Os Testamentos: Das Filhas de Gilead

Após seis temporadas e um final aquém do esperado, era de se imaginar que o universo de The Handmaid’s Tale já havia se esgotado. Felizmente esse não era o caso, embora a existência dessa nova série seja um dos fatores para que o desfecho do programa original não ser satisfatório. 

Em The Handmaid’s Tale, Gilead tem uma perda, mas está longe de seu fim. O que é coerente com o livro de Margaret Atwood, onde o regime perdurou para além dos testemunhos da protagonista narradora. Entretanto, esperavamos ao menos, que June (Elizabeth Moss) resgatasse sua filha Hannah do regime. Este sempre fora o foco da personagem, muito mais que escapar ou combater o regime. Mas a menina ficou, para estrelar Os Testamentos: Das Filhas de Gilead.

Rebatizada de Agnes MacKenzie (Chase Infiniti) desde seu sequestro e adoção por um comandante e sua esposa, a filha de June frequenta uma escola para meninas de Gilead. Onde aprendem a ser esposas prendadas e respeitosas enquanto esperam a benção de sua primeira mesntruação, que as transforma em férteis e aptas a ter um marido imediatamente. 

Instituição administrada por Tia Lydia (Ann Dowd), realocada do trabalho com aias, e elevada ao status de lenda após os eventos da série anterior. Ela tem até uma estátua em sua homenagem. Além de uma atitude que indica que sua visão do regime talvez seja diferente do que conhecemos.

A outra protagonista de Os Testamentos é Daisy (Lucy Halliday) é um caso mais complicado. Uma adolescente comum que cresceu live no Canadá, e após a morte dos pais adotivos se oferece para trabalhar com a Mayday, a resistência. Sua missão se infiltrar entre as jovens do regime e absorver informações importantes.  Sua motivação, seus pais adotivos foram mortos pelo regime que procura por ela. Acontece que a jovem nasceu em Gilead e foi salva por seus pais biológicos ainda bebê. 

No livro, a personagem é na verdade a "bebê Nicole" filha que June teve como aia, e mandou para fora do país ainda bebê. Seu "sequestro" se tornou uma lenda e símbolo no regime. Mas aqui a série escolhe colocar Agnes/Hannah e Daisy com a mesma faixa etária. O que seria impissível para Nicole, quase uma década mais nova. Então a personagem tem a história e a importância da filha de June, mas não é ela! E apenas para confundir mais um pouco Lucy Halliday sua interprete é extremamente parecida com Elizabeth Moss, nas feições e expressões. 

Agora que as principais peças foram apresentadas, acompanhamos o cotidiano das meninas de na escola a partir de um evento incomum. Tia Lydia designa uma pérola, uma das meninas estrangeiras convencidas a adotar um regime, para ser pupila de uma "aluna veterana". Assim Agnes e Daisy começam a conviver. 

À principio com desconfiança, essas meninas são estimuladas a não confiar em ninguém, tão ter melhores amigas nem entre elas. Muito menos criar laços com uma intrusa. Mas, inevitavelmente, a convivência diante das restrições, ameaças e medos do sistema as aproxima. Especialmente quando uma ameaça maior se faz presente, um homem adulto.


Aqui, além de avançar com a trama, a série faz uma demonstração didática de como uma jovem instruida está muito melhor preparada para entender, reagir e evitar o abuso. O dentista Dr. Groove (Randal Edwards) não assedia Daisy porque sabe, que diferente das moças desinstruidas de Gilead, ela pode identificar e denunciar o assédio. O que ela faz, enquanto as demais, geralmente sequer entendem a violencia que foi cometida contra ela. Não entendem, mas sofrem pela violação igualmente. 

A expectativa por um bom casamento, e o abuso em série são os fios condutores da história, a trama principal. Mas é como esses eventos afetam cada menina, o desenvolvimento que nos interessa. Criadas para serem esposas dos homens mais poderosos do país, a maioria das moças sonham com um bom parceiro, quem sabe jovem e gentil. E com a benção da fertilidade, embora não façam ideia de como seu corpo funcionam. 

Assim conhecemos a jornada de se tonar uma "verde", apta a casar e com Agnes e Hulda (Isolde Ardies). Com Shunammite (Rowan Blanchard) acompanhamos a angústia e o temor de nunca estar apta, ou seja, nunca menstruar e ser considerada infértil. Mas é com Becka (Mattea Conforti) que seguimos o caminho mais interessante. Ela não compreende, mas é homosexual, apaixonada pela melhor amiga, e com pavor da ideia de casamento. Situação que levam a moça ao limite da sanidade. 

Tudo isso ao mesmo tempo que Daisy amplia seus horizontes e lhes ensinando a compreender a si mesmas. Validar seus anseios, incluindo amorosos, e curiosidade, além de fortalecer o elo entre elas. O fato de serem adolescentes trazem uma leveza, ímpeto e disposição que a série original não era capaz de oferecer. E até algumas raras sequencias bem humoradas, como a cena em que Daisy explica á Shunammite o que é sexo. A adolescente de Gilead não acredita!

Mudando de assunto, mas não muito. Há tempo ainda de explorar um pouco mais o passado de Tia Lydia. Como a professora que conhecemos se tornou essa figura importante no regime. Sua relação de longa data com Tia Vidala (Mabel Li) discute os limites do indivíduo pela sobrevivência. E quais atitudes são inrremediavelmente imperdoáveis. 

Outra característica que The Handmaid’s Tale perdera quando a trama principal saiu de Gilead, que Os Testamentos trouxe de volta é o visual. A fotografia que usa bem composições, padrões visuais, e as rígidas cores das roupas do regime, como rimas mensagens visuais e metáforas, ao universo, situações e sentimentos das personagens. 

Leia sobre A Maravilhosa Fotografia de O Conto da Aia uma análise em duas partes!

De volta à trama, a primeira temporada apresenta personagens, prepara terrenos, cria conflitos e "reabre" o universo sob uma bem vinda nova perspectiva. O que pode eventualmente nos guiar para um possível futuro do regime, nessa ou em outras obras do universo. 

O tom mais "teen" da série, pode soar leve demais para alguns. Particularmente não acho que a nova linguagem ameniza os temores de Gilead. Tudo ainda é absudo e apavorante, especialmente para o público feminino. E, este novo olhar, menos apelativo pode evitar que a série caia no exagero. O "torture porn" da qual a série original foi muito acusada.

No episódio final, Daisy promete derrubar o regime ela mesma, por dentro. Acho improvavel, afinal são apenas garotas, em uma ditadura que oprime mulheres. Mas é muito coerente que uma adolescente acredite realmente ser capaz de tal feito. E por que não torcer para que elas consigam? Estou surpresa, mas ansiosa para retornar a um universo que eu acreditava estar esgotado. Que venha a segunda temporada!

Os Testamentos: Das Filhas de Gilead tem dez episódios, com cerca de uma hora cada, todos disponíveis no Disney+!

Todas as temporadas de  The Handmaid’s Tale.  estão disponíveis no Paramount+, Disney+ , e algumas estão também na NetflixTem crítica de todas as temporadas da série original aqui no blog, clique aqui para ler!

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