Foge, Coelho

O sobrenatural, surtos psicológicos ou mesmo alucinações causadas por elementos externos, suspenses podem usar as mais diferentes explicações para seus mistérios. Podem inclusive, insinuar todas aos mesmo tempo, e no fim deixar o final em aberto, sem confirmar nenhuma. Se a construção for bem feita, respostas exatas não importam tanto, a graça é deixar à cargo do público sua teoria favorita. Foge, Coelho tenta entregar isso, mas falha miseravelmente. 

Sarah (Sarah Snook) está passando por uma fase difícil. Divorciada, com uma filha, seu pai acabara de falecer, e sua mãe está internada com demência em uma instituição, quando a filha Mia (Lily LaTorre) completa sete anos e começa a agir de forma estranha. As atitudes da menina trazem de volta problemas mal resolvidos do passado. Mais especificamente, o misterioso desaparecimento de sua irmã Alice (Sunny Whelan) ainda na infância.

E já que o nome é Alice, bora criar um paralelo com o conto de Lewis Carroll, e colocar o aparecimento de um coelho branco como estopim para os eventos extraordinários. Surge então a explicação para o título. 

Então o suspense se inicia de forma eficiente, embora bastante previsível. Mia age estranhamente, Sarah não consegue entender, e sem rede de apoio precisa lidar com tudo sozinha. O problema, é que o filme repete esse padrão repetidamente sem que praticamente nada realmente mude. À excessão da condição mental da protagonista, cada vez mais exaltada e descontrolada diante dos eventos estranhos e atitudes da filha. 

A personagem é médica, e por mais irracional que seja, não ignoraria a indicação da escola em buscar ajuda proficional da criança. Mas ela o faz. Igualmente sem sentido são sua falta de vontade de resolver o problema, ou mesmo de buscar resposta. Ela se limita a perguntar a criança, que por sua pouca idade, óbviamente não sabe a resposta, e reagir desesperadamente aos absurdos. Nem mesmo quando o pai da menina oferece ajuda, ela expõe o problema. 

A desequilibrada forma de agir da personagem, reforça algumas das teorias que mencionei no início deste texto. Vamos explorá-las, mas com spoilers. Prossiga por sua conta e risco, embora o mistério em torno do passado da protagonista seja absurdamente previsível.

SPOILERS A PARTIR DAQUI!

O segredo é que em uma briga entre irmãs, Sarah empurrou Alice de um penhasco. E nunca revelou isso à família, deixando deduzirem que a menina fugiu ou foi levada por terceiros. Como as buscas pela regição nunca encontraram o corpo? O filme não explica, mas a geografia do local nos faz crer que seria possível. Mas ok, seguimos com a interpretação. 

A mais frágil delas é a sobrenatural. O fantasma, espírito ou alma de Alice, retornou dos mortos para ter sua vingança. Reencarnando ou possuindo a filha da irmã que a assassinou. Levando Sarah à loucura e pagando na mesma moeda ao, no final, levar a filha dela. 

Muito mais coerente, é a de que os eventos acontecem devido ao estado mental da personagem principal. Com a morte do pai, a reponsabilidade de cuidar da mãe, e com a filha alcançando a idade que a irmã tinha quando morreu, as barreiras que Sarah usava para lidar com a culpa foram rompidas. Levando-a a ter alucinações cada vez mais intensas, até alcançar a total insanidade. 

Explicação que também pode ser explicada, ou agravada por dois fatores. O início da demência herdada de sua mãe. E alucinações causadas por doenças ou entorpecentes. Minha explicação absurda favorita, é de que ela contraiu raiva da mordida do coelho no início do filme, e desde então está alucinando. 

De qualquer forma, apesar de trabalhar relativamente bem seu tema. Foge, Coelho falha em desenvolve-los. Toda essa reflexão acima, é feita por fora, por nós pós sessão. Ao longo do filme acompanhamos apenas o mesmo ciclo de reações da protagonista repetidamente. 

Sarah Snook é excelente em entregar o desenvolvimento gradual da insanidade de sua personagem. Uma pena apenas que o roteiro não ofereça mais com que trabalhar. Mesmo assim, ela carrega o filme com eficiencia. 

Foge, Coelho é na verdade um filme de 2023, que estrou na época mas saiu de cartaz por problemas de direitos. Retonando só agora ao catálogo da Netflix, e chamando atenção do público em seu relançamento. Em grande parte pela presença de Sarah Snook, que ganhou fama este ano com a série All Her Fault.

Não é excepcional, mas também não é inassistível. É mais uma obra mediana como muitas do catálogo. Um entretenimeto razoável, que até cria um bate papo especulativo pós-sessão, mas ainda é esquecível a longo prazo. 

Foge, Coelho (Run Rabbit Run)
2023 - Reino Unido - 100min
Suspense

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