Entre vinte de novembro de 1945 e primeiro de outubro de 1946, Tribunal Militar Internacional, também conhecido como Tribunal de Nuremberg, já que foi organizado na cidade alemã de mesmo nome, julgou vinte e dois dos principais líderes sobreviventes da Alemanha de Hitler em um verdadeiro espetáculo midiático. O objetivo, além de condenar os réus, era documentar e divulgar os crímes de guerra, e principalmente o Holocaustp, para desestimular possíveis revanches e evitar que tais barbaridades se repetissem. Sendo o primeiro tribunal internacional, e servindo de parâmetro para o futuro.
Dito isso, é inevitável a responsabilidade em torno de qualquer obra que se proponha a retratar o evento, independente do ângulo escolhido. E Nuremberg, filme de James Vanderbilt que dirigiu apenas um outro filme, Conspiração e Poder de 2015, escolhe um recorte curioso. Baseado no livro O Nazista e o Psiquiatra de Jack El-Hai, o filme acompanha o julgamento pelos olhos do Dr. Douglas M. Kelley (Rami Malek). O psiquiatra do exército americano era encarregado de avaliar a sanidade mental dos réus, determinar se eles estavam aptos a enfrentar o julgamento e apontar qualquer possibilidade de suicídio, antes que ocorressem.
O foco é em sua relação com o Reichsmarschall Hermann Göring (Russell Crowe), réu de patente mais elevada, nomeado sucessor de Hitler pelo próprio füher. Assim passamos mais tempo observando os passos do terapeuta, e a construção de uma intimidade com o paciente, do que o julgamento de fato, ou mesmo os preparativos para ele.
E tudo bem, este não é um documentário, a proposta pode sim se afastar do principal evento para fazer um estudo de um ou mais personagens. Aliás é por isso que ainda nos interessamos tanto por filmes da Segunda Guerra, pelas milhares de perspectivas e personagens a serem exploradas. A expectativa frustada por não ser um filme de tribunal é mais culpa nossa que do filme de fato. O problema é que o filme não é competente em fazer isso.
Confuso sobre o ponto de vista escolhido, e principalmente sobre a mensagem que deseja passar, o filme alterna entre as "sessões de terapia", e os preparativos como se um influenciasse o outro. O que de fato deve ter acontecido, mas o roteiro não consegue estabelecer bem essa relação. Apresenta mal os diversos personagens e suas funções, assim como a problemática do porquê e como fazer esse julgamento. Um espetáculo milimetricamente organizado para passar mensagens bastante específicas. Por mais que estudemos história, não somos obrigados a conhecer cada promotor e assessor em cena, tão pouco seu papel individual no quadro geral.
Se o filme falha em mostrar o evento em si, há de se imaginar que ao relação principal escolhida por ele como foco seria explorada nos mínimos detalhes, certo? Errado. Os diálogos rasos, e o foco em trivialidades ao invés de ações reais, impede que uma relação verdadeira, e um quadro detalhado das personalidades do terapeuta e do nazista sejam apresentados. O roteiro constrói uma admiração do Kelley por Göring que raramente é justificada. Talvez por sua firmeza moral, ainda que uma moral cruel.
Göring se mantém firme em suas convições por quase todo o tempo. Mas seu destino real (não é spoiler, ele cometeu suicídio antes da execução) põe essa firmeza à prova. Foi covardia ou necessidade de controle? De qualquer forma Russell Crowe personifica muito bem essa figura imponente quase mítica, ainda que o roteiro não ajude.
Já Rami Malek segue o extremo oposto. Tentando nos convencer com muitas caras e bocas para mostrar que o personagem tem muito conhecimentos e percepções que ele não tem. Ao ponto de que concordamos com seus superiores, quando estes convocam um segundo terapeuta diante do trabalho duvidoso de Kelley. O auge são os momentos em que o personagem escreve em seu diário, atuando como se ouvisse a narração ao fundo.O restante do elenco traz esforços de Michael Shannon, Richard E. Grant e Leo Woodall fazendo o possível com o que o roteiro lhes oferece. Roteiro este que é um tanto confuso quanto a mensagem que quer passar. Ao mesmo tempo que tenta humanizar Göring, também recorre para imagens reais dos campos de concentração para mostrar a crueldade desses homens.
Crítica o espetáculo em torno do julgamento, enquanto cria o mesmo espetáculo a partir do mesmo evento. Usando inclusive imagens de vítimas sem nome, enquanto nomeia os vilões. Tenta mostrar que outras nações também cometeram (e ainda cometem crimes de guerra) ao apontar Hiroshima e Nagasaki, mas desiste no caminho. Claramente James Vanderbilt quer passar alguma mensagem, só não decidiu que mensagem é essa.
Para não dizer que não há nada de positivo no filme, a reconstrução de época é impecável. Dos figurinos, passando pela Nuremberg devastada, e principalmente a recriação do tribunal em seus mínimos detalhes. Filmado em alguns momentos com ângulos que se assemelham aos dos registros reais, para reforçar a exatidão da recriação.
Infelizmente reconstrução de época bem executada, boa atuação de Russel Crowe e coadjuvantes infelizmente não são suficientes para entregar um bom filme. Assim como uma mensagem confusa pode ser muito mais prejudicial que o desconhecimento total da história. E nem mencionei as alegações de que o livro base, não é tão calcado na realidade quanto deveria. Nuremberg é frágil, confuso e beira o desserviço. Certamente há obras melhores retratando esse evento tão importante da história mundial.
Nuremberg
2025 - EUA - 148min
Drama histórico






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