Raised by Wolves - 1ª temporada

Em tempos de multiplicações de serviço streaming e muita concorrência, oferecer conteúdo original e exclusivo é uma necessidade latente. A HBO Max sabe disso, e já chegou em terras brasileiras com produções próprias para todos os gostos no catálogo. Raised by Wolves, é a aposta de série sci-fi da plataforma. 

Quando a terra está prestes a ser dizimada por uma guerra entre ateus e extremistas religiosos chamados de Mitraicos, dois androides são encarregados de recriar a humanidade, sob as regras do ateísmo, em um planeta isolado. Tarefa fadada ao fracasso, e que fica ainda mais difícil com a aproximação de uma nave de mitraicos sobreviventes. Enquanto isso, na nave dos Mitraicos, um casal de ateus rouba a identidade de fiéis para embarcar e sobreviver.

Com ninguém menos que Ridley Scott envolvido na produção e no comando dos dois primeiros episódios, a série abraça sem receios o uso de conceitos e dilemas, científicos, religiosos e filosóficos. A busca por uma sociedade utópica, abordada por extremos distintos, cria uma série de dilemas e dualidades que a série discute, enquanto conta a história destes sobreviventes. A disputa entre razão e fé, humanos e robôs, livre arbítrio, empatia, fanatismo e utopia estão entre os principais temas abordados aqui, pelos dois lados da história.

Um exemplo disso é como a série questiona se a empatia nos robos é apenas mera programação, como aponta a fala desta empatia entre os humanos sobreviventes. Ou ainda como ambos os modelos de sociedade utópicas propostas, tem falhas em suas propostas. Seja por dilemas inesperados, seja por escolhas ruins herdadas das sociedades que os precederam.

De volta à trama, o conflito entre as duas vertentes é inevitável. Assim como ações extremas, leia-se violentas e nada utópicas em prol de suas respectivas visões de mundo. Questionamentos e mudanças de lado diante destes atos e embates também são inevitáveis. Como as dúvidas e curiosidade de Campion (Winta McGrath), ou a perda de fé de Tempest (Jordan Loughran)

E por falar em personagens, os destaques ficam para as jornadas dos robôs Mãe e Pai (Amanda Collin e  Abubakar Salim), e do casal de impostores  Marcus e Sue (Travis Fimmel e Niamh Algar). Não por acaso, dois pares de "pais postiços" que tem desenvolvimentos paralelos que conversam entre si. Algumas das crianças também tem desenvolvimento próprio, como Paul (Felix Jamieson) , além dos já mencionados Campion e Tempest.

O problema é o ritmo deste desenvolvimento, bem trabalhado na primeira metade da temporada, durante a apresentação principal de conceitos e construção de mundo. A série começa a ficar repetitiva e inchada a partir de sua segunda parte. Com conceitos acrescentados apressadamente e sem contexto, como as criaturas que habitam o planeta. E mudanças bruscas de perspectiva dos personagens, como a loucura repentina de Marcus, e a instabilidade da fidelidade de Campion aos tutores robôs. 

O resultado é a perda de veracidade e coerencia com o que fora apresentado antes. A série muda de tom, inclui conceitos demais, e não tem tempo de trabalhar todos. Entregando um clímax confuso, e um desfecho que não encerra nada de fato. A sensação é de abandonarmos a temporada no meio, quando chegamos ao décimo e último episódio. Felizmente a produção está confirmada para uma segunda temporada, na qual pode dar melhores rumos à história, explicar elementos acrescentados repentinamente, e reencontrar o tom. 

E por falar em tom, a fotografia dessaturada, trasnforma Kepler-22b, em um planeta frio e inóspito. Uma escolha questionavel para criar uma civilização. Bem como o design de produção acerta em contrastar a alta tecnologia que levou a humanidade a outro planeta, com a escassez de recursos do mesmo.  Os efeitos especiais entregam o que a história precisa, sem grandes destaques ou falhas. 

Eficiente também é o elenco, que no geral entrega o que os personagens precisam. O destaque fica com  Amanda Collin, já que sua personagem é a que tem os maiores conflitos e dilemas, e a atriz consegue entregar com veracidade seus extremos. Mãe, vai do instinto materno ao assassino, da certeza à confusão em instantes, e a mudança é sempre crível. 

Perdidos no Espaço, Blade Runner, Alien - o Oitavo Passageiro, a Bíblia... são muitas as referências que vem à mente, durante a maratonda de Raised by Wolves. O que não significa que a série não tenha personalidade própria. Pelo contrário, tem um argumento original e rico, faz bom uso das referência de obras anteriores, sem deixar de criar seu universo e estranheza próprios. 

Faltou apenas definir melhor os caminhos, e temas que o roteiro decide abordar. Para evitar a repetição e o excesso do ato final, e entregar uma história mais objetiva e impactante. Falhas que ainda podem ser remediadas por temporadas futuras. Vamos torcer para que isso aconteça!

Raised by Wolves tem 10 episódios com cerca uma hora cada, todos estão disponíveis exclusivamente na HBO Max.

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