Loki - 1ª temporada

WandaVision ousou corajosamente no formato para falar de um tema que atinge a todos nós, o luto. Falcão e o Soldado Invernal teve a responsabilidade e consciência que era preciso resinificar um de seus maiores símbolos e incluir a discussão sobre racismo no MCU. Loki parece ter uma tarefa mais burocrática a cumprir, apresentar o multiverso. Tarefa que à certa altura, parece podar a produção, assim como os agentes da TVA fazem com as variantes. 

Loki é a série que nasceu de uma brecha plantada em Vingadores: Ultimato, quando o deus da trapaça interpretado por Tom Hiddleston põe as mãos no Teseract e escapa logo após a batalha de Nova Iorque.  Instantes depois da fuga ele é capturado pela TVA (Time Variance Authority, ou Autoridade de Variação no Tempo em português), uma agência responsável por eliminar desvios na linha do tempo, chamados de variantes, e garantir a continuidade de uma única linha do tempo sagrada. Para adiar ser podado, eliminado da linha do tempo, o asgardiano aceita ajudar a capturar uma variante mais problemática do que eles. 

Viagens no tempo e espaço, anacronismos, enorme burocracia... impossível não relacionar esta série do Disney+ com Doctor Who, O Guia do Mochileiro das Galáxias e até DC's Legend of Tomorrow (sim, eles também tem uma agência do tempo). Influências que são assumidas (ao menos no caso das duas primeiras), que fornecem ao mesmo tempo uma gostosa familiaridade com o estilo, mas também uma sensação de "eu já vi isso antes". Não que falte originalidade ao programa, que também aproveita todo o catálogo da Marvel para enriquecer seus episódios de referências e possibilidades. 


É com essa adorável miscelânea que o MCU pretende introduzir o conceito de multiverso em sua nova fase de produções. O  que o programa o faz relativamente bem, até o momento em que o conceito deixa de ser apenas uma hipótese e se torna uma possibilidade palpável, em outras palavras, seu clímax. O episódio final, literalmente senta os personagens para, de forma bastante didática e anticlimática, contar uma história e determinar o ponto de partida para próximas jornadas.

A série apresenta o multiverso, dá o pontapé inicial para sua existência, mas perigosamente ainda não determina todas as suas regras. Abrindo um leque de possibilidades tão promissor quanto perigoso. A partir de agora, tudo e todos podem ser variantes. Todo furo de roteiro pode ser explicado por variantes, assim como toda consequência pode ser desfeita, por elas. É claro, tudo isso ainda pode ser melhor determinado em produções futuras. 


De volta à Loki, apesar de todo este trabalho de construção de um multiverso, essa série de apenas seis episódios ainda consegue desenvolver bem os personagens que apresenta. O arco melhor trabalhado, é claro, é do próprio deus da trapaça, que aqui amadurece de forma completamente diferente, e muito mais rápida, que sua versão das telas. Carismático como de costume, Tom Hiddleston não apenas está confortável no papel, como se diverte com a possibilidade de explorar novas facetas do personagem. 

Mobius (Owen Wilson, adorável) e B-15 (Wunmi Mosaku), tem seus pequenos arcos de descoberta e autoconsciência, e com atuações excelentes se tornam novos personagens a serem utilizados nas produções da Marvel. Enquanto Ravonna Renslayer (Gugu Mbatha-Raw) e Sylvie (Sophia Di Martino), tem introduções mais elaboradas, que indicam maior desenvolvimento destas personagens no futuro. 


O elenco entrosado, chama atenção especialmente nas excelente interações entre personagens. A troca é diferente entre cada um deles, cada um tem seu papel e peso na história, e ninguém é eclipsado nem mesmo pelo protagonista. Apenas a participação de Jonathan Majors, soa mais caricata e deslocada, o que pode ser explicado pela possibilidade de conhecermos muitas variantes de seu personagem no futuro. 

A direção de arte, escolhe um acertado tom burocrático anacrônico para o ambiente da TV, como o visto em O Guia do Mochiileiro das Galáxias. Já para as aventuras além tempo, o visual carrega do CGI, e na fotografia carregada para criar diferentes mundos, lembrando uma versão mais cara de Doctor Who, já que o roteiro evoca as aventuras do Time Lord em muitos momentos, nada mais honesto para a série que assumir e abraçar a referência. Fica por conta dos figurinos, e trilha sonora a tarefa de trazer um tom mais "Marvel", para o visual, com músicas grandiosas e os visuais de Loki.


O ritmo da narrativa é instável, não conseguindo encontrar um equilíbrio entre as cenas de ação e as pausas para desenvolvimento de personagens e construção de mundo. E o desfecho em aberto que abrange não apenas o destino de todos os personagens, mas do universo Marvel como um todo, traz a sensação de que a história fora interrompida ao meio bruscamente. Novamente, Loki parece mais um recurso para ajustar os ponteiros para produções futuras, que uma série própria.  

Ironicamente, apesar de todas as possibilidades, Loki é a mais contida das três séries do estúdio para o Disney+ que vimos até agora. A promessa dos trailers e até da logo, sobre conhecer diferentes lugares, épocas e possibilidades não se concretiza, mesmo porquê a produção dispõe de poucos episódios para tal. Logo, a produção se resume à uma curta jornada do protagonista, e aos muitos conceitos que precisa apresentar. 


Para uma série com apenas seis episódios Loki, tem muita agenda à cumprir, e consegue entregar as tarefas à que se propõe. Apresenta conceitos e desenvolve personagens, mas está preso à uma tarefa maior, servir de introdução para uma nova fase do MCU, e por isso não tem a liberdade que poderia. Nem mesmo um final esta jornada tem. Mesmo assim, não deixa de ser uma série criativa, carismática, bem produzida e bastante divertida. 

Após tudo isso, um último questionamento me vem à mente: será que agora o MCU (Marvel Cinematic Universe), passará a se chamar MCM (Marvel Cinematic Multiverse)? Fica aí o questionamento!

Loki, tem um total de seis episódios com cerca de uma hora cada, alguns tem cenas pós-créditos,  todos disponíveis no Disney+. E a segunda temporada já está confirmada.

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