Julho 2019 - Ah! E por falar nisso...

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Orange is the New Black - 7ª temporada

segunda-feira, julho 29, 2019 0
Comecei minha resenha sobre a temporada anterior de Orange is The New Black afirmado que o sexto ano poderia funcionar como desfecho da série. O que não significava que não havia mais histórias de detentas a serem contadas, ou que um desfecho melhor aplicado não poderia ser feito. E foi isso que a Netflix resolveu fazer. A sétima e última temporada do programa, encerra de forma excelente as histórias das detentas que acompanhamos por anos, e ainda encontra tempo de discutir um último tema atual e urgente.

Piper (Taylor Schilling), finalmente cumpriu sua pena, e está enfrentando outra punição da sociedade, a vida pós-prisão. A dificuldade de se reerguer, as regras, o preconceito, desafios que à primeira vista são os mesmos que Aleida (Elizabeth Rodriguez) enfrentou algumas temporadas atrás, mas cujas opções e oportunidades de solução são bem diferentes. São nos momentos em que enfrenta esta realidade, que Schilling entrega seu melhor trabalho. Uma pena que a comparação entre oportunidades perde espaço para os dilemas amorosos da moça. Ficar com Alex (Laura Prepon) ou com outra pessoa? Este acaba sendo seu o último grande dilema (onde está a opção, ficar por conta própria?), infelizmente somando pontos contra a personagem que já é considerada a mais chata da trama.

Felizmente, a trama amorosa da ex-protagonista (faz tempo que ela divide as atenções) é o único ponto realmente fraco da temporada, que trata bem melhor suas outras personagens. Taystee (Danielle Brooks) continua ganhar boa parte da atenção. Condenada a perpétua por um crime que não cometeu e acuada pelo sistema, ela parece ter perdido todo seu otimismo, mas não sua essência, já que continua ajudando aqueles à sua volta mesmo sem a intenção. Brooks, acerta ao criar a ambiguidade não intencional pela qual a detenta passa, oscilando entre a desesperança e o conformismo. Seu arco, é o melhor construído ao longo de sete anos, bem como as críticas reais atreladas à ele.

Outra crítica bem construída, mas apresentada apenas nesta temporada é o arco do centro de detenção de imigrantes, que abraça vários personagens, com Blanca (Laura Gómez) em seu centro. Bem no auge das discussões sobre o tratamento que a era Trump tem dado aos imigrantes ilegais, mostra as condições desumanas à que estrangeiros e descendentes, adultos e crianças são submetidos. Cientes da importância do tema, o elenco deste núcleo é o que mais se destaca em dramaticidade, inclusive as novas adições do elenco, cobrindo uma variedade de histórias de imigrantes. São elas as "laranjas" da vez.

Do lado das autoridades Tamika (Susan Heyward), vê seu esforço para melhorar ser assimilado e desvalorizado pelo sistema, ao receber um cargo que até merece, mas pelos motivos errados. Uma vez no poder, seus esforços de tornar a prisão em um lugar melhor continuam a ser dificultados pelos mais variados motivos. Outros que também já esgotados pelo sistema são Caputo (Nick Sandow) e Figueiroa (Alysia Reiner), que tentam seguir com suas vidas, fazendo o melhor que podem no percurso.

É claro, há ainda tempo para dar desfechos merecidos para Cindy (Adrienne C. Moore), Suzane (Uzo Aduba), Doggett (Taryn Manning), Lorna (Yael Stone), Red (Kate Mulgrew), Nicky (Natasha Lyonne), Flaca (Jackie Cruz), Dayanara (Dascha Polanco), Aleida, Mendoza (Selenis Leyva) e Ruiz (Jessica Pimentel). Algumas ganham desfechos relativamente felizes, muitas nem tanto, outras apenas são deixadas seguindo o mesmo cotidiano em que as encontramos. Seguindo a proposta de contar histórias conectadas com a realidade, que sabemos não é das melhores para ex-detentas.

Antes de se despedir completamente, Orange ainda faz questão de nos mostrar um vislumbre daquelas personagens que deixamos para trás em pequenas participações especiais. Apesar de divertido saber por onde andam Sophia (Laverne Cox), Brook (Kimiko Glenn) ou Norma (Annie Golden), as participações acabam nos recordando do maior e mais contante problema da série, o vai-e-vem de personagens. Com tanta gente em cena, volta e meia, alguém é dispensado, desaparece ou passa a fazer figuração de fundo sem grandes explicações. Um problema que a série luta desde o segundo ano, e não conseguiu solucionar. A figura desperdiçada da vez, foi Frieda (Dale Soules), que apenas "estava lá".

Bem produzido, com boas atuações e principalmente relevante para sociedade que vai consumi-la. Esta não é uma série isenta de erros, mas é cheia de acertos. Não é um programa sobre detentas, mas sobre mulheres e a sociedade atual. Trata de assuntos complexos, ora com o drama que merecem, ora com o bom humor que a vida precisa para seguir, sempre com críticas verdadeiras e contundentes.

Orange is the New Black é a última série da primeira leva de produções originais da Netflix a ganhar seu desfecho (as outras foram Hemlock Grove e House of Cards). Foi a única a ter um final bem planejado e coerente com o sucesso de sua estreia. A última temporada se despede das residentes de Litchfield com momentos cruéis, tocantes, e até felizes, mas principalmente honestos e humanos.

Orange is the New Black tem sete temporadas cada uma com 13 episódios, todos já estão disponíveis na Netflix.

Leia mais sobre Orange Is The New Black e Netflix

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sexta-feira, 26 de julho de 2019

I am Mother

sexta-feira, julho 26, 2019 0
A humanidade foi considerada extinta, mas há esperança. Milhares de embriões estão prontos para repovoar o planeta, através de um cauteloso sistema supervisionado por uma inteligência artificial. Uma premissa simples, mas que abre caminho para discussões complexas é o ponto de partida I am Mother. Ficção-cientifica da Netflix, que acerta ao fugir da megalomania que volta e meia se apodera de filmes apocalípticos.

Em uma abordagem intimista, o longa apresenta o cotidiano do robô designado para repovoar a terra conhecido como Mãe (Luke Hawker/ voz de Rose Byrne), e sua Filha (Clara Rugaard), uma adolescente criada por ela, sob parâmetros cuidadosamente calculados. A harmonia entre as duas, e talvez o futuro da humanidade, é ameaçado pela chegada de uma Mulher (Hilary Swank), cuja existência e notícias do exterior, fazem a Filha questionar tudo o que conhece.

Maternidade, família, solidão, humanidade, ética, sacrifícios, predestinação e amadurecimento estão entre os vários temas que o roteiro bem construído por Michael Lloyd Green consegue abordar com sutileza, enquanto desenvolve sua trama de sobrevivência. Tal profundidade temático é resultado de um trabalho que não tem receio de usar o tempo necessário para apresentar seus personagens, e desenvolver o contexto em que estão inseridos. E aproveita esse ritmo mais lento, para entregar ao espectador informações necessárias para se interessar pela trama, mas não a compreender completamente. O filme não explica tudo para o público, apenas indica as possibilidades, abrindo espaço para a dúvida que mantém o interesse ao longo do filme, e a reinterpretação de tudo que vimos em seu desfecho.

A dúvida constante ajuda na empatia com a protagonista, já que estamos no mesmo nível de conhecimento que ela. A jovem Clara Ruggard consegue carregar o protagonismo, mesmo tendo colegas de cena tão fortes e eficientes. Sua composição para a Filha, expressa bem, a ingenuidade, moralidade, confusão, dúvida, determinação e responsabilidade da personagem que fora criada para ser o recomeço da humanidade. Algunas destas, características, inclusive desenvolvidas ao longo do arco da personagem.

Já a composição da Mãe, surpreende ao acertar na escolha de mantê-la o menos humana possível. Apesar de um corpo humanoide, não existem expressões para ajudar a compreender os "sentimentos" ou intenções da personagem. E até a voz de Rose Byrne, reforça essa ambiguidade ao manter sempre o tom robótico, tanto nas falas mais doces e reconfortantes quando exerce o papel de mãe, quanto nos momentos em que se mostra uma inteligência artificial com parâmetros implacáveis. O design também nos convence de sua funcionalidade, seja na forma segura com que manuseia um frágil bebê, ou no perigo e força que demonstra quando corre ou se defende. É uma cuidadora, mas poderia ser muito bem uma exterminadora.

É de Hilary Swank o melhor trabalho em cena. Com dois Oscar no currículo, a atriz consegue convencer ao contar sua história, seja através de palavras, seja através das expressões faciais e corporais. Evasiva, agressiva e desconfiada, mesmo revelando pouco, compreendemos muito bem o tipo de dificuldades a que ela sobreviveu. Ao mesmo tempo, não temos completa certeza de suas intenções.

Entre duas personagens fortes, complexas, dúbias e bem representadas, a Filha fica dividida com relação a tudo que conhece. E nós, a acompanhamos, graças ao roteiro sem pontas soltas e as escolhas inteligentes da direção, que opta por soluções mais econômicas e eficientes, para que o espetáculo do pós-apocalipse não se sobreponha ao tema principal aqui. A maternidade, não apenas de uma pessoa, mas de toda a humanidade. Assim, enquanto as impressões do que pode, ou não, ter acontecido com a humanidade, são passados por registros ou impressões de dentro do bunker/unidade de repovoamento, nós acompanhamos dilemas éticos e desafios morais apresentados à protagonista, como testes ou consequências de seus atos. Abraçamos os questionamentos dela, e criamos nossos, conforme recebemos novas informações e desafios. Apenas para repensar tudo novamente no desfecho, quando finalmente vêmos o quadro completo.

I am Mother faz exatamente o que uma boa ficção científica deve fazer, usa um contexto extraordinário para discutir mazelas da sociedade atual. E o faz de forma inteligente e intrigante, desafiando o espectador à pensar, ao invés de atraí-lo com exageradas sequencias de ação. Escolha muito comum em filmes pós-apocalípticos. Boas atuações, e uma direção competente de Grant Sputore apenas completam o pacote, deste excelente exemplar do catálogo original da Netflix.

I am Mother
2019 - EUA - 113min
Ficção científica


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quarta-feira, 24 de julho de 2019

Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal

quarta-feira, julho 24, 2019 0
As aparências enganam. Foi isso que Theodore Robert Bundy, ensinou aos estadunidenses da forma mais brutal possível nos anos de 1970. Uma figura de bom moço, não é sinônimo de boa índole. É pela forma como o assassino em série se apresentava publicamente, e sua imagem para pessoas próximas que Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal, escolhe contar esta história real.

Nesta cinebiografia, acompanhamos a trajetória de Ted Bundy (Zac Efron), a desde o momento em que ele conhece Liz Kendall (Lily Collins). E em boa parte a partir da perspectiva desta que foi sua namorada por muito tempo, sem sequer desconfiar de seus crimes. O filme também mostra o ponto de vista de outros conhecidos como Carole Ann Boone (Kaya Scodelario), e daqueles que o viam através da mídia, pela qual seu caso fora altamente explorado, desde o início do julgamento, até a execução de sua sentença.

Um jovem atraente, inteligente, bom namorado e padrasto, que se afirma inocente das acusações todo o tempo. A forma com que o diretor Joe Berlinger decide retratar Bundy aqui, poderia facilmente ser a história de um mocinho injustiçado. Para alguns, beirando a romantização da figura do assassino. Entretanto, por causa do caminho midiático que o caso tomou, e a facilidade do verdadeiro Ted em usar seu carisma e toda essa atenção a seu favor, faz sentido mostrar a história do ponto de vista daqueles que viam apenas o "bom Ted Bundy".

A forma como ele se apresentava em sociedade, tornava impossível para aqueles que o conheciam na "vida fora do crime", imaginá-lo cometendo tais atos. Apesar das evidencias difíceis de refutar. Como compreender que o namorado perfeito, é também um assassino perverso e sádico?

Essa é a jornada de Liz, que na vulnerável posição de mãe solteira encontra no rapaz um porto seguro. Sua jornada de compreensão da existência deste "outro lado" do companheiro, se estende por todo o filme, abordando o efeito devastador no cotidiano da jovem. Dúvida, solidão, depressão, culpa, dificuldade de aceitar a realidade estão entre a vasta gama de sentimentos que Lily Collins precisa conferir a à sua personagens. Sua atuação esforçada, entrega o necessário para compreendermos suas dificuldades, mas não alcança o nível de empatia necessário para um relacionamento mais intenso com a personagem.

Mais acertado em sua composição, Zac Efron acerta no tom de carisma que mescla certa perversidade sob a superfície. Um "falso galã", dissimulado e manipulador é uma boa escolha para o ator que está começando a variar suas escolhas de trabalho. É sua construção da imagem de Bundy, que sustenta o filme, tornando compreensível compreender o fascínio que sua figura exercia tanto em admiradores, quanto acusadores.

Kaya Scodelario e John Malkovich são outros destaques em cena. Ela como a mulher obcecada que o acompanhou até o fim. Ele como o juiz que encarou o circo midiático que seu julgamento se tornou. Ambos eficientes mas com a maior função de servir de para Efron. O mesmo vale para Jim Parsons, o eterno Sheldon Cooper, parece escolhido a dedo, para viver o completo oposto do protagonista, um promotor burocrático e nada carismático. Angela Sarafyan e Haley Joel Osment exercem este papel mesmo papel de apoio para a personagem de Collins.

Seguindo com a curiosa escolha de mostrar o lado que Bundy escolhia apresentar ao mundo, a produção pouco mostra da violência de fato. Os assassinatos são apenas sugeridos, nunca mostrados explicitamente. E mesmo as fotografias de cenas do crime usadas no julgamento são apresentadas com muita parcimônia. As provas oferecidas ao espectador, são na maioria apresentadas por diálogos e ações. Não se trata da negação, ou construção de dúvida da autoria dos crimes. O que seria uma escolha tola, já que se trata de uma história real bastante conhecida. A intenção aqui é manter a coerência com o ponto de vista abordado. Liz, o tribunal, mídia, ninguém viu os assassinatos, consequentemente nós também não os vemos.

Um efeito colateral, intencional ou não, dessa ausência de violência em cena, é nos fazer questionar nossa própria curiosidade mórbida. O filme deixa claro, o tipo de atrocidades cometidas, será que ainda precisamos assisti-las? Vale lembrar que a curiosidade pública que o caso gerou na época, e a cobertura midiática é discutida até os dias de hoje. E nos fez repensar a forma como noticiamos determinados assuntos.

Menos coerente que o ponto de vista, é a representação do tempo no filme. Mesmo com as datas dispostas na tela, a passagem de tempo é confusa em muitos momentos. Tirando um pouco do peso, dos longos processos enfrentados pelos personagens, e fazendo com que algumas de suas escolhas soem abruptas, ou repentinas. Fica também a dúvida se Bundy já era um assassino, quando conhece Liz. Entretanto, na vida real também existem dúvidas, sobre quando ele começou a matar, logo a falta dessa informação é compreensível.

A caracterização dos atores e a reconstrução de época são bem realizados, como imagens de arquivo do caso real comprovam ao fim do filme. A apresentação dos acontecimentos também é bem fiel ao caso real. O que não é surpresa, já que o diretor Joe Berlinger também é responsável pela série documental, Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy, lançada em janeiro deste ano, disponível na Netflix.

Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal escolhe um caminho incomum para contar uma história já bastante explorada, em reportagens, filmes e livros. Mostra o lado daqueles que conviveram com a "versão sociável" de um psicopata, e a dificuldade de compreender que estes não o conheciam realmente. E ainda consegue nos fazer questionar nossa curiosidade mórbida, e a facilidade de criar empatia apenas pelas enganosas aparências.

Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile)
2019 - EUA -110min
Biografia, Drama

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segunda-feira, 22 de julho de 2019

The Perfection

segunda-feira, julho 22, 2019 0
Acho que eu já disse algo parecido em outra resenha recente de um filme Netflix, mas vou repetir: evite os trailers. Felizmente não esbarrei em nenhuma informação sobre The Perfection antes de assistir-lo. Este é o cenário perfeito para esta produção, que une suspense, drama e terror. Com este pensamento em mente, a sinopse a seguir pretende entregar o mínimo possível de informações sobre a produção.

Charlotte (Allison Williams) teria uma carreira promissora como violoncelista, se sua mãe não tivesse adoecido, tornando necessário que ela abandonasse os estudos. Quando sua mãe morre ela retoma contato com a antiga academia e logo se mostra interessada pela atual estrela Elizabeth (Logan Browning).

Esperto, mas não impecável, o roteiro de Eric C. Charmelo, Nicole Snyder e do também diretor Richard Shepard, é eficiente em brincar com o conhecimento dos espectador. Conduzindo a trama por um caminho aparentemente comum em determinado gênero, apenas para surpreender e reapresentar a trama por uma nova perspectiva, a cada vez que o público acredita estar alcançando a verdade. Abrindo inúmeras possibilidades, sejam elas previsíveis, ou completamente absurdas.

A divisão em quatro capítulos, é acertadamente utilizada marcar essas mudanças, não apenas de ponto de vista, mas também de tom. O filme passa pelo romance, suspense, drama e terror, sempre brincando com nossa percepção de cada gênero, nos convidando a montar esse quebra-cabeça. É claro, todas as peças só serão fornecidas lá perto do desfecho. E sim, algumas delas ficam sobrando, mas à esta altura a imersão até o ponto de notar estes furos, já se mostrou um entretenimento satisfatório.

Todo esse jogo não funcionaria, se o elenco não alcançasse o nível de ambiguidade que o elenco exige. Falando assim, Allison Willams, conhecida por Corra!, é uma escolha óbvia para o papel, mas justificada. A moça ela é eficiente em apresentar expressões cheias de dualidade, que poderiam indicar coisas completamente distintas. Browning consegue acompanhar o ritmo da colega com eficiência, completando a afinada dupla principal. Steven Weber e Alaina Huffman, não são tão eficientes, mas entregam o básico.

Outro ponto surpreendente, que deve dividir opiniões é a violência e escatologia, presente em filmes de terror "b". Existem alguns momentos mais nojentos e pesados, que devem surpreender quem apostava apenas no suspense, e agradar quem prefere o terror mais gráfico. Mas são momentos pontuais, coerentes com o roteiro, que não chegam a afastar completamente quem não buscava este tipo de produção.

Tudo isso permeando a temática de disputa no mundo musical. Quais seus limites? O que faria para alcançar a perfeição e o sucesso? E se tudo isso fosse tirando de você? Mas ampliando motivações, objetivos e consequências, para as áreas mais sombrias da natureza humana.

The Perfection, não alcança a perfeição, mas diferente das muitas produções feita às pressas para preencher o catálogo da Netflix, ousa ser diferente. É um filme surpreendente, meio bizarro, e interessante o suficiente para relevarmos uma ou outra falha no roteiro. O segredo é ir com o mínimo de informações possível, e se deixar investigar.

The Perfection
2019 - EUA - 90min
Suspense, Drama, Terror

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sexta-feira, 19 de julho de 2019

Obsessão Secreta

sexta-feira, julho 19, 2019 0
Queria não ter visto este trailer! - Foi o que pensei ao esbarrar no vídeo promocional de Obsessão Secreta, já que o tal segredo é revelado ainda no trailer. Preocupação boba minha, o filme aparentemente não está nem um pouco preocupado em preservar seu próprio plot twist.

Jennifer (Brenda Song) é atropelada em uma perseguição, e acorda sem memória em um hospital. Já em casa com seu marido Russel (Mike Vogel), ela tenta recuperar suas lembranças, enquanto percebe que há algo de errado nesta vida da qual ela não se lembra.

O roteiro do também diretor Peter Sullivan em parceria do Kraig Wenman, se desenvolve como se estivesse guardando um mistério do espectador. Entretanto, suas escolhas são as mais previsíveis e clichés possíveis. Da forma nada sutil em que foca nas ações do marido, até a maneira como apresenta aquele que pretende nos fazer acreditar que é o suspeito. Mesmo para aqueles que não viram trailer e a sinopse, a verdadeira ameaça fica clara logo nos primeiros minutos de streaming.

Enquanto isso cabe ao traumatizado detetive Frank Page (Dennis Haysbert) seguir por uma frágil investigação sobre o "acidente" da protagonista. É claro, em busca mais de redenção pessoal do que de fato solucionar o mistério. Uma vez revelada a ameça - para os personagens, o expectador já sabe - o roteiro segue para um suspense de fuga, recheado de previsibilidades e conveniências, que ajudam mocinhos ou bandidos de acordo com o que o roteiro precisa. Escapadas por um triz, quase fuga, e escolhas nada espertas estão entre as ações dos personagens.

As atuações também não ajudam. Brenda Song parece crer que balançar a cabeça repetidamente é a melhor forma de exprimir tanto confusão quanto medo. Haysbert não simplesmente, não convence, ao mostrar a perda que move seu personagem. Inclua aqui uma cena de choro solitário, que de tão artificial demora para compreendermos o que de fato o personagem está fazendo.

Já Mike Vogel age da forma mais suspeita possível. O cara perfeito demais para ser verdade, com expressões e atitudes estranhas. Curiosa é a atuação de Ashley Scott, ciente de estar num suspense, dá a enfermeira Masters expressões ambíguas, que em alguns momentos nos faz crer que a profissional de saúde está envolvida no mistério. Infelizmente como já sabemos a resposta, o efeito de suas escolhas cai no cômico, ao invés de gerar dúvida.

Fotografia, música e direção de arte ficam no lugar comum, assim como a direção. Peter Sullivan, entrega o que o roteiro pede e apenas isso, sem conferir personalidade ou estilo que ajude a produção entregar algo além do previsível.

Obsessão Secreta não guarda segredo algum. É mais uma das produções encomendadas para ampliar o catálogo da Netflix, e apenas isso. Um suspense frágil que não surpreende. Até entretém os menos exigentes por algumas horas, mas é esquecido assim que termina.

Obsessão Secreta (Secret Obsession)
2019 - USA - 97min
Suspense, Drama
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quarta-feira, 17 de julho de 2019

O Rei Leão

quarta-feira, julho 17, 2019 0
A Disney está assumidamente em uma curiosa fase de remakes. Estas produções geralmente tentam trazer algo novo que justifique sua existência. A mudança de perspectiva em Malévola e Dumbo, o empoderamento de Jasmine e Bella, estão entre as diferenças mais marcantes, tenham elas funcionado, ou não. Sempre há também atualizações de diálogos, novas canções, personagens e a reinvenção visual de seus universos. Em O Rei Leão, é a tecnologia de animação fotorrealísta a grande novidade, e apenas ela.

O jovem Simba (JD McCrary/Donald Glover) está destinado a ser rei, mas tem sua jornada interrompida por uma armadilha de seu ambicioso tio Scar (Chiwetel Ejiofor). O príncipe cresce exilado, aprende novas lições antes de estar apto a retomar seu lugar de direito.

Uma vez que a comparação é inevitável, vamos riscar logo este item da lista. A história é exatamente a mesma do clássico de 1994. Sem adições de personagens, ou grandes atualizações. A sequência inicial de The Circle of Life, inclusive, é uma recriação completamente fiel da animação. Essas recriações exatas de momentos icônicos estão presentes em toda a projeção, replicando posicionamento de câmeras, mise-en-scène e fotografia. Tornando difícil saber se se você está gostando da nova versão por seus próprios méritos, ou por nostalgia pelo original.

Julgar uma obra, usando outra como base é injusto. Entretanto, quando o novo trabalho bebe de forma exagerada da fonte anterior, ele próprio induz tal comparação. O argumento de ser uma versão criada para novas gerações não se justifica, já que muitas das imagens icônicas fazem parte do imaginário popular e dificilmente encontraremos alguém que não tenha esbarrado em alguma delas. A nova versão de O Rei Leão, ultrapassa o limite da homenagem nostálgica, e alcança a cópia em muitos momentos.

Voltando a atenção para o que esta versão traz de novo, a tecnologia de animação fotorrealista. É aqui que a produção se destaca criando cenários, texturas e movimentação de personagens que farão os pequenos pensarem que animais de verdade foram usados. Vi isso acontecer no recente Mogli, que tem o mesmo diretor deste filme, Jon Favreau. Quase todo o tempo extra que esta versão tem em relação ao anterior, é gasto na exploração da qualidade visual que esta técnica permite. Longos takes, mostram com riqueza de detalhes, as paisagens. Vemos mais espécies de animais em cena, com uma recriação absurdamente realista de sua pelugem, plumagem e movimentação. É um deleite para os olhos, e um uso bem feito da técnica, e uma excelente apresentação para o público de sua evolução.

Apesar de ser a grande motivação para a existência do projeto, e também seu maior acerto, o realismo também é o ponto fraco do filme. Isso porque a animação recria com fidelidade, os movimentos e expressões de animais reais. Assim, os personagens perdem em expressividade, detalhe que fica evidente principalmente nas sequencias com canções. O universo lúdico também sofre uma perda, já que as sequências como I Just Can't Wait to Be King e Be Prepared, precisam ser contidas para manter a coerência com este universo mais realista. Assim como a representação das hienas, que ganham uma líder menos bobalhona.

Se as expressões faciais são mais sutis devido ao realismo dos animais, cabe ao elenco de vozes deixar claro as nuances dos personagens. Tarefa que a maioria cumpre bem, com destaque para JD McCrary, que consegue conferir inocência e carisma à versão criança de Simba. Já sua em versão adulta Donald Glover, demora para encontrar o tom do personagem. Enquanto Beyoncé (Nala) brilha apenas nas sequencias musicais.

Outras boas escalações são as de Billy Eichner, Seth Rogen e John Oliver, respectivamente Timão, Pumba e Zazu. O trio fica com as maioria das falas totalmente originais, já que as piadas foram renovadas, e as entregam criando seu próprio estilo para os personagens. Vale ressaltar o retorno de James Ear Jones como a voz de Mufasa, e boas atuações de Alfre Woodard (Sarabi) e Chiwetel Ejiofor (Scar).

Todas as canções estão de volta, além de uma faixa inédita com produção de Beyoncé, Spirit. A versão nacional traz as vozes de Ícaro Silva e Iza, nas versões adultas dos protagonistas.

Bem executado, com boas atuações, uma tecnologia impressionante, e uma fidelidade gigantesca ao original, é difícil alguém desgostar do novo O Rei Leão. Afinal, é o mesmo filme que amamos em 1994, apresentado com uma nova forma de animação. Também é difícil não questionar a necessidade de sua existência. Seria a existência de uma tecnologia, motivação suficiente para mexer em um clássico? Se sim, uma cópia tão exata é o suficiente, ou algo de novo deve ser oferecida ao expectador?

Sejam quais forem as respostas O Rei Leão é no mínimo um interessante estudo de tecnologia. Pode inaugurar um novo momento na forma de se fazer animação. Não tem a mesma aura de fantasia que o original, mas funciona. E deve resultar caminhões de dinheiro para a Disney, e este provavelmente foi a maior motivação para a realização da produção.

O Rei Leão (The Lion King)
2019 - EUA - 118min
Animação, Aventura, Drama, Musical
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segunda-feira, 15 de julho de 2019

Gotham - 5ª (e última) temporada

segunda-feira, julho 15, 2019 0
Mesmo melhorando a cada temporada, ainda faltava à Gotham (a série, não a cidade) superar seu maior vilão, o tempo. Era o tradicional formato de 22 episódios, com hiato de fim de ano, o que geralmente desgastava a trama que precisava se esticar e incluir arcos menores para ocupar tanto tempo de tela. Em seu ano conclusivo, a série supera seu ultimo malfeitor, ao ter apenas os doze episódios que precisa para contar sua história.

O que não significa que a série deixa de lado, todo o leque de personagens que cultivou ao longo de seus cinco anos. Esse desfecho é claramente uma origem, e por isso decide posicionar todos os habitantes da cidade nos postos que devem ocupar quando Batman finalmente chegar. Assim, usando como base o arco dos quadrinhos, Batman: Terra de Ninguém, a série prende todos que importam em uma Gotham isolada do mundo e abandonada pelas autoridades.

A equipe de Gordon (Ben McKenzie) é a única linha de defesa entre os civis inocentes presos na ilha, e todos os bandidos que a dividiram em setores e a transformaram em um Mad Max urbano. Resgatar inocentes, conseguir suprimentos, convencer as autoridades que a cidade merece uma segunda chance e evitar que os vilões a destruam antes disso, são as tarefas do DP de Gotham. O Detetive assume toda a responsabilidade para si, e arca com o peso dela e a culpa por ser incapaz de resolver tudo. Além, é claro, da relação com suas duas pretendentes Barbara (Erin Richards) e Lee (Morena Bacarim).

Bruce (David Mazouz) e Alfred (Sean Pertwee), que ficaram por Selina (Camren Bicondova), somam seus esforços aos da polícia e no processo, ajustam os últimos ponteiros de sua relação tutor/empregado-protegido/patrão. Mas é o jovem Wayne, quem mais evolui ao alcançar completa ciência quanto à sua culpa e responsabilidades com aqueles que o cercam. Já a futura Mulher-Gato, ultrapassa os últimos limites para se tornar oficialmente a gatuna que conhecemos.

Entre os antagonistas, Arlequina (Francesca Root-Dodson) e Bane (Shane West), são os últimos a serem adicionados à galeria de vilões. Outros como Ivy (Peyton List), Strange (BD Wong) e Tetch (Benedict Samuel), tem aparições pequenas, apenas como recurso ao que a narrativa precisa, e para situá-los nas posições que devem estar no futuro. E alguns como Nr. Freeze, são apenas mencionados. É com os malfeitores veteranos que a série melhor trabalha.

O causador de todo o caos Jerome Valeska (Cameron Monaghan) tem seu próprio plano, devidamente louco e atrelado à Bruce, como deve ser. Barbara recebe a motivação que precisa para mudar de vida. Nygma (Cory Michael Smith) e Cobblepot (Robin Lord Taylor) se tornam ainda mais suas versões mais divertidas e caricatas das HQs. Sempre os melhores em cena Smith e Taylor, exploram de forma acertada o absurdo de suas personalidades, a a soberba insana do Charada, e a carência exagerada do Pinguin, bem como a divertida relação de amizade entre eles.

Se antes a caricatura era um flerte, em seu último ano Gotham abraçou completamente, os figurinos exagerados, as personalidades megalomaníacas e os planos mirabolantes. O que poderia não funcionar caso a série não tivesse encontrado, ao longo dos anos, o equilíbrio entre seu tom noir e o visual cartunesco. O que é absurdo demais, encontra um contraponto, na fotografia escura, iluminação e posicionamento de câmera estilosos, reforçando o visual peculiar que destaca a série das demais produções de super-heróis na TV.

Enquanto isso, o ritmo da trama é bastante acelerado. Apenas os episódios 8 e 9, diminuem e velocidade, para restabelecer a situação e explorar os traumas de Bruce e Gordon antes do final da jornada, que na verdade termina no penúltimo episódio. O 12º e derradeiro capítulo, é tecnicamente desnecessário, puro fan-service para quem não queria deixar este universo antes do Batman entrar em cena. O que somado à muitas referências visuais e temáticas, aos quadrinhos e filmes anteriores à ele, compõem um prato cheio para os fãs do homem-morcego.

Decadente, cinzenta e quase sempre nublada (houve um momento de sol nesta temporada, prelúdio de desgraça, claro) a cidade Gotham também é um personagem na série que leva seu nome. Ela é a motivação de vilões e mocinhos, todos salvando o berço de um dos maiores heróis dos quadrinhos, com visual estiloso e elenco bem escolhido. 

Já a série Gotham é um esforço conjunto de uma cidade inteira, ao longo de cinco anos, para transformar um garoto assustado em um beco, no Cavaleiro das Trevas.Tarefa que não apenas cumpre neste último ano, mas o faz muito bem, com visual, ritmo e personalidade próprias, e e nenhuma vergonha de ser exagerada, absurda e caricata.

Gotham é exibida no Brasil pela Warner Channel, as quatro primeiras temporadas também estão disponíveis na Netflix.

Leia mais sobre a série aqui.
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quinta-feira, 11 de julho de 2019

Cidade dos Etéreos

quinta-feira, julho 11, 2019 0
O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares surpreende pela originalidade, ao construir uma aventura complexa em torno de antigas fotografias não relacionadas. Cidade dos Etéreos não tem mais o frescor da novidade em seu benefício, e ainda correria o risco de siar forçado ou repetitivo ao continuar explorando o formato. Ransom Riggs, entretanto consegue escapar destas armadilhas no segundo volume da série.

Partindo exatamente do ponto em que parou no livro anterior, esta nova aventura acompanha Jacob e as demais crianças peculiares na fuga da ilha galesa e busca por ajuda para salvar sua mentora, presa em sua forma de ave. O grupo sai mundo à fora, explorando lendas, descobrindo novas fendas temporais e conhecendo gente nova, peculiar e comum, em plena Segunda Guerra Mundial.

É nessa expansão de universo que a franquia se sustenta. As fotografias ainda estão lá, mas ao invés de inspiração, agora são assumidamente (o autor menciona no posfácio ) um apoio à narrativa. Assim, Riggs não economiza situações ou personagens, tornando a aventura das crianças rica e constante. Apesar do clímax ser o trecho tradicionalmente mais acelerado, toda à jornada é cheia de reviravoltas e descobertas. O que somado à a linguagem é simples, direta e objetiva, torna a leitura agradável e ágil.

Eficiente em descrever cenários e características, o autor apresenta bem novos peculiares e suas características, e introduz com eficiência diferentes períodos no tempo. A facilidade de tudo ficar embolado e confuso é inerente à obras com viagens no tempo, mas as indas e vindas são claras, bem como as diferentes características de cada época.

Apesar de Jacob ainda ser o narrador, a história dá um foco maior ao grupo de peculiares outrora protegido por Peregrine. Enquanto a criançada tenta sobreviver no mundo hostil, o roteiro aproveita para explorar melhor suas habilidades e personalidades. Podemos ver cada um deles crescendo aos poucos, embora os arcos realmente bem desenvolvidos sejam apenas os de Jacob e Emma. Descartar personagens ou trazer novos, conforme a narrativa evolui também não é uma dificuldade aqui. As mudanças são coerentes, e ajudam a história a evoluir naquele ritmo acelerado que mencionei.

Já o desfecho com um gancho enverante, que deixa o leitor desesperado pelo próximo volume pode não agradar quem não gosta deste tipo de recurso. Mas já fora usado pelo autor no volume anterior logo, não deve pegar ninguém de surpresa. E a espera é curta já que as duas sequencias da aventura, Biblioteca de Almas e Mapa dos Dias já estão disponíveis no Brasil. The Conference of the Birds , o quinto livro da série, ainda sem título nacional está previsto para 2020.

Assim como o primeiro livro, este termina com um índice das fotografias. A edição em capa dura traz também um bate-papo com o autor, que explica seu processo de criação e as motivações nas escolhas das fotografias, e o capítulo inicial de Biblioteca de Almas.

Cidade dos Etéreos é um desafio ainda mais perigoso para os personagens e consequentemente mais tenso para o leitor. Apesar do ritmo acelerado, não deixa de lado a expansão do universo peculiar, com novos personagens, épocas e lendas. Além de consolidar o estilo que combina as peculiares fotografias antigas, com uma narrativa de aventura bem desenvolvida, sem deixá-lo previsível ou cansativo.

Cidade dos Etéreos (Hollow City)
Ransom Riggs
Intrínseca


Leia a crítica do primeiro livro O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares  ou do filme de Tim Burton baseado nele  O Lar das Crianças Peculiares. Já comparei as duas obras na série Livro vs Filme.
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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Stranger Things - 3ª temporada

segunda-feira, julho 08, 2019 0
Ao final da maratona dos mais recentes episódios de Stranger Things, senti a necessidade de reler o meu texto sobre o ano dois da produção. De alguma forma, a nova parte da aventura em Hawkins tornou a temporada anterior menos interessante na memória. O que de certa forma é. Calma não precisa me xingar ainda! A segunda temporada da série é boa (confere só minha crítica sobre ela). Mas sim, o terceiro ano a superou muito. E isso é ótimo.

Apenas nós, espectadores, sabíamos que a ameaça do Devorador de Mentes ainda pairava sobre a pacata cidadezinha. Neste ano que passou, os personagens retomaram as suas rotinas acreditando que as ameças do mundo invertido foram superadas. A molecada está curtindo o final do verão de 1985, os adolescentes dando os primeiros passos na vida pós-escola, e os adultos estão de volta à sua tarefa de pais. É aí que "coisas estranhas" voltam a acontecer na cidade, que além da ameaça sobrenatural, agora também atraiu a atenção dos soviéticos.

É no tempo que a série dedica ao cotidiano dos moradores de Hawkins que reside o grande diferencial e acerto desta temporada. Se nos anos anteriores somos levados ao momentos de ruptura da normalidade, aqui passamos os primeiro episódios acompanhando os personagens, nos atualizando em seus dilemas, e consequentemente nos apegando mais à cada um deles. Não que já não os adorássemos o suficiente.

Assim, vemos a relação de pai e filha entre Hopper (David Harbour) e Eleven (Millie Bobby Brown) evoluir para a dinâmica adolescente testando os limites, e patriarca superprotetor. Já a relação entre o xerife e Joyce (Winona Ryder) continua estagnada, já que ela não consegue superar a morte do antigo namorado.

Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) dão seus primeiros passos na vida profissional no jornal da cidade. Ela, engajada em sua carreira jornalística, enfrenta o machismo absurdo do ambiente de trabalho. Eles mais apagado que nas temporadas anteriores, apenas segue a namorada, até inevitavelmente entrarem em conflito por causa da persistência da moça. Steve (Joe Keery) também segue com a vida pós-escola, contemplando um futuro abaixo das expectativas, sem vaga para faculdade e trabalhando em uma sorveteria no shopping, mas ainda o melhor amigo da molecada.

E por falar nas outrora crianças, a molecada protagonista está crescendo, cada um em seu ritmo. Assim, enquanto Mike (Finn Wolfhard) e Lucas (Caleb McLaughlin) tentam compreender o estranho mundo com namoradas. Will (Noah Schnapp) ainda deseja apenas jogar Dungeons&Dragons, e ainda se sente assombrado por suas experiências no mundo invertido. Dustin (Gaten Matarazzo) se sente deslocado do grupo após passar um mês fora. Já as garotas constroem em cena uma fofa amizade tardia, afinal faz um ano que as duas fazem parte do mesmo grupo de amigos. Com Max (Sadie Sink) ampliando os horizontes de Eleven, ambas se libertando da sombra dos garotos da gangue.

Todos os principais personagens passam por alguma evolução em suas tramas, antigas relações são reforçadas e novas são construídas. Isso inclui a adição de novos membros à gangue. Entre estes os destaques ficam com Robin (Maya Hawke), a inteligente colega de trabalho de Steve. Erica (Priah Ferguson), a irmã caçula cheia de atitude de Lucas, que até já tinha dado às caras, mas agora finalmente tem idade para embarcar na "brincadeira". Também temos tempo para ver um pouco mais do cotidiano da cidade, preste a comemorar o 4 de julho, e sendo afetada pelo primeiro centro comercial, o shopping Starcout.

O tempo dedicado aos personagens no início é perfeito para que as ameaças invisíveis que cercam a cidade sejam construídas aos poucos, e ganhem mais impacto aquando finalmente apareçam abertamente e reúnam todos os personagens. O Devorador de Mentes, garante o vilão sobrenatural e gore da temporada, garantindo o contraponto sombrio da trama na figura de um Billy (Dacre Montgomery) possuído. Enquanto a conspiração dos soviéticos é pura referência à imagem caricata criada para eles pelas produções oitentistas. Também são eles os responsáveis por dar vida nova à ameaça do Mundo Invertido, evitando que a trama caia na mera repetição.

E por falar em referências, é claro elas estão de volta, como já é tradição da produção. Tanto às mais sutis, presentes em ângulos de câmera e temática, até as mais descaradas como músicas, menções em diálogos, objetos, acontecimentos da época (repara no filme em cartaz no cinema do shopping) e até na construção de alguns personagens, como os já citados militares soviéticos e, principalmente no perseguidor no Grigori (Andrey Ivchenko), praticamente o T-800, de O Exterminador do Futuro.

O ponto fraco da produção fica por conta do comportamento oscilante de Eleven. A garota já convive em sociedade, mesmo que limitada, há cerca de um ano, em alguns momentos fala de forma fluida como os colegas, em outros retorna ao ritmo de fala pausado de quem tem pouco contanto com pessoas. Faltou determinar melhor o estágio de evolução em sociedade da jovem, e os planos de Hopper para ajudá-la a ter um vida fora daquela cabana ou do círculo restrito de amigos.

Alguns também podem ficar decepcionados pela trama deste ano não explorar a família biológica de Eleven, ou os demais experimentos Laboratório Nacional de Hawkins. Ambos os temas foram apresentados no ano anterior, com a aparição da mãe da jovem, e de outra cobaia, a Eigh. Mas nenhum foi levado à frente nestes episódios mais recentes. Pontas soltas, que torcemos para serem amarradas no futuro.

Os irmãos Duffer, criadores da série, já afirmaram que tem planos para quatro, talvez cinco, temporadas, e o encaminhamento para o desfecho começa a ser evidente neste terceiro ano. Com mais da metade da história apresentada, arcos começam a ser fechados, e explicações começam a ser encaminhadas, mas não entregues. O que inclui uma cena pós créditos, presumidamente criada para gerar especulações sobre o quaro ano.

Com um total de oito episódios, Stranger Things 3, acerta ao deixar o espectador passar um tempo com seus personagens favoritos. Ampliando nossa preocupação com eles quando enfrentam as coisas estranhas, e a carga dramática das relações, desfechos e sacrifícios. Compensando por uma ameaça levemente repetitiva, é basicamente o monstro do segundo ano com novas habilidades e alguns soviéticos para complicar. A série continua sendo uma obra bem produzida, com trama bem construída, personagens carismáticos, boas atuações, efeitos e trilha sonora. Além de muitos easter-eggs e a aquela adorada nostalgia. Ainda é um dos melhores produtos da Netflix.

Leia a crítica da primeira e da segundatemporada e outros posts sobre a série!
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