Volta e meia especialistas em cinema apontam que determinadas obras são "infilmáveis". Seja por sua extensão, seja por sua complexidade. Falou-se disso quanto à Duna, O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Gelo e Fogo, que entre erros e acertos, ganharam as telas com boas adptações. O que nunca se fala, no entanto, é que talvez a vida de algumas pessoas também seja extremamente complicadas de transpor para as telas. E Michael vem nos lembrar disso.
Cantor, compositor, dançarino e filantropo com dezenas de sucessos ao longo de quatro décadas de carreira, uma visão única de música como espetáculo. E inúmeras polêmicas no ambito pessoal, da infâcia de celebridade, à acusações de assédio, passando pela mudança drástica de aparência. Michael Joseph Jackson viveu em cinquenta anos, muito mais do que gerações inteiras somadas. Abordar sua vida toda em um filme, em detalhes, parece sim tarefa tão complexa quando adaptar Duna.
Mas, ei.. Villenueve conseguiu trazer Paul Atreides para as telas. E Antoine Fuqua traz a vida do Rei do Pop, embora não com tanto brilhantismo, mas sem escolher um recorte. A intenção é contar tudo! Partindo da infância roubada pelas ambições do pai, o roteiro de Michael percorre sua vida ponto-a-ponto. Com a benevolência de uma obra comandada pelos entes do retratado, e um "check list" a seguir.
- - Michael (Juliano Valdi) queria brincar, mas seu pai o forçava a ensaiar.
- - Joseph Jackson (Colman Domingo) era abusivo e ambicioso.
- - Os Jackson Five alcançam o sucesso.
- - Michael era uma criança sensível, não tinha amigos e buscava companhia nos bichinhos de estimação.
- - Era interessado por música e aprendeu com quem estava à sua volta.
- - Conforme fica mais velho, Michael (Jaafar Jackson) se interessa em fazer a própria musica, e é bem sucedido lançando o álbum mais vendido de todos os tempos. Mesmo ainda sob o domínio do pai abusivo.
- - Até que consegue se libertar ao descobrir seu lado "Bad!".
Jaafar Jackson sobrinho de Michael faz sua estreia na atuação ciente do peso e do talento do tio. Entregando a complexidade da distinção entre as versões do astro. O jovem sensível de fala mansa do dia-a-dia, contrasta com a força da natureza que o Rei do Pop se tornava ao performar.
É cedo para dizer se Jaafar é de fato um bom ator, ou apenas o resultado de alguém que cresceu sob a sombra do tio. Mas é inegável que o rapaz dança, canta e performa extremamente bem. Um esforço visível que serve muito bem à narrativa. E é complementado com uma boa caracterização. Um desafio à parte, considerando as muitas mudanças físicas que o biografado passou ao longo de seus 50 anos de vida.
E já que estamos falando do elenco, outros bons destaques são Colman Domingo, irreconhecível como Joseph Jackson, e com a competência de sempre, embora o roteiro não ofereça tanto quanto poderia. O pequeno Juliano Valdi também se prova um excelente showman ao levar a versão mirim do protagonista aos palcos. Miles Teller e KeiLyn Durrel tem mais tempo de tela e entregam performances eficientes. Enquanto Mike Myers surpreende em uma participação especial inusitada.
Se o elenco traz um bom trabalho, o roteiro é o ponto fraco da produção. Uma narrativa simples, direta, tal como uma lista à ser cumprida, mas que ainda sim não entrega todas as camadas de uma vida tão rica. Basta notar que na minha sinopse nada convencional, eu parei no álbum Bad.É exatamente onde o filme termina, revelando que esta é apenas metade da história. E que uma segunda parte está por vir. Pontuando a divisão acertadamente no meio de sua carreira. Quando se despede definitivamente do Jackson Five, e foca em sua carreira solo.
Entretanto, mesmo com a divisão, o roteiro não consegue se aprofundar nos conflitos. Os desafios do protagonista são apenas ilustrados, nunca de fato exploraddos pela história. O pai abusivo tem sua agressividade amenizada. A dificuldade de enfrentá-lo, que fazia Michael delegar esta tarefa é tratada com comicidade, ao invés de uma dificuldade a ser superada.
A quebra de barreiras, como a transmissão de seus video-clipes na MTV, que não exibia artistas negros é apenas mencionada. Quando poderia ser um bom ponto de contraste entre o orgulho de sua origem e o sentimento de inadequação que o fazia "embranquecer" sua imagem com diversos procedimentos estéticos. Em resumo, as plásticas de nariz estão lá, a mudança do tom de pele também, mas nunca são justificadas para além de uma insatisfação vista no espelho. Há também tempo para metáforas, alegorias e acenos óbvios ao futuro, como a obsessão do menino Michael com a história de Peter Pan
Espertamente, sempre que estas fragilidades do roteiro começam a ficar evidentes, o filme nos entrega outra performance. Músicas excelentes, momentos de clipes, shows e apresentações televisivas recriados à perfeição. Um truque para distrair que felizmente, ou não, funciona!
As sequencias musicais empolgam, afinal são hits do Michael Jackson. Apelam para a nostalgia e saudosismo dos mais velhos, e criam uma boa apresentação para os mais novos. Além de representar bem o fenômeno em torno de sua figura. Um ícone mundial que dificilmente se repetirá, graças às "bolhas culturais" que regem o mercado atualmente.
Michael não chega a ser uma biografia chapa branca, mas não se arrisca tanto quanto poderia. O que não é tão prejudicial nesta primeira metade da vida do cantor. Mas nos leva a questionar como seus últimos anos serão abordados. As acusações de abuso infantil, a concepção incomum dos filhos, a morte inesperada, os assuntos que abalaram a figura dele como ícone ficaram para a parte dois. Será que o roteiro terá coragem de explorá-los?
De qualquer forma Michael vai entreter fãs e não iniciados, adaptando de forma eficiente um vida "infilmável". Uma pena o roteiro não ser tão genial quanto seu retratado, mas o grande público nem vai ligar para as falhas, diante da possibilidade de rever o Rei do Pop encantar multidões. Não duvido que seja uma das maiores bilheterias de 2026!
Michael
2026 - EUA -127min
Biografia, Musical








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