Rocketman - Ah! E por falar nisso...

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Rocketman

Descoberta do talento, as dificuldades para explorá-lo, ascensão, estrelato, queda e renascimento. A maioria das cinebiografias de astros da música não consegue evitar esta cartilha de eventos, é a personalidade singular de seu retratado e a forma de contar estas etapas que vão diferenciar uma produção de outra. Rocketman está disposto a experimentar para tentar alcançar a mesma aura extravagante da persona de Sir Elton John.

Assim, somos apresentados a um Elton (Taron Egerton) à beira do total colapso, disposto a se desnudar literal e metaforicamente para combater seus demônios e superar a tal fase da queda. À partir desta sessão de terapia o protagonista relata os principais eventos de sua vida desde a infância, até o renascimento.

O formato é aquele tradicional que mencionei no primeiro parágrafo deste texto. À diferença está na opção de não apresentar os sucessos do cantor cronologicamente, conforme foram compostos, mas atrelá-los tematicamente aos momentos chave da vida do personagem. Além de se permitir criar números grandiosos, fantasiosos e metafóricos para várias destas sequencias musicais, como a canção inicial onde as versões adulta e criança de Elton se destacam ao serem os únicos com cores vivas em meio à um número de dança com a paleta dessaturada. Ou ainda seu primeiro grande show, onde artista e platéia flutuam em êxtase pela canção. Conferindo assim, mais cara de espetáculo musical, que de biografia ao longa.

A escolha é mais que acertada, já que a jornada em si não foge dos clichês do gênero, que vão desde o empresário mal intencionado, até a paternidade complicada. Tudo atrelado à uma abordagem psicológica (começamos em uma sessão de terapia, lembra?), onde a maioria dos desvios na vida do protagonista se dá pela falta ou busca pelo amor.

São seus "antagonistas" quem mais saem perdendo com a abordagem, já que ganham contornos exagerados, sob a perspectiva de Elton. Desde o pai desnaturado (Steven Mackintosh), passando pela mãe sempre irritada Sheila (Bryce Dallas Howard) e o assumidamente vilão da narrativa o empresário John Reid (Richard Madden). O parceiro de composição e amigo de longa data Bernie Taupin (Jamie Bell, sempre eficiente) é quem ganha uma abordagem mais humana e bem construída, mesmo no auge da paranoia do protagonista.

Mas os holofotes estão mesmo sobre Elton John, que mesmo envolvido no projeto se mostra mais aberto à exposição que outros astros em suas biografias. Há sim, um elogio exacerbado à sua genialidade musical, e a sua capacidade de superar a queda praticamente sozinho, mas não há pudores quando ao uso de drogas, a sexualidade, e a atos condenáveis que o artista posse ter cometido em sua jornada. Taron Egerton não é fisicamente parecido com Elton, mesmo com ajuda da maquiagem, mas ele consegue nos fazer enxergar o astro através da postura, maneirismo e trejeitos, especialmente nas sequencias no palco. Uma pena a produção se encerrar com uma comparação de momentos reais da vida do compositor, e as recriações da produção, nos recordando das diferenças físicas entre o ator e o retratado. Vale mencionar Egerton canta todas as canções do filme, assim como boa parte do elenco.

Outro ponto que inevitavelmente chamaria a atenção é o figurino. Afinal as recriações das exageradas, brilhantes e espalhafatosas roupas de show do protagonista são deslumbrantes. Os figurinos também ajudam também a compor o personagem, servido de distinção entre o tímido de roupas simples em tons terrosos Reginald Dwight (nome de batismo do compositor), e a persona que escolheu ser. Elton Hercules John nasce como uma persona de palco, mas logo extrapola para os bastidores da vida do protagonista, que diminui a escala mas nunca abandoa o glamour, mesmo que decadente, fora dos palcos.

O extenso e excelente repertório de Elton John são a cereja do bolo. Apresentados tanto e momentos doces intimistas, como a sequencia do nascimento de Your Song. Quanto em exageros criativos e coloridos como Saturday Night's Alright.

Rocketman não consegue escapar da tradicional fórmula de biografias de astro de rock, descoberta, ascensão, sucesso, queda e renascimento. Cai inclusive, no clichê da demonização das companhias, da vida de luxo, e do empresário com más intenções que recebe grande parte da culpa dos infortúnios do protagonista. Mas, compensa tudo isso ao assumir em seu espírito a persona de seu retratado. O resultado é uma produção luxuosa, exagerada, e até brega em alguns momentos, mas extremamente cativante, e cheia de excelentes músicas. Exatamente a imagem vem à mente quando pensamos em Sir Elton John.

Rocketman
2019 - Reino Unido - 121min
Biografia, Drama, Musical


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