Eu Nunca... - 2ª temporada

Apesar de complexa e cheia de falhas  Devi Vishwakumar (Maitreyi Ramakrishnan) conseguiu encantar o público com sua humanidade e honestidade na primeira temporada de Eu Nunca.... Agora, na segunda temporada, o desafio é expandir esta complexidade e seguir com a trama da adolescente  de forma coerente e interessante. 

Devi conseguiu o inimaginável, tem dois rapazes interessados nela. O triângulo amoroso é apenas o ponta pé inicial para os dilemas da segunda temporada, que ainda inclui desentendimentos com a mãe Nalini (Poorna Jagannathan), e dilemas próprios para os personagens secundários. 

Escolher entre dois rapazes, o argumento pode parecer fútil, mas a escolha traz a profundidade dos traumas e confusão de uma adolescente ainda em luto pelo pai, e ainda fora de sintonia com a mãe. Fazendo com que a protagonista cometa erros ainda maiores, conseguindo até gerar no público certa antipatia por suas muitas escolhas ruins. Especialmente com a chegada de uma concorrente, aos olhos dela. A nova garota indiana, Aneesa (Megan Suri), nunca é tratada como ameaça pelo roteiro, tornando a paranoia de Devi, sua inveja e implicância sem sentido com a garota, ainda mais evidentes. 

Não entenda errado, ainda gostamos de Devi e torcemos por ela, mas é inevitável discordar da garrota, se irritar com a forma como ela trata todos à sua volta. A torcida agora não é para que ela tenha sucesso em seus planos, mas para que aprenda com os erros, se redima, e termine a temporada um pouco mais madura do que começou. 

Quem também tem um caminho de aprendizado a seguir é Nalini. Inicialmente em fuga, e receosa de como vai seguir criando a filha sozinha, a mãe da protagonista precisa se descobrir capaz, acertar os ponteiros com a filha e seguir em frente, da forma que for possível.

Outro arco que chama atenção por sua complexidade é a adaptação de Fabiola (Lee Rodriguez). Que após se assumir homossexual, descobre que também neste meio também há expectativas e padrões nos quais a sociedade tenta nos encaixar. O sentimento de inadequação continua, mesmo após a moça assumir quem realmente é. Um tema pouco explorado no audiovisual, que geralmente limita a discussão em "ser ou não ser", "assumir ou esconder". Aqui a discussão é, existem padrões irreais e repressores, até em comunidades supostamente mais tolerantes.

Paxton (Darren Barnet) e Kamala (Richa Moorjani), tem arcos mais simples, mas não menos interessantes, e ambos voltados para suas capacidades individuais. O adolescente, que até ganha um episódio centrado nele, se vê obrigado a se tornar uma aluno melhor, e precisa descobrir se é capaz de fazê-lo. A jovem indiana precisa lidar com a misoginia no trabalho. 

Com tantos arcos bem construídos e temas distindos Ben (Jaren Lewison) e Eleanor (Ramona Young) são os que saem perdendo. Com narrativas mais simples, a dupla até perde um pouco em complexidade. Não chega a comprometer, mas destoa da riqueza dos demais temas. 


O roteiro mantém o ritmo ágil, os diálogos inteligentes, as piadas e referências bem colocadas que tanto funcionaram no primeiro ano da série. Assim como as boas lições encaixadas de forma orgânica na trama, e os momentos mais emocionais, que podem até arrancar algumas lágrimas. E claro, cria mais possibilidades para uma terceira temporada. 

A segunda temporada de Eu Nunca..., traz de volta a qualidade do primeiro ano, e evolui a história sem medo de colocar sua protagonista em dilemas complicados, e escolhas questionáveis. Bem elaborada a série não prejudica seus coadjuvantes em prol da trama principal, pelo contrário, oferece bons dilemas à todos e combina suas ações e consequências no contexto geral. 


Divertida, complexa, inteligente e atual, continua sendo uma das melhores produções da Netflix voltada para o público jovem. Que ainda pode ser muito bem aproveitada pelos mais velhos, graças à sua graças à sua honestidade, autenticidade, texto inteligente e bom humor.

Assim como o primeiro ano, a segunda temporada de Eu Nunca... tem 10 episódios com cerca de meia hora cada. Todos já estão disponíveis na Netflix


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