Quando se trata de ouvir histórias, as perspectiva, ou ponto de vista é um elemento crucial. Seja quem for o narrador, especialmente quando também é personagem, é preciso que ele conquiste nossa atenção, que nos leve junto com ele. O que muita gente não compreende, é que podemos sim estar engajados em acompanhar sua jornada, sem de fato gostar do narrador, ou mesmo do protagonista.
Isso eu aprendi lendo As Crônicas de Gelo e Fogo, que troca de "POV" (o viralizado "Point of View", ponto de vista em português) a cada capítulo. E onde os capítulos da Arya e do Sam, são infinitamente melhores do que os do idiota do Theon. Mas, pra munta gente, esse aprendizado vira deste livro.
A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes quarto livro do universo de Jogos Vorazes volta no tempo para nos contar a história do vilão. Muito antes de ser presidente, Coriolanus Snow é um jovem de dezoito anos, em seu último ano na escola, que vive de fachada. Dez anos após a grande guerra que estabeleceu Panem, o sistema de distritos e os Jogos Vorazes, toda fortuna de sua família oriunda do agora extinto Distrito 13 se fora. Assim como seus pais, agora ele vive apenas com a avó e a prima nas ruinas de seu apartamento, e à beira a fome.
É uma bolsa de estudos universitários, oferecida para o melhor aluno de sua escola, sua grande aposta para melhorar de vida. Mas neste ano, o prêmio vai além das notas. Os canditatos recebem a tarefa de mentorar os tributos da décima edição dos Jogos. E ajudar a torná-los mais atraentes para o público. Até então o castigo aos distritos revoltosos transmitido ao vivo, era apenas uma carnificina sem apelo.
64 anos antes da midiática e gramurosa edição de Katniss e Peeta, a "competição" era muito diferente, mais simples, precária até. Jovens desconhecidos, viajavam por dia amontoados e sem alimentos, antes de serem jogados em uma antiga arena de shows, com armas e a ordem: matar ou morrer. O único prêmio era sobreviver.
A implementação de novas regras, atrativos, participação do público e outras ideias para movimentar e dar audiência ao show, o ponto forte da contrução de universo aqui. Fazendo um paralelo com a vida real, lá em 2002 era apenas uma casa cheia de desconhecidos. 26 anos depois, é um jogo complexo cheio de regras, provas luxos e desafios que criam narrativas e incrementam o jogo. Aparentemente com os Jogos Vorazes a evolução é a mesma.
Eles descobrem que apresentar tributos carismáticos ajudam a engajar a audiência. Cria torcida, atrai patrocinadores, e ameniza a carnificina gratuita para um nível "aceitavel" de acompanhar. Ao longo de parte do livro, acompanhamos essas ideias surgirem e serem implementadas pela primeira vez. Na maior parte de foma precária e falha, mas é possivel vislumbrar sua evolução até a máquina implacável do futuro.
Já em relação aos personagens, a coisa é mais complexa e menos divertida. Apesar de ainda não ser o Presidente Snow, e aparentar ser um jovem comum, em seu íntimo Coriolanus já demonstra as características do ditador facista que virá a ser. Esnobe, apesar de viver na miséria, extremamente frio e calculista, consegue confundir o leitor, e até a si mesmo, ao tentar demonstrar humanidade. Seja com os colegas de classe, seja com sua mentorada.
E por falar nela, Lucy Grey Baird, tributo feminino do Distrito 12, é uma força do caos. Uma artista, é performatica e misteriosa, pois sabe que isso agrada a platéia. Não demora muito para entender as novas regras midiáticas do jogo, e embarcar nelas. Não apenas na arena, mas em sua relação com Snow.
Se ela é ciente ou não dessa relação de poder (estudante da capital - tributo, pacificador - moradora de distrito) não podemos ter certeza. Mas ela entra em uma relação com o protagonista performando, e continua pisando em ovos conforme o rapaz tem sua jornada de amadurecimento. Crescimento este que vem em duas fases.
Se na primeira metade do livro vemos o sucesso de Snow ao contribuir com os jogos. A segunda metade traz sua queda para o mundo real, e posterior ascenção. A confiança que ele ganhou com os jogos, somado ao desespero de ser rebaixado, quebra as últimas barreiras éticas. Tornando-o o manipulador sedento por poder que conhecemos. Talvez não com tanta experiência, mas no caminho para tal.
Enquanto o final ambíguo de Lucy Grey, adiciona fantasmas à sua bagagem que reverberam por toda sua vida. É por ela que ele menospreza o Distrito 12, e porquê acredita piamente que as coisas que mais amamos são aquelas que nos destroem.
A escrita de Suzane Collins continua dinâmica, sagaz e cheia de conteúdo. E agora que resolveu desenvolver este mundo para além de Katniss, planta sementes de outras histórias deste universo. Particularmente, adoraria ver mais sobre a personagem Tigris. Como a prima de Snow se tornou a mulher que vêmos em A Esperança?
Por hora a autora se aventurou nos jogos de Haymich, o segundo massacre quaternário. Mas, anos atrás ela afirmou que só retornaria à este universo, se o mundo precisasse ouvir suas mensagens. Observando o planeta em 2026, acho que ela precisa continuar escrevendo. O retorno a este universo é mais que bem vindo ou necessário, é urgente!
Meu único porém são as canções. Apesar de a maioria trazer metáforas e alegorias para a história, o universo, e até o futuro do protagonista. O excesso e a repetição por vezes torna a leitura cansativa. Mas nada que não se consiga superar.
A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes é quase dois livros em um. O que explica a discrepância de tom no filme (leia a crítica). Mas não chega a ser tão discrepante quanto a versão das telas. Com tempo de sobra para desenvolver a evolução do personagem, a transição entre realidades é bem feita.
Ao final das contas, sim! Torcemos para o vilão ser bem sucedido, mesmo já sabendo que ele será. Para logo depois relembrarmos do que é capaz e voltar a odiar e temer. Mas dessa vez sem o pedestal que ocupava na trilogia anterior. Agora sabemos, por pior que ele seja, é humano também.
A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (The Ballad of Songbirds & Snakes)
Suzanne Collins
Rocco
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