Maio 2020 - Ah! E por falar nisso...

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Emma.

quinta-feira, maio 28, 2020 0
Confesso, por algum motivo que a razão desconhece, nunca assisti a nenhuma adaptação de Emma, tão pouco li a obra de Jane Austen. Nem mesmo a novela que reunia vários personagens da autora, incluindo Emma, eu assisti. Logo, embarquei com muita curiosidade e nenhuma expectativa no longa estrelado por Anya Taylor-Joy.

Emma Woodhouse é bonita, inteligente e rica. Não tem intenção de casar, mas adora bancar a casamenteira. Teimosa, e com a ingenuidade de alguém que nunca teve grandes problemas em mente, é claro, que a moça não é tão perceptiva quanto imagina. Interpreta sinais errado, embaralha a vida amorosa de seus conhecidos, além de ignorar seu próprios sentimentos.

Assim como o livro, o longa começa com uma descrição simples e direta de Emma em texto: bonita, inteligente e rica. Ao mesmo tempo as cenas iniciais mostram que a moça também é mimada e um tanto quanto intrometida, ao "selecionar flores"- ela não as colhe - para dar a sua governanta prestes a se casar. À primeira vista, não parece a mais adorável das personagens. É o carisma e os grandes e expressivos olhos de Anya Taylor-Joy que seguram o espectador por mais tempo.

O jeito mimado e o mundo de riquezas inacessível de Emma seriam remediado pelo seu jeito atrevido e diálogo inteligente característicos da autora. Entretanto, as linhas de Austen, são apresentadas de forma corrida e pomposa. Uma metralhadora de costumes e nomes, que pode afastar quem não é familiarizado com a obra. O roteiro falha em conferir leveza às longas conversas, bem como da adaptação como um todo.

Ainda assim, o elenco se esforça para conferir sutileza à esta comédia de costumes, e é por eles que vale apenas persistir. Além de Taylor-Joy, destacam-se Bill Nigh, como o hipocondríaco pai da protagonista, e Mia Goth como a simples e influenciável Harriet Smith.

Figurinos e direção de arte são outro acerto da produção. Além de belos, os figurinos ajudam a construir e distinguir os personagens, bem como os cenários e locações, constroem bem o mundo restrito e bem característico em a protagonista vive.  O diretor estreante Autumn de Wilde, aproveita bem os grandes palácios e planícies abertas. O visual não deixa dúvidas, é o mundo de Jane Austen, bucólico e poético como imaginamos.

A trilha sonora por outro lado, é intrusiva ao ponto de abafar falas dos personagens em alguns momentos. Estas mesmas canções parecem deslocadas do cenário. Remetendo mais à uma trama no interior dos Estados Unidos que na Inglaterra do século XIX.

Emma. (sim, tem um ponto no título), parece ter a intenção de ser a adaptação definitiva (desta geração, ao menos) da obra de Jane Austen. E provavelmente será. Entretanto, a produção poderia apostar mais naqueles que desconhecem a história. Os recém chegados ao mundo da autora, podem ficar confusos com tantos nomes, e as curiosas "regras do namoro".

Tecnicamente bem feita e com diálogos sisudos, Emma. é uma produção ciente da popularidade de sua história. Por isso aposta nos já aficionados, e torcem pela curiosidade dos não iniciados. Talvez, seja esperar demais de quem só encontrou a protagonista na versão "atualizada" de As Patricinhas de Beverly Hills.

Emma.
2020 - Reino Unido - 124min
Comédia, Drama




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sexta-feira, 22 de maio de 2020

Eu Nunca... - 1ª temporada

sexta-feira, maio 22, 2020 0
Uma adolescente tentando ter o melhor ano da sua vida, ser popular na escola, ter muitos amigos, uma vida social agitada, um namorado... já vimos esta história uma centenas de vezes na TV e no cinema, mesmo assim elas continuam sendo produzidas. As que melhor refletem melhor a época e adolescentes que escolhem retratar, são aquelas que perduram. Honestidade e autenticidade, Eu Nunca... atende perfeitamente essas exigências.

Devi (Maitreyi Ramakrishnan) é uma adolescente americana-indiana que acaba de passar por um ano extremamente difícil, por isso resolve começar o novo ano letivo com vida nova. É claro, administrar suas ambições, obrigações escolares, e as relações com amigos e família, é uma tarefa complicada. Ela vai cometer erros típicos da idade, agravados por sua personalidade forte e pelos sentimentos que esconde de si mesma.

Inspirado na adolescência de sua criadora, a atriz, roteirista e comediante Mindy Kaling, Eu Nunca... acerta em retratar com honestidade o cotidiano de uma jovem. Os medos, dúvidas, impulsos e até erros de Devi, são relacionáveis para quem é, foi, e será adolescente um dia. Suas ações e motivações são realistas e coerentes com sua idade, e mesmo quando levadas ao extremo jamais soam forçadas ou falsas. Mérito do roteiro, que conhece e respeita não apenas sua protagonista, como todos que a cercam.

Os personagens secundários, a primeira vista podem até parecer os tradicionais estereótipos do gênero, mas aos poucos desenvolvem arcos próprios igualmente interessantes e relevantes. Kamala (Richa Moorjani) prima da protagonista é o exemplo perfeito. Apresentada como apenas uma moça bonita e perfeita, logo é confrontada com imposição das tradições e sua tentativa de fuga das mesmas. Descoberta da sexualidade, identidade, preconceito, solidão, luto, rivalidade, amizade e companheirismo, estão entre os temas que os coadjuvantes ajudam à abordar, enquanto acompanhamos a jornada de Devi.


E por falar na protagonista, a novata Maitreyi Ramakrishnan, executa muito bem a tarefa de carregar a série. Carismática, consegue nos fazer torcer por Devi, mesmo quando a garota toma as piores decisões. A experiente Poorna Jagannathan, consegue em poucas cenas criar uma mãe que esconde sentimentos complexos sob sua rigidez com a filha. Os emocionantes embates entre as duas estão entre as melhores cenas, de uma série repleta de bons momentos.

Outro destaque do elenco é Jaren Lewison, seu Ben é um riquinho, almofadinha, competitivo e irritante, mesmo assim é difícil desgostar dele. Seu interprete consegue apresentar as camadas que enriquecem o personagem e explicam sua personalidade, antes mesmo de acertado episódio centrado nele. Darren Barnet, Lee Rodriguez, Ramona Young e Niecy Nash completam o elenco principal com boas atuações. Vale mencionar, o elenco é diverso da forma correta. Simplesmente retrata o mundo como ele é, respeitando as diferenças de cada um, sem ser tabu, muito menos panfletária.

O texto é ágil, inteligente e cheio de referências. Em outras palavras, bem parecido com o que se espera da juventude atual. Equilibrando drama, e humor, há também espaço para boas lições, e cenas tocantes, conforme os personagens evoluem e se relacionam. Apenas a curiosa narração do tenista John McEnroe, soa redundante em alguns momentos. Mas, é feita com tanto bom humor, e com texto tão inteligente, que a repetição é facilmente relevada.

Em apenas dez episódios de pouco mais de vinte minutos, o roteiro consegue resolver o arco da protagonista e de seus coadjuvantes, de forma ágil e envolvente. Apesar do pouco tempo, consegue explorar bem seus temas, ao passo de que esta primeira temporada não deixa pontas soltas, apenas possibilidades. Se terminasse assim, estaria ótimo, mas também há espaço para mais histórias. Afinal, a vida continua, e Devi vai encarar novos dilemas.

A Netflix tem investido bastante em tramas juvenis, algumas bem sucedidas, muitas nem tanto. Eu Nunca... está no seleto primeiro grupo, graças à sua honestidade, autenticidade, bom texto e humor. Em tempos de adolescentes que desvendam assassinatos, enfrentam demogorgons, adquirem super-poderes e praticam artes das trevas, às vezes, a simplicidade cotidiana é a opção mais original e carismática.

Os dez episódios de Eu Nunca..., estão todos disponíveis na Netflix.

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terça-feira, 19 de maio de 2020

3 filmes incríveis escondidos no Amazon Prime Video

terça-feira, maio 19, 2020 0
Hoje é dia de dicas para te entreter na quarentena. As três produções desta lista são recentes passaram muito discretamente pelos cinemas brasileiros. De fato, se você não mora em uma grande metrópole é provável que estes títulos não tenham sido exibidos em nenhum cinema próximo de você. Agora, estes filmes estão disponíveis no Prime Video e podem receber a atenção que merecem. E eu vou te contar porque valem a sessão. 

São produções bastante diferentes em gênero e estilo, porém únicas cada uma a sua maneira:

(Only Lovers Left Alive - 2013)
Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton) estão neste mundo a tanto tempo que poderiam ser os mitológicos Adão e Eva. Vampiros tradicionais, conhecem diferentes idiomas, viveram todos os períodos da história, conheceram grandes nomes da humanidade. Com "tempo" de sobra, levam a vida em seu próprio ritmo, mesmo. São amantes, mas vivem em continentes diferentes. Seu estilo de vida contemplativo e melancólico é ameaçado pela presença da irresponsável irmã caçula da vampira, Ava (Mia Wasikowska).

Este é filme de vampiros muito diferente do que estamos acostumados. Nada de caçada por presas, ou fuga de caçaodores, o foco aqui é refletir sobre as maravilhas e dores da eternidade. Aproveitar os momentos mais excitantes da humanidade, mas também se arrastar pelos mais tediosos. Ou seja, nada de terror, ação ou aventura, este é um drama! Denso complexo, calmo e constante. Propositalmente lento, para colocar o público no mesmo estado contemplativo que a posição temporal privilegiada proporciona à seus protagonistas.

Para os cinéfilos, a referência imediata tanto em estilo, quanto temática,  é Fome de Viver (1983), embora o filme dirigido por Jim Jarmusch, seja muito mais contemplativa e filosófica, que o longa oitentista de Tony Scott. O elenco estelar, que conta também com John Hurt, Anton Yelchin e Jeffrey Right. Figurino e direção de arte são outros aspectos que merecem um olhar mais atento.

Leia a crítica completa de Amantes Eternos

(Wonderstruck - 2017)
O título nacional de Sem Fôlego, não faz jus ao conteúdo da produção e do livro homônimo em que ela fora baseada. O autor e roteirista Brian Selznick (que também escreveu A Invenção de Hugo Cabret), mostra que nossos dilemas continuam essencialmente os mesmos, não importa a época em que acontecem ou a forma como são contados.

Em 1927, Rose (Millicent Simmonds), coleciona notícias da mãe famosa que não vê há tempos. Solitária e insatisfeita com as regras do pai, ela foge para reencontrar a mãe, tarefa complicada por sua condição. A menina é surda desde que nasceu. Já em 1977, é Ben (Oakes Fegley) quem se sente solitário após a morte da mãe. Ao encontrar o que acredita ser uma pista sobre a identidade do pai que nunca conheceu, ele também foge da casa dos tios.As duas histórias correm em paralelo, compartilhando locações, situações e experiências. Eventualmente estas jornadas já unidas por temática e rimas visuais se encontrarão em um terceiro ato que fecha quase todas as pontas.

O charme fica por conta da forma como o diretor Todd Haynes encontrou para replicar a experiência das páginas na tela. No livro, a história de Ben é contada em texto, enquanto a de Rose apenas com ilustrações do próprio autor. No filme, 1927, assim como os filmes da época, é em preto e branco e mudo, nos aproximando ainda mais do universo silencioso de protagonista. Enquanto em 1977 a história tem som, as cores são saturadas, e com um tom amarelado, como as fotografias da época que encontramos hoje, além de uma trilha que acompanha a época.

Além das carismáticas crianças que carregam bem o filme, o elenco ainda conta com Julianne Moore, Jaden Michael, Cory Michael Smith e Michelle Williams. Uma produção carismática, doce e encantadora para toda a família. Precisa de mais? Tem Space Oddity de David Bowie na trilha sonora.

Leia a crítica completa de Sem Fôlego.
Também tem crítica do livro e a comparação Livro vs Filme

(Scary Stories to Tell in the Dark - 2019)
É Halloween e um grupo de adolescentes de uma pacata cidadezinha resolve explorar uma casa assombrada. O que pode dar errado? Para eles, muita coisa. Para nós, é um gostoso terror juvenil, digno de festas do pijama.

Stella (Zoe Margaret Colletti), Ramón (Michael Garza), Auggie (Gabriel Rush) e Chuck (Gabriel Rush) encontram no casarão assombrado da família Bellows, um livro repleto de histórias macabras que logo começam a se tornar realidade. A molecada precisa descobrir as origens do livro para detê-lo, ao mesmo tempo que tentam escapar de seus maiores medos que ganham vida através do artefato.

Trata-se da adaptação para o cinema da série literária de terror juvenil escrita por Alvin Schwartz, que usa o livro amaldiçoado para levar diferentes contos para as telas. O resultado é um união bem feita de pequenas histórias simples e criativas que trazem que abordam várias ameaças clássicas do gênero. Fantasmas, entidades, criaturas, maldições, casas assombradas, cadáveres, insetos, vudu, malfeitores humanos, hospital psiquiátrico, perseguição em milharal, tem um pouquinho de tudo nesta produção dirigida por André Øvredal.

O ponto alto da produção é o envolvimento de Guillermo del Toro como produtor, que garante sua estética impecável, bastante uso de maquiagem e efeitos práticos, combinados com uso moderado do CGI. Com indicação etária de 14 anos, a produção garante o aquele "medinho controlado" divertido para a molecada. Enquanto o público com mais bagagem, vai curtir o tom nostálgico, a produção caprichada e a história bem amarrada. Ambas as gerações devem ficar com nojo das criaturas igualmente.


Como você notou, todas as três produções tem críticas aqui no blog, infelizmente os filmes chegaram para pouca gente na época de seu lançamento. Fiquei tão feliz em finalmente poder rever estas obras, que resolvi indicá-las novamente.

E aí, já viu alguma? Todas estão disponíveis no catálogo da Amazon Prime Video, procura lá!

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sexta-feira, 15 de maio de 2020

A Maravilhosa Fotografia de O Conto da Aia

sexta-feira, maio 15, 2020 0
Escrito por: José Renato
Site: Pllano Geral
Página no Facebook: Pllano Geral

Distribuída pela Hulu, O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Margaret Atwood. Lançada em 2017, a série chamou atenção de muita gente por uma temática no mínimo complicada de ser assistida.

Além da história, que já é maravilhosa por si só, o conto das aias chamou atenção também por seus belíssimos enquadres, que é considerado hoje uma dos melhores entre as séries. A fotografia, como bem empregada que é, é usada a todo momento como suporte do próprio enredo, tornando-o assim ainda mais carregado de significado. A direção fica a cabo de Colin Watkinson, e dentre os diversos prêmios que a série recebeu, destaca-se aqui o prêmio de melhor fotografia em câmera única (Primetime Emmy Awards 2017), pelo episódio “Offred”, dado ao próprio Colin.

E o que tem essa fotografia de tão especial? Bem, vamos ver.

Começamos é claro pelo que é considerado mais “básico” aos iniciantes de fotografia, o uso do Plongée e do Contra-Plongée. As duas técnicas são perfeitamente empregadas em vários diálogos durante a obra, veja o exemplo:

Aqui em um diálogo entre Serena (Yvonne Strahovsky) e Tia Lydia (Ann Dowd), vemos o uso das técnicas para salientar a noção de poder, ou seja, quem está no controle da situação.

Plongée:


Contra-Plongée:

Aqui temos um outro Contra-Plongée, em que a ideia é demonstrar a redenção de June (Elisabeth Moss), buscando te comunicar que nesse momento ela está se sentindo forte. O sangue é uma mensagem literal do sofrimento derramado até aqui.

Contra-Plongée:


Podem-se usar também o uso da Perspectiva para salientar uma ideia. Veja neste plano, por exemplo, a altura de Serena está sendo utilizada para demonstrar a mesma noção de poder do diálogo anteriormente mencionado.

Perspectiva:

Tanto o Plongée, Contra-Plongée e a Perspectiva, são comumente usados para demonstrar a relação mandante-subordinado.

Ainda sobre enquadramentos de cenas, um muito comum que você verá constantemente é o Primeiríssimo Plano. Esse enquadre é usado principalmente para aproximar o telespectador aos sentimentos da personagem, algo que a série faz com louvor.

Primeiríssimo Plano:

Já neste outro plano, além de te aproximar de June, o enquadramento ainda é usado para estabelecer um diálogo mais direto com o telespectador através do olhar da atriz, há assim uma quebra sutil da quarta parede.

Primeiro Plano:

Vemos que a direção de fotografia também prefere ousar, ao fazer alguns enquadramentos utilizando objetos externos. Dessa forma, além de proporcionar belos e intrigantes planos, a série continua te mandando mensagens.

Neste enquadre por exemplo, podemos ter a noção de união, de conjunto, considerando existir um paralelo nos ideais dos dois personagens em cena:

Noção de união:

Colin também brinca com analogias religiosas das quais a própria série discute, quase como uma metalinguagem. Aqui os planos são usados para demonstrar uma possível noção maniqueísta.

Anjo:

Demônio:

Outra técnica que a série utiliza com primor é o de brincar com a realidade das aias, que estão em grande parte do seriado na condição de prisioneiras. Por algumas vezes verá uma delas quase que literalmente atrás das grades:


Ou até mesmo presas em caixas:

O uso dessas imagens, mesmo que por algumas vezes passem muito rapidamente, servem para que possamos sentir a sensação de isolamento, aprisionamento ou vigilância, estando assim constantemente reforçando a narrativa.

Você deve ter percebido que o tema abordado aqui se resume a enquadramentos de cenas, o que é apenas um dos aspectos estudados em fotografia. O Conto da Aia consegue se destacar também em outros quesitos, como Luz, Foco, e algumas outras Rimas Visuais. Caso tenha gostado, posso abordar tudo isso em um próximo artigo.

Então é isso pessoal, um grande abraço!
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quarta-feira, 13 de maio de 2020

O Silêncio da Cidade Branca

quarta-feira, maio 13, 2020 0
Obras como O Silêncio dos Inocentes e Se7en - Os Sete Crimes Capitais são, sem dúvida, as maiores referências de O Silêncio da Cidade Branca, filme da Netflix que adapta o livro homônimo de Eva García Sáenz. Entretanto, são séries procedurais de crime, como os vários CSI, que vieram à minha mente ao longo da projeção.

Há vinte anos Assassino do Sono cometeu uma série de homicídios cheios de simbolismos, antes de ser identificado e preso. Agora, quando o culpado está prestes à sair da prisão, novos assassinatos com a mesma assinatura são realizados. Cabe ao detetive Unai (Javier Rey), descobrir se se trata de um imitador, ou se um inocente fora preso pelos crimes de duas décadas atrás. Para tal ele conta com a ajuda das detetives Alba (Belén Rueda) e Estíbaliz (Aura Garrido) e do próprio Assassino do Sono original (Alex Brendemühl).

Conversas com um assassino condenado para compreender outro, como em O Silêncio dos Inocentes, crimes cheios de simbolismos bíblicos como em Se7en, as referências são claras. Então porque será que pensei em séries de TV como CSI? Verossímeis ou não, essas séries que existem aos montes na TV, criaram uma versão bastante clara do passos de uma investigação, para uma força tarefa ficcional. A fórmula repetida à exaustão criou um padrão simples, de lógica razoável e nos acostumou com ele.

E aí que O Silêncio da Cidade Branca começa a perder em credibilidade. Os detetives não compartilham informações entre si, não discutem o caso, escolhem suas testemunhas aleatoriamente, ignoram pistas. À certa altura, um deles diz: "não podemos perder tempo revisando casos antigos". Sendo que teoricamente é o mesmo caso, e eles já desperdiçaram tempo e pistas aos montes à esse ponto, e os corpos se empilham. O trabalho desconexo da polícia é proposital, para colocar também os detetives entre os suspeitos. Mas acaba destruindo a suspensão de descrença do público, que não consegue evitar questionar os passos de Unai e companhia.

O caso em si, é realmente intrigante e com simbolismos suficientes para várias interpretações e desfechos. Assassinatos em pares, com vitimas cinco anos mais velhas à cada nova ação. Sempre um casal, deixado em um ponto histórico da Espanha, na mesma posição (ou quase, faltou atenção aqui, hein). Mas a investigação ora foca em alguns elementos dos crimes, ora os ignora completamente, empaca, dá saltos e deduz coisas aleatoriamente. Problema oriundo do roteiro, que aparentemente tenta transpor todos eventos do livro, mas não encontra tempo ou disposição para tanto.

Assim, a investigação divide atenção com muitas histórias, que deveriam influencia-la, mas apenas correm em paralelo sem tempo de serem bem exploradas. O trauma de Unai, seu relacionamento com Alba, o possível envolvimento de um ou outro personagem, a origem de determinado apelido, tudo compete com a trama principal, e muitas dos temas não são finalizados. Enquanto isso,o mistério de assassinato, tenta surpreender, mas se desenvolve de forma irregular e cheia de lacunas.

 A direção não entrega o básico do gênero, sem grandes estrepolias, a não ser por imagens bonitas das belas locações espanholas, e uma ou outra cena de perseguição inusitadas. A posição das câmeras e montagem das cenas, parecem mais preocupadas em exaltar o lugar em que a perseguição ocorre, do que a caçada de fato. O resultado são, perseguições à pé de alvos fora do campo de visão (como o perseguidor sabe pra onde o perseguido foi?), personagens que deviam interceptar outros, mas decidem não prestar atenção às portas, e policiais que sacam a arma indiscriminadamente, em momentos que não fazem sentido.

O elenco não consegue fugir do clichê , nos tipos conhecidos que a produção tenta emular, o veterano desesperançado com a vida, a parceira impulsiva, o condenado provocador, e por aí vai. Alguns funcionam melhor que outros, mas ninguém entrega nada memorável.

Talvez nas páginas O Silêncio da Cidade Branca seja thriller psicológico intrigante e que resolve bem todos os temas e símbolos que propõe. A versão para tela, esbanja potencial, mas se perde na execução. Tão preocupada em despistar e confundir o espectador, o filme confunde a si mesmo, e não entrega tudo que podia ou deveria. Resolver o mistério, responder perguntas, como qualquer série procedural de investigação faz de forma simples semanalmente.

O Silêncio da Cidade Branca (El silencio de la ciudad blanca)
2019 - Espanha - 110min
Suspense, crime





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sexta-feira, 8 de maio de 2020

Resgate

sexta-feira, maio 08, 2020 0
Os melhores filmes de ação geralmente são aqueles que conseguem equilibrar um "quebra-pau" desenfreado, com uma história coerente e personagens pelos quais somos capazes de torcer. Resgate da Netflix acerta em cheio em um destes quesitos, mas não traz o mesmo brilho nos demais aspectos. Mesmo assim, deve agradar boa parte dos fãs do gênero.

O mercenário Tyler Rake (Chris Hemsworth), aceita uma nova missão: resgatar Ovi (Rudhraksh Jaiswal), filho de um chefão do crime, sequestrado por outro chefão do crime. É claro, o que devia ser mais um trabalho, acaba se tornando a mais arriscada missão de extração.

Sim, você já viu dezenas de produções semelhantes. Apesar de pouco original, o roteiro de Resgate é coerente, e bem definido. Missão, ação, dificuldades, pausas, volta à ação, está tudo lá como manda a fórmula, com reviravoltas e pontos de virada nos momentos certos. O que falta à trama é uma construção de personagens que nos faça temer por suas vidas.

Tyler é o típico cavaleiro solitário, que sofreu uma grande perda, e mergulha de cabeças em missões de auto-destruição. Ovi é um adolescente como outro qualquer. Nenhum dois ganha características fora de seus estereótipos, ou mesmo cenas que gerem empatia do público antes de serem jogados na ação.

O desenvolvimento chega, tradicionalmente nos respiros da ação, através da exploração do relacionamento dos dois. Mas é raso e previsível, com diálogos sonolentos. O pouco do interesse despertado, vem do bom trabalho da dupla e principalmente do carisma de Hemsworth.

Não há grandes destaques entre personagens secundários, embora a participação de David Harbour agrade pelo simples fato de encontrarmos mais um rosto conhecido. Golshifteh Farahani também acerta no pouco tempo de tela que tem, deixando aquela vontade de saber mais sobre sua personagem.

É na ação que a produção se destaca. Estreante na direção de longas-metragem, Sam Hargrave tem uma vasta experiência como dublê, e por isso sua produção brilha neste departamento. A ação bem coreografada, desenfreada e filmada de forma coerente é no mínimo eletrizante. É possível sentir tanto a urgência da situação, quanto o peso de cada soco. Com destaque para uma longa sequencia de perseguição, filmada como um grande plano sequência pelas ruas de Dhaka.

A edição de som, trabalha em prol dessa ação, é ela quem dita o peso dos impactos, da a noção do quão populosas são aquelas ruas, e quanto aparato é empenhado nesta pequena guerra urbana. A trilha sonora complementa este bom trabalho. Já a fotografia é exageradamente amarelada, ampliando a sensação de ambiente hostil. O mundo é quente, abafado e poeirento.

Baseado na grafic novel Ciudad Ande Parks, o roteiro de Joe Russo amarra bem todas pontas soltas até os últimos momentos, quando decide fabricar um final em aberto que possibilitaria uma sequencia. Continuação que já fora confirmada por Russo. 

Particularmente, eu preciso de um pouco mais de produções de ação. Entretanto, para quem procura  apenas por adrenalina, Resgate é uma opção excelente. Não tem uma grande história, mas a ação é excepcional. 

Resgate (Extraction)
2020 - EUA - 116min
Ação

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terça-feira, 5 de maio de 2020

Westworld - 3ª temporada

terça-feira, maio 05, 2020 0
Quando as primeiras imagens da terceira temporada de Westworld saíram, a reação da maioria das pessoas foi a seguinte: "para, volta, aquela é a Dolores? Isso era Westworld?".

Um mundo e personagens completamente novos na tela, e uma única cena final da personagem de Evan Rachel Wood, para comprovar que se tratava da série aclamada da HBO, abriram a perspectiva e criaram grande expectativa sobre as novidades surpreendentes estariam por vir. Mal sabiam os espectadores, que o que viria seria exatamente esta estranheza e falta de reconhecimento sobre qual programa estaríamos assistindo.

Os parques da Delos entraram em colapso, visitantes humanos morreram, parte dos anfitriões fugiu, o restante fora danificado, mas Dolores escapou para o mundo real. É a partir daí que acompanhamos este terceiro ano. As consequências do massacre no parque, e os planos da anfitriã no novo mundo, de uma forma muito mais simples e linear que nas temporadas anteriores.

Apesar de ser uma das características que diferenciavam a série, a mudança das múltiplas linhas temporais para uma narrativa linear, leia-se simples, não é uma surpresa. A complexidade da segunda temporada acabou afastando espectadores menos dispostos a especulações e quebra cabeças. A mudança de tom, para uma vertente que privilegia mais a ação, também não seria problema, se sustentada por um bom roteiro, com motivações e atitudes coerentes, especialmente para personagens que já conhecemos.

Entretanto, na ânsia de manter algum mistério, já que agora estamos acompanhando a história linearmente, o roteiro optou por esconder planos e motivações de alguns, enquanto simplifica e limita outros. Assim, acompanhamos um plano aparentemente desconexo de Dolores por vários episódios, e quando a grande revelação vem, não é nada inimaginável. De fato, muita gente deduziu boa parte antes. O empasse entre ela e Mave soa infundado, visto que seria facilmente resolvido com uma conversa, coisa que elas fizeram na temporada anterior. A vontade de ver as duas duelando, superou a coerência aqui.

Enquanto isso, Maeve (Thandie Newton), outrora mais empática que a filha do rancheiro, aceita ser ferramenta de um humano desconhecido com um plano maléfico. Suas supostas motivações seriam um assunto já resolvido na temporada anterior, a segurança da filha. William (Ed Harris) e Bernard (Jeffrey Wright) seguem como ferramentas de dolores, sendo esquecido pela trama, ou jogados de um lado para o outro conforme coerente.

A mesma falta de precisão acomete os personagens novos. Serac (Vincent Cassel) promete ser uma grande força neste novo mundo, mas faz pouco e é facilmente subjugado. Enquanto Caleb (Aaron Paul), passa metade do tempo perdido, e a outra metade seguindo Dolores. É apenas no penúltimo episódio que o humano resolve se informar sobre o plano. Atitude no mínimo incoerente com a própria descrição do personagem, "alguém capaz de fazer escolhas".

E já que estamos falando dos humanos, difícil não notar ausência deles. Estamos fora do parque, mas vemos menos da humanidade do que quando estávamos em Westworld. Onde está este novo mundo que prometeram? Como funciona esta sociedade que acha normal massacrar robôs? A construção de mundo até está lá, é perceptível, mas pouca explorado diante do foco na jornada de Dolores.

Vemos menos dos robôs também, com pouquíssimos anfitriões sobreviventes, e algumas participações especiais questionáveis. A mais gritante, é a de Musashi (Hiroyuki Sanada), escolhido por Dolores com quem nunca interagiu, para substituir um chefão da Yakuza, quando o mais coerente seria replicar o humano, à exemplo do que ela fez com outro personagem. A explicação para a escolha? A produção queria trabalhar com Sanada novamente, e fez isso com diversos outros membros do elenco original, em aparições que funcionam melhor para alguns que para outros.

Para não dizer que ha reclamações, existem sim acertos nessa temporada. A grande ironia dos humanos seguirem uma narrativa criada por um robô, invertendo os poderes, e de certa forma igualando humanos e anfitriões é excelente. Há também momentos isolados extremamente inspirados, como a sessão de terapia dos William, e o desenvolvimento de Charlote. O excelente elenco, original e novas aquisições, entrega o melhor possível mesmo com as inconsistências de roteiro.

As cenas de ação são bem executadas, assim como toda a parte técnica, fotografia, figurinos, cenografia, mas essas são esvaziadas novamente pela história simplificada em rasa. O que fica evidente no quinto episódio Genre, que cria um bom recurso para explorar possibilidades narrativas, que no entanto, não tem função alguma na trama. Acompanhar a história alternando pelos estilos de diferentes gêneros do cinema, é incrível e bem executado, mas também totalmente gratuito.

A terceira temporada de Westworld amplia o universo, traz de volta seus bons personagens e apresenta novos, mas não parece a mesma série. Quer ser simples, e ao mesmo tempo surpreender, o resultado é uma história arrastada e muitas pontas soltas (cadê aquele corpo extra de Charlotte que vimos ser impresso?), e poucas surpresas. Particularmente, senti como se a temporada fosse um longo episódio intermediário. Uma grande preparação para o que está por vir (e vai vir, a série foi renovada), que seria muito mais interessante, se explorada de forma mais dinâmica em menos episódios.

Para uma série cujo maior mérito era deixar seu público em contante alerta e estimulá-lo a analisar suas muitas camadas, a simplificação e distatismo torna a produção irreconhecível. E nem os ganchos para o próximo ano, evitam que o público questione a natureza do programa e a existência de novas temporadas.

Westworld é exibida pela HBO, a terceira temporada tem apenas oito episódios, todos estão disponíveis na HBOGo.

Leia mais sobre o universo de Westworld!

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