Às vezes, ou melhor, quase sempre a especulação é inevitavelmente melhor do que as respostas. Já que as possibilidades infinitas da dúvida, nos permitem criar igualmente infinitas respostas e caminhos em um exercício de criatividade sem fim. Por outro lado, é da nossa natureza querer explicações diretas para mistérios. Mas, assim como um truque de mágica que perde a graça assim que entendemos como a ilusão é feita, nenhuma resposta será tão empolgante quanto as perguntas.
É nesse limbo entre querer especular, e encontrar respostas que chega Backrooms: Um Não-Lugar. Uma obra nascida da criatividade do ócio internauta, e alimentada por pessoas de todo o mundo por anos. O filme nasce a partir de uma foto postada na internet, que gerou uma creepypasta (uma lenda da internet que cresce conforme os usuários interagem com ela.
O que era uma sala acarpetada em tons de amarelo, vazia e cheia de divisórias, logo se tornou o tal "não lugar". Um espaço para além de nossa realidade, acessível por entradas acidentais, onde tudo é estranho e é possível se perder. A lenda se espalhou e cresceu com a ajuda dos internautas, até que um adolescente chamado Kane Parsons, começou a produzir curta-metragens sobre essas lendas em 2022. A web-série de sucesso no youtube, abriu portas para que anos mais tarde, o próprio Parsons dirigisse um longa para o cinema com o aval da A24. E assim Backrooms: Um Não-Lugar, chega até nós.
Acompanhamos as história de Clark (Chiwetel Ejiofor), um arquiteto frustado e solitário, preso ao trabalho em sua fracassada loja de móveis. Um dia, ao investigar um aumento no consumo de energia de seu estabelecimento, ele encontra uma passagem para o Backroom. Obcecado passa a explorar o lugar, e compartilha suas descobertas, com sua cética terapeuta.
Mary (Renate Reinsve) é uma terapeuta tão solitária quanto seu paciente, que traumatizada pela agorafobia da mãe, prega a busca por "janelas", por caminhos para se libertar de traumas e seguir nova vida. Eventualmente, preocupada com seu paciente, ela também encontra a passagem para esse lugar misterioso que desafia nossa percepção de mundo. Contar mais que isso seria spoiler, mas tentarei proseguir com a reflexão sem extragar sua experiência.A interpretação mais simples, e totalmente plausível é que os Backroons são um espaço sobrenatural. Mas, convenhamos, não se busca um filme deste procurando a explicação mais raza. E como mencionei no início deste texto, talvez nem queiramos a resposta. As possibilidades por outro lado...
Clark é arquiteto, Mary Terapeuta, juntos eles podem representar a natureza do "não lugar". Uma extensão interdimencional, que tenta emular nossa realidade a partir das memórias daqueles que acidentalmente a visitam. Geograficamente traz uma arquitetura que parece real, mas ignora a funcionalidade, as proporções e criam um labirinto sem fim. E como usa memórias de seus visitantes, materializa também suas referências e traumas, sem completamente compreendê-los. Criando anomalias assustadoras, que durante o filme interagem com as pessoas das quais foram inspiradas.Indícios que reforçam essa teoria (uma entre muitas possíveis), podem ser captados através de revisitas ao fime, que tenta provocar o espectador empolgado à vasculhar seus mínimos detalhes. Digo tenta pois esse propósito provavelmente funciona com o público já iniciado. Quem conhece a creepypasta e os curtas, e capta as referências, tem mais recurso para montar seus próprios quebra-cabeças e criar teorias.
Já o público geral, entrando em contato com o conceito pela primeira vez provavelmente vai ficar, cansado perdido e insatisfeito. Uma vez que o filme traz repetidamente (três vezes para ser mais exata) a dinâmica da descoberta, joga possibilidades e perguntas na tela, sem responder ou sequer dar propósito à maioria delas. Exigindo uma pesquisa posterior, de quem quer entender a intenção da obra. Mas não é todo mundo que tem um grupo de bar cinéfilo para discutir, ou que vai buscar o "final explicado" no youtube. Muita gente vai apenas esquecer e dar a obra como duas horas de vida perdida.
Entre os prós da obra estão as boas atuações de Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve. Além da construção, ambientação e fotografia dos Backroons. A atmosfera de mistério, insegurança e incômodo é constante, e a principal responsável por continuarmos assistindo.
Outro fator que nos faz ficar no filme, é um "contra", a curiosidade, que nunca é saciada. É verdade que um filme não precisa dar todas as respotas. A força das perguntas é um recorrente neste texto. Mas é preciso sim, dar motivo para estas questões existirem. Criar uma base sólida para a especulação, e Backroons só entrega isso para o público já iniciado.
Backrooms: Um Não-Lugar é um experimento curioso. Pode ser ponto de partida para diversas discussões e reflexões. Mas pode também ser tão vazio e confuso quanto as próprias "salas dos fundos" do título. Vai depender de cada espectador. Diz aí nos comentários, foi fisgado pelas possibilidades? Qual a sua teoria para os não lugares, e a jornada destes personagens nele?
Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms)
2016 - EUA - 110min
Suspense, Terror





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