A Última Casa

Um argumento interessante, com direito a paralelos sociais, monstros Lovecraftianos e muito espaço para reflexões. Protagonistas com intérpretes aclamados, presentes em premiações nos últimos anos, e um bom orçamento da NetflixA Última Casa tinha tudo para ser um fenômeno do streaming, mas falhou na falta de foco, e na execução que pouco aproveita esses atributos.  

Em um domingo qualquer, uma família formada por pai, mãe e um casal de filhos, se descobre trancados em sua própria casa. O fenômeno inexplicável atinge toda a vizinhança e desafia a humanidade a sobreviver. 

Presos dentro da casa junto com o casal Jason (Wagner Moura) e Ann (Greta Lee), e as crianças Ruth (Riley Chung/Emma Ho) e Graham (Noah Alexander Sosnowski/Gabriel Barbosa), acompanhamos a família descobrir como sobreviver com a escassez de recursos, o mistério e perigos em torno da ameaça, e o isolamento forçado ao longo de anos, antes do roteiro buscar um encerramento apressado, em prol de um clímax de ação. 

O paralelo com a Pandemia de Covid-19 que enfrentamos há poucos anos é inevitável. Nos fazendo questionar: e se o isolamento tivesse durado mais? E se fosse mais rígido? Como estaria o psicológico das pessoas? E o mundo ao nosso redor? Questões que o filme trabalha, especialmente em sua primeira metade de forma mais superficial, mas coerente o suficiente para que o público traga essas questões para depois da sessão. 

O tratamento dramático é raso, pois a obra também parece querer explorar o mistério em torno do isolamento forçado. Que fenômeno é esse? Quem são os responsáveis? O governo, aliens, criaturas sobrenaturais? Todas essas questões são levantadas e mal respondidas conforme o roteiro acha conveniente. Basta notar que assim que ficam presos e sem internet a família cessa a busca de informações. É sério que não tentaram ligar a TV ou rádio?

Não ter informações do mundo exterior é uma escolha interessante, mas o filme não abraça isso definitivamente. Tentando explicar os eventos, se não para os personagens que tiram conclusões do nada, para nós que acompanhamos narrações bastante didáticas.

Em resumo o filme não decide se quer focar no drama familiar, ou no mistério. Se divide entre os dois temas, e não entrega bem nenhum deles. Sensação que ainda é amplificada pelo clímax de ação cheio de conveniências e exageros. 

Embora tenha estabelecido que Jason é um engenheiro bastante criativo, e que sua garagem (conectada à casa) parece ter recursos ilimitados para traquitanas. É difícil escapar da sensação de "Esqueceram de Mim", quando o plano da família se apresenta. Lá na comédia de natal dos anos noventa, esse estilo é mais que bem vindo. Aqui, em um suspense de sobrevivência, desafia nossa suspensão de descrença, ou simplesmente parece bobo.

Isso sem falar nas convenientes falhas de roteiro. Até o solo abaixo da casa é intransponível quando se tenta sair, mas é possível plantar nele? Em cinco anos nunca se pensou em usar o encanamento como fuga? E o mais absurdo deles, a compreensão do monstro local, que além de obtida de forma frágil e sem sentido, parece protegê-los em âmbito mundial. 

Wagner Moura e Greta Lee entregam o melhor que podem diante do que o roteiro oferece, e as crianças, especialmente os interpretes mais novos acompanham os veteranos. Se o filme consegue alguma fidelidade do público é por causa dos interpretes e nada mais.

Louis Leterrier bem que tenta usar o ambiente restrito da casa para criar a sensação de isolamento e claustrofobia. Sempre com um cenário abarrotado. No início de objetos e brinquedos espalhados pela casa, na segunda metade pelas gambiarras criadas para sobreviver. Mas sua construção espacial não nos deixa ententer a geografia do lugar, impedindo que o público de fato se sinta morador junto com os personagens. Faltou apresentar e explorar os cenários.

Os efeitos especiais, inclusive a criação das criaturas não fazem feio. Mas também não entregam nada de impressionante. Assim como a extremamente protocolar trilha sonora. 

A Última Casa não é excepcional como a Netflix tentou vender. Também não é um desperdício de tempo. É como muitos filmes medianos, o que já o coloca à frente de muitas obras da plataforma. Mais uma obra cheia de potencial, mas que não consegue entregar tudo que pode.

A Última Casa (The Last House)
2026 - EUA - 112min
Suspense

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