Agosto 2019 - Ah! E por falar nisso...

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Os novos Cavaleiros do Zodíaco e a representação de sua época

quarta-feira, agosto 21, 2019 0
Não. Não vou fazer crítica sobre a nova versão da Netflix para os Cavaleiros do Zodíaco. Ao menos, não uma analise tradicional. Mesmo porque até o momento, apenas metade da primeira temporada foi liberada. Entretanto, com estes seis episódios já é possível pensar sobre a série animada e sua relação com o público. Seus diferentes públicos.

Vale mencionar, eu fui público da animação exibida pela extinta rede Manchete na década de 1990. Viciada por um tempo, mas não o suficiente para ir além da versão para a TV, ou continuar acompanhando a saga ao longo dos anos. Em outras palavras, sou o público médio, e esta análise parte daí.

E por falar no público da década de 90, uma coisa é bem clara na nova versão: ela não é para você. E nem precisava ser, afinal o "seu Cavaleiros", lançado na década de 1980 (no Brasil anos mais tarde), vai continuar a existir. A animação é para a molecada de hoje em dia, com o ritmo apropriado para estes pequenos espectadores acostumados coma velocidade do youtube.

Dito isso, são visíveis as mudanças para se adaptar não apenas ao novo público, mas também ao novos tempos. Assim, as batalhas são muito mais curtas, e menos sangrentas. A duração reduzida evita que os pequenos se desinteressem. O que infelizmente acarreta em uma perda na construção da relação entre personagens. Em outras palavas, o quarteto principal passa de desconhecidos à melhores amigos da vida, em um estalar de dedos. 

Orelhas estão à salvo nesse anime
Já a ausência de violência se encaixa com a era do politicamente correto e a preocupação de não traumatizar ou influenciar erroneamente as crianças. Embora eu mesmo não tenha ficado traumatizada, ou violenta assistindo à sanguinolência de outros tempos. Mas isso é uma discussão mais complexa, que vou deixar para outro momento. Por hora basta dizer, é um desenho com as características de obras infantis de 2019.

Falando em discussões complexas, nunca tinha pensado nisso, mas não é que Cavaleiro do Zodíaco era um anime com bastante diversidade para sua época? Seus guerreiros vinham de todas as partes do mundo, e até tinham algumas mulheres, embora o elenco principal fosse majoritariamente nipônico, e a única mulher nele fosse literalmente a donzela em perigo. - Nunca entendi, porque Saori não podia fazer mais, já que era uma deusa. Talvez não tenha me aprofundado o suficiente. - Para corrigir isso, a versão nova resolveu transformar um de seus protagonistas em mulher. Ótima ideia, escolha preguiçosa!

Shun já era considerado o "mais afeminado" do grupo, e usa rosa. A escolha dele passa mensagem de que meninos, não podem ser sensíveis, pacifistas, ou usar rosa! Uma escolha mais corajosa, mesmo que clichê, seria assumir a homossexualidade dele. Ainda cairia na caricatura do "gay usando rosa", mas traria um novo ponto de discussão para mentes jovens. Ao menos a jovem tem mais atitude (leia-se é menos chorona) que sua versão masculina. Transformar outro personagem em mulher, ou ainda dar mais ação à Saori também seriam escolhas mais interessantes.

Uma mudança menos bem intencionada, e mais pragmática é a criação de um vilão inédito. Vander Guraad, cria um antagonismo mais palatável até para os muito pequenos, e garante a inclusão de guardas, armas de fogo, helicópteros e explosões. Afinal a série é produto da parceria entre a Toei Animation e a Netflix, e esta última quer torná-lo mais atraente para os espectadores "estadunidenses". Ver os cavaleiros lutando contra soldados e helicópteros é esquisito, e rouba tempo das dramáticas lutas corpo a corpo. Mas a presença de Guraad, já trouxe mudanças interessantes para a origem de Seya, e pode trazer boas novidades para a trama, como um embate entre a humanidade e os deuses.

Observando o que foi liberado até aqui, o novo Cavaleiros do Zodiaco, é uma releitura eficiente em adaptar o universo para o público infantil atual, sem deixar de lado o mangá e o anime. Mas não precisa ficar triste pequeno nerd com três décadas ou mais de vida, você ainda é bem muito bem vindo. E algumas coisas não mudaram. A perseverança hercúlea, a amizade celebrada em frases dramáticas e meio bregas, e até o CGI parece apenas atualizar os traços e armaduras já conhecidos para sua estética. E claro, tem as vozes originais brasileiras! A maioria dos dubladores que imortalizou seus golpes favoritos em frases de efeito estão de volta. Porque a Netflix não é besta de tentar mudar!

Cavaleiros do Zodíaco sempre foi aquela mistura maluca de constelações, signos do zodíaco, mitologia grega, cavaleiros medievais, lutas de gladiadores e tradições japonesas, que curiosamente não apenas funcionava, mas ampliava nossos horizontes. As referências estão misturadas e alteradas, mas o nosso primeiro contato com muitas delas foi ali. Agora a molecada de hoje em dia pode ter a mesma curiosa experiência "miscelânica", enquanto os mais velhos podem lhes fazer companhia e ter uma dose rápida e divertida da tão estimada nostalgia.

Leia também a crítica de Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário
Read More

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Biblioteca de Almas

segunda-feira, agosto 19, 2019 0

Sobre o que trata Mapa dos Dias? Esse foi meu pensamento imediato ao terminar a leitura de Biblioteca de Almas. O terceiro livro da série O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, termina de forma satisfatória a aventura de Jacob no mundo peculiar. É claro, como as duas sequencias (uma já lançada, outra programada para 2020) provam, as histórias no universo de Ransom Riggs estão longe de acabar.
Assim como Cidade dos Etéreos, este livro continua exatamente do ponto onde a aventura anterior parou. Jacob, Emma e Addison estão encurralados por um etéreo em uma estação de metrô do século XXI, enquanto seus amigos são levados por seus inimigos. A busca pelos peculiares e ymbrynes sequestrados leva o trio a uma nova fenda, o Recanto do Demônio. Lá, Jacob começa a aprimorar suas habilidades, ao mesmo tempo que as verdadeiras intenções dos Acólitos aos poucos são reveladas.

Focado em Jacob e Emma, esta terceira aventura mantém o tom frenético da correria em que as crianças se envolveram anteriormente, mas resume a maior parde jornada à uma única fenda. O que não significa que a expansão do universo peculiar tenha sido reduzida. É no Recanto do Demônio, que temos dimensão da vida destas pessoas com habilidades, longe da proteção das ymbrynes. Exploração, miséria e vício, de peculiares por peculiares estão entre os temas, deste volume. Mostrando que às vezes não se está seguro nem mesmo entre seus semelhantes.

Para compor este cenário, uma gama de personagens novos, se unem ou enfrentam a dupla protagonista, conforme a trama avança. Entre os destaques estão o ambíguo barqueiro Sharon (uma curiosa referencia à Caronte), e a primeira aparição de Bentham, personagem que é apresentado no primeiro livro como aquele que supostamente criou os etéreos. Mas as descrições param por aqui, para evitar spoilers.

A redução de personagens, e consequentemente de poderes e recursos disponíveis, é uma escolha acertada para aumentar ainda mais a urgência e o perigo. Aquele curioso trabalho em equipe estilo X-Men é deixado de lado. O que também proporciona a desculpa perfeita para o protagonista evoluir como pessoa, e também aprimorar e descobrir mais sobre suas habilidades. O amadurecimento de Jacob é o grande arco deste livro. A tal biblioteca do título por sua vez, é o mote que move trama e personagens, revelando segredos e a mitologia deste universo.

Apesar do perigo crescente, e da grande variedade de inimigos, Riggs elimina poucos personagens. Quando o faz, as perdas acontecem fora de cena, dando margem à possibilidade de estas não serem definitivas. Infelizmente, quando percebemos esta tendência, nosso receio pelo bem estar dos personagens diminui. Não ao ponto de nos interessarmos, mas diminuindo a tensão nos momentos limites, e consequentemente a sensação de triunfo na superação deles.

Ainda sim, a jornada é criativa e difícil de perver. Cheia de reviravoltas e escolhas inteligentes para explorar ao máximo seus personagens e habilidades. É vale mencionar, ainda existe o problema inerente à histórias com viagens no tempo: se analisarmos demais, em algum momento para de fazer sentido. Especialmente quanto apresentam o conceito de "fendas dentro de fendas". Particularmente, eu não me pedi, e até fiquei curiosa com suas aplicações futurosa. Mas acredito que a complicação pode afastar alguns.

O desfecho é o primeiro da franquia a não deixar um grande gancho para os próximos volumes. Trazendo a sensação que de talvez a jornada dos peculiares tenham sido pensada como uma trilogia em algum momento. E e este livro encerra a primeira incursão do protagonista neste universo, mas não fecha as portas deste mundo. Há ainda espaço para contar novas histórias, e explorar outros aspectos da vida peculiar. Acredito que seja este o caminho que os volumes posteriores abordam.

A linguagem é simples, direta e objetiva de Riggs, que torna a leitura agradável e ágil se mantém. Assim como as curiosas fotografias antigas que oferecem apoio a narrativa. Não que aventura precise de ajuda para se sustentar, o trama está cada vez mais independente delas. Em outras palavras, não fosse um livro ilustrado, divertiria tanto quanto. As imagens criam apenas um charme extra e mantém a tradição da franquia.

Divertido e criativo, Biblioteca de Almas encerra de forma mais que satisfatória a saga iniciada em O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares. Mas curiosamente não é seu fim. E não precisa ser. Esta primeira trilogia pode ser muito bem apena a primeira grande aventura de um universo rico e cheio de mensagens. A maior delas aceitar e valorizar as diferenças. Se Riggs, mantiver este tom, estilo e criatividade não faltarão histórias peculiares a se contar.

Biblioteca de Almas (Library of Souls)
Ransom Riggs
Intrínseca


Leia as críticas dos livros anteriores O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares e Cidade dos Etéreos. Tem também resenha do filme de Tim Burton baseado na franquia O Lar das Crianças Peculiares, e uma comparação entre o original e a adaptação cinematográfica na série Livro vs Filme.
Read More

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

The Handmaid’s Tale - 3ª temporada

sexta-feira, agosto 16, 2019 0
Mais longa, a segunda temporada de The Handmaid’s Tale expandiu o universo de Gilead para além das experiências de June (Elisabeth Moss), e mostrou que existem muitas histórias a serem contadas. O terceiro ano entretanto, escolheu focar e desenvolver melhor os personagens que já conhecemos, naquele que talvez sejam o primeiro passo para a construção do desfecho da série.

June e Serena (Yvonne Strahovski) precisam lidar com as com sequencias de seu ousado ato em benefício da filha que compartilham. E o fazem separadas de formas completamente distintas. Outro que precisa lidar com o "sequestro" da bebê Nicolle, a consequente perda de status no regime que este causa, e o distanciamento da esposa é o comandante Waterford. Focada neste trio e principalmente em June. São poucas as histórias de coadjuvantes nesta temporada, e a maioria deles personagens que já vinham sendo trabalhados anteriormente.

Estas exceções são os membros da casa Lawrence. Josef (Bradley Whitford), o comandante responsável pela criação do sistema de castas em Gilead, sua esposa de constituição frágil (Julie Dretzin), fornecem uma abordagem bastante diferente da casa regida pelos Waterford. Aqui a autoridade em questão tem total ciência do mundo cruel que ajudou a criar e das privações dele. Ao longo da temporada também vão demostrar remorso, e perceber a total falta de controle sobre seu monstro.

São as empregadas da residência Lawrence, Beth e Sienna (Kristen Gutoskie e Sugenja Sri), que vão prover os poucos vislumbres da misteriosa rede das Martas. Uma abordagem curta e insuficiente, já que o roteiro prefere inserir June eventualmente neste contexto, ao invés de dar voz a uma nova personagem, como aconteceu anteriormente com Eden como nova esposa, e Emily nas colônicas.

E por falar na personagem de Alexis Bledel, Emily tem um começo promissor, mas termina a temporada esquecida pelo roteiro. Deixando a sensação de que ainda há muito o que mostrar sobre sua readaptação ao mundo "normal". Ficou também a dúvida do porque a moça não serve de fonte de informação para o combate ao regime, já que ela tem conhecimento tanto sobre o dia-a-dia das famílias abastadas, quanto dos campos de concentração. Sua história poderia, e talvez ainda seja, usada como grito de socorro e resistência.

Menos frequentes também são os tradicionais flashbacks, que mostra a vida antes e durante mudança para o regime. O único realmente relevante, traz um pouco da jornada de Tia Lydia (Ann Dowd). Embora, na humilde opinião desta blogueira que vos escreve, uma motivação levemente rasa e até um pouco machista, transformou a personagem naquela que conhecemos.

De volta àqueles que tem maior desenvolvimento, Serena e Fred seguem seu caminho separados da protagonista. Com o olhar da esposa em foco, acompanhamos sua conturbada relação marital, enquanto lidam com a burocracia para reaver seu bebê. Sempre com alguns rodeios, e oscilações já conhecidas da personagem de Strahovski, mas com um desenvolvimento repleto de implicações para ambos.

Mas é O Conto da Aia, que estamos ouvindo, mas especificamente de June. A entrega na interpretação de Moss, mantém a intensidade dos anos anterior e a amplia conforme a personagem alcança limites insustentáveis de tensão e até sanidade. Se por um lado, o foco reforçado em June, oferece espaço para sua interprete entregar excelentes atuações, por outro obriga o roteiro a escolher caminhos que começam a desafiar sua suspensão de descrença. Em outras palavras, após todos os eventos catastróficos relacionados à moça até então, é difícil crer que ela sempre saia relativamente ilesa das situações. No segundo ano, esta "proteção do roteiro" fora justificada pela gravidez, agora outras desculpas não tão sutis são feitas. O que não significa que a moça não sofra as torturas de sua posição, sofre e muito. Apenas nos faz questionar, o porque dela ainda não ter sido descartada por dar tanto trabalho.

A qualidade técnica digna de cinema, que usa de forma inteligente, fotografia, esquadramentos e até as cores de cenários e figurinos, para passar a mensagens e sentimentos além do que é simplesmente dito em cena, continua presente. Criando uma quantidade incrível, até exagerada em alguns momentos, de takes icônicos. Daqueles que dá pra "printar" a tela e trasnformar em um quadro, tão rico em mensagens e interpretações quanto belo.

O ritmo da narrativa é o mesmo constante e sem pressa adotado no primeiro ano, equilibrando melhor os acontecimentos ao longo dos treze episódios. Apesar da sensação de descarte de alguns personagens, Moira (Samira Wiley) e Luke (O-T Fagbenle), por exemplo, parecem estar presentes apenas para reagir ao que acontece em Gilead, seus arcos próprios continuam praticamente no mesmo estágio que foram deixados na temporada anterior. Já Nick (Max Minghella), é praticamente abandonado pelo roteiro. O que não significa que seus desenvolvimentos foram interrompidos definitivamente, a esperança que é sejam reavivados conforme a história de Gilead evolui.

Sim, a história de Gilead parece estar evoluindo para um desfecho, ou ao menos para um embate, com o sentimento de revolta aumentando, assim como mobilização dentro e fora do regime para derrubá-lo. Se rumo será mantido na já confirmada quarta temporada, não podemos afirmar. Posso apenas dizer, que é hora sim da série encaminhar-se para o fim, evitando o desgaste da história e suas discussões.

Desde seu segundo ano The Handmaid’s Tale, perdeu a vantagem do ineditismo, que acertou o público de surpresa como um soco no estômago e trouxe algumas discussões quanto ao uso da violência no programa. Não acho que a tortura tenha sido gratuita em nenhum momento, ainda sim, esta temporada parece preocupada em equilibrar melhor seu uso. Sugerir mais, mostrar menos. Afinal já sabemos bem o quão cruel é este mundo. E caso haja dúvida, os bem posicionados pensamentos de June estão lá para relembrarmos.

The Handmaid’s Tale está começando a sofrer o desgaste natural de toda série com muitas temporadas, e foco em apenas uma protagonista. A série não está ruim, mas seu impacto imediato começa a diminuir. O desgaste pode ser remediado, com um roteiro bem construído que sabe onde pretende chegar. É isso que esperamos das próximas temporadas. Afinal, os temas continuam extremamente relevantes, e a forma com que alcança o público e o faz pensar é o que a sociedade atual precisa. E claro, a qualidade técnica impecável, e as excelentes atuações, completam o pacote de uma excelente série.

The Handmaid’s Tale é uma obra da plataforma de streaming HULU, no Brasil ela é exibida pelo Paramount Channel, e suas duas primeiras temporadas estão disponíveis no Globo Play.

Leia as críticas da primeira e segunda temporadas.
Read More

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Missão no Mar Vermelho

quarta-feira, agosto 14, 2019 0
O texto contextualizador que aparece logo no início de Missão no Mar Vermelho, é mostrado por pouquíssimos segundos. Tão rápido que cheguei ao ponto de voltar o trecho e pausa-lo para poder ler. É com esta contextualização fraca que a produção segue ao longo de suas horas de uma história inspirada por um fato.

É 1979 e a Mossad, agência de inteligência israelense tem a missão resgatar os judeus etíopes refugiados no Sudão e levá-los para Israel. Ari Kidron (Chris Evans) tem a mirabolante ideia de administrar um resort de mergulho na região como fachada para a missão.

Entre um resgate mirabolante digno do Capitão América, e uma longa e torturante caminhada de refugiados Missão no Mar Vermelho, começa bem ao indicar que mostraria a jornada de um grupo perseguido em busca de sobrevivência. Mas bastam alguns minutos, para percebemos que a tocante cena da travessia do rio fora um acerto acidental de uma produção que não descobriu que tipo de história pretende ou poderia ser.

Basta reparar como Kidron convoca seus "especialistas" logo após a criação da missão no hotel. Em uma montagem que lembra a seleção de um time em um filme de roubo como Onze Homens e um Segredo. Entretanto, essa seleção à dedo, nunca é justificada já que não sabemos muito além do nome destas pessoas, e suas atividades em relação à missão geralmente se limitam a conduzir caminhões, ou administrar um hotel. Mesmo os conflitos entre eles, se limitam a todos discordarem do personagem de Evans, mas mesmo assim obedecê-lo.

E por falar no Ari Kidron, é ele o herói da história, em todos os sentidos da palavra. Seu arco inclui um passado como refugiado e o distanciamento da família por estar sempre trabalhando, ambos apresentados de forma superficial. Além da determinação quase sobre humana para salvar pessoas, por vezes, irresponsável, ególatra e contraditória. Como nos momentos em que tenta convencer Kabede (Michael Kenneth Williams), que este já fizera o suficiente, apenas para não aceitar a mesma lógica quanto esta é imposta a ele mesmo.

Ainda sim, não é o tratamento raso dado ao seu protagonista que chama a atenção na produção, mas sim a escolha dele como único olhar sobre a história. Repetindo a fórmula já altamente criticada do salvador branco, sem mostrar. Aos negros e pobres que "precisam" da boa vontade dos brancos, não é dada a voz que merecem, que ao menos apontaria a importância de seu resgate, como povo e cultura. À exceção de Kabede, que aparece e desaparece conforme a necessidade do roteiro, e de uma única sequência em que uma mulher aponta suas dificuldades como refugiada, a maioria dos resgatados é de uma massa sem rosto. Não satisfeitos com o salvamento de brancos israelenses, a produção estadunidense encontra uma desculpa para incluir a CIA no roteiro.

E por falar no roteiro, a alternância de tons continua por toda projeção. Ora com momentos mais cômicos, como quando a equipe percebe que o hotel de fachada, vai precisar funcionar de verdade; Ora mais tensos com a vida de centenas de pessoas em risco. Mas a leveza dos momentos de humor, atrapalham a tensão da construção do perigo iminente, esvaziando os riscos que só são realmente sentidos quando deixam de ser apenas uma probabilidade. É o ataque surpresa, ou os confrontos com o Colonel Abdel Ahmed (Chris Chalk). O personagem de Chris Chalk inclusive, é a personificação do perigo de serem desmascarados, embora não fosse o único que pudesse fazê-lo. Sua composição exagerada, está no limite da caricatura de vilão, é apenas pela violência em cena, e pelo conhecimento da parcial veracidade da história que funciona.

Sem impressionar em seus aspectos técnicos, reconstrução de época, fotografia e trilha sonora entregam apenas o que a trama precisa. Já o elenco que conta também com Michiel Huisman, Alex Hassell, Haley Bennett, Alessandro Nivola, Greg Kinnear e Ben Kingsley, entrega boas atuações dentro do pouco que o roteiro lhes permite trabalhar. São Evans e Williams quem tem mais material para trabalhar. O primeiro mantém a postura de herói que já conhecemos dos filmes da Marvel, enquanto o segundo é quem melhor representa toda a carga dramática da situação dos refugiados.

Nessa mistura desencontrada de história real, drama, espionagem, e filme de equipe, há ainda tempo para desnecessárias nudez e decotes. Mas não para contextualizar o espectador, que não deveria ser obrigado a ter conhecimento prévio do caso. O resort fachada para a missão humanitária de resgate realmente existiu, e funcionou por cerca de quatro anos. Nomes, eventos e circunstancias não são as mesmas apresentadas no longa. A produção assume que é apenas inspirada, não baseada em fatos, mas a sequência de créditos com imagens da missão real, deixa claro que o filme quer ser referência sobre o fato.

Inspirado por um evento real e complexo, Missão no Mar Vermelho não decide que tipo de filme quer ser. Uma produção de espionagem curiosa, ou um drama humano ainda frequente e relevante nos dias de hoje. No final, torna-se apenas uma curiosidade que desperdiça temas e oportunidades, enquanto pouco oferece de informação ao espectador, seja da versão original da história, ou mesmo de sua recriação romanceada.

Missão no Mar Vermelho (The Red Sea Diving Resort)
2019 - EUA - 129min
Ação, Drama

Read More

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Era uma Vez em... Hollywood

segunda-feira, agosto 12, 2019 0
Se você conhece um pouco das histórias de Hollywood, é provável que você imagine onde nono filme de Quentin Tarantino pretende chegar, ao perceber que Margot Robbie dá vida a Sharon Tate, atriz e esposa de Roman Polanski, em 1969. É provável também que esteja enganado quanto à este destino. Certamente, você será incapaz de deduzir o caminho que a história seguirá até la. Em Era uma Vez em... Hollywood o diretor novamente apresenta a sua visão (e versão) de uma época e lugar específicos.

Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator decadente, em constante tentativa de resgatar sua carreira, sempre acompanhado de seu dublê/amigo/faz tudo Cliff Booth (Brad Pitt). A dupla fictícia transita entre figuras reais da indústria cinematográfica da época. Ao mesmo tempo, temos um vislumbre da vida de seus novos vizinhos, o diretor Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e sua esposa a bela Sharon Tate.

Caso você não seja conhecedor de histórias hollywoodianas, ou mesmo de crimes famosos, eis uma informação que não é crucial, mas ajuda bastante na experiência do filme em questão: naquele ano Tate e amigos foram assassinados pela "Família Manson", uma seita comandada por Charles Manson. E sim, o roteiro conduz as histórias de Dalton, Cliff e Tate para convergirem na noite do crime, em 09 de agosto de 1969. Mas o caminho até lá é longo e pouco convencional.

Assim como em seu longa anterior, Os Oito Odiados, Tarantino não tem receio de gastar o tempo que deseja para apresentar seus protagonista, e principalmente a época em que vivem. Assim, Dalton e Rick passam duas das três horas de projeção, dirigindo por Los Ângeles, e interagindo com figuras reais e fictícias do cinema. Um prato cheio para a profusão de referências cinematográficas e participações especiais. A lista de pontas de luxo traz nomes como, Dakota Fanning, Luke Perry, Damian Lewis, Lena Dunham, entre outros.

Entretanto, esse passeio proposital pela Hollywood dos anos 60, em alguns momentos soa arrastado, ou mesmo perdido. Por mais interessantes e bem produzidas que sejam as passagens, muitas das vezes fica a dúvida quanto ao seu papel na construção do terceiro e fatídico ato. A sensação é que a produção é construída por uma coletânea de boas ideias, não necessariamente conectadas com suposto fio condutor da trama. Algumas destas idéias inclusive, soam resgatadas após ficarem de fora de filmes anteriores do diretor (lança chamas em Bastardos Inglórios, quem não adoraria essa imagem?). São a curiosidade, o esmero da produção e o excelente elenco, que compensam este problema de ritmo do roteiro.

DiCaprio parece se divertir ao criar o astro mimado, que até tenta ser um bom ator, mas está fadado a decadência. Sua deliciosa passagem com a atriz-mirim Trudi (Julia Butters) apresenta com perfeição todo personagem. Já Pitt encarna um cara aparentemente legal, mas que parece ter algo de errado sob a superfície. Esperar por uma revelação ou mesmo uma explosão de Cliff, é inevitável. A dinâmica entre os dois, é acertada, inteligente e divertida. Com poucas falas Robbie traz uma Sharon Tate, doce, vivaz e feliz. A produção cria uma versão idealizada da atriz, uma persona de luz, que enfatiza ainda mais a crueldade seu real destino.

Muitos encontros, desencontros e passeios de tarde mais tarde, o roteiro finalmente alcança a fatídica noite das ações da Família Manson, para o tradicional desfecho catártico do diretor. Esta catarse no entanto, não é tão libertadora quanto a longa preparação permitiria. É até contida, dentro dos parâmetros tartarinescos. Ainda sim, é eficiente, reúne as tramas de Dalton, Cliff e Tate de forma coerente e curiosa.

Era uma Vez em... Hollywood é uma versão idealizada da Hollywood dos anos 60. Uma recriação própria de um momento específico, cheio de referências e críticas à industria cinematográficas. Soma-se aí, uma profusão de pés femininos, e encontramos uma reunião dos fetiches e amores de Tarantino. Alguns conseguimos compartilhar com ele, outros nem tanto (sério que precisava filmar tanto, o bumbum das atrizes? Se era uma crítica, entendemos na primeira vez, obrigado!).

Uma ode ao cinema que o diretor admira, que pode explorar com liberdade e alguns excessos. Felizmente, mesmo em seus momentos mais arrastados, o faz com qualidade e paixão, que compensam a demora. E no final, acaba por entreter ao nos fazer segui-lo por este longo caminho, para um desfecho supostamente conhecido.

Era uma Vez em... Hollywood (Once Upon a Time ... in Hollywood)
2019 - EUA - 161min
Drama, Comédia

Read More

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro

quinta-feira, agosto 08, 2019 0

Seres humanos gostam de sentir medo por diversão. Filmes de terror, montanhas-russas, esportes radicais, não faltam opções de riscos calculados para que exercitemos um de nossos instintos mais primitivos em segurança. Dito isso, devo ressaltar este fato não está restrito à idade, a criançada também curte se assustar de vez em quando, adolescentes mais ainda. E este é sem dúvida o público alvo de Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro. O que não significa que os mais velhos não vão tirar bom proveito desta adaptação da série de terror juvenil escrita por Alvin Schwartz.

É Halloween de 1968 na pacata cidade de Mill Valley quando um grupo de adolescentes resolve explorar o casarão assombrado da família Bellows. Lá eles encontram um livro repleto de histórias macabras que logo começam a se tornar realidade. Stella (Zoe Margaret Colletti), Ramón (Michael Garza), Auggie (Gabriel Rush) e Chuck (Gabriel Rush), precisam descobrir as origens efeitos do livro, ao mesmo tempo que tentam escapar de seus maiores medos que ganham vida através do artefato.

É através do livro assombrado que o roteiro conecta vários contos assustadores da trilogia de Schwartz, ao tornar os jovens o centro de cada um deles. Escolha acertada que evita que a produção soe episódica, ao abordar pequenas histórias completamente distintas umas das outras, em paralelo à trama do volume literário macabro. Não se tratam de tramas complexas, mas criativas e com ameaças que percorrem vários motes do gênero.

Fantasmas, entidades, criaturas, maldições, casas assombradas, cadáveres, insetos, vudu, malfeitores humanos, hospital psiquiátrico, perseguição em milharal, tem um pouquinho de tudo nesta produção dirigida por André Øvredal, com a produção de Guillermo del Toro. À primeira vista, esse excesso de elementos pode parecer falta de foco ou uma combinação de clichés, mas na verdade trata-se de um curioso catálogo. Uma grande vitrine das opções disponíveis ao gênero do terror, funcionando com uma espécie de apresentação para o público jovem que o filme tem como alvo.

Já a presença de del Toro, garante a estética dos seres, que trazem muito do estilo do diretor, mas também bebem nas ilustrações de Stephen Gammell, para as primeiras edições do livro. Apostando mais nos efeitos práticos, bem combinados com as poucas inserções em CGI, as criaturas aterrorizam e enojam por seu design bem pensado, sem precisar apelar excessivamente para vísceras e sangue. Uma pena que a fotografia escura, combinada com a necessidade patológica que personagens de filmes de terror tem de andar no escuro, atrapalhem um pouco a apreciação dos detalhes.

Com cada conto de terror devidamente calibrado e distribuído ao longo da projeção, cabe voltar os olhos para o conto maior que conecta todos. Focado na aspirante a escritora Stella, a trama relacionada ao livro é eficiente, tanto em conectar as histórias, quanto em abrir espaço para sequencias. Afinal o volume mostrado em cena, tem muitas histórias não contadas e páginas em branco, enquanto a trilogia literária mais de setenta contos.

Para os já iniciados no entanto, o roteiro pode soar simplista demais, já que apresenta bons conceitos, mas o explora apenas o necessário para extrair um pavor mais imediato da platéia. Eu acompanharia facilmente mais momentos curiosos dentro da mansão Bellows, ou adoraria mais informações sobre o destino das vítimas. Mas, a produção e o livros, sao inspirados em histórias passadas de forma oral, e nelas raramente há este nível de aprofundamento. Logo a escolha é coerente com a proposta.

O elenco jovem é bastante eficiente em seus papéis, com destaque para Zoe Margaret Colletti, que consegue carregar o protagonismo do filme com facilidade e boas escolhas. Repare como Stella tenta esconder uma leve empolgação e curiosidade quando os fenômenos sobrenaturais começam a acontecer, antes da coisa ficar mortal e a culpa por acontecimentos presentes e passados tomarem conta da garota. Adultos não são as criaturas mais presentes, ou mesmo prestativas neste tipo de produção, mesmo assim o filme conta com boas aparições de Dean Norris, Gil Bellows e Lorraine Toussaint.

Este é um terror voltado para o público juvenil, a classificação estária brasileira é 14 anos. Enquanto a molecada se apavora, o público com mais bagagem deve se divertir com os pequenos sustos, produção caprichada e a história bem amarrada, e a nostalgia de uma época em que este tipo de produção os faria passar noites em claro. Sustos, suspense, ojeriza para iniciar os novatos e entreter os veteranos, é Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro oferece e entrega satisfatoriamente.

Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro (Scary Stories to Tell in the Dark)
2019 - EUA - 111min
Terror
Read More

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Mãe e muito mais

terça-feira, agosto 06, 2019 0
Após anos de comédias românticas estereotipadas e de padrões impossíveis, o cinema descobriu as suas mocinhas podem alcançar um final feliz por ela mesma, sem a interferência de um "príncipe" encantado. Mas e quando o rapaz que ocupa o centro de sua vida não é um par romântico, mas um filho? Mãe e muito mais vem ocupar esta lacuna, e mostrar que apesar da importância da maternidade da vida das mulheres, mães também pessoas antes de qualquer coisa.

Carol (Angela Bassett), Gillian (Patricia Arquette) e Hellen (Felicity Huffman) tornaram-se amigas a partir da amizade entre seus filhos, e agora enfrentam juntas uma severa crise de ninho vazio. Quando seus filhos esquecem mais uma vez o dia das mães, o trio parte em uma missão para retomar sua importância na vida dos rebentos. É claro, a tarefa muda no meio do caminho, além de redefinir sua relação com sua prole, elas reanalisam sua amizade, e suas perspectivas individuais.

Entretanto, não espere por um drama existencial complexo, este filme é assumidamente uma comédia. E é através do humor que a produção mostra dilemas reais deste outro momento na vida de uma mulher. Um humor inteligente, atual e eficiente. Enquanto as produções com protagonistas "jovens" tentam mostrar como superar a exigência da sociedade pelo romance perfeito, este filme vem provar que existe vida após a tarefa que muitos consideram a mais importante na vida de uma mulher. Importante sim, mas não é a única coisa que ela pode almejar.

O sentimento de estar sendo inconveniente no cotidiano dos filhos já crescido, ou mesmo desnecessária em sua vida, a descoberta de que não há idade para se sentir atraente ou para se divertir da forma que bem entender, aprender a desapegar de relacionamentos passados, e descobrir objetivos de vida, estão entre os desafios enfrentados por Carol, Gillian e Hellen, através e situações cotidianas e divertida. Afinal, quem nunca fora pego pela mãe fazendo algo que não devia? Ou mesmo reclamou de sua intromissão ao mesmo tempo que aproveitava os prazeres de sua presença? Seja você mãe, ou apenas filho, é difícil não se relacionar com algumas destas histórias.

Além de situações comuns à maioria do público, é seu carismático trio de protagonistas quem conquista a empatia o espectador. Veteranas experientes Bassett, Arquette e Huffman acertam no tom que mistura humor e drama. Apesar de estarem fazendo graça, seus sentimentos são para lá de verdadeiros e evidentes nos momentos mais dramáticos, humanizando as personagens e evitando que caiam na caricatura. A química entre elas também funciona, apresentando uma autentica amizade de longa data, que já foi além das circunstancias que as uniu. Se você tem um grupo de amigas antigas vai notar, é exatamente assim que agimos quanto reunidas.

Seus filhos não tem intérpretes tão brilhantes, mas funcionam. Sinqua Walls, Jake Hoffman e Jake Lacy, cumprem o que o roteiro exige deles, criado uma galeria de filhos distintos, para evidenciar a diversidade da experiencia da maternidade. Já a amizade deles não é tão crível quanto as de suas mães, já que vemos os três juntos apenas em um par de cenas, e seus dilemas são tratados separadamente. Se foi a amizade deles que as apresentou, agora é a delas que mantém todos conectados.

O longa é baseado no livro O Que Te Faça Feliz de William Sutcliffe. E é a estreia na direção de Cindy Chupack, roteirista conhecida por assinar episódios de Sex and the City e Mothern Family, que também colaborou com o roteiro desta adaptação.

Loucuras cometidas no calor do momento, bebedeiras, festas, ressacas, makeover, brigas e reconciliações, Mãe e muito mais tem tudo que as atuais comédias de empoderamento feminino tem, e muito mais. Assim como seu título, Otherhood ("Outraidade"), brinca com a palavra "Motherhood" (Maternidade), esta produção da Netflix, se diverte de forma honesta e inteligente com o cotidiano e desafios daquelas que já foram mães, e agora podem ser o que bem entenderem.

Mãe e muito mais (Otherhood)
2019 - EUA - 100min
Comédia


Read More

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Os Últimos Czares

quinta-feira, agosto 01, 2019 0
"Será uma série sobre disputa pelo trono, com intrigas políticas, uma família real luxuosa, a decadência de uma dinastia, sexo, violência e morte. Com o diferencial de que se trata de uma história real, não uma saga ficcional. Acrescentaremos inclusive, depoimentos de historiadores do período, para conferir veracidade à nossa história." - Não pude evitar imaginar os criadores de Os Últimos Czares, vendendo a série com entusiasmo para possíveis investidores. Uma espécie de Game of Thrones da vida real,com produção luxuosa e embasamento histórico. Uma ideia excelente, mas também complexa, já que carrega o a responsabilidade de retratar a realidade, e esta tem vários lados e vertentes.

Acompanhamos o reinado de Nicolau II, último czar russo, desde sua ascensão ao trono em 1894, até sua morte em 1918. Sim, ele morre. Não é spoiler, é história. E este é um dos méritos da série, trazer uma história complexa de forma palatável para o grande público. Entretanto, este também pode ser considerado seu ponto fraco, já que algumas imprecisões históricas são cometidas em prol da novelização. Essa qualidade ambígua, permeia toda a produção da Netflix.

A reconstrução de época, cenários e figurinos luxuosos, são bem planejados e executados. Ao mesmo tempo a série escorrega e situa a Praça Vermelha de 1905, com uma imagem atual do onde o Mausoléu de Lênin, que morreu décadas depois da data em questão, já está presente. A trama flui quando acompanhamos a trajetória de Nicolau e sua família, intercalando bem a relação entre assuntos pessoais e de estado. Mas o ritmo é constantemente quebrado pelos depoimentos de historiadores, e principalmente pela trama paralela da suposta Anastácia. A série traz possibilidade da sobrevivência da princesa como incentivo para nos apegarmos ao futuro da família, mas pouco mostra da moça antes do massacre. Em outras palavas, é uma série de altos e baixos.

O roteiro simples e fácil de acompanhar, apresenta os principais fatos históricos do período, e imagina os momentos que ninguém presenciou, como conversas intimas entre o czar e sua esposa, à exemplo de The Crown, também da Netflix. Mas enquanto a série que acompanha a Rainha Elizabeth usa estes momentos para humanizar a realeza, Os Últimos Czares por vezes opta por tratar seus personagens de forma mais caricata geralmente de apelo sexual. Como as sequencias de sexto entre o czar e a czarina, o encontro romântico de uma de suas filhas, e a sequencia em que Rasputim fica à sós com a filha do primeiro-ministro.

As atuações são eficientes, com destaque para o trio principal. Robert Jack convence na tarefa de apresentar um Nicolau II, que foi criado para acreditar que tem o direito divino ao trono, e por isso é incapaz de perceber suas limitações diante da tarefa. Susanna Herbert convence principalmente nos momentos em que intercala a preocupação da Czarina Alexandra Feodorovna pela saúde do filho e as ações visivelmente influenciadas por Rasputin. E por falar nele, Ben Cartwright entrega um trabalho mais caricato, mas coerente com as histórias e mitos que o conhecimento popular atrela à tão curiosa figura.

Entre acertos e equívocos, Os Últimos Czares consegue manter o espectador interessado e apresentar a ideia geral quanto à queda dos Romanov. Acerta principalmente em contrapor o sentimento de direito divino da realeza, em contraponto com a sua incapacidade de se ajustar os novos tempos. A postura absolutista irredutível, é um dos fatores determinantes para o fim de sua dinastia, e isso fica claro.

Este docudrama não está longe de ser um Game of Thrones, em qualidade e complexidade, não que a história da Rússia não seja complexa, mas o recorte aqui é o mais simples. Tão pouco, tem depoimentos e pontos de vista suficientes sobra a história, para ser considerado material de estudo. Mas é bem produzida, e de grande apelo para o grande público. O que a torna um bom vislumbre para quem pouco sabe sobre este momento da história do mundo (sim, os efeitos da queda dos Romanov são globais), além de uma excelente porta de entrada para estudar de verdade. 

A dica é, se o programa atiçou seu interesse sobre os últimos czares russos, não pare por aí. Aproveite o embalo e busque outros materiais, leia um pouco, desvie dos estereótipos, simplificações e alterações que a série escolheu em prol do drama. Garanto que vai descobrir que algumas histórias reais podem ser tão ou mais interessantes que sagas com dragões e zumbis de gelo.

Os Últimos Czares tem seis episódios, todos já disponíveis na Netflix.
Read More

Post Top Ad