Amanhecer na Colheita

Desde Em Chamas, quando descobrimos que os Jogos de Haymich Abernaty foram um Massacre Quaternário, os fãs leitores imploravam pela história completa. Havia até versões de fãs no YouTube imaginando a história à partir das poucas informações que tinhamos na saga de Katniss. Quando Suzanne Collins finalmente decide contar esta história, ela é ainda mais empolgante do que imaginávamos. 

Quarenta anos após os eventos de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, e 24 anos antes de Jogos Vorazes acompanhamos a 50° edição do massacre de joves promovido pela capital através dos olhos de outro jovem do Distrito 12. 

Haymitch Abernathy, de 16 anos, vive com a mãe e o irmão mais novo. Ajuda a sustentar a casa e morre de amores pela namorada Lenore Dove. Os Jogos Vorazes ainda não são a máquina de matar disfarçada de espetáculo quase impecável que vimos Katniss participar, mas já estão bem longe do "circo improvisado" vencido por Lucy Grey. Embora não longe o suficiente para não ter falhas e trapalhadas. 

É em um desses desperparos que torna nosso protagonista um tributo, em uma edição comemorativa de cinco décadas que ceifou o dobro de crianças de cada Distrito. Mas, à essa altura Haymitch é bastante diferente do bêbado desesperançoso que encontramos em sua fase adulta. Ele ainda tem a fagulha de esperança e o ímpeto de se rebelar que verá no futuro em Katniss. 

Assim, ele se une a outros rebeldes na tentativa de desmascarar a Capital de dentro dos jogos. Além de seguir o ousado plano de Beete (sim aquele mesmo que conhecemos no segundo livro), ainda precisa sobreviver na arena mais belamente hostil já criada e lidar com os demais tributos, aliados e inimigos. 

Sabendo que não esperamos final feliz, já que o futuro do protagonista é conhecido, a autora não teme trazer consequências drásticas para as ações ao longo da trama. Talvez o mais trágico dos livros, a jornada constrói com clareza a personalidade que conhecemos de Haymitch no futuro. As razões para sua bebedeira, isolamento e desesperança. 

Seu discurso de que os Jogos nunca terminam para os vencedores, se prova verdadeiro. Tecnincamente e principalmente, para o público, ele ganhou o segundo Massacre Quaternário, mas perdeu todo o resto. Se tornando um recurso eternamente disponível, um prisioneiro em uma gaiola dourada ou, no caso, em uma Vila de Vitoriosos deserta. Que será resgatado sempre que a Capital precisar. Seus esforços na arena e suas perdas fora dela, completamente editados ou apagados pelo governo.

É essa manipulação o tema central deste livro. A forma como ditaduras escolhem e criam narrativas. Mentem e desviam o foco para manter as massas sob controle. Collins certa vez afirmou que só voltaria a escrever sobre este universo, se acreditasse que o mundo precisava ouvir uma mensagem. Novamente ela é cirúrgica em sua escolhas de temas. Afinal, não temos nenhum líder mundial bombardeando países para desviar atenção de seus próprios escândalos, né?!

Além do protagonista, outras figuras conhecidas retornam à cena. Algumas como meros easter-eggs, como a presença do Bando de Lucy Grey, e as versões jovens dos pais de Katniss. Outros com mais funções na trama, como Plutark, Mags e Wiress. Descobrimos como Effie Trinket começou a se envolver nos jogos. Enquanto Beettee tem uma jornada própria paralela. 

Entre os novatos se destacam o filho de Beetee, Ampere. E os demais tributos do Distrito 12, Louella McCoy, Wyatt Callow, que dá uma perspectiva nova sobre como os cidadãos comuns lidam com os jogos, e Maysilee Donner uma patricinha atrevida que é a dona original de um dos maiores símbolos da franquia. 

Amanhecer na Colheita é provavelmente o melhor dos cinco livros do universo de Jogos Vorazes. A escrita de Suzanne Collins se aprimora a cada novo volume, assim como a compreensão das mensagens que deseja passar. A jornada de Haymitch se encaixa perfeitamente entre os capítulos anteriores da história. Mostra bem a evolução daquela sociedade, da luta e indignação que culminação na revolução e principalmente da máquina de manipulação midiática que é os jogos. Se tem um final relativamente conhecido, compensa com personagens carismáticos, e com as surpresas no caminho para este desfecho.

Nunca um pedido dos fãs superou tanto nossas expectativas. É dinâmico, tenso, empolgante, impossível parar de ler. É fácilmente, meu favorito, de uma saga sem títulos fracos!

Amanhecer na Colheita (Sunrise on the Reaping)
Suzanne Collins
Rocco

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