Razão e Sensibilidade

É natural que de tempos em tempos, grandes clássicos literários ganhem novas adaptações, com linguagem e perspectivas atualizadas para cada geração. Também é natural que essas novas versões sofram com comparações com as anteriores. Especialmente se alguma delas é considerada um clássico. A nova versão do clássico de Jane Austen, Razão e Sensibilidade, precisa lidar com a sombra do adorado longa dirigido por Ang Lee em 1995, e assim justificar sua existência. 

Com a morte repentina do pai, as irmãs Dashwood e sua mãe são privadas de sua confortavel vida na casa da família. Já que pela lei, mulheres não herdam nada, tudo é deixado para seu meio-irmão mais velho, filho do casamento anterior do pai. Agora, vivendo em um chalé afastado, com uma pequena renda e sem dote, Elinor (Daisy Edgar-Jones) e Marianne (Esmé Creed-Miles), tem no casamento a oportunidade de melhorar não apenas suas vidas, mas da Mãe (Caitríona Balfe) e da irmã caçula Margaret (Bodhi Rae Breathnach).

Entre os pretendentes, o tímido e muito justo Edward Ferras (George MacKay). O galante e romantico Willoughby (Frank Dillane), e o frio e mais velho Coronel Brandon (Herbert Nordrum). A forma como as irmãs lidam com as cirandas amorosas e as regras do namoro do século XIX, refletem a diferença entre elas, com Elinor reprimindo o que sente e preocupada com o melhor para todos. Enquanto Marianne busca um romance que atenda a sua sensibilidade aflorada. Eis então, a Razão e Sensibilidade do título, exemplificada pelas personalidades opostas das irmãs. 

Primeira mulher a dirigir uma adaptação do livro, Georgia Oakley escolhe dar uma visão mais naturalista à sua versão. No texto e forma de atuar, menos pomposa e ponderada que outras obras do mesmo período, e principalmente no visual mais rústico e selvagem. Quando em casa, as roupas e cabelos são mais despojados, dentro do possível para o período. 

A fotografia dá preferência à luz natural, e ambiente quando dentro de aposentos - leia-se pouca luz, de velas. Criando cenas propositalmente pouco iluminadas, o que pode incomodar alguns. Mas também traz um realismo e imersão inesperados para as cenas internas. Sim, as pessoas viviam com muito menos luz que nós. Além de refletir o período sombrio pelo qual a família passa. 

A epidemia de falta de luz e cor que virou tendencia no cinema atual é sim questionável. Não é a escolha certa para toda produção, algumas precisam de cenas iluminadas em ambientes vibrantes. Mas em Razão e Sensibilidade é possível entender a escolha pelas cenas dessaturadas e escuras. A obra quer nos transportar para o período, tanto fisica quanto emocionalmente. 

A vida daquelas moças está assim, escura e sem cor, desde a morte do pai e a falta de perspectiva que vem com ela. É apenas quando seus desfechos felizes que podemos notar a luz e cor começarem a retornar. Seja com um duelo ao nascer do sol, ou o anuncio de um casamento banhado pela luz quente do entardecer. 

As atuações são eficientes, mas não excepcionais. E empalidecem ainda mais, quando lembramos do elenco estelar do filme de 1995. Daisy Edgar-Jones transmite bem o pragmatismo de Elinor. Já Esmé Creed-Miles entrega uma versão mais rebelde e arrogante, do que sensível de Marianne. A inteção parecia ser aproximar a personagem da liberdade da natureza para representar sua personalidade, mas acabou caindo na caricatura da jovem rebelde e ingênua, que também muda de ideia com facilidade. Falha não apenas da atriz, mas da forma como a personagem fora escrita. 

O restante do elenco entrega o que é preciso, com o pouco tempo de tela que tem. Alías, outra comparação inevitável com o filme de Ang Lee, é o uso e apresentação de personagens secundários. É provavel que aqueles que não estiverem familiarizados com o quem-é-quem, entre parentes distantes e conhecidos, fique perdido com o vai-e-vem de personagens menores. 

Trilha sonora e as cenas de baile completam o pacote do "vou fazer diferente", com um estilo próprio especialmente nos passos de dança. Com muito mais intimidade e espontaniedade do que visto em obras que tratam o período. Pode não agradar, mas é coerente com a proposta mais naturalista do filme de Georgia Oakley.

Razão e Sensibilidade é mais uma adaptação eficiente de Jane Austen. Mais crua e natural, tem potencial para ser o clássico de sua geração, mas isso só o tempo irá dizer. Por hora, afirmo que é uma boa sessão, mas não superou - pra mim - o filme de 1995. 

Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility)
2026 - Reino Unido - 132min
Drama, Romance

Post a Comment

أحدث أقدم