Digger

Um encontro entre uma sátira corajosa como a do clássico Dr. Fantástico*, e do alerta desesperado como o de Não Olhe Para Cima*, é a melhor descrição simpres de Digger. Entretanto, tentar oferecer uma explicação simples para o novo filme do diretor Alejandro G. Iñárritu, estrelado pelo Tom Cruise chega a ser até uma injustiça com uma obra com tantas camadas. 

Digger Rockwell (Tom Cruise) maior magnata do petróleo do planeta, e consequentemente o homem mais poderoso do mundo. Causa um desastre ambiental de proporções globais, única e exclusivamente por seu descaso com qualquer coisa que não seja seu lucro. Ignorando os alertas, ele cavou tão fundo em busca de óleo que uma placa de gelo gigantesca se desprendeu e navega em direção à Europa. À partir daí começa uma corrida desenfreada - ou talvez nem tanto - para supostamente reverter uma situação irreversível. Na realidade o foco mesmo é reverter os danos à imagem do trilhonário, e ao país que o apoia os Estados Unidos da América. 

Acontece que Digger, e outros representantes do alto escalão do poder mundial, como o presidente dos EUA (John Goodman), não são apenas gananciosos, malvados e sem qualquer vestígio de empatia. Eles são idiotas, grotescos e propositalmente exagerado. Mas não exagerado o suficiente para se diferenciar da realidade atual. As figuras que o roteiro parodia são evidentes, a critica é clara e direta. 

O mundo vai acabar pelas mãos dos poderosos. E o resto das pessoas pouco poderá fazer além de lidar com as consequencias da própria conformidade. Trazendo o exemplo para o mundo real, todos estamos preocupados com os danos ecológicos causados pela IA, e a possivel autonomia dela no futuro. Entretanto, não deixamos de utilizá-la por isso. 

Iñárritu ainda utiliza um segundo recurso linguístico (que é spoiler, não vou detalhar), para acrescentar mais camadas a seu discurso. Esta escolha torna justifica a construção caricatural dos persongens. Não que fosse necessário, já viu alguns líderes de nações ao redor do mundo atualmente? E também dá um tom mais sério à crítica, equilibrando bem a sátira com uma preocupação real. 

Dr. Fantástico por exemplo apostou apenas na comédia, fazendo com que alguns sejam capazes de ignorar a crítica, focando apenas no humor. Aqui o intuito é deixar a crítica social escancarada, a ponto de ser impossível de ignorar. O que vai deixar algumas pessoas desconfortáveis, e até irritadas com o filme. Todos aqueles que tem um viés político contrário ao bem estar social, e preservação do planeta, ainda que não admitam ou tenham consciência disso.

 

Este recurso lingístico ainda possibilita ao diretor a brincar com metalinguagem, com a forma de filmar certas cenas e com os bastidores do showbiz. Além de lembrar o público que a arte sempre se manterá como forma de prostesto e vávula de escape. Mesmo quando estamos cegos pela aquela conformidade que mencionei anteriormente neste texto. 

Tom Cruise nos faz lembrar que ele não é um ator ruim, apenas preguiçoso. Preferindo entregar mil vezes o mesmo herói padrão, do que acertadamente se arriscar em papéis como este. - Por favor Tom, pegue mais papéis como este! - Irreconhecível não apenas pela caracterização, mas por sua postura, gestual e até a voz, o astro cria um protagonista odioso, mas ao mesmo tempo impossível de não acompanhar. 

Digger Rockwell é exagerado, nojento, egocêntrico, extremamente caricato, e ainda sim assustadoramente parecido com pessoas reais. E o restante do elenco acompanha o tom satírico e absurdo, sem perder o peso das consequencias das péssimas escolhas dos personagens. Estão em cena além de Cruise e Goodman, Riz Ahmed, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg, Jesse Plemons e Emma D'Arcy. Entre esses nomes algumas atuações dignas de Oscar, se os figurões da indústria não se sentirem ofendidos demais pelo filme. 

Digger não é um filme para todos, seu diretor sabe disso, e "tá tudo bem"! Vai causar amor e ódio na mesma medida, e escancarar os príncípios de quem é contra ou à favor. Alguns talvez nem alcancem mensagem nenhuma, e só pensem se tratar de um filme estranho. 

Seja como for sua crítica é certeira. A sátira inteligente, e sua mensagem importante. É facilmente meu filme favorito desde diretor, e uma das obras mais eloquentes de 2026. 

Digger
2026 - Reino Unido, México, EUA - 129min
Sátira, Comédia, Drama, Catástrofe

* Pra quem não conhece as referências, tem crítica de Não Olhe Para Cima no blog, e vídeo de Dr. Fantástico no meu canal do YouTube. Vem conferir!

Post a Comment

أحدث أقدم