O Cavaleiro dos Sete Reinos (1ª temporada)

 Aqueles que apenas conhecem o universo de As Crônicas de Gelo e Fogo através das produções para a TV, Game of Thrones e A Casa do Dragão, talvez não tenham completa noção que mais encanta os fãs dos livros de G.R.R. Martin, o mundo. Um mundo vasto, complexo, cheio de mitologia e muitas, muitas histórias. Não apenas das grandes casas e sua luta pelo poder, mas das pessoas comum, sem nomes memoráveis, que povoam esse universo entre eles. O Cavaleiro dos Sete Reinos vem suprir a falta deste aspécto no ambito audiovisual. 

Embora seja verdade que seus protagonistas vão desempenhar grandes papéis na história e política dos sete reinos, no momento das aventuras que acompanhamos neste "spin-off literário", eles são apenas Dunk e Egg (Peter Claffey e Dexter Sol Ansell). Um jovem ingênuo e honrado recém-nomeado cavaleiro e seu fiel escudeiro, um menino esperto e espevitado, que perambulando pelos Sete nove Reinos, sobrevivendo de pequenas missões.

E não se engane com o título de cavaleiro, Sor Duncan, o Alto, se é que realmente fora nomeado, detem apenas o título. Sem terras, dinheiro, um lar, e nem mesmo grandes conquistas (ainda), ele é apenas um cavaleiro andante. A mais baixa classe da "nobreza", mais proximo da plebe do que de qualquer lorde. 

É o começo desta parceria de aventuras que vemos aqui. Dunk acabara de perder o cavaleiro a quem servia como escudeiro, Sor Arlan de Centarbor (Danny Webb, excelente). Herdando seus cavalos, espada e armadura, afirma ter sido sagrado cavaleiro e decide fazer a vida no torneiro de Vaufreixo. No caminho esbarra em um menino de cabeça raspada, que o segue até que o jovem o aceite como escudeiro. Juntos começam a descobrir o mundo de verdade.

A Casa Ashford, que ocupam Vaufreixo, não é das mais grandiosas de Westeros. Logo, é uma surpresa quando vários membros da família real comparecem ao troneio em homenagem ao Dia do Nome da filha adolescente de Lord Ashford. Cerca de oitenta anos antes dos eventos iniciais da série original, o reino ainda está sob o comando dos Targarien, que não tem mais dragões, e por isso vêem seu poder e popularidade enfraquecerem. E temos certeza disso pois desta vez, estamos observando de fora dos salões, no meio do povo, que não gosta muito deles. 

E claro, há Egg! Tratado tanto no livro quanto na série como uma grande revelação. - logo SPOILERS à fente! - Mas uma informação bem conhecida pelos fãs do universo, o jovem escudeiro é na verdade Aegon Targarien. Um principe da casa real, mas o quarto filho, de um quarto filho, muito distante na linha de sucessão, e com isso desimportante o suficiente para se aventurar mundo a fora. Seu apelido Egg, é tanto um diminutivo de seu nome, quanto uma referência a sua cabeça raspada semelhante à um ovo (egg em inglês), que esconde os platinados cabelos valirianos, que denunciariam sua identidade. 

Embora a longíssimo prazo os eventos das vidas da dupla tenham um peso no futuro do reino. A presença do menino não chega a ser uma ponte entre nobres e plebeus. A graça aqui é a discrepância de perspectiva entre um príncipe e um cavaleiro andante. Uma diferença que se complementa, e faz com que aprendam e cresçam um com o outro. 

Peter Claffey e Dexter Sol Ansell transferem essa parceria das páginas para a tela com eficiencia. A quimíca de opostos entre os dois é perfeita. A esperteza inconsequente de Egg complementa ingenuidade honrada de Dunk e vice-versa. Claffey traz um gigante sofrido, cheio de inseguranças, mas cuja única opção é seguir em frente. Enquanto Ansell é tagarela, abusado e desesperado para fugir da família tóxica. 

O elenco de apoio segue o bom trabalho, com destaques para Bertie Carvel, trazendo talvez o primeiro targarien sensato - e moreno -  que vêmos em tela. Daniel Ings se diverte e nos diverte ao viver o boêmio Sir Lionel Baratheon, o Tempestade Risonha. Tem ainda Shaun Thomas como o amigável Raymund Fossoway, e Finn Bennett como o nojento Aerion Chama Viva, de quem eu certamente adoraria ver o resto da história. 

Já a produção mantém o selo de qualidade da HBO, mas tem um escopo menor. À excessão de alguns flashbacks, toda a história se passa em um lugar. Vaufreixo, seu castelo, mas especiamente o lamacento e insalubre.  acampamento do torneio, entre feiras e festas. Se o cenário não impressiona pela beleza, mas por sua brutal realidade, as armaduras entregam o que os fãs sempre pediram.

Nos livros as vestimentas dos cavaleiros são coloridas, cheia de emblemas, formas de animais, e invencioníces para chamar atenção. Em Game of Thrones isso foi deixado de lado. A Casa do Dragão, traz algumas peças mais elaboradas. Mas é em O Cavaleiro dos Sete Reinos que as vemos como Martin as descreveu pela primeira vez. 

Mantos brancos da Guarda Real inevitavelmente encardidos por aquele mundo. Maçãs cafonas entalhadas em peitorais, elmos em formatos curiosos e até com chifres. Tudo incorporado à cena, sem medo de ser cafona, ou mesmo julgado por isso. 

As cenas de ação não são muitas, mas estão bem colocadas e conduzida na narrativa. Culminando no excelente e enervante penúltimo episódio. In the Name of the Mother, consegue em apenas meia hora entregar uma das batalhas mais realistas e enervantes da franquia. Além de um comovente flashback de origem que explica de onde o protagonista tira forças e conhecimentos para a luta. Já que, na verdade, foi Dunk da Baixada das Pulgas, e não Sor Duncan quem de fato venceu o julgamento. 

Para não dizer que tudo são flores, escolhas cômicas escatológicas podem incomodar alguns. Embora sua função seja clara, mostrar do quão baixo esta história será contada. Ao mesmo tempo, este ponto de vista pode dificultar a compreensão do quem-é-quem, nos momentos em que títulos são importantes. 

No demais, caracterização, design de produção e fotografia seguem complementando a construção de mundo, e as sensações que a história pretende passar. Enquanto a direção mantém nosso interesse mesmo sem batalhas, dragões e lobos gigantes. Tal qual os primórdios da franquia, na primeira temporada de Game of Thrones

Outra caractrística que esta série mantém da franquia é trazer o grande clímax no penúltimo episódio. Guardando para o episódio final, as consequencias e a tarefa de situar os personagens para o futuro. Terminamos então, felizes por voltar a este mundo, e completamente apegados à Dunk e Egg, que estão pegando a estrada para novas aventuras, que estamos ávidos por acompanhar. 

O Cavaleiro dos Sete Reinos é baseado no livro de mesmo nome de G.R.R. Martin, que traz três contos com os personagens. O autor afirma querer contar ainda mais histórias com a dupla. Tem crítica do livro no blog, clica aqui!

A série tem seis episódios com cerca de meia hora de duração cada. Todos disponíveis na HBO Max e exibidos pelos canais HBO.  

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