segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Sem Fôlego

Há quem diga que não importa quanto os tempos mudem, nossos dilemas continuam essencialmente os mesmos. Sem Fôlego acompanha duas jornadas separadas por cinco décadas, que compartilham a mesma busca, a procura por seu lugar no mundo.

Em 1927, Rose (Millicent Simmonds, adorável), coleciona notícias da mãe famosa que não vê há tempos. Solitária e insatisfeita com as regras do pai, ela foge para reencontrar a mãe, tarefa complicada por sua condição. A menina é surda desde que nasceu. Já em 1977, é Ben (Oakes Fegley, Meu Amigo, O Dragão) quem se sente solitário após a morte da mãe. Ao encontrar o que acredita ser uma pista sobre a identidade do pai que nunca conheceu, ele também foge da casa dos tios.

Rose e Ben vão para a mesma cidade, passam por dificuldades e lugares semelhantes, incluindo o Museu de História Natural (aquele mesmo em que o Ben Stiller passou algumas noites). Eventualmente, é claro, estas jornadas já unidas por temática e rimas visuais se encontrarão em um terceiro ato que fecha todas as pontas, mas não consegue escapar da longa explanação para esclarecer todos os detalhes, e de ignorar alguns pontos convenientes (onde estão os tios de Ben?). O que vai de encontro à criatividade das escolhas narrativas dos dois primeiros atos. É nessa criatividade que residem o maior acerto e charme do longa.

O diretor Todd Haynes usa técnicas cinematográficas distintas para marcar cada época. 1927, assim como os filmes da época, é em preto e branco e mudo, nos aproximando ainda mais do universo silencioso de protagonista. Inclusive nos momentos em que os "falantes" excluem Rose da conversa, deixando o expectador tão perdido quanto ela. Ao invés de diálogos, a trilha sonora marca ações, gestos e, claro, emoções, reforçando o tom de cada passagem.

Em 1977 as cores são saturadas, e com um tom amarelado, como muitas das fotografias da época que encontramos hoje. Neste período de tempo o filme já tem som, e a música acompanha a época, com destaque para Space Oddity de David Bowie que conversa com a jornada de ambos os protagonistas.

Esta bem aplicada distinção dos mundos entre PB-mudo e colorido falado, emula a diferenciação de narrativas existente na obra original. No livro homônimo de Brian Selznick, que também é o roteirista do filme, a história de Ben é contada em texto, enquanto a de Rose em ilustrações do próprio autor.

Além das carismáticas crianças que carregam muito bem suas respectivas tramas, o elenco conta com o ator mirim Jaden Michael, Cory Michael Smith (o Ed. Nigma de Gotham) e Julianne Moore. Michelle Williams faz uma participação breve, porém importante.

Protagonizado por crianças, com uma buscas e um mistério a ser solucionado, é difícil evitar comparações com A Invenção de Hugo Cabret, outra obra do autor que também foi adaptada para as telas recentemente. Entretanto, apesar de compartilhar temas e estilo (este último majoritariamente na versão escrita), Sem Fôlego, tem protagonistas bem construídos e com personalidades distintas. Além de discutir temas próprios, o principal deles, um mundo despreparado para incluir pessoas com deficiência auditiva.

Sem Fôlego, é uma adaptação criativa, charmosa e doce, que acerta ao transpor o clima próprio do livro para a tela grande. O título nacional, pode não transmitir bem os temas, ou mesmo qual o tom da produção, especialmente para aqueles que desconhecem o trabalho de Selznick. Mas esta é uma falha herdada da versão literária, e em nada atrapalha quem realmente estiver disposto a embarcar nestas jornadas encantadoras.

Sem Fôlego (Wonderstruck)
2017 - EUA - 117min
Drama
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