Doutor Sono - Ah! E por falar nisso...

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Doutor Sono

Doutor Sono é uma produção curiosa, é baseada no livro homônimo de Stephen King que dá sequência a história de O Iluminado. Ao mesmo tempo, é uma sequência da versão da nada fiel adaptação de Stanley Kubrick para o primeiro livro. A dúvida é, como conciliar a diferenças entre as duas obras.

Décadas após os eventos no Hotel Overlook, Danny Torrance (Ewan McGregor) ainda é assombrado por suas entidades. Quando finalmente consegue se ajustar com seu passado e habilidades, ele conhece Abra Stone (Kyliegh Curran), uma garota com poderes similares aos seus, que pede sua ajuda contra uma ameaça a todas as crianças "iluminadas".

A escolha de Mike Flanagan (responsável pela série A Maldição da Residência Hill), é seguir a mais conhecida versão de Kubrick para a obra. Tanto no roteiro que adapta as divergências, quanto no visual que traz de volta cenários e caracterizações do filme de 1980. É nessa forte conecção com o clássico do supense, que residem tanto os pontos altos quanto as falhas desta nova produção.

Enquanto por um lado é curioso a forma eficiente como a produção escolhe um elenco visualmente parecido, e recria cenários e takes da produção original, para ativar a memória daqueles que a conhecem. Seu excesso de reverência, pode soar exagerado em alguns momentos. E desagradar os fãs mais devotos do longa de Kubrick (aquele velho papo de que não se deve mexer com uma obra prima).

Curiosamente, a conexão não o torna dependente de O Iluminado. Espectadores que começarem por este filme, não devem ficar perdidos, já que o roteiro entrega o suficiente do histórico de Danny para aqueles que não o conhecem. Além disso, o foco agora é em Danny e nas suas pouco exploradas habilidades, enquanto no anterior o foco era Jack. É claro, para aqueles que assistiram, o contexto é mais rico e cheio de detalhes.

De forma independente, Doutor Sono entrega uma bem construída produção de terror e suspense. Sem pressa de assustar o público constrói com calma seus diferentes núcleos e os encaminha para o conflito em uma crescente. O resultado uma produção que mantém o espectador entre a curiosidade e a tensão por toda sua projeção. Entregando imagens aterrorizantes, quando estas fazem sentido na narrativa.

Ewan McGregor acerta ao criar um Danny traumatizado por sua bagagem, mas ainda sim empático com as pessoas e entidades que encontra, conquistando o interesse do público logo nos primeiros minutos. A jovem Kyliegh Curran ainda se mostra pouco experiente em algumas cenas mais fortes, mas mostra compreender muito bem as habilidades e inteligência da Abbra, e consegue conferir a ela uma personalidade carismática. Outra que tem carisma para compensar uma ou outra atuação mais canastrona, é Rebecca Ferguson, aparentemente se divertindo com sua antagonista Rose, the Hat. Carl Lumbly e Cliff Curtis também estão eficientes em seus papéis.

Ainda sobre o elenco, os atores escolhidos para personagens do longa anterior, surpreendem tanto pela semelhança quanto pela capacidade de emular seus intérpretes originais. Em especial Alex Essoe que dá vida à Wendy Torrance. Sabemos que não são os mesmos intérpretes, mas a boa caracterização ajuda o cérebro a fazer conexões. São poucos os momentos em que essa relação falha, e somos tirados da realidade daquele universo.

Apesar das muitas semelhanças e homenagens (inclua aqui a trilha sonora marcante) Doutor Sono é bem mais palatável e comercial que O Iluminado. Entretanto, como várias obras de Stephen King, sofre com um desfecho que não explora todo seu potencial. O que não chega a ser decepcionante, ou estragar a experiência.


Com elenco eficiente, roteiro bem construído e produção caprichada, Doutor Sono é um satisfatório retorno à jornada dos Torrance. Não desrespeita as obras anteriores (livro e filme), e, o mais importante, entretém. O que aqui significa, instigar a curiosidade, amedrontar e assustar.

Doutor Sono (Doctor Sleep)
2019 - EUA - 151min
Suspense, terror, drama





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