Biblioteca de Almas - Ah! E por falar nisso...

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Biblioteca de Almas


Sobre o que trata Mapa dos Dias? Esse foi meu pensamento imediato ao terminar a leitura de Biblioteca de Almas. O terceiro livro da série O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, termina de forma satisfatória a aventura de Jacob no mundo peculiar. É claro, como as duas sequencias (uma já lançada, outra programada para 2020) provam, as histórias no universo de Ransom Riggs estão longe de acabar.
Assim como Cidade dos Etéreos, este livro continua exatamente do ponto onde a aventura anterior parou. Jacob, Emma e Addison estão encurralados por um etéreo em uma estação de metrô do século XXI, enquanto seus amigos são levados por seus inimigos. A busca pelos peculiares e ymbrynes sequestrados leva o trio a uma nova fenda, o Recanto do Demônio. Lá, Jacob começa a aprimorar suas habilidades, ao mesmo tempo que as verdadeiras intenções dos Acólitos aos poucos são reveladas.

Focado em Jacob e Emma, esta terceira aventura mantém o tom frenético da correria em que as crianças se envolveram anteriormente, mas resume a maior parde jornada à uma única fenda. O que não significa que a expansão do universo peculiar tenha sido reduzida. É no Recanto do Demônio, que temos dimensão da vida destas pessoas com habilidades, longe da proteção das ymbrynes. Exploração, miséria e vício, de peculiares por peculiares estão entre os temas, deste volume. Mostrando que às vezes não se está seguro nem mesmo entre seus semelhantes.

Para compor este cenário, uma gama de personagens novos, se unem ou enfrentam a dupla protagonista, conforme a trama avança. Entre os destaques estão o ambíguo barqueiro Sharon (uma curiosa referencia à Caronte), e a primeira aparição de Bentham, personagem que é apresentado no primeiro livro como aquele que supostamente criou os etéreos. Mas as descrições param por aqui, para evitar spoilers.

A redução de personagens, e consequentemente de poderes e recursos disponíveis, é uma escolha acertada para aumentar ainda mais a urgência e o perigo. Aquele curioso trabalho em equipe estilo X-Men é deixado de lado. O que também proporciona a desculpa perfeita para o protagonista evoluir como pessoa, e também aprimorar e descobrir mais sobre suas habilidades. O amadurecimento de Jacob é o grande arco deste livro. A tal biblioteca do título por sua vez, é o mote que move trama e personagens, revelando segredos e a mitologia deste universo.

Apesar do perigo crescente, e da grande variedade de inimigos, Riggs elimina poucos personagens. Quando o faz, as perdas acontecem fora de cena, dando margem à possibilidade de estas não serem definitivas. Infelizmente, quando percebemos esta tendência, nosso receio pelo bem estar dos personagens diminui. Não ao ponto de nos interessarmos, mas diminuindo a tensão nos momentos limites, e consequentemente a sensação de triunfo na superação deles.

Ainda sim, a jornada é criativa e difícil de perver. Cheia de reviravoltas e escolhas inteligentes para explorar ao máximo seus personagens e habilidades. É vale mencionar, ainda existe o problema inerente à histórias com viagens no tempo: se analisarmos demais, em algum momento para de fazer sentido. Especialmente quanto apresentam o conceito de "fendas dentro de fendas". Particularmente, eu não me pedi, e até fiquei curiosa com suas aplicações futurosa. Mas acredito que a complicação pode afastar alguns.

O desfecho é o primeiro da franquia a não deixar um grande gancho para os próximos volumes. Trazendo a sensação que de talvez a jornada dos peculiares tenham sido pensada como uma trilogia em algum momento. E e este livro encerra a primeira incursão do protagonista neste universo, mas não fecha as portas deste mundo. Há ainda espaço para contar novas histórias, e explorar outros aspectos da vida peculiar. Acredito que seja este o caminho que os volumes posteriores abordam.

A linguagem é simples, direta e objetiva de Riggs, que torna a leitura agradável e ágil se mantém. Assim como as curiosas fotografias antigas que oferecem apoio a narrativa. Não que aventura precise de ajuda para se sustentar, o trama está cada vez mais independente delas. Em outras palavras, não fosse um livro ilustrado, divertiria tanto quanto. As imagens criam apenas um charme extra e mantém a tradição da franquia.

Divertido e criativo, Biblioteca de Almas encerra de forma mais que satisfatória a saga iniciada em O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares. Mas curiosamente não é seu fim. E não precisa ser. Esta primeira trilogia pode ser muito bem apena a primeira grande aventura de um universo rico e cheio de mensagens. A maior delas aceitar e valorizar as diferenças. Se Riggs, mantiver este tom, estilo e criatividade não faltarão histórias peculiares a se contar.

Biblioteca de Almas (Library of Souls)
Ransom Riggs
Intrínseca


Leia as críticas dos livros anteriores O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares e Cidade dos Etéreos. Tem também resenha do filme de Tim Burton baseado na franquia O Lar das Crianças Peculiares, e uma comparação entre o original e a adaptação cinematográfica na série Livro vs Filme.

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