sexta-feira, 20 de julho de 2018

Perdidos no Espaço - 1ª temporada

A premissa original era bem simples. Uma família a caminho do novo lar da humanidade tem seu rumo perturbado por um clandestino, e por isso todos ficam Perdidos no Espaço em sua nave auto-suficiente. Na nova versão da série, produzida pela Netflix, a criação deste cenário não é tão simples, e a primeira temporada usa seus dez episódios para explicar como foi formada a equipe da Júpiter, e como eles se colocaram nos apuros do título.

Um evento cataclísmico tornou a terra um lugar ruim para a humanidade, e aqueles que se provam aptos - leia-se passam em uma série de testes - podem se mudar para a nova colônia humana em Alpha Centauri. Os Robinsons estão entre os aprovados, e estão em plena viagem quando algo ataca a Resolute, grande estação espacial que leva seu grupo de colonos. As famílias são forçadas a deixar a "nave-mãe", em suas pequenas Júpiters e acabam caindo em um planeta misterioso.

Diferente do clássico da década de 1960, os Robinsons não estão sozinhos no início desta jornada. Outros colonizadores também estão perdidos neste planeta, mas o foco continua naqueles personagens criados em 1965. Todos devidamente atualizados para o século XXI, mas sem perder suas principais características.

John Robinson (Toby Stephens), é um pai ausente, extremamente envolvido com seu serviço militar, que embarca nesta viagem para ficar mais com os filhos. No comando, a ciêntista Maureen (Molly Parker), é uma mãe forte e dedicada. E o casal está separado, vale ressaltar. Entre as crianças, Judy (Taylor Russell) precisa se provar como médica iniciante, e por ser a mais velha se sente responsável por tudo. A jovem também é de outra etnia, acertadamente sua adoção é apenas citada e nunca se torna uma questão. Penny (Mina Sundwall) é a adolescente impulsiva, que faz graça com tudo,mas que também está disposta a se arriscar pela família. Enquanto o doce Will (Maxwell Jenkins), só quer encontrar provar seu valor na missão.

As maiores mudanças ficam por conta dos "agregados" da família. Don West (Ignacio Serricchio) é mais malandro, mas ainda tem bom coração. A Dra. Smith (Parker Posey) - isso mesmo doutorA - ainda carrega a mesma capacidade de ludibriar e manipular as pessoas, mas agora a lábia vem acompanhada de um background mais complexo. Já suas maldades parecem muito mais estremas, e em alguns momentos beiram a loucura. É o Robô quem tem sua origem completamente alterada, tornando-o um personagem mais ativo e profundo. Faltou apenas tornar a criatura mais empática para facilitar nosso laço com ele.

A tripulação precisa ajustas os ponteiros e lidar com seus dilemas individuais, ao mesmo tempo que precisa lidar com os perigos deste planeta desconhecido e tentar voltar para a Resolute. É aqui que as histórias de dividem em episódios que remetem as aventuras da série clássica, com um problema diferente a cada capítulo, que na maioria das vezes vai mover a jornada principal. A previsibilidade aqui conta pontos à favor, já que é com os personagens e não com os problemas com que nos identificamos. E a familiaridade com a história e personagens reforçam os laços, que também se beneficiam, com a escolha de um elenco carismático.

Visualmente, a produção deixa um pouco de lado a visão romântica de futuro dos anos 60, e adota o visual tecnológico funcional dos dias de hoje. Atualização necessária para tornar a missão espacial crível para a audiência de 2018. Os efeitos especiais, fotografia e as escolhas da direção são eficientes tanto para mostrar a vastidão e variedade deste planeta, quanto para enfatizar detalhes dos ambientes pequenos dos interior das naves.

Ritmo e linguagem, também foram atualizados, é claro - quem conhece a série clássica sabe, que esta soa lenta para os tempos atuais. Assim como, os papéis de cada personagem nesta sociedade foram repensados. Diversidade e empoderamento feminino estão na pauta. Este último então fica mais evidente, na troca de gênero da vilã, e principalmente durante o clímax, quando os planos dos heróis óbvios, John e Dom, falham miseravelmente e cabe às mulheres da família salvar o dia.

Ciente de estar situado em outro contexto, este remake de um clássico da ficção-ciêntifica não hesita em gastar um tempo atualizando e restabelecendo as origens do argumento original. E ainda aproveita a oportunidade, para apresentar bem este universo e seus moradores. Perdidos no Espaço, acerta em cheio ao trabalhar a nostalgia com elementos novos, sem deixar de ser intrigante e divertido.

Esta primeira temporada de Perdidos no Espaço tem 10 episódios com cerca de uma hora cada. Todos estão disponíveis na Netflix.

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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Ilha dos Cachorros

Não é novidade que animações são capazes de discutir temas complexos independente de seu público alvo. De fato, as melhores são assim, com temas consistentes, muitas camadas e discussões apresentadas de forma acessível através do tom lúdico da animação. Ilha dos Cachorros, a nova animação de Wes Anderson traz metáforas à ditaduras e regimes nazistas e fascistas, em uma aventura no simétrico mundo do diretor.

O prefeito Kobayashi (voz de Kunichi Nomura), proíbe todos os cães de morar em Megasaki. Os animais são transferidos para a ilha/lixão vizinha à cidade. Atari (Koyu Rankin) de apenas 12 anos não se conforma com a separação de seu pet, e decide sair a procura de Spots (Liev Schreiber). Na ilha, ele recebe a ajuda de uma matilha de iguais composta por Chief (Bryan Cranston), Rex (Edward Norton), King (Bob Balaban), Boss (Bill Murray) e Duke (Jeff Goldblum). Enquanto na cidade, um grupo de estudantes comandados pela intercambista Tracy (Greta Gerwig) tenta desmascarar o prefeito e sua lavagem cerebral que condenou os cachorros.

Situado no japão, grande parte do filme é falada no idioma local. Humanos japoneses falam apenas em japonês, inclusive Atari. Apenas os animais, e eventuais intérpretes como Tracy, falam inglês. Não que precisemos de ajuda para simpatizar com os verdadeiros protagonistas deste longa, os cães. Junto com o idioma e localização, vem as referências e elementos da cultura japonesa, que tanto podem ser encarados como homenagem, quanto apropriação cultural dependendo o espectador. - Eu escolho a primeira opção.

A nacionalidade dos personagens, influencia inclusive o estilo da animação, seja no tom das vozes dos atores, seja nos movimentos bem marcados e controlados dos personagens. Estes consequentemente evidenciam a técnica em stop-motion escolhida para contar a história. Além dela a animação em 2D, é utilizada como recurso em momentos chave, e fazem alusão a animes japoneses de outrora. Sumô, teatro kabuki e os haikai estão entre as outras muitas referencias à cultura japonesa.

Referências nipônicas à parte, em sua temática Ilha dos Cachorros faz alusões a momentos distintos, porém similares na história da humanidade. Marketing para propagação de ideologias de ódio, governantes autoritários que se volta para uma parcela da população, genocídio, estão entre os assuntos abordados durante a jornada de Akira e companhia. Há tempo até para menções ao empoderamento feminino, e os atuais problemas de imigração. Tudo isso, sem perder a parte aventuresca e lúdica da animação.

A grande quantidade de personagens, é o único problema do longa. É evidente que não há tempo hábil para trabalhar todos eles e ainda desenvolver a trama principal. O resultado, e a sensação de que algumas das personalidades mais curiosas foram sub aproveitadas. Especialmente, Júpiter (F. Murray Abraham) e Oracle (Tilda Swinton). Ao menos, os muitos rostos e focinhos em cena, comportam o desfiles de nomes conhecidos já tradicionais nas obras de Anderson. Além dos nomes já mencionados, Frances McDormand, Scarlett Johansson, Harvey Keitel, Ken Watanabe, Anjelica Huston e até Yoko Ono(!), emprestam suas vozes para personagens e participações especiais.

Entre aqueles que ganham um arco bem definido, as atenções maiores ficam em Chief. Cão de rua a vida toda, tem uma desconfiança natural em relação aos humanos e um temperamento difícil de controlar, a ser desenvolvido através das relações com o menino e os outros cachorros.

Tecnicamente, o filme acerta do detalhismo para a criação visuais distintos, mesmo para personagens com as mesmas características físicas. Também acerta ao transportar o estilo e linguagem característicos do diretor para a o formato da animação. As simetrias, ritmo, o visual igualmente estranho e belo, que tornam os filmes de Anderson inconfundíveis estão devidamente incorporados.

Ilha dos Cachorros conta a jornada de cães mais humanos que muita gente, e ainda aproveita para repensar diferentes momentos da história da humanidade. Criando uma relação com o espectador através da conexão com a realidade que transparece através do mundo mágico dos cães. Uma animação consciente de suas possibilidades, e que explora bem seus temas, entregando um universo rico e encantador.

Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs)
Alemanha, EUA - 2018 - 102min
Animação, Aventura
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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Uma Quase Dupla

A proposta de Uma Quase Dupla é bastante promissora, no saturado mercado de comédia do cinema nacional. Uma comédia policial no estilo parceria de opostos, estrelada pela mais popular comediante feminina do país, e por um galã de novelas no auge do sucesso. Se o plano é bom, a execução não consegue fugir de conhecidos escorregões (literais e figurativos, tem piada de tombo) do gênero. 

a pacata cidadezinha de Joinlândia tem sua rotina alterada por um misterioso assassinato. Para resolver o crime, Keyla (Tatá Werneck) uma experiente investigadora do Rio de Janeiro é convocada e une forças com ingênuo e inexperiente subdelegado Claudio (Cauã Reymond). A dupla vai brigar muito, e causar "altas confusões", antes de conseguir desvendar o caso.

O mistério do caso não é dos mais difíceis de desvendar. Quem está habituado ao gênero policial, sendo comédia ou não, provavelmente vai desvendar o crime assim que o vilão aparece em cena. A previsibilidade não é um problema, mas um recurso, já que a comédia pretende fazer humor a partir dos clichês do gênero.

O mesmo vale para o desenrolar da investigação, os passos seguidos pela dupla, existem para ambientar e conectar as piadas e referências. Todas criadas a partir da expectativa do espectador sobre a previsibilidade comum neste tipo de produção, estabelecidas por muitas séries e filmes ao longo dos anos. A introdução do "jeitinho" brasileiro de ser nesse sistema é um acerto, especialmente quando faz graça com o cotidiano de uma cidade do interior. Mas novamente, é o caminho óbvio a seguir.

É na execução das piadas que o filme perde pontos ao optar pelo exagero e repetição para fazer graça. Enquanto o exagero, é naturalmente raso e afasta alguns públicos. A repetição, torna o humor mais cansativo que engraçado após os primeiros minutos. As referências quando detectadas pelo espectador arrancam alguns sorrisos. Assim como o improviso, conhecido ponto forte de Werneck. Mas o produção não consegue criar aquele momento em que a gargalhada é inevitável, independente de seu tipo de humor favorito, e em se tratando de uma comédia, este é o objetivo principal.

O acerto fica por conta do elenco, Reymond e Werneck conseguem sim criar uma relação de opostos crível. E seu carisma ajuda na torcida pelo sucesso da dupla. Alejandro Claveaux e Daniel Furlan, também se destacam por se entregar sem pudores às caricaturas a que foram designados. Como um todo, o elenco parece se divertir com o trabalho, e em uma comédia isso conta pontos. 

Uma Quase Dupla conseguiu o mais difícil, encontrar um nicho pouco explorado dentro da comédia nacional. Mas desperdiça a oportunidade ao escolher o caminho mais previsível para fazer humor. Vai sim, agradar as multidões que consomem esse tipo de produção, e seu formato permite a criação de uma franquia. Se uma sequência acontecer, o jeito é torcer para que Keyla e Claudio se reinventem a cada caso, e não fiquem sempre resolvendo os mesmos crimes. 

Uma Quase Dupla
Brasil -2018 - 90min
Comédia




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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Bao

Razão de viver, desapego e perdão. Estes são os temas que Bao, curta que acompanha Os Incríveis 2*, pretende e consgue trabalhar em apenas oito minutos de tela.

Uma dona de casa asiática, se sente solitária e entendiada, até que um de seus bolinhos ganha vida e ela encontra uma nova razão de viver. Ela e seu novo protegido passam pelos muitos estágios da relação entre mãe e filho.

Os desafios de cuidar de um recém nascido, super-proteção, os bons momentos, e até aqueles não tão agradáveis assim. É na familiaridade com esta relação universo que o longa escrito e dirigido por Domee Shi cria uma forte conexão com seu público. 

Seja do lado da mãe, do bolinho, ou ambos, é provável que você se identifique com as experiências da dupla. Estas consequentemente culminam na independência do rebento, e na síndrome do ninho vazio para a mãe. E na necessidade de superar este marco na vida. 

Completamente sem falas, Bao talvez não construa uma conexão tão forte com os pequeninos, afinal eles ainda estão no início desta jornada.  É o visual fofo e rechonchudo, e as situações engraçadas,  que devem prender a atração dos mais jovens. Enquanto o seu público principal os adultos, que os acompanham os filhos, se deliciam com uma história doce, melancólica e principalmente sincera. 

Bao
EUA - 2018 - 8 min
Animação


*É tradição da Pixar, exibir um curta-metragem junto com seus lançamentos nos cinemas Bao, é exibido antes das sessões de Os Incríveis 2 (leia a crítica). Não se atrase!

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quinta-feira, 12 de julho de 2018

Oito Mulheres e um Segredo

Quando existe um negócio de família em sua realidade, as vezes é difícil escapar. Em outras, a pessoa escolhe a tradição. E há ainda aqueles em que os dons para continuar o trabalho correm nas veias. Este último parece ser o caso de Debbie Ocean (Sandra Bullock).

A irmã cacula de Danny Ocean (George Clooney, na trilogia original), segue a risca os passos do primogênito e passa seu temo na prisão elaborando o plano do roubo perfeito. O alvo da vez, é um colar de diamantes no valor de US$ 150 milhões, a ser afanado do pescoço da diva de Hollywood Daphne Kluger (Anne Hathaway), durante o Met Gala, evento mais glamouroso de Nova York. Para tal, Debbie recruta as melhores mulheres do ramo, Lou (Cate Blanchett), Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina), Rose (Helena Bonham Carter) e Tammy (Sarah Paulson), cada uma com uma função específica no trabalho.

A receita é exatamente a mesma dos demais filmes da franquia. Somos apresentados aos detalhes do plano conforme as especialistas são recrutadas. E isso cria a expectativa para ver o trabalho em sua completude. A montagem, a apresentação e execução do plano, a relação entre as personagens, as participações especiais, todos os detalhes característicos das aventuras de Ocena e companhia estão presentes, oferencendo a familiaridade que os fãs antigos esperam, mas expandindo o universo para os requisitos da sociedade atual. Mais especificamente, incluindo empoderamento feminino no contexto.

A mudança inclui substituir os cassinos pelo mundo da moda, e consequentemente uma variedade diferente de especialistas. O novo time é composto por, uma hacker (Rihanna, sendo ela mesma, como planejado), uma estilista (Bonham Carter, que aproveita a oportunidade para desfilar seu gosto excêntrico), uma dona de casa, com habilidades especiais (Sarah Paulson, eficiente), uma especialista em jóias e uma mão leve (Mindy Kaling, Awkwafina, eficientes em cumprir outra exigência atual, diverdidade) e uma ex-parceira (Blanchett, aumentando o valor da produção apenas por desfilar sua classe em imponência). Sim, um time menor do que os rapazes precisavam, não apenas para afirmar a eficiencia feminina sobre os rapazes, mas também para utilizar um número inédito no título.


Curioso é que apesar de bastente feminista o filme parece sentir a necessidade de se justificar - Se for Ele é notado, se for Ela é ignorada. E pela primeira vez queremos ser ignoradas - afirma Debbie, quando questionada sobre a ausência de homens na equipe. Apesar disso, o roteiro parece estar ciente do risco de ser ser visto apenas como "versão feminina de", e usa isso a seu favor, brincando com clichés e estereótipos de ambos os gêneros em filmes de assalto.

De novidade, o filme traz uma sequencia de investigação pós roubo, e uma intenção oculta nos planos de Debbie. Não chega a ser surpreendente, mas oferece algo extra, para aqueles que achavam que haviam desvendado tudo nos primeiros minutos.

As personagens tem suas funções e personalidades bem definidas, mas à exceção de Debbie, nenhuma recebe um arco muito complexo. O que não atrapalha em nada nossa empatia e consequente torcida pelo sucesso da missão. Mérito do elenco e do real objetivo deste longa, reunir um enorme número de celebridades em cena. O resultado é uma coleção de rostos oscarizados se divertindo com a possibilidade de trabalhar juntos em projeto leve e despretensioso. Empolgação que transparece na tela e nos faz revelar falhas e previsibilidades.

Oito Mulheres e um Segredo aposta na fórmula conhecida da franquia para garantir o sucesso, e por isso perde em originalidade. Porém acerta no contexto de mudança de gênero e ao apostar no carisma de seu elenco estelar. É uma boa revitalização/expansão do universo. Além de positivo, o resultado nos faz querer ver mais aventuras da família Ocean na tela grande, e quem sabe reunir todo mundo?

Oito Mulheres e um Segredo (Ocean's 8)
EUA - 2018 - 110min
Ação, Comédia, Crime

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quarta-feira, 11 de julho de 2018

Anne with an "E" - 2ª temporada

Ainda sem receber a atenção que merece Anne, with an "E" da Netflix,  ganhou uma segunda temporada caprichada. A série voltou maior, mais confiante e em constante amadurecimento, assim como sua protagonista.

Em seu primeiro ano em Avonlea, a órfã Anne (Amybeth McNulty), lutou para conquistar seu lugar nesta comunidade de pessoas simples. Tarefa bastante complicada para alguém com personalidade tão singular e passado difícil, na qual a moça tem se saído relativamente bem. Sua jornada de amadurecimento continua exatamente de onde parou, quando hospedes suspeitos chegam à fazenda.

Mantendo seu formato episódico, mas que cultiva os desafios futuros desde cedo, a série denvolve alguns arcos a que deu início no ano anterior. A ameaça dos forasteiros, a educação rígida de Diana (Dalila Bela), o analfabetismo de Jerry (Aymeric Jett Montaz), o interesse amoroso de Mathew (R.H. Thomson) e o relacionamento do antipático professor Mr. Philiiphs(Stephen Tracey) com seus alunos, estão entre os problemas plantados ainda na primeira temporada, que são desenvolvidos ou mesmo resolvidos nos novos episódios. Mas é a busca de Gilbert Blythe (Lucas Jade Zumann) por um objetivo na vida após a morte do pai, e no desenvolvimento de Anne que estão os arcos mais longos desta temporada.

Forçado a amadurecer rápido, Gilbert sai pelo mundo para descobrir o que deseja fazer da vida. Nesta viagem encontra Bash (Gilbert), um negro de Trinidad com quem cria laços de amizade. A dupla volta para Avonlea desfiando os conceitos da pequena comunidade, ao mesmo tempo que expande o universo da série.

Enquanto isso, os cidadãos de Avonlea já descobriram as vantagens das características peculiares de Anne, e a adotaram como membro de sua sociedade. Mas na escola as coisas não são tão simples, já que sem os pudores impostos pela maturidade, crianças podem ser cruéis. A garota é alvo de bullying, por ser órfã, por não ter muito dinheiro e principalmente por sua aparência. Sardas, cabelo alaranjado, e corpo esguio são consideradas características nada atraentes. Some-se a isso, a curiosidade e hormônios em ebulição típicos da idade, Anne tem 14 anos, e encontramos um prato cheio para os dramas e dilemas de nossa melodramática heroína.

Mas não pense que a menina é toda romance e futilidade. Há uma complexa batalha em busca de auto-estima e aceitação sendo travada pela jovem. Ao mesmo tempo, intrometida como é, ela ainda está disposta a se envolver nas dificuldades daqueles que a cerca. É aqui que a série encontra espaço para falar de outros temas, e eles são muitos.


Descoberta da sexualidade, homossexualidade, a necessidade de manter uma vida em segredo diante dos padrões da sociedade, matrimonio, liberação feminina, racismo, traumas de infância e aceitação da idade avançada, estão entre os vários temas abordados de uma forma ou outra durante os episódios. Mathew e Marilla (Geraldine James) ganham uma atenção especial do roteiro, que começa a mostrar seu passado, e esclarecer porque os irmãos nunca constituíram famílias próprias. A dupla continua a cativar o público ao acertar no equilíbrio entre força e fragilidade de seus castigados personagens, que não imaginavam ter sua rotina alterada - no bom sentido - a esta altura da vida.

O restante do elenco também não fica atrás, mesmo sendo tão jovem. Encabeçados pela eloquente e dinâmica McNulty, o elenco mirim surpreende pela sinceridade com que abraçam seus papéis. Além da protagonista os destaques ficam com Dalila Bela, Lucas Jade Zumann e Cory Gruter-Andrew.

A qualidade técnica apresentada no primeiro ano está de volta. Reconstrução de época impecável e fotografia bem trabalhada, estão entre as características marcantes da série. Um roteiro inteligente, que trata temas complicados e atuais, com doçura e sem descaracterizar o período histórico em que a história se passa, também está entre os méritos do programa.

Com mais episódios, a segunda temporada, reforça os acertos do primeiro ano e avança a história baseada nos livros de L. M. Montgomery. É uma série sobre amadurecimento, que aborda várias questões de forma doce e determinada. Provando que não se trata de apenas uma obra fofa sobre uma órfã que supera as dificuldades, Anne with an "E", está mais confiante em suas peculiaridades, e não ter vergonha de ser diferente, assim como sua valente protagonista.

A segunda temporada de Anne with an "E", tem 10 episódios com cerca de uma hora cada. Os dois primeiros anos estão disponíveis na Netflix.

Leia também a crítica da primeira temporada de Anne with an "E", ou confira nossas dicas para fazer uma maratona da série.
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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Todo Dia

O que nos faz amar uma pessoa? Sua aparência? Cor da pele? Genero? Nenhuma dessas coisas, a maioria das pessoas provavelmente apontará, qualidades, caráter, personalidade, humor entre outras características, que em conjunto tornam a pessoa quem ela é. Alguns diriam, sua alma. É um romance entre almas que Todo Dia se propõe a apresentar.

"A" é uma alma que todos os dias desperta em um corpo diferente. Sem controle da situação, evita criar laços, já que não pode ficar além de um dia. Quando acorda no corpo de Justin (Justice Smith), e conhece sua namorada Rhiannon (Angourie Rice), encontra alguém por quem deseja descumprir a própria regra de nunca se apegar. A partir daí, acompanhamos um romance que precisa superar obstáculos bastante peculiares para existir,

Fazer a mocinha compreender e acreditar nas regras da existência de "A". A distância física imposta por acordar em um lugar novo a cada manhã. E não interferir, e consequentemente arruinar, a vida de seus hospedeiros, estão entre as muitas dificuldades enfrentadas pelo casal, e abordadas pelo roteiro. O mais interessante dos temas, no entanto, acaba perdendo peso diante de tantos outros obstáculos, a vontade de estabelecer uma vida juntos.

Ciente do potencial rentável de um romance que supera adversidades, o roteiro passeia com calma entre os vários estágios do romance. Quando a relação avança e os dilemas aumentam falta tempo para discutir e mostrar os efeitos das escolhas do casal na vida dos demais envolvidos. O caminho e temas são interessantes, mas a abordagem é rasa e apressada.

Tecnicamente, a produção não foge do tradicional do subgênero dos romances juvenis, com montagens românticas , paisagens bucólicas e trilha sonora pop. Não tem nenhum detalhe que lhes dê personalidade, ou diferencie de outras produções, mas é eficiente no que se propõe a fazer.

O mesmo vale para o elenco que entrega apenas o básico. Atuações pouco inspiradas que funcionam, e apenas isso. O que surpreende é como a produção consegue fazer a personagem de "A" funcionar. O protagonista é interpretado por uma dúzia de pessoas, e inevitavelmente acaba com algumas diferenças entre um interprete e outro, mas com repetições de hábitos e falas coesas, o roteiro consegue manter o diálogo contínuo. "A" soa como "A", por mais diferente que sejam seus interpretes, e eles são muitos. Isso nos leva ao que realmente chama atenção nesta produção.

Todo Dia assume a postura de defender o amor incondicional de forma confiante, ao ponto de não sentir necessidade de ser panfletário, se desculpar ou explicar. Rhiannon ama "A". Não importa como seu par se apresente, rapaz, moça, negro, asiática, andrógeno... É a alma, ou o que quer que seja que torna uma pessoa unica que conecta a dupla. Existe sim uma curiosidade em relação à mudança, e até insinuações de preferência, mas nunca há hesitação, preconceito ou vergonha. Uma escolha corajosa e admirável e coerente com as discussões atuais de nossa sociedade.


Outro bom detalhe que o filme não está preocupado em responder é acondição de "A". O filme mostra como sua existência funciona, mostra as consequencias desta condição e até sias regras: os hospedeiros tem sempre a mesma idade do personage, nunca se reptem, estão em um raio de distancia determinado e, não oficialmente, parecem ser sempre adolescentes de classe média, reside aqui outro contexto desperdiçado. Entretanto, o filme nunca para para explicar quem, ou quê, é "A", sua origem ou razão de existir. Como todo bom argumento de ficção, discute seus efeitos, não o fator em comum em si.

Baseado no romance homônimo de David Levithan, Todo Dia tem um argumento cheio de potencial. Mas limita a discussão ao patamar raso comum aos romances juvenis e com isso desperdiçam algumas boas ideias. Mas, consegue plantar a semente de várias discussões atuais pertinentes ao seu público alvo. Além de servi como porta de entrada para outras obras que estimulem a discussão. Não é o romance mais apaixonante que você pode encontrar, mas traz boas ideias e mensagens para se apegar.

Todo Dia (Every Day)
2018 - EUA - 97min
Drama, Romance

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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Supergirl - 3ª temporada

Já era esperado que o segundo ano de Supergirl fosse uma temporada de mudanças e ajustes, por causa da compra dos direitos da série pela CW. E a produção se saiu bem na tarefa de administrar as baixas e contratempos inevitáveis. Logo, era esperado que o terceiro ano trouxesse uma série mais ajustada com seu próprio universo.

Partindo de onde paramos no ano anterior, Kara (Melissa Benoist) ainda está abalada com a partida forçada de Mon-El (Chris Wood). Leia-se está na fossa, menos otimista e animada que de costume, mas sem comprometer a personalidade altruísta da garota de aço. Enquanto isso, conhecemos a nova funcionária de Lena (Katie McGrath), Sam (Odette Annable) uma mãe solteira trabalhadora, que está sob uma misteriosa ameaça kriptoniana que em breve atingirá a todos. Inclua aí a descoberta de que J'onn J'onzz (David Harewood) não é o último marciano verde, e mais tarde o retorno de Mon-El, diretamente no século XXIII e casado.

Quem também começa a temporada enfrentando dificuldades amorosas é Alex (Chyler Leigh), que decide deixar Maggie (Floriana Lima), quando suas perspectivas quanto a formar uma família divergem. O arco criado para irmã da Supergirl, foi uma solução apressada para a saída de Lima do programa, mas que funcionou muito bem com a personalidade e atitudes da personagens até então. Além de levantar a discussão sobre a decisão de adotar uma criança, e de conciliar um trabalho de alto risco com a maternidade. Ambos os assuntos devem ser melhor desenvolvidos no próximo ano.

As complicações amorosas das irmãs acontecem ao mesmo tempo, e resultam em um dos episódios mais curiosos deste ano. "Midvale", mostra o primeiro crime que as irmãs desvendaram juntas, ainda na adolescência. E a direção de elenco, acerta na escolha de Izabela Vidovic e Olívia Nikkanen, para viver as jovens Danvers. Além de parecidas com as intérpretes originais, as jovens atrizes são eficientes ao adotar os trejeitos e maneirismos de Kara e Alex, respectivamente. Uma pena apenas, é que este episódio inevitavelmente refresca a memória sobre o mistério entorno do desaparecimento do pai da dupla (Dean Cain), trama que parece ter sido abandonada pela série sem maiores explicações.

Outro coadjuvante que ganhou um arco bem desenvolvido foi J'onn, que reencontrou o pai. M'yrnn (Carl Lumbly, excelente), precisou aprender a viver em outro planeta e ajustar as contas com o filho, e acabou se tornando parte da família do DOE. O mesmo não pode se dizer de James Olsen (Mehcad Brooks), o personagem perdeu completamente a função, mas o roteiro insiste em mantê-lo, criando tramas descartáveis, como sua carreira como Guardião e seu namoro com Lena. Já a irmã de Lex Luthor reforça sua presença na vida da Supergirl e de Kara, e começa a criar o esperado antagonismo em relação à heroína.

E por falar no departamento que cuida de assuntos alienígenas, apenas seus funcionários parecem seguir horário normal de trabalho. Kara só da as caras na CatCo, onde supostamente é jornalista quando é conveniente para o roteiro, assim como James, ocupado com sua carreira de vigilante. Lena ensaia assumir a empresa de mídia recém comprada, mas logo volta para seu trabalho original, e mesmo deste é desviada pela ameaça da Régia. É provável que em algum momento da temporada o espectador se descubra questionando, como esse pessoal paga as contas.

A recém contratada de Lena, Sam também não tem tempo de trabalhar muito, mas em seu caso a culpa é do desenvolvimento da ameaça da vez. Régia tem uma das melhores construções do Arrowverso, o universo compartilhado das séries de heróis da CW. Sendo apresentada aos poucos e de forma misteriosa, a personagem cria a tensão da ameaça, sem diminuir a empatia do público com sua inocente hospedeira. O escorregão fica por conta da necessidade de ocupar 23 episódios com sua trama, recorrendo para a inclusão de duas desinteressantes parceiras de vilania, as destruidoras de mundo, e a uma reviravolta tardia na reta final que cria um desfecho apressado e confuso.

É nesta reviravolta que o arco de Kara ganha algum peso. Até este momento, a moça passara a temporada lidando com o triangulo amoroso entre ela, Mon-El e Imra (Amy Jackson). Conflito aliás tratado de forma nada convencional, ao não apresentar as duas moças como inimigas na disputa pelo coração do rapaz, mas três pessoas tentando entender uma sistuação complexa. Na reta final porém, o foco se volta para a descoberta de sobreviventes de Kripton. Impondo à super-moça a escolha entre seu antigo lar e o atual. Claro, alguns destes refugiados também estão envolvidos na ameaça principal.

Vale ressaltar, a série é protagonizada por mulheres, da mocinha à vilã, as moças tem tanto, ou mais peso que os rapazes. É um desfile de exemplos para a garotada se identificar. Voltar a deixar o Superman distante,o personagem ganhou um interprete no segundo ano, reforça o foco no público alvo. É uma série sobre uma super-garota, feita para garotas, não que isso exclua quem apena gosta de uma aventura para toda a família. 

Apesar de precisar seguir o extenso cronograma de 23 episódios das séries do gênero, a terceira temporada de Supergirl conseguiu distribuir bem, sua ameça ao longo dos episódios, ficando confusa apenas na reta final, quando tenta "inovar" demais. Falta também administrar melhor os personagens que tem, eliminando os excessos. Aqueles que a série já ajustou, como Alex e J'onn, tem arcos os melhores arcos.  

O season finale corrido, ainda encontra tempo para despedidas e mais mudanças. Preparando assim o terreno para o quarto ano da série. Resta torcer, para que a série continue a aprender com os erros, e entregue uma produção cada vez mais equilibrada.

Supergirl, é exibida no Brasil pela Warner, e suas duas primeiras temporadas estão disponíveis na Netflix.

P.S.: A quem interessar possa, a maquiagem continua caricata e artificial. A principal vítima da vez é a inteligência artificial Brainy (Jesse Rath). Mas à essa altura, já aceitei a tosqueira colorida como característica da série, e não espero por grandes mudanças nesse departamento.

Leia mais sobre Supergirl, ou continue na DC com Flash, Legends e Gotham.
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