O Rei Leão - Ah! E por falar nisso...

quarta-feira, 17 de julho de 2019

O Rei Leão

A Disney está assumidamente em uma curiosa fase de remakes. Estas produções geralmente tentam trazer algo novo que justifique sua existência. A mudança de perspectiva em Malévola e Dumbo, o empoderamento de Jasmine e Bella, estão entre as diferenças mais marcantes, tenham elas funcionado, ou não. Sempre há também atualizações de diálogos, novas canções, personagens e a reinvenção visual de seus universos. Em O Rei Leão, é a tecnologia de animação fotorrealísta a grande novidade, e apenas ela.

O jovem Simba (JD McCrary/Donald Glover) está destinado a ser rei, mas tem sua jornada interrompida por uma armadilha de seu ambicioso tio Scar (Chiwetel Ejiofor). O príncipe cresce exilado, aprende novas lições antes de estar apto a retomar seu lugar de direito.

Uma vez que a comparação é inevitável, vamos riscar logo este item da lista. A história é exatamente a mesma do clássico de 1994. Sem adições de personagens, ou grandes atualizações. A sequência inicial de The Circle of Life, inclusive, é uma recriação completamente fiel da animação. Essas recriações exatas de momentos icônicos estão presentes em toda a projeção, replicando posicionamento de câmeras, mise-en-scène e fotografia. Tornando difícil saber se se você está gostando da nova versão por seus próprios méritos, ou por nostalgia pelo original.

Julgar uma obra, usando outra como base é injusto. Entretanto, quando o novo trabalho bebe de forma exagerada da fonte anterior, ele próprio induz tal comparação. O argumento de ser uma versão criada para novas gerações não se justifica, já que muitas das imagens icônicas fazem parte do imaginário popular e dificilmente encontraremos alguém que não tenha esbarrado em alguma delas. A nova versão de O Rei Leão, ultrapassa o limite da homenagem nostálgica, e alcança a cópia em muitos momentos.

Voltando a atenção para o que esta versão traz de novo, a tecnologia de animação fotorrealista. É aqui que a produção se destaca criando cenários, texturas e movimentação de personagens que farão os pequenos pensarem que animais de verdade foram usados. Vi isso acontecer no recente Mogli, que tem o mesmo diretor deste filme, Jon Favreau. Quase todo o tempo extra que esta versão tem em relação ao anterior, é gasto na exploração da qualidade visual que esta técnica permite. Longos takes, mostram com riqueza de detalhes, as paisagens. Vemos mais espécies de animais em cena, com uma recriação absurdamente realista de sua pelugem, plumagem e movimentação. É um deleite para os olhos, e um uso bem feito da técnica, e uma excelente apresentação para o público de sua evolução.

Apesar de ser a grande motivação para a existência do projeto, e também seu maior acerto, o realismo também é o ponto fraco do filme. Isso porque a animação recria com fidelidade, os movimentos e expressões de animais reais. Assim, os personagens perdem em expressividade, detalhe que fica evidente principalmente nas sequencias com canções. O universo lúdico também sofre uma perda, já que as sequências como I Just Can't Wait to Be King e Be Prepared, precisam ser contidas para manter a coerência com este universo mais realista. Assim como a representação das hienas, que ganham uma líder menos bobalhona.

Se as expressões faciais são mais sutis devido ao realismo dos animais, cabe ao elenco de vozes deixar claro as nuances dos personagens. Tarefa que a maioria cumpre bem, com destaque para JD McCrary, que consegue conferir inocência e carisma à versão criança de Simba. Já sua em versão adulta Donald Glover, demora para encontrar o tom do personagem. Enquanto Beyoncé (Nala) brilha apenas nas sequencias musicais.

Outras boas escalações são as de Billy Eichner, Seth Rogen e John Oliver, respectivamente Timão, Pumba e Zazu. O trio fica com as maioria das falas totalmente originais, já que as piadas foram renovadas, e as entregam criando seu próprio estilo para os personagens. Vale ressaltar o retorno de James Ear Jones como a voz de Mufasa, e boas atuações de Alfre Woodard (Sarabi) e Chiwetel Ejiofor (Scar).

Todas as canções estão de volta, além de uma faixa inédita com produção de Beyoncé, Spirit. A versão nacional traz as vozes de Ícaro Silva e Iza, nas versões adultas dos protagonistas.

Bem executado, com boas atuações, uma tecnologia impressionante, e uma fidelidade gigantesca ao original, é difícil alguém desgostar do novo O Rei Leão. Afinal, é o mesmo filme que amamos em 1994, apresentado com uma nova forma de animação. Também é difícil não questionar a necessidade de sua existência. Seria a existência de uma tecnologia, motivação suficiente para mexer em um clássico? Se sim, uma cópia tão exata é o suficiente, ou algo de novo deve ser oferecida ao expectador?

Sejam quais forem as respostas O Rei Leão é no mínimo um interessante estudo de tecnologia. Pode inaugurar um novo momento na forma de se fazer animação. Não tem a mesma aura de fantasia que o original, mas funciona. E deve resultar caminhões de dinheiro para a Disney, e este provavelmente foi a maior motivação para a realização da produção.

O Rei Leão (The Lion King)
2019 - EUA - 118min
Animação, Aventura, Drama, Musical

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