quarta-feira, 4 de abril de 2018

Um Lugar Silencioso

Pode ser difícil, mas o ser humano é perfeitamente capaz de se adaptar a uma nova condição, principalmente se disto depender sua sobrevivência. Quando embarcamos na jornada de Um Lugar Silencioso, a família Abbott já está se acostumando à nova situação: viver sem emitir som algum. Uma introdução altamente explicativa, e alguns minutos mais tarde, nós também já estamos completamente empenhados em não fazer barulho do lado de cá da tela. Essa capacidade de envolver o espectador é um dos méritos deste filme de gênero bem conduzido por John Krasinski.

Em um futuro pós-apocalíptico não muito distante, a Terra foi tomada por monstros cegos, mas implacáveis com seu principal recurso de caça, o som. Já faz mais de 80 dias que o "mundo acabou", quando encontramos nossos protagonistas. Uma família formada por pai (Krasinski), mãe (Emily Blunt), filho (Noah Jupe, de Extraordinário) e filha (Millicent Simmonds, Sem Fôlego), que sobrevive com a rotina e movimento calculados "à prova de som".

Sabemos muito pouco sobre os invasores, muito menos sobre a forma como a humanidade fora dizimada, mas temos todas as informações que realmente precisamos para acompanhar a jornada de nossos personagens. Uma família amorosa, cuja filha mais velha tem uma deficiência auditiva, e que por isso se comunica bem através da linguagem de sinais. Uma pausa aqui para observar que em um contexto diferente, o que é considerado uma deficiência pela sociedade, pode se tornar uma vantagem em outra. Além dos cuidados constantes e consquente tensão para sobreviver, estas pessoas ainda precisam lida com perdas, culpa e incerteza sobre o futuro.

Quase sem diálogos, o filme faz um uso inteligente do som e silêncio. Os ruídos são pontuais e aterrorizantes, mas também podem ser reconfortantes quando acontecem em uma "situação segura", como uma canção em um fone de ouvido, ou o barulho alto e protetor de uma cachoeira. O silêncio por sua vez é relativo, e usado para desenhar a intensidade da tensão e envolver o expectador. O silêncio próximo ao rio, é diferente do silêncio no quintal, do dentro da casa, ou mesmo do silêncio que a filha deficiente auditiva presencia. O resultado deste uso inteligente do som, é o completo envolvimento do espectador.

A fotografia também é interessante, já que o forte dos monstros em questão é o som e não a escuridão, a produção é banhada em luz. Cheio de cenas diurnas, vai de encontro com tradicional no gênero. É claro, o clímax ainda faz uso da escuridão para anular uma das poucas vantagens que os humanos tem sobre os invasores, a visão.

O roteiro não é imune às falhas, e eventualmente vamos nos questionar sobre uma ou outra ação dos personagens, não porque vá de encontro às suas personalidades, mas porque haveria outras soluções para a situação. Nada no entanto atrapalhe a construção do clima ou nossa empatia com família.

O elenco aliás é outro acerto. Casados na vida real, Krasinski e Blunt conseguem transmitir bem o amor entre o casal, e pelos filhos. Enquanto as crianças são carismáticas e completamente cientes de seus personagens. Especialmente Simmonds, cuja personagem tem uma enorme carga de culpa e é a única a nunca usar a fala para se expressar. A atriz é deficiente auditiva, como a personagem.

Diferente, bem construído e com um final forte, Um Lugar Silencioso acerta em cheio no que se propõe. Envolve o público e o deixa constantemente tenso e preocupado com o bem estar dos personagens. E ainda se destaca no gênero ao construir o suspense e o terror de uma forma própria. Não se surpreenda se tiver dificuldades de emitir sons quando a sessão terminar, mas vale lembrar, os monstros não vão saltar da tela se você fizer barulho.

Um Lugar Silencioso (A Quiet Place)
2018 - EUA - 90min
Suspense, Terror
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