quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A Maldição da Residência Hill - 1ª temporada

Uma família inocente se muda para uma casa antiga, e a residência assombrada ameaça e muda suas vidas para sempre. A premissa de A Maldição da Residência Hill é uma velha conhecida do gênero de terror. De fato, A Assombração da Casa da Colina de Shirley Jackson, livro em que a série foi baseada, já ganhou duas adaptações para o cinema. Então como fugir do cliché do subgênero, e ao mesmo tempo preencher longas dez horas de projeção de uma série? Apostando não apenas na história, mas na forma de contá-la.

Então acompanhamos a família Crane - pais e cinco filhos - em dois momentos distintos e cruciais de suas vidas. Em 1992, quando se mudaram para a mansão octagenária. E nos dias de hoje, com as crianças já crescidas e com suas vidas marcadas não apenas pelos acontecimentos na casa, mas principalmente pelas duvidas - deles e nossas - sobre o que realmente aconteceu na residência.

Assim, os episódios passeiam entre as diferentes épocas, com transições tecnicamente fluidas e bem construídas, que valem um olhar mais atento. Enquanto narrativamente, o roteiro opta por unir estes dois momentos através de temáticas e símbolos. Criando uma curiosa relação de causa e efeito que transcende os conceitos de linhas temporais. Além de deixar o espectador sempre alerta para as conexões entre os tempos, já que estas geralmente fornecem explicações e motivações para acontecimentos e ações dos personagens.

E por falar nos personagens, estes também recebem uma atenção meticulosa do roteiro, através de episódios de ponto de vista. A primeira metade da temporada é dedicada a mostrar a experiência de cada uma das crianças Crane na casa, e como suas vidas seguiram a partir disso. E claro, os acontecimentos da infância refletem em suas vidas adultas. Vale mencionar aqui, que a série traz diferentes tipos de fantasmas, entre eles os das nossas mentes, traumas, medos e desejos que carregamos.

Stevie (Michiel Huisman/Paxton Singleton) abraça o ceticismo exagerado, e a existência de problemas psicológicos na família para explicar o que viveu. Shirley (Elizabeth Reaser/Lulu Wilson), incorporou o sentimento de perda à sua vida, ao abrir uma funerária. Theo (Kate Siegel/Mckenna Grace) evita contato e relações humanas complexas. Luke (Oliver Jackson-Cohen/Julian Hilliard) é dependente químico. E Nell (Victoria Pedretti/Violet McGraw) convive com sérios distúrbios do sono. Todos tem uma péssima relação com o pai, dúvidas quanto ao passado e pesadelos.

Esta apresentação minuciosa de cada um é crucial para a compreensão dos personagens, e na criação de empatia no espectador. Não se trata apenas de um grupo de personagens que vão morrer ou sobreviver durante uma assustadora experiência. É uma família, que conhecemos e com qual passamos a nos importar. Os diferentes pontos de vista, também fornecem a possibilidade de acompanhamos os mesmos momentos por diferentes ângulos. Esta repetição, ajuda na construção da tensão, na compreensão da dinâmica da família, cria ciclos e ecos narrativos, fornece detalhes novos a cada nova perspectiva e atiça nossa curiosidade de compreender todo o quadro. Ou seja, é um recurso eficiente e bem aplicado.

Mas não se engane, a série também tem seus fantasmas literais. As entidades estão sempre presentes, estejam eles ativos na cena, ou apenas existindo em um assustador canto escuro da tela. Vale ficar atento para encontrá-los. E aqui a série se diferencia ainda mais de outras obras do sub-gênero "casa assombrada". Deixando de lado os "jumpscares" (aqueles sustos fáceis onde a ameaça surge do nada, acompanhado de aumento repentino da trilha sonora - Bú!), e apostando no suspense, ambientação, empatia e na combinação de fantasmas literais e metafóricos. Abordando uma gama maior de medos e, consequentemente, alcançando/assustando um maior número de pessoas.

Diferença esta que se apresenta também na forma de contar a história. A produção favorece efeitos práticos, explora ao máximo as possibilidades de seu assustador cenário/personagem, a casa, e brinca com ângulos e movimentos de câmera. A experimentação do diretor Mike Flanagan, que também é roteirista, chega ao seu auge no excelente sexto episódio. Duas Tempestades é formado, por longos complexos e verborrágicos planos sequências, que incluem a presença de crianças e fantasmas. Um desafio de produção que a série se dispôs a encarar, e o resultado é excepcional.

O elenco mirim é outro acerto. Bem escolhidos e dirigidos, os pequenos Violet McGraw e Julian Hilliard, convence ao passar vivacidade inocência que contrastaram com suas versões adultas. Paxton Singleton, é coerente como irmão mais velho prestativo, mas alheio à realidade. Lulu Wilson (Annabelle 2, Sharp Objects) e Mckenna Grace (Eu, Tônia, Um Laço de Amor), se unem ao irmão naquela fase da vida em que, apesar de não entendermos o que realmente se passa, já percebemos quando algo não vai bem.

No elenco adulto o destaque fica com Carla Gugino, que passa com mesma intensidade os sentimentos de fragilidade, preocupação e confusão, que a Olivia enfrenta. Sempre com a doçura de uma mãe amorosa. Timothy Hutton e Henry Thomas (o Eliot, de E.T.:O Extraterrestre), conseguem criar coesão entre os diferentes estágios da vida de Hugh, pai da família. Outros rostos conhecidos em cena, são Michiel Huisman (o Daario Naharis de Game of Thrones) e Elizabeth Reaser (Saga Crepúsculo).

Apesar de ser tratado pela Netflix como primeira temporada, a produção seria melhor categorizada como minissérie. A história é fechada em si e não deixa pontas soltas. Não é impossível trazer a família Crane para enfrentar novos fantasmas, mas isto traria o risco de arruinar um final bem construído. Já a casa, tem mais de cem anos de história, e uma quantidade igualmente grande de fantasmas. Logo, eu não me surpreenderia se a produção ganhasse um segundo ano no estilo de antologia, ao exemplo de American Horror Story, mas com a residência como base.

Ciente de sua premissa exaustivamente explorada, A Maldição da Residência Hill se diferencia ao apresentar bem seus personagens - inclua aqui a casa em si -, construir relações e personalidades complexas, e envolver o espectador no mistério. Traz uma narrativa cheia de ecos e ciclos, que se complementam e completam, resultando em um final emocionante e convincente, apesar dos aspectos sobrenaturais da história. E também assusta no processo.

Deve agradar quem gosta de séries que demandam atenção como Westworld, e principalmente quem prefere o terror que vai além do susto fácil ou do medo momentâneo. A Maldição da Residência Hill constrói o medo, ao invés de simplesmente assustar. É uma grata e assustadora surpresa!

A Maldição da Residência Hill tem dez episódios com cerca de uma hora cada. Todos já estão disponíveis na Netflix.

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