Todo Dia

Se perguntadas, a maioria das pessoas dirá que ama seus p\rceiros românticos por quem são, sua personalidade, carater, alma. Entretanto, na prática, muitas vezes gênero e aparência contam muito nessa matemática de relacionamentos amorosos. É essa dicotomia tão cotidiana que David Levithan explora em seu romance juvenil Todo Dia

"A" acorda todo tia em um corpo diferente. Sempre alguém da mesma idade que acredita ser a sua, no momento dezesseis anos. Com memórias próprias, também consegue acessar as lembranças de seus hospedeiro para conseguir navegar por suas vidas ao longo do dia. Muito consciente do impacto que tem na vida daqueles que habita, tenta evitar grandes mudanças ou prejuízos. 

Mas, tudo muda quando ele acorda no corpo de Justin e conhece sua namorada Rhiannon. A conexão com a jovem é imediata, à ponto de mudar a rotina de ambos, que matam aula e dividem um dia perfeito na praia. À partir daí, nosso protagonista sem corpo quebra as próprias regras de não atrapalhar a vida alheia e passa todos os dias tentando reencontrar a moça. Até finalmente criar coragem de contar sua condição, e conseguir convencê-la da verdade. 

Então acompanhamos um romance juvenil surpreendente, onde além das dificuldades físicas para se encontrar, já que a cada dia "A" está em uma casa e até cidade diferentes. Rhiannon precisa lidar com o fato de sua pessoa amada ter um novo rosto, corpo e gênero a cada dia. É aí que a história nos faz questionar, o que de fato amamos em alguém. 

Sem hipocrisia ou romantizar a situação, a mocinha admite, há dias em que se sente mais ou menos atraída "A", embora o ame em todas as suas versões. Insinuando que o amor é sim independente de aparência, mas a atração não. E a forma como encara isso pode ser determinante para o romance. Até porquê, mesmo com uma "pessoa normal", ao longo do tempo sua aparência pode mudar. O quanto essa mudança interfere em seus sentimentos por ela?

Ao mesmo tempo que tenta construir esse romance impossível e pondera suas possibilidades de futuro, "A" ainda tem que lidar com as consequencias de uma vida que influenciou ao habitar o corpo. Nathan sabe que foi "possuido", atribui o evento ao demônio e busca por respostas que o protagonista simplesmente não tem. Esta relação até rende frutos, o protagonista obtém algumas informações sobre sua condição, mas nunca respostas o suficiente. 

Também sobra tempo para se colocar no lugar do outro, exercitando a empatia ao extremo. Ao acordar em uma pessoa diferente a cada dia, o protagonista também conhece suas angústias e dificuldades. De patricinhas com a vida perfeita, à jovens submetidos ao trabalho análogo à escravidão, e com pensamentos suicidas, nos colocamos junto com o protagonista na realidade de cada um deles. Realidades que geralmente não compreendemos apenas conhecendo as pessoas, é preciso estar em sua pelo para entender completamente.

Nunca compreendemos completamente quem o o quê "A" é. O romance não está preocupado em explicar, mas sim observar as possibilidades, dificuldades e discussões geradas por essa existência. E por mais que quiséssemos saber, e queremos muito, a incógnita é sim a melhor escolha. Já que as reflexões que ela gera são tão profundas quanto únicas. 

O texto de David Levithan é fluido e ágil. Acompanhando o ponto de vista de "A" , sempre determina com facilidade, as caracterista de suas novas cascas, em perder a essência desta consciência ambulante. No filme de 2018, por exemplo, essa perspectiva precisou ser mudada para manter a coerência, vêmos boa parte da história pelos olhos de Rhiannon. Tornando-a a âncora narrativa que mantém o personagem principal constante e coerente. Tem crítica do filme no blog, clique aqui para ler!

Todo Dia pode parecer mais um romance juvenil, mas é muito mais complexo que isso. Com uma premissa surpreendente, levanta questionamentos únicos, que vão muito além de seu público. Compreender porquê amamos quem amamos. Entender como os outros nos vêem, como impactamos a vida de terceiros, e o peso da aparência em nossas relações. Debates complexos disfarçada de namoro adolescente, que deve colocar jovens a adultos para pensar. O que podemos pedir mais?

Todo Dia 
David Levithan
2012 - Editora Galera

Leia também a crítica do filme Todo Dia de 2018!

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