segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Green Book - o Guia

The Negro Motorist Green-Book era um guia para viajantes publicado anualmente entre os anos de 1930 e 1960. Trazia uma lista de hotéis, restaurantes e serviços abertos à afro-americanos, em pleno período de segregação racial nos Estados Unidos. Ou seja, essencial para qualquer viajante negro que queria evitar hostilidades. No filme Green Book, o guia de mesmo nome serve, é apenas das situações e necessidades absurdas enfrentadas pelos personagens de Viggo Mortensen e Mahershala Ali.

Tony Lip (Mortensen) é um americano de ascendência italiana de modos grosseiros e racista, que se sai bem resolvendo situações de conflito. Em um período sem trabalho ele se candidata à uma vaga de motorista de um renomado músico clássico. Dr. Don Shirley (Ali), o renomado pianista negro, não precisa apenas de alguém que o conduza em sua turnê, mas tambpem de um segurança, já que os shows vão acontecer no segregado sul 'estadunidense', do início dos anos 60.

A esta altura, você já deve imaginar, o personagem de Viggo Mortensen, vai crescer durante o processo. Partindo de um preconceito disfarçado - ele não é diretamente hostil com "pessoas de cor", mas também não quer compartilhar copos com elas - ele percebe o absurdo do pensamento e comportamento racista ao encarar o seu extremo, ao mesmo tempo que constrói uma relação de respeito com Dr. Shirley.

O que pode te surpreender é o crescimento pelo qual o pianista também passa. Ao invés de apenas a construção de uma relação de confiança, capaz de mudar a visão de mundo da dupla, Don Shirley também tem seus preconceitos para superar. O pianista clássico passou a vida inteira se moldando para se encaixar nos padrões do "mundo branco" para merecer seu respeito. Evitando laços com qualquer elemento da cultura negra ou mesmo sua família. É apenas quando encontra comunidades brancas que, abertamente nunca cogitarão enxergá-lo como semelhante, independente de seu esforço para apagar suas raízes negras, que ele finalmente percebe o absurdo de tentar se moldar aos padrões dos outros. Se percebendo sem identidade própria no processo, ao mesmo tempo que enfrentar pela primeira vez as limitações e hostilidades enfrentadas por afro-americanos naquele período.

A jornada de crescimento é simbiótica, simultânea e definitiva para ambos os personagens. É a relação entre a dupla que permite este amadurecimento. E esta relação é construída com bastante honestidade por seus intérpretes. Não há amenidades para tornar os personagens mais aceitáveis pela platéia. Eles são quem são, pessoas comuns com falhas e que cometem erros. É por essa humanidade, pela possibilidade de mudança e pela química impecável entre Viggo Mortensen e Mahershala Ali, que o público vai conseguir se relacionar e torcer por estes personagens.

O roteiro consegue conferir certa leveza à trama, sem diminuir a importância de sua principal discussão, ao incluir o humor em doses e momentos certeiros. É uma filme gostoso de acompanhar, mesmo com seus momentos absurdos ao ponto de gerar nós no estômago.

Apenas o início da aceitação de Tony Lip soou um pouco equivocada, para esta blogueira que vos escreve. Logo na primeira apresentação do pianista que acompanha, o motorista parece perceber que seu chefe é um gênio, e cria uma admiração por ele como músico. Esta mudança de opinião em particular soa, um tanto quanto rápida e repentina demais. Mas não chega à atravancar o desenvolvimento do filme. É provável, que muitos nem a notem, já que à esta altura já está engajado na construção da relação da dupla. E esta é desenvolvida com um ritmo certeiro a partir daí.

Há ainda que se apontar a excelente trilha sonora, que combina música clássica, R&B e jazz da época em que a história se passa. A mistura de estilos serve à narrativa, Shirley é um musicista clássico, Lip um ouvinte de música popular, inclusive negra. Mas, também, é uma metáfora, para o compartilhamento de jornadas de protagonistas tão distintos, e a inversão de papéis entre eles. Um chefe negro e um funcionário branco, era raridade na sociedade em questão. Embora tratem-se de protagonistas inspirados em pessoas reais, assim como o tal guia segregado.

Em seu primeiro filme solo, o diretor Peter Farrelly - um dos irmãos Farrelly responsáveis por comédias como Quem Vai Ficar com Mary? e Debi & Lóide - surpreende pela eficiência com que aborda uma tema complicado, e infelizmente, ainda relevante. Green Book - o Guia, é um road-movie, com personagens carismáticos e uma jornada agradável de acompanhar, mas com discurso forte e sem rodeios. Tem seus momentos de bom-humor, mas não teme dar um "tapa na cara do expectador", ao mostrar a realidade feita que ainda podemos encontrar em nossa sociedade.

Green Book - o Guia (Green Book)
2018 - EUA - 130min
Drama, Briografia, Road movie


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