Talvez a maior piada de Coyote vs. Acme seja o fato da Warner ter descartado e quase enterrado este filme para sempre depois de pronto. Três anos depois da data de lançamento original, o filme chega aos cinemas resgatado por outra distribuidora e curiosamente fazendo uma crítica esperta a grandes corporações que enxergam seus ativos como mera mercadoria. O paralelo com grandes empresas do mundo real não foi por acaso, mas com a precisão da crítica com a forma que o próprio estúdio tratou o filme foi sim uma feliz coincidência.
O argumento de Coyote vs. Acme é tão bom, que se você assistiu ao menos um episódio da animação do Papa-Léguas, o título é auto-explicativo. Mas se mesmo assim você ainda não alcançou, eis a sinopse.
Após décadas tentando capturar, e almoçar, o Papa-Léguas, e falhando miseravelmente graças ao mau funcionamento dos produtos da Acme, Wile E. Coyote decide processar a empresa de traquitanas por suas múltiplas falhas e ferimentos. Para tal ele busca a ajuda de Kevin Avery (Will Forte), advogado especializado, ou melhor conformado, em fazer acordos baratos para desenhos vítimas de mal funcionamento de produtos Acme.
Mas, a ação do Coyote vira um circo midiático diante da persistência do predador. Um acordo fica fora de cogitação e o caso vai parar nos tribunais onde Avery e sua equipe, incluindo a irritantemente determinaa Paige (Lana Condor), precisam enfrentar Buddy Crane (John Cena), o advogado astro da companhia. Além da conformidade da sociedade, que já colocou as animações como inferiores. É claro que no meio disso tudo, uma conspiração ainda maior é revelada.
E é assim que retornamos ao mundo onde humanos e personagens animados coexistem. A mistura de técnicas existe desde o nascimento do cinema, mas chegou ao seu auge em Uma Cilada para Roger Rabbit, e desde então reaparece esporadicamente no cinema e TV, tanto com obras excelentes como Tico e Teco Defensores da Lei, quanto com execráveis como Space Jam: Um Novo Legado.
Felizmente Coyote vs. Acme está no lado positivo deste universo de animações no mundo real. O argumento é inspirado no artigo de 1990 da revista The New Yorker, "Coyote v. Acme", de Ian Frazier, mas segue um caminho próprio para explorar e expandir a ideia original, aproveitando as particularidades do universo dos Looney Tunes.Assim, no mundo povoado por live-action e animação, temos aparições diversas tanto de personagens conhecidos, quanto de novos seres que existem apenas para povoar aquele mundo. Mas apesar da presença de Piu-Piu, Pernalonga e companhia, o destaque é sim do Coyote. O personagem é trazido ao mundo real de forma acertada, respeitando suas características, personalidade e habilidades. Ou seja, ele muito determinado, mas não fala, o que o filme contorna com muita expressividade e humor.
E enquanto acompanhamos as explosões e contusões do protagonista, que parece se dar mal não apenas na caça ao Papa-Léguas, mas em tudo que faz, o roteiro propositalmente discute o conceito de propósito, tanto no contexto humano quanto animado.
No cotidiano humano está na atitude do desacreditado advogado, amplificada pelo contraponto com o entusiasmo de sua estagiária, e principalmente em sua relação com o cliente animado. Criando uma deliciosa relação de amizade entre a dupla.
Já no ponto de vista animal, o roteiro busca recursos na mitologia grega, ao usar o mito de Sísifo como paralelo à vida do protagonista. Sísifo é condenado a executar a mesma tarefa sem sentido diariamente. Empurrar uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar para baixo novamente.
E o que é a vida do Coyote se não caçar o Papa-Léguas, apenas para vê-lo escapar no último segundo. Igualmente a vida da ave é correr eternamente porquê existem alguém para caça-lo. Dinâmica aliás muito comum e popular em animação, repetida por exemplo em Tom e Jerry, e Piu-Piu e Frajola. Se um dia o predador pegar a presa, o que ele fará no dia seguinte? É a tarefa incapaz de ser cumprida que lhes dá propósito, compromisso, e até constrói uma relação de aminimigos, que a gente ama assistir.
Tudo isso expresso na relação de personagens que sequer falam. Mas muito bem expresso pelo excelente trabalho de animação, e sua integração eficiente com o mundo real. E por falar nele, os personagens lá estão mais que acostumados em compartilhar o mundo com desenhos, e assim como nós param para assistir sempre que uma de suas maluquices tomam forma. Mas podem reagir e interagir com elas como realidade.O elenco abraça o tom lúdico que essa mistura de realidades exige. John Cena com a canastrice caricata que já esperamos dele. Lana Condor e P.J. Byrne com empolgação e dedicação consistentes com suas posições. Ela do lado do mocinho e ele do vilão.
É apenas com Will Forte que senti uma queda. O ator e comediante consegue sim criar uma boa relação com o protagonista, e por causa disso conquista nossa fidelidade. Mas senti que faltou carisma para que torcêssemos por ele, por seu próprio mérito. Em defesa do ator, apenas eu senti essa falta de conexão em minha sessão, então talvez sua atuação agrade a maioria.
E claro Coyote vs. Acme não perde oportunidade de fazer comédia. Seja ela mais física, emulando principalmente tradições da animação, seja em texto. Com piadas para toda a família, e outras apenas para os mais velhos, como aquela que envolve o Pepé Le Pew. E principalmente a liberdade non-sense dos Looney Tunes que a gente ama. Fazendo assim muitas referências e ativando a nostalgia sem ser de forma forçada.Entre buracos retráteis, tuneis pintados na parede e leões enlatados, Coyote vs. Acme é o melhore filme dos Looney Tunes desde o primeiro Space Jam. Ganhando ou perdendo a luta contra a Acme, o Coyote já venceu uma grande coorporação, provando que a Warner estava redontamente errada em descartá-lo!
Coyote vs. Acme
2026 - EUA - 101min
Comédia, Aventura





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