segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Vidro

Outrora um diretor revelação/prodígio adorado, M. Night Shyamalan divide opiniões atualmente. Mesmo assim, não houve quem não ficasse empolgado com sua próxima produção. Descobrimos que queríamos assistir à Vidro, quando o final de Fragmentado (2016) o revelou como uma continuação de Corpo Fechado (2000).  O problema é que o excesso de expectativa pode trabalhar contra qualquer produção.

Semanas após os eventos de Fragmentado, Kevin Wendel Crumb, e suas 24 personalidades (James McAvoy) continuam a raptar adolescentes. David Dunn (Bruce Willis) está empenhado em captura-lo. O empasse entre os dois é interrompido, quando ambos são levados para o hospital psiquiátrico da Filadélfia, onde serão submetidos ao tratamento da doutora Ellie Staple (Sarah Paulson), especializada em pessoas que pensam ser super-heróis. Elijah Price, ou melhor Mr. Glass (Samuel L. Jackson), também está na instituição.

A desconfiança em relação à suas próprias habilidades é um dos conflitos de Vidro, que para surpresa de alguns aposta muito mais nos personagens e suas relações, que no fator "super-heróico" do longa. O trio vai questionar suas próprias personalidades, eventualmente compartilhando estas dúvidas com o espectador. Eles também vão compreender a dinâmica entre herói, fera e mentor, e até rever seu relacionamento com as pessoas à sua volta.

Mas não se engane, apesar de todo o drama que estes temas trazem, o longa encaixa sim, direitinho em uma trama típica de quadrinhos. Paralelos que o próprio Mr. Glass faz questão de apontar para audiência. A diferença está na forma como isso é levado para as telas, contido em seus personagens, e longe da megalomania típica de produções com protagonista super-poderosos.

Além do drama criado pelas relações, e da ação oriunda das habilidades especiais - ou da crença de elas existe, dependendo do que você acredite - há ainda espaço para o suspense, graças às eterna dúvida quanto intenções de Elija, e também de Staple. Além do terror ligado à Fera, e aos medos internos de Kevin. Extrair este misto de elementos e emoções, ao mesmo tempo que costura três arcos distintos em uma única trama, é provavelmente o maior mérito roteiro de Shyamalan.

No aspecto técnico, o diretor mantém seus enquadramentos diferenciados, que pretendem atender ao que cada cena necessita. Já a fotografia e cenários e figurinos, criam uma paleta de cores que conversam com sua inspiração dos quadrinhos. Desde a simples determinação de cores para cada personagem, até a combinação de elementos para tornar a cena mais parecida com quadrinhos, ou mais "realista" de acordo com o momento da trama.

Jackson e Willis, mantém o equilíbrio entre seus já conhecidos personagens, ao mesmo tempo que encaixam o terceiro protagonista nessa dinâmica. McAvoy continua o impressionante trabalho de incorporar duas dúzias de pessoas, mas o excesso de foco nas suas transformações, pode soar forçado e tirar um pouco da força de sua atuação para alguns.

Paulson se encaixa perfeitamente no contexto, com sua personagem ambígua. Anya Taylor-Joy, Spencer Treat Clark e Charlayne Woodard retornam aos seus papéis, Casey a garota poupada pela Fera, Joseph o filho de Dunn e a mãe de Mr. Glass. Esta última com uma caracterização de envelhecimento mal executada, que parece forçada e destoante, mesmo quando seu filho se cobre de um acertadamente caricato figurino roxo, típico dos quadrinhos.

E por falar em Mr. Glass, é ele quem tem uma trajetória crescente e central neste filme. Ele é o personagem tílito, afinal. Mas isso não significa que seus parceiros, tenham seu espaço diminuído, ou arcos encurtados. Suas tramas continuam se desenvolvendo e interagindo, de forma que levem cada um a seu desfecho pessoal e a todos ao final do "plano maior", ao mesmo tempo. Sem enrolações, desvios ou pontas soltas.

O público passou quinze anos imaginando o que acontecera com os personagens de Corpo Fechado, foi pego de surpresa pela relação com Fragmentado, e agora precisa descobrir se a jornada segue, ou não o caminho que cada um imaginou. É aqui que a produção dividirá opiniões. Desapontado quem esperava uma saga de ação heroica grandiosa. Mas surpreendendo quem aceitar a visão mais intimista, e curiosamente humana destes heróis. 

Corpo Fechado não tinha cara de "filme de super-herói", nem foi promovido como tal, já que o cenário para esse gênero não era tão favorável em 2000. Fragmentado flerta com terror. Nada mais coerente que o desfecho da trilogia não seja meramente um filme de herói. 

Vidro é um drama, mas também é um suspense, tem toques de terror e ação. É uma adaptação de uma história em quadrinhos que não existe. Abre possibilidades para sequencias, mas não precisa delas. A grande reviravolta de M. Night Shyamalan, dessa vez é entregar um filme que tem de tudo um pouco. E talvez nada do que alguns esperavam. Levando-o de volta ao padrão amo/odeio. Para mim a produção é um dos acertos, e pra você?

Vidro (Glass
2019 - EUA - 129min
Suspense, drama, fantasia
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Máquinas Mortais

A ficção parece estar convencida, logo enfrentaremos um evento que vai nos transformar em uma distopia pós-apocalíptica. Falta apenas decidir qual será o cenário no qual a humanidade viverá a partir daí. A proposta de Máquinas Mortais para tal é bastante curiosa, os sobreviventes vivem em cidades móveis que perseguem consomem umas as outras para sobreviver, no que eles chamam de Darwinismo Municipal.

O Arqueólogo Tom (Robert Sheehan) vive na gigantesca Londres, mas tem sua rotina alterada após "esbarrar" na misteriosa Hester Shaw (Hera Hilmar). A dupla é expulsa da cidade e precisa cooperar para sobreviver. É claro, há também uma ameaça que pode causar um novo apocalipse em seu caminho.

Baseado no livro homônimo Philip Reeve, o primeiro de uma tetralogia, Máquinas Mortais é também a estreia na direção de Christian Rivers. Artista de efeitos especiais que tem um Oscar de Efeitos Visuais (King Kong) e as trilogias da Terra Média (O Senhor dos Aneis e O Hobbit) no currículo. Não é surpresa que este aspecto não decepcione. Seu mundo steampunk pós-apocalíptico e um tanto quanto megalomaníaco é bastante convincente, tanto em construção quanto em efeitos. Isto é, se você comprou a ideia das cidades-tração. Não é difícil compreender como as estruturas funcionam e interagem, mesmo em sequencias de ação e com muito CGI.

É no roteiro que a produção decepciona, ao desperdiçar uma premissa original e um universo complexo dando preferência ao romance juvenil à exemplo de produções como Jogos Vorazes. Entretanto, diferente da saga de Katniss, que compõe bem seu universo e oferece temas para discussão ao espectador, esta aventura parece levantar questionamentos apenas por acidente. Deixando o público com dúvidas que atrapalham a imersão. Desde a Guerra dos Sessenta Minutos, que levou o mundo aquele status, passando pelas pessoas ressuscitadas(!) até a rixa entre as cidades móveis, e os assentamentos fixos - sim, eles existem municípios parados ali - tudo é apresentado com muita exposição, mas pouca construção.

O resultado é nos descobrirmos pensando nos prós e contras e na real necessidade de se manter sempre em movimento. Na incapacidade de gerar recursos próprios, de uma sociedade que pode curar ferimentos rapidamente, ou mesmo trazer pessoas de volta à vida. Ao invés de nos preocuparmos com a jornada de Hester e Tom.

A construção de mundo fraca e o excesso de exposição que não atende às necessidades da história, não são o único problema do roteiro. Este apresenta e descarta personagens quando conveniente, chega até a presumir que sabemos a importância deles, de acordo com a forma que são mostrados. Quem leu os livros provavelmente, ficou empolgado quando um grupo e pilotos liderados por Anna Fang (a cantora e atriz sul-coreana Jihae) surge de forma imponente. Eu só fiquei imaginando, ok, estes caras devem ser bons em alguma coisa, mas quem são eles mesmo?

O vilão Thaddeus Valentine (Hugo Weaving) tem potencial para ser um daqueles malfeitores de quem descordamos dos métodos, mas compreendemos os objetivos, como Thanos ou Killmonger. Mas logo é relegado ao objetivo desgastado de dominação mundial. Caem no cliché também, as viradas e revelações previsíveis da jornada. O arco do ressurrecto Shrike (Stephen Lang) tem boas surpresas, mas é enfraquecido pela falta de tempo, visual artificial do personagem e final sentimentalista. E por falar em sentimentos, a trilha segue a cartilha de indicar o que devemos sentir em cada cena.


Some tudo isso ao abuso de frases de efeito genéricas, e fica impossível acreditar que a adaptação foi escrita pela mesma equipe que nos entregou O Senhor dos Anéis, Peter Jackson, Fran Walsh e Phillippa Boyens. Existem inclusive, referências e recriações que exageram e que beiram a cópia descarada de características e sequencias de outras ficções-científicas como Mad Max e Star Wars. Enquanto o elenco com poucos nomes de peso visivelmente se esforça - a exceção é a inexpressiva Leila George - mas não tem muito o que fazer com seus personagens unidimensionais. A garota que não confia em ninguém, o herói relutante, a melhor piloto da frota, e por aí vai...

Os melhores momentos, são aqueles que mostram um pouco mais da "sociedade perdida", e da relação dos sobreviventes com ela. Nossa tecnologia, vista como antiga por eles, é adorada e colecionada, mesmo que não funcione, ou mesmo que eles não saibam usá-las. Isso abre margem para boas piadas e críticas coerentes à nossa "Sociedade das Telas", como eles chama o século XIX. Pena que o recurso é pouco explorado.

Tendo estreado em outras partes do mundo ainda em 2018 Máquinas Mortais, já está sendo apontado como o maior fracasso comercial do ano. Além de não conseguir transportar o sucesso do livro para as telas, a produção também não consegue gerar curiosidade pelo material original, que poderia suprir as faltas daqueles espectadores dispostos à leitura. O que diminuiria, mesmo que para alguns poucos, o sentimento de frustração relacionado  ao título.

Uma produção cara e tecnicamente bem executada, mas que opta por clichês e lugares comuns em seu roteiro. Desperdiça de uma premissa original, que com certeza criaria bons paralelos e discussões com o mundo de hoje, e por isso logo será esquecida.

Máquinas Mortais (Mortal Engines)
2018 - EUA - 128min
Ficção-científica, Aventura


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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

WiFi Ralph: Quebrando a Internet

Quando estreou Detona Ralph surpreendeu ao mesclar com eficiência, em uma só aventura diferentes estilos de videogame. Dos quadradões jogos de 16bits aos complexos gráficos atuais, jogos de todos os tempos formavam, uma sociedade bastante crível no Fliperama Litwak. A sequencia da animação decide ampliar, e muito, o universo ao levar os personagens para a internet. Para tal opta por uma trama simples, e até repetitiva aos olhos de alguns.

Amigos há anos, Ralph (John C. Reilly/Tiago Abravanel) e Vanellope (Sarah Silverman/MariMoon) abandonam o dia-a-dia repetitivo do fliperama para salvar o jogo da garota. A missão é buscar no E-bay uma peça reserva para evitar que o Corrida Doce seja mandado para o ferro velho. Além de conhecer o maravilhoso mundo da internet, a dupla tem sua amizade testada quando percebe que não tem os mesmos sonhos.

Novamente é na criação de mundo que a produção se destaca. Se antes os personagens interagiam e até visitavam outros mundos, através dos fios e no filtro de linha que compartilhavam, na internet a interação não tem limites. Agora os protagonistas não interagem apenas com outros games, mas também com toda a cultura pop. Os easter-eggs e referências parecem ser inacabáveis. Estes vão desdes memes e situações do cotidiano dos internautas, como pop-ups e quizes, até empresas de internet do mundo real. Aliás, o enorme número de marcas representadas, é impressionante. Todas as grandes marcas estão presentes, o que nos faz pensar, que este filme se pagou com muita facilidade.

Se as representações físicas de um conceito tão abstrato quanto a internet não forem suficientes, há ainda, a possibilidade de ver a Disney rindo de si mesma. E também, esfregando todo seu poderio na tela. O trecho da aventura situado no site Oh My Disney (que existe de verdade, clique aqui), traz referências à todas as franquias e estúdios acoplados à empresa do camundongo, Star Wars, Pixar, Marvel e até os Muppets. A supra alardeada cena das princesas, é uma das melhores e curiosamente coerente, afinal a Vanellope Von Schweetz é a princesa de seu game, e personagem de um filme Disney, logo faz parte sim do panteão.

Tudo isso, em uma caprichada harmonia visual, que respeita as diferentes características de cada personagem e área. Mesmo os personagens novos, tem características coerentes com os universos a que pertencem, a todos muito diferente do mundo de 16 bits de Ralph ou da fofa e arredondada Corrida Doce.

Shank (Gal Gadot/Giovana Lancelotti) é a líder descolada e empoderada de um game atual de corrida. Já Yesss (Taraji P. Henson), sabe tudo que uma pessoa precisa para se tornar viral. Ambas as personagens são poderosas, proativas e curiosamente acessíveis apesar de sua posição. Aliás o filme entrega uma visão da internet muito mais positiva do que a maioria de nós tem. Existe sim, os espaços pouco amigáveis, mas estes são bem menores que os mundo real. Quem sabe essa versão de mundo virtual não influencia as futuras gerações.

É em seu terceiro ato, quando este novo mundo já foi apresentado, e a maioria de suas piadas e referências exploradas, que o filme cai um pouco em qualidade ao repetir conflitos do primeiro longa. Por insegurança Ralph faz besteira, Vanellope fica chateada, sua amizade é abalada, até que uma grande catástrofe reconcilie a dupla. Felizmente, quando chegamos neste ponto mais frágil da produção, já fomos conquistados pela jornada até ali.

Também há uma falha em relação a trama do primeiro filme. Em Detona Ralph, o jogo do vilão é quase desligado quando o personagem desaparece por um dia. Em WiFi Ralph, o personagem passa muito mais de 24 horas navegando na internet, sem nunca se preocupar com a existência de seu próprio jogo. Talvez apenas eu tenha realmente me incomodado com isso.

Outros podem se incomodar com algumas cenas do trailer que não estão no filme. Aliás parecem nunca ter estado, e terem sido criadas apenas para sua promoção. Prática que a Disney parece ter adotado, perceptível desde Rogue One, e principalmente em Vingadores: Guerra Infinita.

O elenco traz de volta, McBrayer (Félix, que no Brasil tem a voz de Rafael Cortez) e Janey LYnch Sargento Calhoum, em participações menores. Entre os nomes novos, se destacam Alan Tudyk, Alfred Molina e quase todo as vozes originais das princesas Disney. Apenas as princesas da era de ouro, Branca de Neve, Cinderela e Aurora, cujas interpretes originais não estão mais disponíveis, ganharam novas vozes. Esforço que a dublagem repete na versão nacional. Há também outras participações especiais interessantes, mas não vou mencionar para não estragar a surpresa.

É claro, há também o espaço para as boas mensagens. Além do já mencionado empoderamento feminino, a constatação de que melhores amigos não precisam ter os mesmos gostos e sonhos, são aos principais lições aqui. E vale mencionar, o filme tem cenas pós créditos.

WiFi Ralph: Quebrando a Internet, não é tão redondinho quanto seu antecessor. Mas suas falhas são mais que compensadas pela impecavelmente criativa construção de mundo e pelo carisma dos personagens. Inclusive os coadjuvantes e as participações especiais. Uma aventura frenética, divertida e inteligente ao lado dos já favoritos de muita gente, Vanellope e Ralph.

WiFi Ralph: Quebrando a Internet (Ralph Breaks the Internet)
2018 - EUA - 112min
Animação, Aventura


Leia crítica de Detona Ralph, e descubra outros filmes sobre video-games que não existem.
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Black Mirror: Bandersnatch

Black Mirror é uma daquelas séries com uma capacidade incrível de impactar seu público. Mesmo sentados do "lado de cá" da tela, suas histórias absurdas, mas totalmente possível criam uma imersão tamanha, que não é comum ficarmos presos à elas por dia. O novo episódio da antologia, pretende ir ainda mais longe, colocando nas mãos do espectador as escolhas do protagonista. Bansersnatch é o primeiro grande projeto interativo da Netflix, e o argumento se encaixa perfeitamente com a proposta da série.

Na década de 1980, Stephan (Fionn Whitehead) está produzindo seu primeiro jogo, baseado em um livro no qual a história muda de acordo com as escolhas que o leitor faz pelos personagens. Enquanto isso, você tem alguns segundos para escolhe o que o jovem deve ou não fazer, em momentos específicos.

E isso é tudo que se pode adiantar do filme sem estragar a experiência, já que a produção é exatamente isso: um experimento. Enquanto a Netflix testa a tecnologia que permite o "você Decide" do século XXI - que aliás funciona muito bem apesar de não estar disponível em todos os dispositivos - nós brincamos de deus com a vida do protagonista. Isto é até certo ponto.

É logo na terceira escolha que a maioria dos espectadores começa a perceber que nosso poder, não é tão ilimitado assim. Finais abruptos, escolhas que não fazem diferença e becos sem saída te levam inevitavelmente para a "opção certa", se você quiser que a história continue por mais tempo. Admito, sabíamos que a brincadeira de escolhas não poderia continuar eternamente, e que haveriam trajetos definidos, mas a percepção desta limitação e o fato desta parecer tão curta, pode frustar alguns, ou ...

Se mantendo no espírito da série que leva a interferência da tecnologia em nossas vidas ao estremo, há sim um ângulo diferente para se observar Bandersnatch. CUIDADO O TRECHO A SEGUIR PODE CONTER SPOILERS - Stephan acha que tem livre arbítrio, mas secretamente somos nós quem controlamos sua vida. Já o "espectador interativo" acredita que está escolhendo o destino do protagonista, mas está apenas seguindo os caminhos pré-determinados pela Netflix. A plataforma te deixa decidir como percorrê-los, é verdade, mas através da curiosidade, vai obrigar você à inevitavelmente fazer todas as escolhas e percorrer todas as opções da narrativa, passando o máximo de tempo possível conectado ao serviço de streaming.

Quando Stephan começa à perceber que não tem controle de suas escolhas e começa à questionar sua existência, nós também já estamos questionando as opções que nos são dadas. Nós estamos mesmo controlando a tecnologia, ou ela só nos deixa ter uma breve sensação de poder, para ter nossa atenção por mais tempo? Se esta metalinguagem extrema é proposital, então o projeto é genial. E ao contrário do que se pensa, as opções continuam abertas.

Repare que quando o jogo de Stephan está sendo testado, o jogador encontra um beco sem saída e o rapaz alega, "ainda não programei essa parte". Imagina se a plataforma apenas "ainda não programou" os trechos que levam à becos sem saída, e daqui há algum tempo decide disponibilizá-los. Inevitavelmente seríamos arrastados de volta á narrativa, presos à esta nova tecnologia de contar histórias. Isso é muito Black Mirror! FIM DO TRECHO COM SPOILERS

Sugar Puffs ou Sucrílhos, escolhas cruciais da vida!
Como um todo, a narrativa é bem simples. Um jovem sente a pressão de seu primeiro "trabalho de verdade". Já às reviravoltas esbarram no exagero em alguns momentos, mas estes funcionam já que atendem tanto a narrativa, quanto a construção deste mundo em que o protagonista vive, no qual tudo supostamente pode acontecer dependendo de quem esteja no comando. Nós vivenciamos a urgência das escolhas na vida do jovem através da limitação de tempo com que precisamos fazer nossas próprias escolhas. São apenas dez segundos para selecionar uma das opções.

O elenco atende às necessidades da produção. Além de Whitehead que você deve conhecer de Dunkirk, Will Poulter, Asim Chaudhry, Alice Lowe e Craig Parkinson são aqueles que mais tem tempo de tela.

Bandersnatch pode ser visto como uma experiência limitada, ou uma grande sacada de metalinguagem. Ou ainda como os dois, já que o recurso de refletir sobre si mesmo pode ser uma escolha eficiente para driblar as limitações da tecnologia. A escolha de como encara-lo realmente é sua desta vez. A menos que haja uma força controlando tudo e todos - tem alguém aí? - De qualquer forma, todas as opções se encaixam com a temática de Black Mirror, impactar e perturbar o espectador.

Sendo assim, enquanto não me confirmarem que estou na Matrix e que o livre arbítrio não existe, escolho acreditar que, embora não seja o melhor episódio da antologia, Black Mirror: Bandersnatch é uma experiência curiosa, eficiente e bem sucedida. E você escolhe o que?

Black Mirror: Bandersnatch
2018 - EUA
Ficção-científica


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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Homem-Aranha no Aranhaverso

Nas últimas duas décadas, tivemos nada menos que três encarnações do Homem-Aranha no cinema. Logo, para alguns, pode parecer exagero a chegada de um novo amigão da vizinhança na tela grande. Surpreendentemente, Homem-Aranha no Aranhaverso, traz sim algo de novo que justifique a existência não apenas de mais uma, mas de várias versões do herói.

Miles Morales (voz de Shameik Moore) é um adolescente que vive em uma Nova York onde o Homem-Aranha já é um herói estabelecido e adorado pelo povo. Admirador do herói, ele acaba vestindo o manto do teioso, após ser picado por uma aranha radioativa e presenciar a morte de Peter Parker (Chris Pine). Além de eliminar o herói, plano do Rei do Crime (Liev Schreiber), causa um cataclisma entre dimensões paralelas, e acaba trazendo várias versões do cabeça de teia para o mundo de Morales.

Um Peter Parker (Jake Johnson) mais velho, uma Gwen Stacy (Hailee Steinfeld) que se tornou a Mulher-Aranha, o Homem-Aranha Noir (Nicolas Cage), o Porco-Aranha (John Mulaney) e Peni Parker (Kimiko Glenn), de apenas 9 anos que além de poderes aracnídeos tem também um robô, se unem à Miles para consertar a bagunça e ajudá-lo a aprender o "ofício". Todos com sua devida apresentação simples, porém eficiente, mesmo para aqueles não conhecem as muitas versões do personagem, ou não está familiarizado com o conceito de multiversos.

Vindos de mundos diferentes, estes personagens tem tons e traços distintos. O Noir não conhece cores, Peni tem traços de anime, Porco-Aranha tem humor e visual no estilo Looney Tunes, estas e outras diferenças são acertadamente usadas em prol da narrativa, e principalmente do humor. A parceria forçada e estranhamento pelo novo mundo, criam situações tanto tensas, quanto engraçadas naturalmente. Há também espaço para pitadas de comédia pastelão, geralmente com o suíno-aracnídeo, e referencias. Muitas referencias! Especialmente relacionadas à trilogia de Sam Raimi, mas também do universo "super-heróico" como um todo.

E já que estamos falando de referências, a tradicional participação de Stan Lee, merece atenção especial pelo tom poético que carrega. Não apenas por ser a primeira participação pós-mortem (é provável que ele ainda apareça em Capitã Marvel, e Vingadores: Ultimato), mas também por sua função mas significativa que as meras aparições anteriores.

De volta ao Aranhaverso, as perdas estão no cerne da maioria dos heróis, o cabeça de teia não é uma exceção. Nesta animação o tema se mantém como, seja pela morte de Peter Parker na vida de Miles, seja pelas perdas pessoais das outras "pessoas-aranha" em cena, ou mesmo por perdas menos literais, como a perda da inocência, ou de um rumo na vida. São estes dilemas que conferem peso à aventura, que apesar de bem humorada não tem receio de momentos mais sérios e dramáticos.

No aspecto técnico, além de fazer personagens de estilos distintos funcionarem em um mesmo mundo, o longa tem identidade própria. O visual de animação tradicional, possibilita a incorporação de texturas e efeitos que remetem à HQ. Virar de páginas, onomatopeias, balões de pensamentos são os recursos mais evidentes. Há também uma textura que simula a impressão no papel, enquanto a fotografia usa coloração como recurso, para acentuar a intenção de cada cena a través da predominância de uma ou mais cores em alguns momentos.

Apesar de toda essa sofisticação técnica e das muitas referências, a produção é para toda a família. A trama não exatamente simples, mas é bem definida, e fui sem dificuldade em um ritmo frenético. As cores e as piadas visuais devem dar conta de prender as atenções dos muito pequenos. E, vale avisar, exite cenas pós créditos.

Uma quarta (aliás oitava se contar os "aranhas convidados") encarnação do Homem-Aranha na telona pode sorar exagero à primeira vista. Mas esta não é a história de Peter Parker, é a de Miles Morales uma pessoa completamente diferente. Além de todos os pontos citados acima, ainda ainda carrega todo o peso da representatividade, ele é um jovem negro de ascendência latina. Não que isso seja um ponto de militância no filme, mesmo porquê diversidade de personagens aqui não falta (alô, porco falante!).

Homem-Aranha no Aranhaverso se faz mais que necessário no universo dos heróis no cinema, ao mostrar há espaço sim para para reinterpretações e reimaginações de velhos conhecidos. Desde que haja um bom roteiro, a abordagem certa e um pouco de ousadia.

Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse)
2018 - EUA - 117min
Animação, Ação, Aventura

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Fuller House - 4ª temporada

A terceira temporada de Fuller House terminou com uma possibilidade preocupante para o desenvolvimento desta sequência de uma série de sucesso. A possibilidade de trazer o elenco original de volta permanentemente. Apesar de adorados, a presença de Danny, Joe, Becky e Tio Jesse, costuma mergulhar o programa na nostalgia, e tirar os holofotes das protagonistas atuais, DJ, Stephanie e Kimmy. Além de ir na contramão do caminho de independência que a série parecia tentar trilhar anteriormente.

Neste quarto ano, os adultos originais estão fisicamente mais próximos sim, e alguns até tem seus próprios dilemas, como a volta de Danny (Bob Saget) ao trabalho, ou o medo de Jesse (John Stamos) em falhar na educação de Pamela (Madilynn e McKenzie Jefferson), mas suas aparições continuam pontuais ao longo dos episódios. Eles estão próximos como qualquer família. Mesmo porquê, elimina-los completamente da vida dos Tanner-Fuller, iria de encontro à campanha de família unida é mais forte que ambas as séries defendem. Já Michelle, única do elenco a não fazer nenhuma aparição, já que suas intérpretes (Mary-kate e Ashley Olsen) não atuam mais, agora é recurso para explicar a ausência dos outros. Quando não são necessários à trama, mas sua ausência precisa ser justificada, Joe (Dave Coulier), Becky (Lori Loughlin) e companhia, estão visitando a caçula.

Com o elenco original em seu devido lugar - no bom sentido - o espaço devido é criado para as protagonistas atuais brilharem. E elas o fazem, embora demore um pouco a história engrenar. Os conflitos da primeira metade da temporada são simples demais, mesmo para os padrões da sitcom. É apenas lá pelo episódio oito, Driving Mr. Jackson, no qual o filho mais velho de DJ (Candace Cameron Bure), se embebeda que a trama ganha conflitos mais sólidos.

E por falar em Jackson (Michael Campion), o personagem mais fraco até então, mas começa ganhar conflitos mais interessantes, com a descoberta de seu talento em futebol americano. Em contrapartida, Ramona (Soni Bringas) e Max (Soni Bringas) tem menor destaque, mas não passam tão despercebidos quanto o bebê Tommy (Dashiell e Fox Messitt). É difícil não comparar com a quantidade enorme de falas que Michelle tinha nesta mesma idade. No geral, Fuller House usa bem menos as crianças que sua "série mãe", o foco é mesmo a trajetória das chefes da família.

Com o quadrângulo amoroso de DJ resolvido, o foco na disputa romântica é redirecionado para a manutenção do relacionamento com Steve (Scott Weinger), e requer menos tempo de tela para ser desenvolvido. Tempo que é bem recebido por Stephanie (Jodie Sweetin) e Kimmy (Andrea Barber), a dupla que nunca se deu muito bem, compartilha a jornada para tornar a caçula dos Tanner mãe. Cuidado exagerado, medo da maternidade e responsabilidade paterna estão entre os temas abordados pelo programa, no melhor e mais original dos arcos até agora.

Falando sobre os pais, a surpresa da temporada fica por conta do aumento na participação de Jimmy (Adam Hagenbuch) e Fernando (Juan Pablo Di Pace). É do parceiro de Steph, a trama sobre responsabilidade. Ele precisa assumi-lá, ela precisa aprender à compartilha-la. O pai de Ramona, é parte do elenco fixo desde o segundo ano da série, mas agora se firma como figura paterna também para os filhos de DJ, deixando de ser apenas um caricato alívio cômico.

O crescimentos destes personagens e a chegada de um novo bebê, abrem novas possibilidades para o próximo ano. Dando oportunidade ao programa de explorar ainda mais temas originais, e adaptando-se melhor aos novos tempos. O que não significa que as temáticas antigas e mais simples não possam ter seu valor, ou espaço, como o medo do Papai Noel que Tommy precisa superar ainda no primeiro episódio.

Lançada pela Netflix, bem à tempo de ser "a maratona de Natal" da família, a terceira temporada de Fuller House, demora um pouco a engrenar. Mas mostra que depende cada vez menos da nostalgia, sem deixar de lado a essência da série. Superar as dificuldades cercado pela família e amigos, com muita compreensão e respeito mútuo. Quem não precisa de um pouco mais disso hoje em dia?


As duas primeiras temporadas de Fuller House tem 13 episódios cada. O terceiro ano comemorou os 30 anos de Full House, com 18 episódios. Este quarto ano volta à quantidade original de capítulos, todos já disponíveis na Netflix. Também estão disponíveis no serviço de streaming, as sete temporadas de Três É Demais (Full House).

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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Bird Box

Não raramente, os bons filmes sobre o fim do mundo não tratam do apocalipse propriamente dito. E sim, das pessoas enfrentando a catástrofe, ou mesmo o mundo após. O que torna cada filme único, são as imposições que a nova ordem impõe à sobrevivência, e principalmente as personalidades que a habitam. É por esse caminho que segue a nova produção da Netflix.

Em Bird Box, Sandra Bullock é Malorie. Solteira, prestes a dar a luz ao primeiro filho não planejado, ela tem dificuldades em se conectar com as pessoas, quando um evento apocalíptico a força a conviver com desconhecidos. Cinco anos mais tarde, a protagonista atravessa descendo um rio, com duas crianças, todos com vendas nos olhos.

Sim, a premissa é conheida, o diferencial aqui é como a história é contada em dois momentos no tempo. Saltando enter o momento em que o mundo mudou drasticamente, quando algo levava pessoas cometerem suicídio,e o presente cinco anos mais tarde em um barco. Aguçando a curiosidade do espectador pelo que aconteceu no intervalo entre estes dois momentos.

No passado, a tensão é construída pela convivência forçada com estranhos. Um grupo que atende aos estereótipos do gênero, os opostos que agora são obrigados a conviver, o medroso, o altruísta, o ingênuo, e por aí vai. Á exceção é o nada agradável personagem de John Malkovich, que cria uma dinâmica interessante com a personagem de Bullock. 

Outro ponto de tensão é a necessidade de entender a ameaça, e encontrar maneiras de sobreviver à ela. A forma como o grupo deduz que a ameaça ataca aqueles que olha para ela, é aleatória e bastante questionável. Entretanto, o que importa aqui, é como eles lidam com essa informação, não como a obtiveram. Além das eficientes metáforas sobre gaiolas, a tal caixa de pássaros do título.

Também forçadas são algumas escolhas previsíveis e até clichês do roteiro. Como a pessoa ingênua que coloca o grupo em risco. Ou mesmo o acúmulo de acontecimentos simultâneos improvável no clímax. Há até um parto duplo!

De volta ao presente, a tensão é criada pela privação de um dos sentidos. É aqui que reside a comparação que muitos tem feito com outro thriller deste ano, Um Lugar Silencioso. A imersão aqui não é tão eficiente quando na produção onde é proibido fazer barulho, mas a escolha por não mostrar a ameaça - se eles não podem ver, nós também não - é eficiente. E somada à solidão e a agressividade da natureza, cria sequencias enervantes.

O escorregão aqui fica no mal explorado uso das crianças. Super obedientes e sem personalidade distinguíveis Garoto e Garota (Julian Edwards e Vivien Lyra Blair) são fofos, indefesos e apenas isso. O que torna pouco crível quando a menina esboça medo da protagonista. Porque ela tem medo? Desde quando? Porque nunca expressou isso, nas mais de quarenta horas que a acompanhamos no rio? O tema tinha potencia, mas foi mal desenvolvido.

A conexão entre os dois tempos, é acertadamente feita através dos desafios que Malorie encontra no futuro, e a situação no passado que lhes deu a ferramenta para lidar com eles. A produção não tem medo de mostrar violência, e potencializa o terror dessas cenas. O destaque fica com a sequencia onde o cataclisma ocorre, com o caos instaurado nas ruas e a excelente, porém extremamente curta, participação de Sarah Paulson.

Baseado no livro Caixa de Pássaros de Josh Malerman, Bird Box acerta em se preocupar com as relações humanas, dispensando explicações sobre o evento que acomete a humanidade. Novamente, se os personagens não sabem, nós também não precisamos. As poucas descobertas dos sobreviventes, são feitas ao mesmo tempo pelo público. Isso gera uma empatia orgânica e eficiente, mesmo com personagens mais genéricos. Focada no tema da maternidade e da conexão que permeiam a produção, Sandra Bullock consegue conferir empatia e temor suficientes para que Malorie carregue a produção, com a urgência que deixa o espectador na beirada da cadeira por toda a projeção. No final, é um filme sobre uma mãe no fim do mundo.

Bird Box
2018 - EUA - 124min
Suspense, Terror

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