Agosto 2019 - Ah! E por falar nisso...

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Marvel's Runaways - 2ª temporada

quinta-feira, agosto 29, 2019 0
A primeira temporada de Marvel's Runaways, foi toda dedicada a mostrar como Alex (Rhenzy Feliz), Nico (Lyrica Okano), Karolina (Virginia Gardner),Gert (Ariela Barer), Chase (Gregg Sulkin) e Molly (Allegra Acosta) se tornaram os fugitivos do título. É agora, no segundo ano que realmente acompanhando a vida deste poderoso grupo à margem da sociedade, mas ainda lidando com as atividades sujas de seus pais.

Procurados pela polícia, acusados de assassinato, com seus pais como maiores inimigos, o sexteto de heróis precisa aprender a viver na rua. Onde dormir, como comer e alimentar um dinossauro são as preocupações imediatas, mas não as únicas do grupo. Enquanto isso, seus pais tramam para encontrá-los e se livrar de Jonah (Julian McMahon). Este por sua vez continua a tocar seus misteriosos planos.

É uma série com seis protagonistas, são muitos arcos para trabalhar. Mesmo assim, a série consegue reservar algum tempo para que cada um dos adolescentes desenvolva suas histórias particulares em paralelo com a busca por sobrevivência e o grande embate com seus progenitores. Assim, Molly busca por identidade e família. Gert lida com a depressão e ansiedade sem remédios. Alex encontra um novo romance em sua jornada por justiça. Chase precisa lidar com a "morte" de seu pai. Nico começa a descobrir o lado sombrio de seus poderes, enquanto sua namorada vai no extremo oposto. Literalmente um ser de luz, Karolina precisa entender e lidar com as consequências de quem realmente é.


O resultado de tantas histórias acontecendo ao mesmo tempo, é que em alguns momentos o roteiro precisa parar e dar maior atenção a um ou outro, soando episódica. Um exemplo disso é observar como a trama de Molly fica mais concentrada nos episódios iniciais, a de Chase nos finais, enquanto a de Karolina corre de forma constante ao longo dos treze episódios. Esse foco alternado não chega a atrapalhar a fluidez dos episódios, diferente de outras séries com muitos personagens onde volta e meia alguns tendem a parece desaparecer. Isso porque a relação entre os jovens torna todos relevantes, mesmo quando não são o foco. Eles não estão apenas aprendendo a sobreviver, mas também a conviver, e assim o problema de um torna-se de todos. E tanto os dilemas típicos de adolescentes, quanto as ameaças tradicionais de quadrinhos são melhor trabalhadas de acordo com as diferentes personalidades da molecada.

E por falar em relações entre adolescentes, obviamente há romances altamente influenciados por hormônios. Felizmente os roteiristas sabem incorporar estes dilemas aos "problemas de adultos" que enfrentam. Como a relação de Chase e Gert, afetada pela ausência dos remédios da jovem, ou a relação de opostos luz/sombra entre Nico e Carolina. Isso evita que os relacionamentos caiam em clichés tradicionais de séries adolescentes, ou se sobreponham a assuntos mais urgentes como sequestros, e risco de morte, soando mais verdadeiros.

Nada cliché também é o relacionamento destes jovens com os pais, e dos adultos entre si. Completamente sem controle sobre a bola de neve que seus segredos criaram, mesmo quando buscam o mesmo objetivo, cada um cumpre sua própria agenda, cheias de mais segredos e desconfiança. Dificuldade de comunicação que vai caro mais tarde. 

Já com os jovens a relação é de amor e ódio. O carinho da relação entre pais e filhos, entrando em conflito com a disputa entre eles. Em ambos os lados, adolescentes e pais, acompanhamos tanto escolhas absurdas em busca de seus objetivos, ou temerárias movidas por sentimentos. É aqui que há espaço para o programa continuar discutindo temas que vão além dos protagonistas, já iniciados no ano anterior. A fé cega dos membros da Igreja do Gibborim, é uma das discussões mais interessantes.

De volta aos personagens, apenas Jonah parece não ter dúvida alguma, sua história e verdadeiro objetivo são finalmente revelados. Expandindo ainda mais um universo bastante rico. Se o primeiro já trazia adolescentes superpoderosos, uma organização maléfica secreta, uma seita maluca, assassinatos, sacrifícios, tecnologias super avançadas, disputa de territórios, viagem no tempo e até dinossauros. Esta temporada acrescenta, policia corrupta, profecias, alienígenas e invasores de corpos. E sim, por hora, esta miscelânea de temas ainda faz sentido, e faz com que a trama tenha um ritmo intenso e cheio de reviravoltas.

Os efeitos especiais mantém a mesma qualidade da temporada anterior. A versão digital de Alfazema, é a única que destoa um pouco, mas a produção parece ciente disso, e opta pela versão animatrônica do dinossauro sempre que possível. Dito isso, vale lembrar é uma série de super-heróis com temática adolescente, e que não tem vergonha de ser quadrinhos. Logo, alguns efeitos são assumidamente mais caricatos, como o show de luzes de Karolina. Meio brega talvez, mas nunca incoerente com a proposta do programa. Complete o pacote com um elenco eficiente, e temos uma excelente adaptação de quadrinhos. Ah! E repare nos figurinos e cabelos, volta e meia fazem alusão direta as versões dos quadrinhos.

Apesar de ter três episódios a mais neste segundo ano, treze no total, a série consegue manter um ritmo constante que mantém o espectador atento e é perfeito para o formato maratona de streaming. O ritmo e a sensação de perigo e urgência são tão uniformes, que só percebemos estarmos nos aproximando do clímax e do obrigatório gancho, quando já estamos no final da temporada.

Marvel's Runaways é uma série de quadrinhos com temática adolescente, mas não é feita apenas para o público jovem. É indicada para todos que gostam de produções com superpoderes, organizações secretas maléficas, reviravoltas, seres especiais e gadgets impossíveis. É atual, ágil, inteligente e divertida, talvez exagere hora ou outra nas nas habilidades extraordinárias e alta tecnologia, mas é aí que reside parte da graça de ser um herói adolescente em fuga lutando contra vilões de quadrinhos.

A terceira temporada de Marvel's Runaways já foi confirmada para dezembro de 2019, e vai incluir um crossover com Manto e Adaga, outra série da Marvel produzida pelo Hulu. No Brasil é exibida pelo canal Sony e sua primeira temporada está disponível na Netflix.

Leia a crítica da primeira temporada Marvel's Runaways, confira também Manto e Adaga (Marvel's Cloack & Dagger)
Read More

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Piteco - Ingá

segunda-feira, agosto 26, 2019 0
Então a Thuga é a xamã do povo de Lem, que precisa migrar da pedra do Ingá onde vivem para escapar da seca. Não é novidade que as Graphic MSP, reinventam e acrescentam bastante ao universo criado por Maurício de Souza. Mesmo assim, é difícil não se surpreender com a construção de mundo e mitologia que o cartunista Shiko trouxe para sua versão de Piteco.

O povo de nosso personagem título, está prestes a partir em busca de terras férteis para o plantio. Mas Thuga é sequestrada na véspera da partida pelos homens-tigre, outro povo vizinho e com origem em comum com os habitantes de Lem. Piteco, é claro, fica para trás para resgatar sua amada, enfrentando uma longa jornada cheia de perigos, ação e misticismo.

Cores mais escuras, monstros assustadores, violência, corpos expostos, com músculos e curvas acentuadas, Piteco - Ingá não é exatamente para crianças. A história é simples, um resgate. Mas a riqueza de detalhes, e o tom mais maduro destaca a obra dos demais volumes da série. Esta é também a obra que menos tenta referenciar a versão dos quadrinhos, tomando como base, apenas a inspiração para o visual dos personagens e o contexto em que vivem.

Assim, saem os dinossauros e entram uma versão fictícia de animais pré-históricos, tigres e morcegos gigantes. Versões do autor para mitos tipicamente brasileiros como boitatá (M-Buantan) ou curupira e caipora (Arapó-Paco) dão conta da parte sobrenatural da aventura. Shiko também situa pela primeira vez a história. Sempre soubemos que o Piteco era um "homem das cavernas" tipicamente brasileiro, mas pela primeira vez descobrimos por onde morou. A Pedra do Ingá, que da título a aventura realmente existe. Fica na cidade de Ingpa no agreste da Paraíba, realmente tem símbolos misteriosos esculpidos por uma civilização perdida.

Temos ainda vislumbres de como a sociedade de Lem é organizada internamente, sua relação com outros povos, e sua história. Entre os dilemas dos indivíduos único realmente trabalhado é a relutância do caçador Piteco em se encaixar na vida cultivadora de sua aldeia. É a mudança em Thuga que se destaca. Antes apenas uma mulher doce e obcecada apaixonada por Piteco, em uma luta constante para leva-lo ao altar, agora a moça é a guia de seu povo, cheia de sabedoria e serenidade. Ogra também está diferente. Melhor lutadora da aldeia, e nem de longe feia ou masculinizada, sua presença reforça a sugestão de que este povo valoriza a força e a sabedoria das mulheres.

Por outro lado, as muitas diferenças, se distanciam bastante das versões originais. O que pode incomodar aqueles com uma conexão maior com o material original. Particularmente, acredito que estas mudanças são necessárias para adaptar o universo para o formato, e temática atuais, além de fornecer mais estofo para a aventura. Já a mudança no visual, oferece o desafio interessante de reconhecer características marcantes dos personagens em um novo design, como o cabelo e barbas únicos do piteco, e as curvas mais voluptuosas de Thuga.

E já que estamos falando do visual, as páginas trazem cores fortes e e traço firme, para construir um cenário rico em detalhes. Não é incomum diminuir o ritmo da leitura para observar com mais detalhes as paisagens, criaturas e principalmente os adornos que diferenciam as tribos. As passagens dramáticas acertam em usar a escuridão da noite e a luz do fogo, para criar o tom para cada sequencia, seja tensão e mistério, ou mesmo a melancolia da necessidade de abandonar o lar no início da história.

Para completar o pacote, a seca do rio que permitia a vida na Pedra do Ingá, traz uma série de temas atuais e comuns ao nordeste do país, como seca e migração. A cooperação entre povos para tornar a vida de todos melhor também é um dos temas embutidos nesta aventura cheia de monstros e perigos.

Que o Piteco era brasileiro já sabíamos, mas em Ingá também descobrimos que ele tem uma cultura e história bastante ricas, as nossas. Shiko, apresenta isso através de uma jornada simples, mas extremamente rica em detalhes, tanto visuais como culturais, históricos e mitológicos. Mostrando homens-tigre e os povos de Lem e Ur, poderiam muito bem ter existido, e que suas "lendas", dariam origem a histórias incríveis, sobre as quais adoraria ouvir mais.

Piteco - Ingá
Shiko
Panini Comics
Read More

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Bacurau

sexta-feira, agosto 23, 2019 0
A parte complicada de se falar sobre o novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e tentar expressar a complexidade e importância da produção no cenário atual, sem atrapalhar o impacto que o desconhecimento sobre seu desenrolar causa no espectador desavisado. Ainda sim, vou tentar. Talvez usando um alerta de spoiler em algum momento.

Bacural é um pequeno povoado no sertão brasileiro onde eventos estranhos começam a ocorrer. À começar pelo seu desaparecimento dos mapas, passando por objetos voadores não identificados até a chegada de forasteiros incomuns.

Eventos incomuns à parte, seus moradores precisam lidar com problemas do cotidiano de muitos brasileiros, seca, falta de recursos, políticos corruptos e inaptos. E os primeiros minutos do filme apresentam exatamente isso, o cotidiano destes moradores, que criaram sua própria forma de lidar com as adversidades. Por isso inclusive, que não há protagonistas definidos, é Bacural o personagem principal. A vila inteira, com seus tipos únicos, e ao mesmo tempo tão familiares.

A professora, a prostituta, o professor, as crianças, o motorista do caminhão pipa, o cara do carro de som. Todos tipos bem brasileiros, que tem sua condição de "gente de verdade" ao invés de "personagens de um filme", reforçada pela escolha de atores menos conhecidos. Às exceções são Sônia Braga e Silverio Pereira, que conseguem se incluir acertadamente no quadro, tornando-se parte da comunidade apesar dos rostos familiares.

Enquanto, mostra o dia-a-dia do povoado, o roteiro joga pistas dos muitos caminhos que pode seguir. Criando um questionamento proposital no espectador: que história estamos vendo afinal? As premissa poderia levar à produção para os caminhos mais distintos, ficção-cientifica, drama, ação, terror, western. É apenas ao final da projeção que percebemos, que o longa usa um pouco de cada um destes gêneros, e de alguns outros também, para construir uma distopia crítica e catártica.

Aos poucos o mistério envolvendo o povoado, vai se desvendando, criando novos caminhos, possibilidades e interpretações. Esta complexa alegoria, na camada imediata critica a atemporal podridão humana. Aquela nossa vertente menos atraente, totalmente desprovida de empatia em prol dos próprios interesses. Em uma segunda camada, cria uma metáfora em menor escala para o cenário sócio-político do país e do mundo. E como estamos precisando deste tipo de análise atualmente!

Vale aqui mencionar, o foco na trama é localizado na região, mas os poucos vislumbres de fora, apresentam um futuro não muito distante, assustadoramente plausível. É inevitável não imaginar, o que mais há de errado com mundo, e querer descobrir mais.

De volta à trama principal, a trilha sonora traz canções eloquentes que tanto contextualizam, quanto analisam os momentos em que são inseridas. Enquanto a fotografia evoca a aridez e o calor da região. Assim, mesmo que o roteiro demore para revelar a verdadeira história, você é convidado a imergir naquele mundo. 


Quando começa a mostrar a que veio, o filme traz elementos de terror B, e suspense que precedem uma satisfatória e impressionante catarse. E esta, como bônus, ainda faz alusão à outras histórias de lutas genuinamente brasileiras. Uma revolução que nos faz invejar a ficção, e torcer para que a realidade a imite. E ainda quebra com expectativas e clichés, do cinema e da vida real, como a suposta hospitalidade brasileira, e ingenuidade do povo mais humilde.

Bacural não é um filme fácil, nem em ritmo, nem em tema. Alguns não conseguirão acompanhar o a velocidade propositalmente mais compassada de seu início. Outros podem não compreender completamente, ou aceitar os cometários críticos atirados na cara do espectador. Mas dificilmente alguém sairá indiferente da sala de cinema.

Bacurau
2019 - Brasil - 132min
Suspense, Ação


Read More

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Os novos Cavaleiros do Zodíaco e a representação de sua época

quarta-feira, agosto 21, 2019 0
Não. Não vou fazer crítica sobre a nova versão da Netflix para os Cavaleiros do Zodíaco. Ao menos, não uma analise tradicional. Mesmo porque até o momento, apenas metade da primeira temporada foi liberada. Entretanto, com estes seis episódios já é possível pensar sobre a série animada e sua relação com o público. Seus diferentes públicos.

Vale mencionar, eu fui público da animação exibida pela extinta rede Manchete na década de 1990. Viciada por um tempo, mas não o suficiente para ir além da versão para a TV, ou continuar acompanhando a saga ao longo dos anos. Em outras palavras, sou o público médio, e esta análise parte daí.

E por falar no público da década de 90, uma coisa é bem clara na nova versão: ela não é para você. E nem precisava ser, afinal o "seu Cavaleiros", lançado na década de 1980 (no Brasil anos mais tarde), vai continuar a existir. A animação é para a molecada de hoje em dia, com o ritmo apropriado para estes pequenos espectadores acostumados coma velocidade do youtube.

Dito isso, são visíveis as mudanças para se adaptar não apenas ao novo público, mas também ao novos tempos. Assim, as batalhas são muito mais curtas, e menos sangrentas. A duração reduzida evita que os pequenos se desinteressem. O que infelizmente acarreta em uma perda na construção da relação entre personagens. Em outras palavas, o quarteto principal passa de desconhecidos à melhores amigos da vida, em um estalar de dedos. 

Orelhas estão à salvo nesse anime
Já a ausência de violência se encaixa com a era do politicamente correto e a preocupação de não traumatizar ou influenciar erroneamente as crianças. Embora eu mesmo não tenha ficado traumatizada, ou violenta assistindo à sanguinolência de outros tempos. Mas isso é uma discussão mais complexa, que vou deixar para outro momento. Por hora basta dizer, é um desenho com as características de obras infantis de 2019.

Falando em discussões complexas, nunca tinha pensado nisso, mas não é que Cavaleiro do Zodíaco era um anime com bastante diversidade para sua época? Seus guerreiros vinham de todas as partes do mundo, e até tinham algumas mulheres, embora o elenco principal fosse majoritariamente nipônico, e a única mulher nele fosse literalmente a donzela em perigo. - Nunca entendi, porque Saori não podia fazer mais, já que era uma deusa. Talvez não tenha me aprofundado o suficiente. - Para corrigir isso, a versão nova resolveu transformar um de seus protagonistas em mulher. Ótima ideia, escolha preguiçosa!

Shun já era considerado o "mais afeminado" do grupo, e usa rosa. A escolha dele passa mensagem de que meninos, não podem ser sensíveis, pacifistas, ou usar rosa! Uma escolha mais corajosa, mesmo que clichê, seria assumir a homossexualidade dele. Ainda cairia na caricatura do "gay usando rosa", mas traria um novo ponto de discussão para mentes jovens. Ao menos a jovem tem mais atitude (leia-se é menos chorona) que sua versão masculina. Transformar outro personagem em mulher, ou ainda dar mais ação à Saori também seriam escolhas mais interessantes.

Uma mudança menos bem intencionada, e mais pragmática é a criação de um vilão inédito. Vander Guraad, cria um antagonismo mais palatável até para os muito pequenos, e garante a inclusão de guardas, armas de fogo, helicópteros e explosões. Afinal a série é produto da parceria entre a Toei Animation e a Netflix, e esta última quer torná-lo mais atraente para os espectadores "estadunidenses". Ver os cavaleiros lutando contra soldados e helicópteros é esquisito, e rouba tempo das dramáticas lutas corpo a corpo. Mas a presença de Guraad, já trouxe mudanças interessantes para a origem de Seya, e pode trazer boas novidades para a trama, como um embate entre a humanidade e os deuses.

Observando o que foi liberado até aqui, o novo Cavaleiros do Zodiaco, é uma releitura eficiente em adaptar o universo para o público infantil atual, sem deixar de lado o mangá e o anime. Mas não precisa ficar triste pequeno nerd com três décadas ou mais de vida, você ainda é bem muito bem vindo. E algumas coisas não mudaram. A perseverança hercúlea, a amizade celebrada em frases dramáticas e meio bregas, e até o CGI parece apenas atualizar os traços e armaduras já conhecidos para sua estética. E claro, tem as vozes originais brasileiras! A maioria dos dubladores que imortalizou seus golpes favoritos em frases de efeito estão de volta. Porque a Netflix não é besta de tentar mudar!

Cavaleiros do Zodíaco sempre foi aquela mistura maluca de constelações, signos do zodíaco, mitologia grega, cavaleiros medievais, lutas de gladiadores e tradições japonesas, que curiosamente não apenas funcionava, mas ampliava nossos horizontes. As referências estão misturadas e alteradas, mas o nosso primeiro contato com muitas delas foi ali. Agora a molecada de hoje em dia pode ter a mesma curiosa experiência "miscelânica", enquanto os mais velhos podem lhes fazer companhia e ter uma dose rápida e divertida da tão estimada nostalgia.

Leia também a crítica de Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário
Read More

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Biblioteca de Almas

segunda-feira, agosto 19, 2019 0

Sobre o que trata Mapa dos Dias? Esse foi meu pensamento imediato ao terminar a leitura de Biblioteca de Almas. O terceiro livro da série O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, termina de forma satisfatória a aventura de Jacob no mundo peculiar. É claro, como as duas sequencias (uma já lançada, outra programada para 2020) provam, as histórias no universo de Ransom Riggs estão longe de acabar.
Assim como Cidade dos Etéreos, este livro continua exatamente do ponto onde a aventura anterior parou. Jacob, Emma e Addison estão encurralados por um etéreo em uma estação de metrô do século XXI, enquanto seus amigos são levados por seus inimigos. A busca pelos peculiares e ymbrynes sequestrados leva o trio a uma nova fenda, o Recanto do Demônio. Lá, Jacob começa a aprimorar suas habilidades, ao mesmo tempo que as verdadeiras intenções dos Acólitos aos poucos são reveladas.

Focado em Jacob e Emma, esta terceira aventura mantém o tom frenético da correria em que as crianças se envolveram anteriormente, mas resume a maior parde jornada à uma única fenda. O que não significa que a expansão do universo peculiar tenha sido reduzida. É no Recanto do Demônio, que temos dimensão da vida destas pessoas com habilidades, longe da proteção das ymbrynes. Exploração, miséria e vício, de peculiares por peculiares estão entre os temas, deste volume. Mostrando que às vezes não se está seguro nem mesmo entre seus semelhantes.

Para compor este cenário, uma gama de personagens novos, se unem ou enfrentam a dupla protagonista, conforme a trama avança. Entre os destaques estão o ambíguo barqueiro Sharon (uma curiosa referencia à Caronte), e a primeira aparição de Bentham, personagem que é apresentado no primeiro livro como aquele que supostamente criou os etéreos. Mas as descrições param por aqui, para evitar spoilers.

A redução de personagens, e consequentemente de poderes e recursos disponíveis, é uma escolha acertada para aumentar ainda mais a urgência e o perigo. Aquele curioso trabalho em equipe estilo X-Men é deixado de lado. O que também proporciona a desculpa perfeita para o protagonista evoluir como pessoa, e também aprimorar e descobrir mais sobre suas habilidades. O amadurecimento de Jacob é o grande arco deste livro. A tal biblioteca do título por sua vez, é o mote que move trama e personagens, revelando segredos e a mitologia deste universo.

Apesar do perigo crescente, e da grande variedade de inimigos, Riggs elimina poucos personagens. Quando o faz, as perdas acontecem fora de cena, dando margem à possibilidade de estas não serem definitivas. Infelizmente, quando percebemos esta tendência, nosso receio pelo bem estar dos personagens diminui. Não ao ponto de nos interessarmos, mas diminuindo a tensão nos momentos limites, e consequentemente a sensação de triunfo na superação deles.

Ainda sim, a jornada é criativa e difícil de perver. Cheia de reviravoltas e escolhas inteligentes para explorar ao máximo seus personagens e habilidades. É vale mencionar, ainda existe o problema inerente à histórias com viagens no tempo: se analisarmos demais, em algum momento para de fazer sentido. Especialmente quanto apresentam o conceito de "fendas dentro de fendas". Particularmente, eu não me pedi, e até fiquei curiosa com suas aplicações futurosa. Mas acredito que a complicação pode afastar alguns.

O desfecho é o primeiro da franquia a não deixar um grande gancho para os próximos volumes. Trazendo a sensação que de talvez a jornada dos peculiares tenham sido pensada como uma trilogia em algum momento. E e este livro encerra a primeira incursão do protagonista neste universo, mas não fecha as portas deste mundo. Há ainda espaço para contar novas histórias, e explorar outros aspectos da vida peculiar. Acredito que seja este o caminho que os volumes posteriores abordam.

A linguagem é simples, direta e objetiva de Riggs, que torna a leitura agradável e ágil se mantém. Assim como as curiosas fotografias antigas que oferecem apoio a narrativa. Não que aventura precise de ajuda para se sustentar, o trama está cada vez mais independente delas. Em outras palavras, não fosse um livro ilustrado, divertiria tanto quanto. As imagens criam apenas um charme extra e mantém a tradição da franquia.

Divertido e criativo, Biblioteca de Almas encerra de forma mais que satisfatória a saga iniciada em O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares. Mas curiosamente não é seu fim. E não precisa ser. Esta primeira trilogia pode ser muito bem apena a primeira grande aventura de um universo rico e cheio de mensagens. A maior delas aceitar e valorizar as diferenças. Se Riggs, mantiver este tom, estilo e criatividade não faltarão histórias peculiares a se contar.

Biblioteca de Almas (Library of Souls)
Ransom Riggs
Intrínseca


Leia as críticas dos livros anteriores O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares e Cidade dos Etéreos. Tem também resenha do filme de Tim Burton baseado na franquia O Lar das Crianças Peculiares, e uma comparação entre o original e a adaptação cinematográfica na série Livro vs Filme.
Read More

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

The Handmaid’s Tale - 3ª temporada

sexta-feira, agosto 16, 2019 0
Mais longa, a segunda temporada de The Handmaid’s Tale expandiu o universo de Gilead para além das experiências de June (Elisabeth Moss), e mostrou que existem muitas histórias a serem contadas. O terceiro ano entretanto, escolheu focar e desenvolver melhor os personagens que já conhecemos, naquele que talvez sejam o primeiro passo para a construção do desfecho da série.

June e Serena (Yvonne Strahovski) precisam lidar com as com sequencias de seu ousado ato em benefício da filha que compartilham. E o fazem separadas de formas completamente distintas. Outro que precisa lidar com o "sequestro" da bebê Nicolle, a consequente perda de status no regime que este causa, e o distanciamento da esposa é o comandante Waterford. Focada neste trio e principalmente em June. São poucas as histórias de coadjuvantes nesta temporada, e a maioria deles personagens que já vinham sendo trabalhados anteriormente.

Estas exceções são os membros da casa Lawrence. Josef (Bradley Whitford), o comandante responsável pela criação do sistema de castas em Gilead, sua esposa de constituição frágil (Julie Dretzin), fornecem uma abordagem bastante diferente da casa regida pelos Waterford. Aqui a autoridade em questão tem total ciência do mundo cruel que ajudou a criar e das privações dele. Ao longo da temporada também vão demostrar remorso, e perceber a total falta de controle sobre seu monstro.

São as empregadas da residência Lawrence, Beth e Sienna (Kristen Gutoskie e Sugenja Sri), que vão prover os poucos vislumbres da misteriosa rede das Martas. Uma abordagem curta e insuficiente, já que o roteiro prefere inserir June eventualmente neste contexto, ao invés de dar voz a uma nova personagem, como aconteceu anteriormente com Eden como nova esposa, e Emily nas colônicas.

E por falar na personagem de Alexis Bledel, Emily tem um começo promissor, mas termina a temporada esquecida pelo roteiro. Deixando a sensação de que ainda há muito o que mostrar sobre sua readaptação ao mundo "normal". Ficou também a dúvida do porque a moça não serve de fonte de informação para o combate ao regime, já que ela tem conhecimento tanto sobre o dia-a-dia das famílias abastadas, quanto dos campos de concentração. Sua história poderia, e talvez ainda seja, usada como grito de socorro e resistência.

Menos frequentes também são os tradicionais flashbacks, que mostra a vida antes e durante mudança para o regime. O único realmente relevante, traz um pouco da jornada de Tia Lydia (Ann Dowd). Embora, na humilde opinião desta blogueira que vos escreve, uma motivação levemente rasa e até um pouco machista, transformou a personagem naquela que conhecemos.

De volta àqueles que tem maior desenvolvimento, Serena e Fred seguem seu caminho separados da protagonista. Com o olhar da esposa em foco, acompanhamos sua conturbada relação marital, enquanto lidam com a burocracia para reaver seu bebê. Sempre com alguns rodeios, e oscilações já conhecidas da personagem de Strahovski, mas com um desenvolvimento repleto de implicações para ambos.

Mas é O Conto da Aia, que estamos ouvindo, mas especificamente de June. A entrega na interpretação de Moss, mantém a intensidade dos anos anterior e a amplia conforme a personagem alcança limites insustentáveis de tensão e até sanidade. Se por um lado, o foco reforçado em June, oferece espaço para sua interprete entregar excelentes atuações, por outro obriga o roteiro a escolher caminhos que começam a desafiar sua suspensão de descrença. Em outras palavras, após todos os eventos catastróficos relacionados à moça até então, é difícil crer que ela sempre saia relativamente ilesa das situações. No segundo ano, esta "proteção do roteiro" fora justificada pela gravidez, agora outras desculpas não tão sutis são feitas. O que não significa que a moça não sofra as torturas de sua posição, sofre e muito. Apenas nos faz questionar, o porque dela ainda não ter sido descartada por dar tanto trabalho.

A qualidade técnica digna de cinema, que usa de forma inteligente, fotografia, esquadramentos e até as cores de cenários e figurinos, para passar a mensagens e sentimentos além do que é simplesmente dito em cena, continua presente. Criando uma quantidade incrível, até exagerada em alguns momentos, de takes icônicos. Daqueles que dá pra "printar" a tela e trasnformar em um quadro, tão rico em mensagens e interpretações quanto belo.

O ritmo da narrativa é o mesmo constante e sem pressa adotado no primeiro ano, equilibrando melhor os acontecimentos ao longo dos treze episódios. Apesar da sensação de descarte de alguns personagens, Moira (Samira Wiley) e Luke (O-T Fagbenle), por exemplo, parecem estar presentes apenas para reagir ao que acontece em Gilead, seus arcos próprios continuam praticamente no mesmo estágio que foram deixados na temporada anterior. Já Nick (Max Minghella), é praticamente abandonado pelo roteiro. O que não significa que seus desenvolvimentos foram interrompidos definitivamente, a esperança que é sejam reavivados conforme a história de Gilead evolui.

Sim, a história de Gilead parece estar evoluindo para um desfecho, ou ao menos para um embate, com o sentimento de revolta aumentando, assim como mobilização dentro e fora do regime para derrubá-lo. Se rumo será mantido na já confirmada quarta temporada, não podemos afirmar. Posso apenas dizer, que é hora sim da série encaminhar-se para o fim, evitando o desgaste da história e suas discussões.

Desde seu segundo ano The Handmaid’s Tale, perdeu a vantagem do ineditismo, que acertou o público de surpresa como um soco no estômago e trouxe algumas discussões quanto ao uso da violência no programa. Não acho que a tortura tenha sido gratuita em nenhum momento, ainda sim, esta temporada parece preocupada em equilibrar melhor seu uso. Sugerir mais, mostrar menos. Afinal já sabemos bem o quão cruel é este mundo. E caso haja dúvida, os bem posicionados pensamentos de June estão lá para relembrarmos.

The Handmaid’s Tale está começando a sofrer o desgaste natural de toda série com muitas temporadas, e foco em apenas uma protagonista. A série não está ruim, mas seu impacto imediato começa a diminuir. O desgaste pode ser remediado, com um roteiro bem construído que sabe onde pretende chegar. É isso que esperamos das próximas temporadas. Afinal, os temas continuam extremamente relevantes, e a forma com que alcança o público e o faz pensar é o que a sociedade atual precisa. E claro, a qualidade técnica impecável, e as excelentes atuações, completam o pacote de uma excelente série.

The Handmaid’s Tale é uma obra da plataforma de streaming HULU, no Brasil ela é exibida pelo Paramount Channel, e suas duas primeiras temporadas estão disponíveis no Globo Play.

Leia as críticas da primeira e segunda temporadas.
Read More

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Missão no Mar Vermelho

quarta-feira, agosto 14, 2019 0
O texto contextualizador que aparece logo no início de Missão no Mar Vermelho, é mostrado por pouquíssimos segundos. Tão rápido que cheguei ao ponto de voltar o trecho e pausa-lo para poder ler. É com esta contextualização fraca que a produção segue ao longo de suas horas de uma história inspirada por um fato.

É 1979 e a Mossad, agência de inteligência israelense tem a missão resgatar os judeus etíopes refugiados no Sudão e levá-los para Israel. Ari Kidron (Chris Evans) tem a mirabolante ideia de administrar um resort de mergulho na região como fachada para a missão.

Entre um resgate mirabolante digno do Capitão América, e uma longa e torturante caminhada de refugiados Missão no Mar Vermelho, começa bem ao indicar que mostraria a jornada de um grupo perseguido em busca de sobrevivência. Mas bastam alguns minutos, para percebemos que a tocante cena da travessia do rio fora um acerto acidental de uma produção que não descobriu que tipo de história pretende ou poderia ser.

Basta reparar como Kidron convoca seus "especialistas" logo após a criação da missão no hotel. Em uma montagem que lembra a seleção de um time em um filme de roubo como Onze Homens e um Segredo. Entretanto, essa seleção à dedo, nunca é justificada já que não sabemos muito além do nome destas pessoas, e suas atividades em relação à missão geralmente se limitam a conduzir caminhões, ou administrar um hotel. Mesmo os conflitos entre eles, se limitam a todos discordarem do personagem de Evans, mas mesmo assim obedecê-lo.

E por falar no Ari Kidron, é ele o herói da história, em todos os sentidos da palavra. Seu arco inclui um passado como refugiado e o distanciamento da família por estar sempre trabalhando, ambos apresentados de forma superficial. Além da determinação quase sobre humana para salvar pessoas, por vezes, irresponsável, ególatra e contraditória. Como nos momentos em que tenta convencer Kabede (Michael Kenneth Williams), que este já fizera o suficiente, apenas para não aceitar a mesma lógica quanto esta é imposta a ele mesmo.

Ainda sim, não é o tratamento raso dado ao seu protagonista que chama a atenção na produção, mas sim a escolha dele como único olhar sobre a história. Repetindo a fórmula já altamente criticada do salvador branco, sem mostrar. Aos negros e pobres que "precisam" da boa vontade dos brancos, não é dada a voz que merecem, que ao menos apontaria a importância de seu resgate, como povo e cultura. À exceção de Kabede, que aparece e desaparece conforme a necessidade do roteiro, e de uma única sequência em que uma mulher aponta suas dificuldades como refugiada, a maioria dos resgatados é de uma massa sem rosto. Não satisfeitos com o salvamento de brancos israelenses, a produção estadunidense encontra uma desculpa para incluir a CIA no roteiro.

E por falar no roteiro, a alternância de tons continua por toda projeção. Ora com momentos mais cômicos, como quando a equipe percebe que o hotel de fachada, vai precisar funcionar de verdade; Ora mais tensos com a vida de centenas de pessoas em risco. Mas a leveza dos momentos de humor, atrapalham a tensão da construção do perigo iminente, esvaziando os riscos que só são realmente sentidos quando deixam de ser apenas uma probabilidade. É o ataque surpresa, ou os confrontos com o Colonel Abdel Ahmed (Chris Chalk). O personagem de Chris Chalk inclusive, é a personificação do perigo de serem desmascarados, embora não fosse o único que pudesse fazê-lo. Sua composição exagerada, está no limite da caricatura de vilão, é apenas pela violência em cena, e pelo conhecimento da parcial veracidade da história que funciona.

Sem impressionar em seus aspectos técnicos, reconstrução de época, fotografia e trilha sonora entregam apenas o que a trama precisa. Já o elenco que conta também com Michiel Huisman, Alex Hassell, Haley Bennett, Alessandro Nivola, Greg Kinnear e Ben Kingsley, entrega boas atuações dentro do pouco que o roteiro lhes permite trabalhar. São Evans e Williams quem tem mais material para trabalhar. O primeiro mantém a postura de herói que já conhecemos dos filmes da Marvel, enquanto o segundo é quem melhor representa toda a carga dramática da situação dos refugiados.

Nessa mistura desencontrada de história real, drama, espionagem, e filme de equipe, há ainda tempo para desnecessárias nudez e decotes. Mas não para contextualizar o espectador, que não deveria ser obrigado a ter conhecimento prévio do caso. O resort fachada para a missão humanitária de resgate realmente existiu, e funcionou por cerca de quatro anos. Nomes, eventos e circunstancias não são as mesmas apresentadas no longa. A produção assume que é apenas inspirada, não baseada em fatos, mas a sequência de créditos com imagens da missão real, deixa claro que o filme quer ser referência sobre o fato.

Inspirado por um evento real e complexo, Missão no Mar Vermelho não decide que tipo de filme quer ser. Uma produção de espionagem curiosa, ou um drama humano ainda frequente e relevante nos dias de hoje. No final, torna-se apenas uma curiosidade que desperdiça temas e oportunidades, enquanto pouco oferece de informação ao espectador, seja da versão original da história, ou mesmo de sua recriação romanceada.

Missão no Mar Vermelho (The Red Sea Diving Resort)
2019 - EUA - 129min
Ação, Drama

Read More

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Era uma Vez em... Hollywood

segunda-feira, agosto 12, 2019 0
Se você conhece um pouco das histórias de Hollywood, é provável que você imagine onde nono filme de Quentin Tarantino pretende chegar, ao perceber que Margot Robbie dá vida a Sharon Tate, atriz e esposa de Roman Polanski, em 1969. É provável também que esteja enganado quanto à este destino. Certamente, você será incapaz de deduzir o caminho que a história seguirá até la. Em Era uma Vez em... Hollywood o diretor novamente apresenta a sua visão (e versão) de uma época e lugar específicos.

Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator decadente, em constante tentativa de resgatar sua carreira, sempre acompanhado de seu dublê/amigo/faz tudo Cliff Booth (Brad Pitt). A dupla fictícia transita entre figuras reais da indústria cinematográfica da época. Ao mesmo tempo, temos um vislumbre da vida de seus novos vizinhos, o diretor Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e sua esposa a bela Sharon Tate.

Caso você não seja conhecedor de histórias hollywoodianas, ou mesmo de crimes famosos, eis uma informação que não é crucial, mas ajuda bastante na experiência do filme em questão: naquele ano Tate e amigos foram assassinados pela "Família Manson", uma seita comandada por Charles Manson. E sim, o roteiro conduz as histórias de Dalton, Cliff e Tate para convergirem na noite do crime, em 09 de agosto de 1969. Mas o caminho até lá é longo e pouco convencional.

Assim como em seu longa anterior, Os Oito Odiados, Tarantino não tem receio de gastar o tempo que deseja para apresentar seus protagonista, e principalmente a época em que vivem. Assim, Dalton e Rick passam duas das três horas de projeção, dirigindo por Los Ângeles, e interagindo com figuras reais e fictícias do cinema. Um prato cheio para a profusão de referências cinematográficas e participações especiais. A lista de pontas de luxo traz nomes como, Dakota Fanning, Luke Perry, Damian Lewis, Lena Dunham, entre outros.

Entretanto, esse passeio proposital pela Hollywood dos anos 60, em alguns momentos soa arrastado, ou mesmo perdido. Por mais interessantes e bem produzidas que sejam as passagens, muitas das vezes fica a dúvida quanto ao seu papel na construção do terceiro e fatídico ato. A sensação é que a produção é construída por uma coletânea de boas ideias, não necessariamente conectadas com suposto fio condutor da trama. Algumas destas idéias inclusive, soam resgatadas após ficarem de fora de filmes anteriores do diretor (lança chamas em Bastardos Inglórios, quem não adoraria essa imagem?). São a curiosidade, o esmero da produção e o excelente elenco, que compensam este problema de ritmo do roteiro.

DiCaprio parece se divertir ao criar o astro mimado, que até tenta ser um bom ator, mas está fadado a decadência. Sua deliciosa passagem com a atriz-mirim Trudi (Julia Butters) apresenta com perfeição todo personagem. Já Pitt encarna um cara aparentemente legal, mas que parece ter algo de errado sob a superfície. Esperar por uma revelação ou mesmo uma explosão de Cliff, é inevitável. A dinâmica entre os dois, é acertada, inteligente e divertida. Com poucas falas Robbie traz uma Sharon Tate, doce, vivaz e feliz. A produção cria uma versão idealizada da atriz, uma persona de luz, que enfatiza ainda mais a crueldade seu real destino.

Muitos encontros, desencontros e passeios de tarde mais tarde, o roteiro finalmente alcança a fatídica noite das ações da Família Manson, para o tradicional desfecho catártico do diretor. Esta catarse no entanto, não é tão libertadora quanto a longa preparação permitiria. É até contida, dentro dos parâmetros tartarinescos. Ainda sim, é eficiente, reúne as tramas de Dalton, Cliff e Tate de forma coerente e curiosa.

Era uma Vez em... Hollywood é uma versão idealizada da Hollywood dos anos 60. Uma recriação própria de um momento específico, cheio de referências e críticas à industria cinematográficas. Soma-se aí, uma profusão de pés femininos, e encontramos uma reunião dos fetiches e amores de Tarantino. Alguns conseguimos compartilhar com ele, outros nem tanto (sério que precisava filmar tanto, o bumbum das atrizes? Se era uma crítica, entendemos na primeira vez, obrigado!).

Uma ode ao cinema que o diretor admira, que pode explorar com liberdade e alguns excessos. Felizmente, mesmo em seus momentos mais arrastados, o faz com qualidade e paixão, que compensam a demora. E no final, acaba por entreter ao nos fazer segui-lo por este longo caminho, para um desfecho supostamente conhecido.

Era uma Vez em... Hollywood (Once Upon a Time ... in Hollywood)
2019 - EUA - 161min
Drama, Comédia

Read More

Post Top Ad