Afinal, quem em cena é a máquina de Máquina de Guerra? A ameaça oficial do roteiro, o protagonista incansável em sua batalha, ou a nação que ele defende e que trata seus homens como meros recursos. Essa é a dúvida que fica ao pensar um pouquinho mais sobre o longa-metragem da Netflix. E talvez este seja o erro, "pensar em demasia".
O protagonista vivido por Alan Ritchson é um militar que perdeu o irmão em combate, e agora tenta realizar o sonho que dividiam de ser um Ranger. Uma unidade de elite para operações especiais, segundo o que o filme mostra. Afinal ninguém é obrigado a conhecer a hierarquia do exército estadunidense.
Auto isolado, e extremamente focado, o protagonista chega à prova final ao lado de um seleto grupo, após um treinamento longo e extenuante. Mas essa missão em campo que deveria ser apenas um teste, se torna uma missão real de sobrevivência contra um inimigo desconhecido e imparável. O que rende boas cenas de ação, mas quanto ao desenvolvimento dos personagens deixa muito à desejar.
À começar pelo próprio protagonista com quem deveriamos ter empatia e fidelidade. Mas esse soldado sem nome, de fato o conhecemos apenas como 81, não consegue extrair interesse através de sua história de perda. Afinal o roteiro exige que sintamos falta de outro personagem sem nome, que vimos pelos dois minutos iniciais do filme. O peso da morte do irmão vivido por Jai Courtney (pois é, outro personagem sem nome) é até visivel, mas nunca de fato atinge o expectador. Existe a tentativa de construção de um personagem cheio de camadas, mas o efeito não é o esperado.
E por falar na ausência de nomenclatura, todo o batalhão que acompanhamos é assim. 07, 15, 44, 60 e outros números irônicamente conseguem conquistar nossa atenção com mais facilidade, uma vez que são unidimensionais, representados apenas por alguma característica mais marcante. O líder sensato, o falastrão, "ué esse é mulher né?", o rosto conhecido de The Flash, e por aí vai... (Stephan James, Blake Richardson, Alex King e Keiynan Lonsdale respectivamente).
É essa ausência de nomenclatura que gera o primeiro questionamento que mencionei no primeiro parágrafo deste texto. A máquina do título é de fato o robô imenso que os humanos enfrentam, ou os proóprios humanos, treinados à exaustão para serem imparaveis, e descartáveis. Sem nomes, com pouca história e vontades, seguem cegamente suas ordens, e o objetivo maior de proteger os Estados Unidos.
Já o outro questionamento é se o título se refere ao país em si. Altamente bélico, o cenário mundial não nos deixa mentir, usa as artes como propaganda de guerra. Enquanto trata homens como parte de sua máquina de lucro e poder.
Não que o filme tenha a intenção de fazer estes questionamentos. A discussão é um mero acidente de percurso. A produção está interessada mesmo em mostrar que seu diretor Patrick Hughes, e seu astro Alan Ritchson estão aptos à fazer grandes produções de ação. E que a Netflix pode ser uma parceira das forças armadas estadunidenses.
O problema é que apesar de bem executadas, povoadas por personagens genéricos, as sequencias são também genéricas. Alan Ritchson não se destaca como astro de ação, de sua aparência e caracterização de "milico padrão" também não ajuda. Na verdade, passei o filme todo pensando que estava assistino Sam Worthington, e que as poucas diferenças que notava no astro de Avatar vinham do fato de ele não estar azul.
Aliás, mencionei que tecnicamente o filme é uma ficção-ciêntifica? Mas não se empolgue a nomenclatura, assim como os nomes dos personagens, é um mero rótulo ganho por um ou outro elemento de sci-fi. O filme é uma produção de ação e guerra que por acaso tem um robô gigante alienígena. Ops, isso deveria ser uma surpresa do roteiro! Desculpe pelo spoiler, mas acredite, saber essa informação de antemão não faz muita diferença.
Dennis Quaid é o veterano famoso da vez. Um dos poucos personagens com nome, seu General Sheridan existe apenas como ponto de validação tanto do protagonista, quanto do filme. Em cena como veterano que apostou no recruta problema, fora de cena como veterano que apostou no astro em ascenção. Não convence em nenhuma das duas tarefas.
Máquina de Guerra ensaia falar de temas como perda e superação, mas é atropelado pela vontade de ser um grande filme de ação. Até consegue entregar sequencias divertidas, mas não vai muito além da propaganda de guerra estadunidense extremamente esquecível. Se conseguimos tirar alguma reflexão dele é mérito do expectador, que escolhe refletir em que mundo o filme estreou, mas não uma intenção proposital e genuína da obra.Máquina de Guerra (War Machine)
2026 - EUA - 106min
Ação, Guerra




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