Bacurau - Ah! E por falar nisso...

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Bacurau

A parte complicada de se falar sobre o novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e tentar expressar a complexidade e importância da produção no cenário atual, sem atrapalhar o impacto que o desconhecimento sobre seu desenrolar causa no espectador desavisado. Ainda sim, vou tentar. Talvez usando um alerta de spoiler em algum momento.

Bacural é um pequeno povoado no sertão brasileiro onde eventos estranhos começam a ocorrer. À começar pelo seu desaparecimento dos mapas, passando por objetos voadores não identificados até a chegada de forasteiros incomuns.

Eventos incomuns à parte, seus moradores precisam lidar com problemas do cotidiano de muitos brasileiros, seca, falta de recursos, políticos corruptos e inaptos. E os primeiros minutos do filme apresentam exatamente isso, o cotidiano destes moradores, que criaram sua própria forma de lidar com as adversidades. Por isso inclusive, que não há protagonistas definidos, é Bacural o personagem principal. A vila inteira, com seus tipos únicos, e ao mesmo tempo tão familiares.

A professora, a prostituta, o professor, as crianças, o motorista do caminhão pipa, o cara do carro de som. Todos tipos bem brasileiros, que tem sua condição de "gente de verdade" ao invés de "personagens de um filme", reforçada pela escolha de atores menos conhecidos. Às exceções são Sônia Braga e Silverio Pereira, que conseguem se incluir acertadamente no quadro, tornando-se parte da comunidade apesar dos rostos familiares.

Enquanto, mostra o dia-a-dia do povoado, o roteiro joga pistas dos muitos caminhos que pode seguir. Criando um questionamento proposital no espectador: que história estamos vendo afinal? As premissa poderia levar à produção para os caminhos mais distintos, ficção-cientifica, drama, ação, terror, western. É apenas ao final da projeção que percebemos, que o longa usa um pouco de cada um destes gêneros, e de alguns outros também, para construir uma distopia crítica e catártica.

Aos poucos o mistério envolvendo o povoado, vai se desvendando, criando novos caminhos, possibilidades e interpretações. Esta complexa alegoria, na camada imediata critica a atemporal podridão humana. Aquela nossa vertente menos atraente, totalmente desprovida de empatia em prol dos próprios interesses. Em uma segunda camada, cria uma metáfora em menor escala para o cenário sócio-político do país e do mundo. E como estamos precisando deste tipo de análise atualmente!

Vale aqui mencionar, o foco na trama é localizado na região, mas os poucos vislumbres de fora, apresentam um futuro não muito distante, assustadoramente plausível. É inevitável não imaginar, o que mais há de errado com mundo, e querer descobrir mais.

De volta à trama principal, a trilha sonora traz canções eloquentes que tanto contextualizam, quanto analisam os momentos em que são inseridas. Enquanto a fotografia evoca a aridez e o calor da região. Assim, mesmo que o roteiro demore para revelar a verdadeira história, você é convidado a imergir naquele mundo. 


Quando começa a mostrar a que veio, o filme traz elementos de terror B, e suspense que precedem uma satisfatória e impressionante catarse. E esta, como bônus, ainda faz alusão à outras histórias de lutas genuinamente brasileiras. Uma revolução que nos faz invejar a ficção, e torcer para que a realidade a imite. E ainda quebra com expectativas e clichés, do cinema e da vida real, como a suposta hospitalidade brasileira, e ingenuidade do povo mais humilde.

Bacural não é um filme fácil, nem em ritmo, nem em tema. Alguns não conseguirão acompanhar o a velocidade propositalmente mais compassada de seu início. Outros podem não compreender completamente, ou aceitar os cometários críticos atirados na cara do espectador. Mas dificilmente alguém sairá indiferente da sala de cinema.

Bacurau
2019 - Brasil - 132min
Suspense, Ação


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