Criaturas Extraordinariamente Brilhantes

O narrador é um polvo! Esse é o grande diferencial de Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, filme da Netflix baseado no livro homônimo de Shelby Van Pelt. Usar o observador não humano para contar uma história bastante humana, em alguns momentos de forma absurdamente didática e conveniente. 

Tova (Sally Field) é uma viúva solitária que trabalha no aquário da cidade como forma de ocupar seu tempo. Apesar do apreço pelo ambiente de trabalho e seus moradores, especialmente o polvo Marcellus (voz de Alfred Molina, o Dr. Octopuss de Homem-Aranha, genial!), um acidente simples mostra que talvez seja a hora da idosa se aposentar. Diante da iminete despedida, ela se vê determinada a ensinar ao seu substituto o "jeito certo" de fazer as coisas. 

Cameron (Lewis Pullman) é um jovem solto na vida. Abandonado pela mãe ainda na infância, ao receber a van dela como herança, entra em uma jornada para descobrir quem é seu pai através de algumas pistas encontradas no veículo. É assim que ele vai parar na cidade de Tova. Preso pelos defeitos de sua casa sobre rodas, e sem grana para consertá-la, acaba aceitando o trabalho de limpeza do aquário. 

Então Tova e Cameron começam a dividir o dia-a-dia, ou melhor as noites de faxina. Trocando experiências e criando vínculos. Sempre sob o olhar atento de Marcellus, que nos explica os sentimentos dos observados com a sabedoria de uma criatura tão única, que alguns acreditam ser original de outro planeta. 

É esse didatismo extremo de Marcellus que enfraquece a narrativa. Já que o molusco não nos deixa compreender por conta própria os sentimentos individuais e os por menores desta relação inusitada. É o velho "não conte, mostre", que muitos roteiros insistem esquecer. Não entenda errado, não há nada de errado com a narração ou reflexões de um observador externo. O problema está no fato desse relatos serem extremamente descritivos e obvios, acrescentando pouco ao que as interações dos personagens mostram por conta própria. 

As conveniências também são um ponto questionável. Parentes perdidos que se encontram por acaso, mistérios resolvidos por animais de aquário... não chegam a ser um problema, se você já entrar no filme compreendendo a proposta. Conveniências assumidas são comuns nesse tipo de narrativa, que usa o improvável e extraoridnário para contar histórias delicadas e inspiradoras. Acredito que o problema aqui venha do espectador estar ou não em um momento apto a receber esse tipo de facilitação. Neste dia, eu não estava. 

Dito isso, o filme faz boas crítias a temas relevantes na sociedade. Sendo o mais evidente deles, a solidão na terceira idade. Tova não apenas ficou sozinha com a morte do filho e marido, mas escolhe viver isolada para não ser um fardo para ningém. A obra também fala sobre amadurecer, aceitar responsabilidade, buscar novos objetivos, e da falta de propósito construida por uma criação sem raízez. Cameron foi criado de casa em casa, morando com um parente ou outro, isso fez com que ele não se apegasse a nada.

A direção de Olivia Newman não traz grandes inovações, mas faz bom uso do clima local para influenciar a fotografia e criar uma atmosfera melancólica, que contrasta bem com o azul profundo e os tons vibrantes do aquário. 

Criaturas Extraordinariamente Brilhantes não é inovador e revolucionário. Mas nunca prometeu ser! É tocante, adorável e reconfortante. Uma amostra de como novas amizades podem abrir novo caminhos.  Inspirando e acolhendo todas as idades no processo. 

Criaturas Extraordinariamente Brilhantes (Remarkably Bright Creatures)
2026 - EUA - 111min
Drama, Comédia

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