Piteco - Ingá - Ah! E por falar nisso...

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Piteco - Ingá

Então a Thuga é a xamã do povo de Lem, que precisa migrar da pedra do Ingá onde vivem para escapar da seca. Não é novidade que as Graphic MSP, reinventam e acrescentam bastante ao universo criado por Maurício de Souza. Mesmo assim, é difícil não se surpreender com a construção de mundo e mitologia que o cartunista Shiko trouxe para sua versão de Piteco.

O povo de nosso personagem título, está prestes a partir em busca de terras férteis para o plantio. Mas Thuga é sequestrada na véspera da partida pelos homens-tigre, outro povo vizinho e com origem em comum com os habitantes de Lem. Piteco, é claro, fica para trás para resgatar sua amada, enfrentando uma longa jornada cheia de perigos, ação e misticismo.

Cores mais escuras, monstros assustadores, violência, corpos expostos, com músculos e curvas acentuadas, Piteco - Ingá não é exatamente para crianças. A história é simples, um resgate. Mas a riqueza de detalhes, e o tom mais maduro destaca a obra dos demais volumes da série. Esta é também a obra que menos tenta referenciar a versão dos quadrinhos, tomando como base, apenas a inspiração para o visual dos personagens e o contexto em que vivem.

Assim, saem os dinossauros e entram uma versão fictícia de animais pré-históricos, tigres e morcegos gigantes. Versões do autor para mitos tipicamente brasileiros como boitatá (M-Buantan) ou curupira e caipora (Arapó-Paco) dão conta da parte sobrenatural da aventura. Shiko também situa pela primeira vez a história. Sempre soubemos que o Piteco era um "homem das cavernas" tipicamente brasileiro, mas pela primeira vez descobrimos por onde morou. A Pedra do Ingá, que da título a aventura realmente existe. Fica na cidade de Ingpa no agreste da Paraíba, realmente tem símbolos misteriosos esculpidos por uma civilização perdida.

Temos ainda vislumbres de como a sociedade de Lem é organizada internamente, sua relação com outros povos, e sua história. Entre os dilemas dos indivíduos único realmente trabalhado é a relutância do caçador Piteco em se encaixar na vida cultivadora de sua aldeia. É a mudança em Thuga que se destaca. Antes apenas uma mulher doce e obcecada apaixonada por Piteco, em uma luta constante para leva-lo ao altar, agora a moça é a guia de seu povo, cheia de sabedoria e serenidade. Ogra também está diferente. Melhor lutadora da aldeia, e nem de longe feia ou masculinizada, sua presença reforça a sugestão de que este povo valoriza a força e a sabedoria das mulheres.

Por outro lado, as muitas diferenças, se distanciam bastante das versões originais. O que pode incomodar aqueles com uma conexão maior com o material original. Particularmente, acredito que estas mudanças são necessárias para adaptar o universo para o formato, e temática atuais, além de fornecer mais estofo para a aventura. Já a mudança no visual, oferece o desafio interessante de reconhecer características marcantes dos personagens em um novo design, como o cabelo e barbas únicos do piteco, e as curvas mais voluptuosas de Thuga.

E já que estamos falando do visual, as páginas trazem cores fortes e e traço firme, para construir um cenário rico em detalhes. Não é incomum diminuir o ritmo da leitura para observar com mais detalhes as paisagens, criaturas e principalmente os adornos que diferenciam as tribos. As passagens dramáticas acertam em usar a escuridão da noite e a luz do fogo, para criar o tom para cada sequencia, seja tensão e mistério, ou mesmo a melancolia da necessidade de abandonar o lar no início da história.

Para completar o pacote, a seca do rio que permitia a vida na Pedra do Ingá, traz uma série de temas atuais e comuns ao nordeste do país, como seca e migração. A cooperação entre povos para tornar a vida de todos melhor também é um dos temas embutidos nesta aventura cheia de monstros e perigos.

Que o Piteco era brasileiro já sabíamos, mas em Ingá também descobrimos que ele tem uma cultura e história bastante ricas, as nossas. Shiko, apresenta isso através de uma jornada simples, mas extremamente rica em detalhes, tanto visuais como culturais, históricos e mitológicos. Mostrando homens-tigre e os povos de Lem e Ur, poderiam muito bem ter existido, e que suas "lendas", dariam origem a histórias incríveis, sobre as quais adoraria ouvir mais.

Piteco - Ingá
Shiko
Panini Comics

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