"Ei, o Manuel Carlos já fez isso!" - Admito, esse foi meu pensamento imediato quanto ao desfecho de All Her Fault, minissérie de suspense do Prime Vídeo que chamou atenção neste início de ano. Mas não se engane, minha comparação não é nem um pouco pejorativa. É um paralelo com bons momentos da dramaturgia brasileira.
Assim como as novelas do Maneco, a série fala sobre mulheres. Mais especificamente, seus papéis reais, escolhidos e impostos pela soceidade. Através de uma trama de mistério cheia de reviravoltas. E que na busca pelos culpados, a sociedade parece sempre tender a jogar a culpa nas mulheres. Por isso o título, que na tradução em português significa "Tudo Culpa Dela".
Marissa Irvine (Sarah Snook) vai buscar seu filho Milo (Duke McCloud) de cinco anos, em um encontro para brincar na casa de um coleguinha de classe. Ao chegar no endereço, percebe estar na casa errada. Que a mãe da outra criança, Jenny (Dakota Fanning) nunca soube deste encontro. E, o mais preocupante, que seu filho fora levado da escola, por um desconhecido horas antes.
A partir daí entram em cena o detetive Alcaras (Michael Peña, lembrando que não faz apenas papéis cômicos), além da família do menino desaparecido, além de babás, professores, e personagens menores que fornecem pequenas pistas. E, aparentemente, ninguém é inocente!
Não! Não é o caso de todos estarem envolvidos no sumiço do menino (que aliás não parece ser um sequestro, já que não é pedido um resgate). Mas sim, que todos tem segredos, mentiras e atitudes suspeitas que compõe o quadro maior que acarretaram no desaparecimento da criança. Entre os que estão no centro das intrigas, estão as duas mães Marissa e Jenny, seus maridos Peter e Richie (Jake Lacy e Thomas Cocquerel), os tios de Milo, Lia e Brian (Abby Elliott e Daniel Monks). Além do sócio de Marissa, Colin (Jay Ellis) e as babás das crianças Carrie Finch e Ana (Sophia Lillis e Kartiah Vergara).
É claro, não vou destrinchar os segredos e influencias de cada um na história. Esta é a melhor parte da experiência, mas vou enumerar os temas que a série aborda, enquanto traz reviravoltas, e sequencias surpreendentes, sem vergonha nem receio de exagerar.O maior e mais evidênte é a carga imposta à mulher na sociedade. Casada com homens reprováveis, mas extremamente comuns na realidade, cabe à elas responder por tudo. Inclusive pelos erros deles. Enquanto a protagonista se vê presa a um homem controlador, disfarçado de provedor atencioso, não apenas para ela, mas para toda a família. Jenny é constantemente sabotada por um marido que claramente preferia que ela fosse mãe integral, e que acha que o cuidado com o filho é apenas responsabilidade dela.
Ambas esposas vividas brilhantemente por suas intérpretes. Sarah Snook carrega a série, dando veracidade ao desespero e desalento de Marisa conforme a trama se desenrola. Enquanto Dakota Fanning, faz quase uma ponta de luxo, que consegue prender nossa atenção, mesmo quando deixa o mistério e corre em paralelo com a trama principal. Outro acerto é o fato da narrativa não rivalizar as duas, solução mais óbvia e geralmente escolhida por esse tipo de trama.
Mas nem só de mulheres sobrecarregadas e péssimos pais que vive All Her Fault. Michael Peña vive um pai dedicado de um menino autista, que também se vê confrontado entre o que correto, e o que é necessário para seu filho. Trama que parece acessória, mas que ao final é essencial para o detetive desvendar o mistério e tomar suas decisões sobre como lidar com ele. Independente das normas sociais, vale dizer.
Ainda tem romances escondidos, segredos de família, e brigas épicas, dignas de um bom novelão. All Her Fault é sim merecedora de toda atenção que tem recebido desde seu lançamento. Caprichada, bem construida, com excelentes atuações, e muitas surpresas, é entretenimento puro. Trazer discussões pertinentes à sociedade, é apenas um bônus que torna tudo ainda mais delicioso. Recomendo a maratona urgente!All Her Fault tem oito episódios com cerca de uma hora cada, todos já disponíveis no Prime Video.




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