Carrie: A Estranha

Desde que foi publicado em 1974, o primeiro romance de  Stephen King, Carrie - A Estranha, tem ganhado adaptações recorrentes para as telas. Isso porquê, o tempo passa, a sociedade muda, mas os temas não. Assim, cada geração ganha sua versão da maior propaganda anti-bulling da cultura pop. 

Agora é a vez da geração atual, que são os primeiros a conhecer a jovem Carrie através de uma série, não um filme. E pelas mãos de ninguém menos que Mike Flanagan, diretor de A Maldição da Residência Hill, e Doutor Sono. Ou seja, um cara que conhece bem tanto terror, quanto Stephen King. 

Em 2026, Carrie precisa ter uma origem diferente. Ela não pode ser apenas a deslocada do colégio, não é possível, com celulares, computadores e o próprio currículo escolar. Ela precisa realmente ser uma forasteira no mundo real. A série resolve isso fazendo referência a um evento absurdo da vida real. O Caso Turpin, onde David e Louise Turpin mantiveram seus 13 filhos em cárcere privado e isolamento absoluto dentro de casa por quase três décadas. 

Assim, Carrie White (Summer H. Howell) e sua mãe Margareth (Samantha Sloyan) são encontradas em um armário após a morte repentina de seu pai e marido Ralph White (Tahmoh Penikett). Agora a matriarca religiosa e rigorosa precisa trabalhar, e a adolescente frequentar a escola pela primeira vez. 

Chegando em um colégio com detectores de metais na entrada, e ensaios para aprender como agir em ações de atiradores. Nem precisava ser educada em casa para ficar perdida e assustada, basta não ser estadunidense. É claro, que por não saber como agir socialmente, e não ter conhecimento do mundo Carrie é vista como estranha. Mas pasmem, com mais tempo de tela para ser trabalhada, não é hostilizada o tempo todo, e até consegue ter boas experiências no colégio. 

Interagindo mais com os estudantes, ela até faz amizade com Sue Snell (Siena Agudong), Tommy Ross (Joel Oulette) e outros personagens menores. É com Chris Hargensen (Alison Thornton) que a relação é mais complexa. Dessa vez, a vilãzinha não é apenas má. Apesar de nada justificar suas ações, é possível compreender de onde vem sua raiva e agressividade. Graças ao maior tempo de tela, que ainda possibilida explorar também o bullying virtual e seu alcance para além dos corredores da escola. 

Junto com o bullying nas redes, outras mazelas da sociedade são expostas. A hipocrisia de quem critica, mas segue a página de ódio, a incompetencia das autoridades, e até pedofilia nos corredores da escola. 

Margareth White também tem seu próprio desenvolvimento. Muito mais que uma fanática religiosa, a mãe da protagonista também é vítima em alguns aspectos. Não temos certeza se da própria fé cega, da influencia do marido, ou de ambos. Mas também a vemos reaprender a navegar no mundo, tomar decições hipócritas, e temer pelos poderes da filha. A personagem da excelente Samantha Sloyan e do falecido marido também são uma alfinetada nos teoristas das conspirações, negacionistas da ciência, e fanáticos religiosos, que encontramos no mundo real. 

De volta à protagonista, Carrieta aqui é melhor apresentada e explorada. Seja pela sua criação enclausurada, passando por seu interesses construídos por livros que ela lê clandestinamente, até seu rigido senso moral. Pela primeira vez, ela não é apenas uma vítima indefesa, mas também é curiosa, esforçada e ávida pelo mundo do qual fora privada. Sua transição para a instabilidade e a catarse final também é constante e bem construida. 

Summer H. Howell transmite essa ingenuidade, e empolgação pelo mundo com facilidade. Carrie é uma fofa, que aos poucos vai sendo desiludida e corrompida pela sociedade. Uma pena apenas que a série se acovarde e tire dela parte da responsabilidade dos eventos do baile. Tentando não dar spoilers, a série expande os horizontes e traz personagens de outros universos do autor. E dá a um desses personagens, parte das ações na fatídica festa. 

E por falar no baile, a sequencia mais icônica em outras adaptações do livro, é a mais fraca nesta versão. Uma vez que a cena é interrompida constantemente por depoimentos posteriores. A intenção era criar um quebra-cabeças do evento com os relatos, mas as pausas tiram a força da catarse. E principalmente enfraquecem o terror. A série é mais um drama adolescente, que um filme de horro de fato. 

Antes de terminar, vale mencionar outros bons nomes no elenco como, Josie Totah, Amber Midthunder, Tim Bagley, Michael Trucco, Tahmoh Penikett, Heather Graham e Matthew Lillard. Enquanto os mais atentos vão conseguir pescar referências do universo de Stephen King e a cultura pop. Como o letreiro de um cinema em que Carrie passa na frente, anunciando uma retrospectiva de Brian de Palma, diretor da primeira versão. Ou ainda os muitos títulos que a Carrie lê como O Apanhador no Campo de Centeio e O Conto da Aia, que influenciam a personagem ao mesmo tempo que fazem referência à própria história da série. 

Em resumo, passamos oito episódios vendo a protagonista ser mal tratada, mas na hora de sua vingança, não vemos a cena completa, e responsabilidade da moça é amenizada. Tudo em prol de possíveis continuações. Existe um esforço para criar um universo compartilhado televisivo de King desde IT: A Coisa. Embora a série da HBO e Carrie não tenham os mesmos produtores nem façam parte do mesmo canal. Infelizmente a série deixa pontas soltas para continuação, no destino de Carrie e Emaline (Thalia Dudek), e no mistério em torno de quem faz as perguntas. Desnecessário na minha humilde opinião a história está contada. 

Mas apesar do final àquem do potencial, a série de Carrie: A Estranha é excepcional. Atualiza e expande a história clássica, sem perder sua essência. É de fato uma Carrie para novas gerações, e a melhor representação desde o clássico de 1976. 

Carrie: A Estranha tem oito episódio com cerca de uma hora cada, todos disponíveis no Prime Video. 

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