Rua do Medo: 1666 - Parte 3

 Dois filmes em um, ou melhor, dois episódios bastante distintos de uma mesma série. É isso que Rua do Medo: 1666 - Parte 3 entrega. Voltando ainda mais no tempo para esclarecer as origens da maldição antes de retornar para a solução no ano de 1994. 

1666 - Ao reunir os ossos de Sara Fier, Deena é transportada para o corpo da bruxa século XVII. Lá acompanha os eventos que levaram à acusação e julgamento da jovem, descobrindo que lenda e realidade são coisas muito diferentes. 1994 - com o conhecimento em mãos Deena e outros sobreviventes resolvem dar fim ao verdadeiro mal que assola a cidade de Shadyside com um plano mirabolante.

Mudando de estilo novamente ao abordar uma nova época, a primeira metade do filme tenta emular produções de terror recente como A Bruxa. Acertando na reconstrução de época e na fotografia mais dessaturada que cria uma atmosfera melancólica e desesperançosa para realidade dos primeiros moradores da região. 

Já o comportamento dessa população se desvia do esperado, especialmente no comportamento dos jovens, muito mais parecido com o da juventude atual. Nada de rituais, desafio às normas ou descobertas proibidas, feitas de forma secreta ao redor da fogueira, a molecada faz é uma rave sob a lua cheia, com direito à pegação e entorpecentes. O que funciona em seu propósito de criar algo reprovável e digno de acusações pela sociedade da época, então releva-se. Mesmo porquê, a problemática real é outra. 

A produção constrói direitinho, a acusação errônea causada por surprestições e misogenia, enquanto aponta para o espectador - e para Deena -  o verdadeiro mistério por trás da maldição de Shadyside. Sem deixar de utilizar as boas pistas plantadas no longa anterior, em uma tensão crescente bem construída. Observar a verdadeira história, e como ela foi transmitida e deturpada para gerações futuras é o ponto alto aqui.

É a relação de rivalidade entre Sadyside e Sunnyvalle que fica mal explicada. Exigindo que o espectador faça deduções geográficas para tentar explicar a richa. "Tal personagem mora um pouquinho afastado, ali já seria região de Sunnyvalle, por isso a cidade fora poupada" - total dedução dessa que vôs escreve. Até porquê a geografia é confusa. Distâncias mudam a todo o tempo especialmente nos túneis, o que pode ser interpretando simplesmente como "magia", ou problematicamente como conveniência. 

Outro ponto que pode confundir o expectador é a escolha de reescalar o elenco dos filmes anteriores, em "personagens espelhos" de suas versões futuras. Faz sentido para Sara Fier, já que estamos vendo a história pelos olhos de Deena, mas para o restante do elenco apenas soa confuso. Uma tentativa barata de aproveitar a empatia que já criamos com o elenco nos longas anteriores. 

Apesar de uma falha ou outra, 1666 entrega de forma competente a reviravolta e as respostas que precisamos para encerrar a trilogia. Assim, voltamos para 1994, e consequentemente para o terror de shopping center que ele emula. Para explicações didáticas, escolhas questionáveis e planos mirabolantes com tudo para dar errado. Saem as cores melancólicas, entram a luz negra e o neom do shopping, uma mudança de tom e estilho que cria um contraste curioso, que pode quebrar a imersão de alguns.

Esse trecho retorna à eficiente e familiar previsibilidade e simplicidade, que acompanhamos no primeiro longa. Simplicidade que às vezes força o limite do crível, quando tenta manipular as "regras da maldição" à sua conveniência. Um bom exemplo é o momento de caçada aos serial killers, quando o grupo de adolescentes parece adivinhar quantos deles vão aparecer. Ou ainda quando um simples perfume é o suficiente para disfarçar o cheiro de sangue que atrai os assassinos. 

Felizmente à essa altura já estamos envolvidos na jornada da cidade, e torcendo para o fim de sua maldição. Também estamos mais conectados aos personagens, especialmente Deena, já que a interpretação de Kiana Madeira, evolui e nos conquista no período de 1666. Uma pena apenas que Gillian Jacobs, não tenha o mesmo carisma que a intérprete mirim de sua personagem, Saddie Sink. 

Rua do Medo: 1666 - Parte 3, tem mais acertos que erros, e encerra de forma satisfatória a jornada dos residentes de Shadyside. Já a trilogia Rua do Medo, tem ares de série de TV, além de altos e baixos entre capítulos. Assume brincar com subgêneros do terror, e diverte na maior parte do tempo.

Talvez não seja o grande evento que a Netflix planejou, mas é bem planejado e executado, sem grandes furos ou pontas soltas. Ao final da projeção o único questionamento que fica é: porquê chama Rua do Medo, se abrange uma cidade inteira?*

Rua do Medo: 1666 - Parte 3 (Fear Street: 1666)
2021 - EUA - 114min
Terror

Leia as críticas de Rua do Medo 1994 e Rua do Medo 1978

*É o nome da série de livros da qual os filmes foram adaptados!

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