico feliz por participar de um dos últimos grande fenômenos do tipo. Se tudo isso ainda não for suficiente para te consolar, vale lembrar G.R.R.Martim ainda não terminou de contar a história do jeito dele.


David Benioff  e D. B. Weiss entregaram um final burocrático e corrido. Se a dupla ficou perdida quando os livros acabaram (sabiam os finais, mas não como chegar lá), ou se simplesmente perderam o interesse e queriam fazer coisas novas (já estão contratados para comandar a nova trilogia de Star Wars), é uma coisa a se discutir. É uma pena apenas, que tenham deixado passar a oportunidade de terminar este evento de uma geração de forma exemplar, como fãs e personagens mereciam.

Poderíamos ter nos despedido de Game of Thrones com pompa, circunstância e as bençãos dos deuses novos, antigos e do senhor da luz. Ao invés disso, fomos apenas expulsos de lá, sem muito tempo para uma última olhada.

A oitava e última temporada de Game of Thrones teve seis episódios, alguns com mais de uma hora de duração. Exibidos pela HBO desde 2011, os 73 episódios estão disponíveis na HBO Go.

Aqui no blog tem muitas curiosidades sobre a série, e textos sobre todas as temporadas confira:
7ª - Teletranspote e referências;
6ª - Adaptar é diferente de criar...;
5ª - Quem liga para os livros? Todos os homens devem morrer...
4ª - Valar Morghulis... Valar Dohaeris!
3ª - The North will Never Forget;
2ª - Valar Morghulis;
1ª - Conheça Game of Thrones
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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Riverdale - 3ª temporada

Riverdale não precisa de 22 episódios. Se isso era uma dúvida no ano anterior, a terceira temporada deixou bem claro, a série tinha seu enredo melhor amarrado quando tivera menos capítulos lá em sua estreia. As mais recentes aventuras de Archie e companhia, precisam dar muitas voltas para preencher tempo, e acaba enfraquecendo o mistério, seu grande diferencial entre as séries teens.

Depois do assassinato de Jason Blosson, e do serial killer Gorro Negro, os adolescentes precisam lidar com o Rei Gárgula. Uma entidade misteriosa por trás de um jogo de RPG letal que virou mania na escola. Correndo por fora, está a trama da Fazenda, uma seita estranha introduzida ainda na temporada anterior, que recruta muitos dos personagens secundários. E os negócios de longo alcance de Hiram Lodge (Mark Consuelos), e poder aparentemente ilimitado.

Rei Gágula, Fazenda e Hiram, além dos afazeres de uma adolescente comum (ou quase isso). Os roteiristas da série parecem não economizar na criatividade para preencher os muitos capítulos do programa. Além destes três problemas principais, eles apelam para inúmeras reviravoltas e acontecimentos, mas pouco tempo para explorá-los ou mesmo lhes conferir peso. Inclua entre os fillers (episódios que existem apenas para preencher a temporada), o episódio musical, e um passado nos anos de 1980, com o elenco jovem interpretando seus pais quando adolescentes.
Elenco principal interpretando os pais de seus personagens na adolescência.

Apenas nessa temporada, Archie (K.J. Apa) foi preso, participou de um clube da luta, fugiu, se exilou, sofreu um ataque de urso, voltou para casa, começou a comandar um clube de boxe e onde também treina para ser um profissional esporte. Já a cidade ficou em quarentena, teve a reserva de água batizada por um veneno que só atinge adolescentes (hein?), foi tomada por uma onda de RPG assassino, abraçou uma seita maluca, alguns personagens de apoio foram mortos, outros voltaram à vida. Houve brigas de gangues, e uma divisão na mais descolada delas, os Serpentes. Aliás, seu antigo líder, virou o xerife da cidade. E eu provavelmente estou esquecendo alguns eventos.

Parece contraditório eu alegar que a série não precisa de 22 episódios, e ao mesmo tempo reclamar que tem coisa demais acontecendo. Mas o excesso de subtramas é resultado da necessidade de preencher esse tempo, e da obrigação em construir um mistério complexo, e eventualmente absurdo, para surpreender o espectador. São tantos desvios, e pistas faltas, que por muito tempo, nada de realmente relevante para a trama principal acontece. O miolo da série, fica confuso, cansativo, e em alguns momentos exagerado demais, mesmo para quem tem o nível de suspensão de descrença bem alto. Vide à relação entre Archie e Hiram, que passa da perseguição letal à troca de favores, em dois episódios.

Chad Michael Murray, vem comandar a seita maluca
Já na reta final, quando a série foca em seus verdadeiros temas, a Fazenda e o jogo de RPG Grifos e Gárgulas, o fôlego retorna e voltamos a reconhecer o programa que surpreendeu muita gente em seu ano de estreia. É claro, os planos ainda são mirabolantes e exagerados, e devem afastar que não tem tolerância com o gênero. Assim como o fato dos adultos serem cegos para os problemas ou grandes causadores deles, enquanto os adolescentes acham (e geralmente estão certos) que podem resolver tudo sozinhos. Mas, por mais irreais que sejam, estes são os parâmetros que estabelecidos pelo programa desde seu início.

É neste desfecho de temporada, que Archie, Verônica (Camila Mendes), Betty (Lili Reinhart) e Jughead (Cole Sprouse) voltam à trabalhar juntos. Embora altura alguns devam se perguntar, porque Verônica e Archie estão ali, já que sua trama correu separada dos mistérios por quase toda a temporada. A resposta é simples, eles fazem parte do quarteto protagonista, especialmente o ruivo, o dono do quadrinho que inspirou a série.

É o quarteto que tem seus arcos mais explorados, embora bem pouco em relação aos anos anteriores, já que as reviravoltas e subtramas não deixam espaço para muita coisa. Verônica se mantém no constante cabo de guerra com seu pai. Archie oscila entre fugir e decidir seu futuro. Somos apresentados à mãe e irmã de Jughead, e assim como a maioria das pessoas da cidade, elas não são simples de conviver. É Betty quem tem maior desenvolvimento, já a trama do mistério está conectada diretamente à sua família.

Entre os coadjuvantes o espaço é ainda menor. A maioria é escalada, ou descartada,de acordo com a conveniência do roteiro. Josie (Ashleigh Murray) se despediu do programa, para participar do spin-off Katy Keene. E mesmo a favorita do público Cheryl (Madelaine Petsch), que teve a melhor trama da segunda temporada, aqui se limita ao romance e à atender às necessidades das reviravoltas. Vale mencionar ainda que o destino de Fred Andrews, vivido por Luke Perry que faleceu durante a produção deste terceiro ano, deve ser explicado apenas na próxima temporada.

De volta ao roteiro, a trama deste ano tenta conectar quase todos os mistérios da cidadezinha até então. Uma ideia interessante, não fosse jogada de repente apenas no season finale. Tais pistas poderiam ter sido plantadas com mais antecedência, oferecendo maior envolvimento para aquele monótono meio de temporada.

O desfecho, como de costume, fica em aberto. Com não apenas um, mas dois ganchos para temporada seguinte. Tanto o mistério da Fazenda, quanto Grifos e Gárgulas não foram encerrados, apenas se tornaram um segredo diferente. Enquanto um flashforward nos minutos finais, plantam uma semente de medo sobre o futuro de um dos protagonistas. Eles querem ter certeza absoluta de te deixar curioso e ansioso para o já confirmado ano quatro.

Riverdale precisa crescer para além dos limites da cidadezinha que lhes dá nome. Não é possível que a situação da cidade, não chame atenção de alguém de fora. Ou mesmo que Hiram Lodge com tanto poder, fique confinado ali. Ao mesmo tempo, precisa começar a planejar seu final, antes que os exageros e absurdos fiquem insustentáveis, mesmo para os espectadores mais fiéis.

É hora de aproveitar o tom de ano de formatura da próxima temporada, e seus muitos episódios para destrinchar com riqueza de detalhes este acúmulo de mistérios e exageros. Sem acrescentar mais, apena tornando a trama coesa, e bem desenvolvida. É também preciso ter coragem para encerrar a série em seu quarto ano. Assim, Archie e companhia se formariam com honras e um final planejado e bem construído, digno da dedicação dos fãs. 

Riverdale é exibida pela Warner Channel. Suas duas primeiras temporadas estão disponíveis também na Netflix. O segundo e terceiro anos tem 22 episódios cada, enquanto o primeiro apenas 13.

Leia as críticas da primeira e segunda temporadas da série.
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quarta-feira, 15 de maio de 2019

Entendendo (ou não) a viagem no tempo em Vingadores: Ultimato

Algumas semanas depois, e Vingadores: Ultimato continua nas rodas de conversa da galera. Se antes eram as expectativas e as reações ao filme, agora o pessoal começa a tentar entender os detalhes e especular sobre o futuro. É nesse ponto em que as coisas complicam, já que como todo bom filme com viagem no tempo, a aventura deixa muitas dúvidas e situações ambíguas.

A Marvel resolveu lavar as mãos e apenas dizer, "física quântica é complicado!". Mas nós somos nerds e adoramos as complicações, logo cada um pode criar a sua explicação. Eis a minha:

Vale lembrar, este post tem SPOILERS de Vingadores: Ultimato, continue por sua conta e risco.


Em meu reles conhecimento de viagem no tempo na ficção, existem três versões principais para suas consequências:

1 - Suas ações no passado alteram o futuro, como na trilogia De volta para o futuro. Em uma versão mais extrema, sua simples presença no tempo errado, mesmo sem realizar ação nenhuma, já o modificaria.

2 - Suas ações no passado não alteram seu futuro, mas criam uma linha do tempo paralela a partir destas mudanças, como no recente Star Trek

3 - O passado é imutável. Não importa quantas alterações você faça, o universo vai se ajustar para que os resultados sejam os mesmos, como em A Maquina do Tempo. Ou ainda, seu retorno no tempo sempre fez parte da história como em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.

Mas, em Vingadores: Ultimato, Bruce Banner e Nebulosa (Karen Gillan, com toda sua propriedade de companion do Doctor Who) dizem que física quântica é complicado, e desmentem os muitos exemplos de filmes que seus colegas oferecem como referência. Mas se não funciona como em determinado filme ou outro, como a viagem no tempo funciona no MCU? Minha teoria: funciona como em todos eles!

A tal complicação difícil de explicar da física quântica, se daria pela impossibilidade de prever qual daquelas três possibilidades de consequências resultaria da experiência. Todas as possibilidades são possíveis e plausíveis, explicando assim as incoerências apresentadas na produção, que também podem ser vistas apenas como falhas de roteiro, mas continuemos.

Loki
Assim, quando Loki rouba o tesseract é criada uma nova linha do tempo que diverge da que conhecemos a partir dos eventos do Vingadores de 2012. Uma versão da realidade onde o Loki não foi preso em Asgard e vive "altas aventuras", que podem ser convenientemente abordadas em sua já anunciada série no Disney+. Há ainda a possibilidade do resultado destas aventuras conduzirem o Deus da Trapaça para a prisão, restaurando a linha do tempo e situando o personagem na prisão à tempo para viver as aventuras de Thor: Mundo Sombrio.

Nebulosa, Thanos e Gamora

Thanos salta de 2014 para 2023. Durante o clímax duas Nébulosas entram em um embate, e a versão do futuro elimina a versão nove anos mais jovem. Se fosse utilizada a lógica De volta para o futuro, a versão de 2023 da personagem desapareceria, quando sua versão passada morre. Mas, como isso não acontece, podemos presumir que a jornada diferente das duas criou uma nova linha do tempo. O mesmo vale para Gamora, Thanos e seu exército. O 2014 que este pessoal abandonou vai se desenvolver sem o titã roxo sempre a espreita em busca das joias. Os Guardiões talvez nunca se reúnam ou se tornem algo diferente sem a presença de Gamora, e por aí vai...

Capitão América

É o Capitão América quem complica tudo. Ao escolher ficar no passado e viver sua vida ao lado de Peggy Carter, teoricamente criaria uma nova realidade, e por isso não poderia mais tarde aparecer na linha do tempo principal e entregar o escudo para Sam Wilson.

Os irmãos Russo, diretores do filme, afirmaram em entrevistas que o Capitão já idoso fez um novo salto para encontrar o Falcão. O que é realmente possível, ao invés de usar o dispositivo de viagem no tempo imediatamente após devolver as jóias e o Mjölnir, ele esperou algumas décadas. Mas então, ele deveria aparecer lá na plataforma onde era esperado, assim como ocorreu na primeira missão de viagem no tempo, e assustar a todos com sua idade avançada. Uma cena muito mais cômica que a poética despedida no lago.
Essa plataforma aí ó! Ponto de partida e chegada para todos que usaram a tecnologia Pym-Avengers de viagem no tempo!

Pois eu tenho uma explicação mais legal para o caso de Rogers (que foi confirmarda pelos roteiristas, em desacordo com os diretores depois que escrevi esse texto), é a versão de Harry Potter, um paradoxo. Em O Prisioneiro de Azkaban, duas versões Hermione e Harry estão presentes em um certo momento do filme. E a versão do futuro, chega à conduzir a versão do passado para que estes percorram o caminho correto, para se tornarem a versão futura. Confuso, né? Basta lembrar que Hermione percebe que sempre estivera ali, e que fora ela que atirara a pedra para que o trio deixasse a casa de Hagrid.

De volta ao Capitão, talvez seu retorno e vida com a agente Carter sempre tenha acontecido. Tudo que sabemos sobre o marido de Peggy - corrijam-me se eu estiver enganada - é que ele lutou na 2ª Guerra Mundial. Este poderia muito bem ser Steve. Ok, eu sei! Marvel's Agent Carter dá a entender que a moça casará com seu colega de trabalho Daniel Souza, mas como a série foi encerrada antes do matrimonio acontecer, nada foi confirmado.

Na minha teoria, a permanência do Capitão no passado não interferiu no continuo, pois sempre houveram dois Capitães América na linha do tempo principal. O aposentado vivendo a vida, e aquele que foi descongelado em 2011. Sua versão mais velha observou nas sombras, seu eu mais novo acordar e passar por tudo o que ele passou antes de ter seu final feliz com a mulher que ama.

Então ficamos assim:

3 - As ações do Capitão América resultaram em um paradoxo temporal, que tornaram o futuro imutável.

Thanos estragando o cubo.
Será que os Vingadores abriram com jeitinho?
2 - A fuga de Loki criou uma nova linha do tempo. As mortes de Nebulosa, Thanos e a permanência de Gamora em 2023, criou outra. E talvez tenhamos outras duas, já que as duas das jóias foram entregues em formatos diferentes daqueles em que foram retiradas. A da mente estava dentro da joia azul no cetro de Loki, e do espaço no cubo cósmico conhecido por tesseract.

1 - E estes dois resultados eliminam a possibilidade de estragos na linha do tempo principal. Ufa!

O destino de Rogers combina bastante com a explicação que Banner dá no início do filme: "Se você viajar de volta no tempo, o futuro se tornará seu passado e, portanto, não poderá ser mudado". Já as linhas do tempo alternativas de Loki, Nebulosa e cia, encaixam na explicação da anciã. Esta que até na forma como foi exibida com uma única linha do tempo criando uma ramificação quando algo é modificado, lembra muito a explicação do Dr. Borwn em De volta para o futuro - parte II. Lógica que Bruce desacreditara com direito à piadinhas momentos antes.

Reparou o que o filme fez aqui? Os criadores sabem que viagem no tempo é difícil de explicar. Sempre vai haver dúvida e furos. E principalmente, o grande público talvez não esteja tão preocupado com isso. Para aqueles que estão atentos, duas explicações e muitas possibilidades. Assim, podemos escolher a versão que quisermos, ou no mínimo ficar confusos ao ponto de desistirmos de especular e apenas aproveitarmos a aventura. No final das contas a "bagunça" proposital funciona em prol do filme, e isso é o que importa.


E se você estiver achando que a confusão é pouca. Aparentemente, Homem-Aranha: Longe de Casa vai confirmar a existência de um multiverso, as tais realidades ou linhas do tempo paralelas. Agora é esperar a estreia para especular um pouco mais.

E aí concorda comigo? Discorda completamente? Tem uma teoria melhor, mais louca, ou tudo isso junto?
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segunda-feira, 13 de maio de 2019

Hellboy

Preciso rever os filmes do del Toro! - Foi este o pensamento que veio à minha mente após a sessão da nova versão do Hellboy nos cinemas. Uma reação que raramente costuma ser um bom sinal para um remake.

Hellboy (David Harbour) é o filho do demônio invocado ainda criança por um feiticeiro nazista, que foi resgatado pelos aliados e criado como um filho por Trevor Bruttenholm (Ian McShane). Já adulto, ele trabalha no B.P.R.D. (Bureau of Paranormal Research and Defence) lutando como monstros de todo tipo. Nesta aventura ele precisa impedir a volta de poderosa feiticiera Nimue (Milla Jovovich), banida nos tempos do Rei Artur.

Estimulado por sucessos como Logan e Deadpool, a promessa desta nova adaptação era ser uma produção mais adulta, que investisse no potencial de terror do personagem. Algo que as versões anteriores mais próximas da fantasia deixaram de lado. E sim, a produção investe um pouco mais no gore, mas seu roteiro desperdiça qualquer potencial assustador que vá além da sanguinolência gráfica, e mesmo essa é pouco utilizada.

O curso é bastante tradicional em tramas de aventura. O herói, ou anti-herói no caso, tem uma missão aparentemente cotidiana. É claro, quando chega-lá percebe que este desafio é algo maior. Precisa redescobrir quem são seus inimigos e aliados, antes de enfrentar a grande luta, que eventualmente terá alguma conexão pessoal com ele. Enquanto o protagonista percorre esse longo caminho, a vilã, que aqui é até apresentada em uma cena inicial estilosa, se recompõe e fortalece. Tornando-se um desafio digno do clímax da aventura. E não a nada de errado com esta fórmula, quando bem construída em torno de seus personagens para aproveitar o melhor de suas características, e a partir daí criar seu diferencial. Aqui tanto mocinho, quanto bandido poderiam ser substituídos por outros personagens quaisquer, que provavelmente percorreriam a mesma trama.

A inclusão de lendas do Rei Artur, apesar de herdada das HQs, tira o foco do lado demoníaco e potencialmente macabro da produção. Além de soar como exagero ao situar o protagonista como escolhido de outra lenda. Ele já é filho do tinhoso, trazido ao nosso mundo por nazistas e criado para ser herói, não precisa de ajuda para ser um personagem único, mas que explorem melhor as características e conflitos que ele já tem. Desde a dualidade inerente de um demônio fazendo o bem, passando pela relação com o pai adotivo (a única que ganha um pouco de atenção), até sua relação com humanos e monstros, uma vez que ele é tão, ou mais, aterrorizante que a maioria das criaturas que combate.

Passando para ao visual, a comparação com seu antecessor é inevitável e até cruel. Guillermo del Toro se especializou em criaturas com estilo próprio e muitos efeitos práticos. Enquanto a nova produção, mais econômica, entrega o básico em relação à caracterização dos personagens, e entrega momentos em computação gráfica genéricos. Ver o David Harbour se esforçando para transparecer seu carisma sob a pesada e ineficiente maquiagem, foi inclusive o primeiro ponto de afastamento com a trama desta blogueira que vos escreve.

E por falar no elenco, Harbour realmente aposta todas as fichas no personagem, embora caracterização e roteiro pouco ajudem. Outros esforços visíveis são de Sasha Lane e Daniel Dae Kim, na tentativa de criar uma equipe coesa com o protagonista. Seus personagens até tem seus traumas e dilemas, mas seus desenvolvimento é extremamente raso. Já Milla Jovovich e Ian McShane, estão no automático, cada um em seus estilo de atuação.

Mesmo as coreografias de batalha, ponto forte do diretor em seus tempos de séries de TV, pouco chamam atenção. Entre clichés e exageros - te desafio a entender os movimentos da Baba Yaga! - um ou outro momento se destacam por sua beleza ou originalidades plástica, dentro da temática demoníaca, claro. Mas nunca o suficiente para se tornar memorável.

Dirigido por Neil Marshall, que tem no currículo excelentes episódios de séries como Game of Thrones, Westworld e Perdidos no Espaço, e inspirado nos quadrinhos de Mike Mignola, Hellboy desperdiça seu potencial. A produção tinha a oportunidade de trazer maior fidelidade com a obra original que os longas anteriores. Poderia abraçar o macabro, se tornando a primeira adaptação de HQs a realmente flertar com o terror, sendo mais produção assumidamente para adultos. Apesar da censura de 16 anos, os momentos inadequados para os mais jovens, mais enojam que assustam.

Sem decidir se é ação, terror, aventura ou fantasia, o longa acaba sendo apenas esquecível. Entre um "quase terror" genérico, e uma fantasia com belas criaturas assustadoras, eu fico com os filmes de del Toro.

Hellboy
2019 - EUA - 121min
Ação, Fantasia, Aventura

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