Muito se fala sobre o descompromisso da geração Z com o mercado de trabalho. Sua recusa em "vestir a camisa" da empresa, e a falta de desejo de seguir um plano de carreira. Pois A Única Saída, novo filme de Park Chan-Wook, nos dá um vislumbre do que os mais jovem tem enxergado para ter tal atitude. Enquanto traz questões ainda mais complexas sob a forma como as gerações mais velhas encaram o trabalho.
Man-su (Lee Byung-hun, o Front Man de Round 6) tem a vida perfeita. Trabalho estável, com cargo condecorado, um casarão de família, mulher e filhos adoráveis, animais de estimação. E tem completa ciência e orgulho das condições que conquistou com seu trabalho em uma empresa de papel.
Quando a companhia é comprada, e grande parte dos funcionários demitidos, inclusive o Man-su, o protagonista vê seu mundo desabar. Diante da queda da qualidade de vida diante do desemprego, e da enorme concorrência para cada "vaga digna", o patriarca só enxerga uma saída: eliminar os demais competidores.
Então passamos a acompanhar um pai de família desesperado, tentando se tornar um assassino em série. Tarefa que nunca havia cogitado, e para qual, inicialmente, não tem nenhuma vocação. A violência conhecida dos filmes do diretor se faz presente de forma diferente. Menos sofisticada e precisa diante do amadorismo de seu executor. Man-su até se planeja, mas é atrapalhado e nervoso, o que proporciona situações tão engraçadas quanto perigosas.
Eventualmente, conforme evolui em sua missão, o amadorismo vai ficando para trás. Dando espaço para a crueldade fria, e uma violência mais certeira. É a perda da humanidade mediante ao desepero que o fime aborda. O hesitante protagonista do início aos poucos se torna o assassino eficiente do final. Sua determinação o transforma. E o motivo dessa determinação, é o que gera a discussão que mencionei no primeiro parágrafo deste texto.Man-su, como muitos representantes de gerações mais antigas, foram criados com o conceito de recompensa pelo esforço. Se qualificar ao máximo, e oferecer dedicação à uma empresa, para ser recompensado com estabilidade e qualidade de vida. Mas o mundo mudou, e esse plano de carreira deixa de ser uma certeza. E para quem foi criado e moldado nesses termos, recomeçar do zero é tarefa impensável. Logo, a única saída que o protagonista enxerga é extrema.
É claro, na Coréia do Sul, e em outras culturas asiáticas, o papel de patriarca provedor é uma imposição social ainda mais contundente. A perda desse status mexe com a honra, a percepção de si mesmo, indo além da nessessidade de pagar as contas. O homem desempregado, é "menos" nessa sociedade, e o que leva muitos, inclusive, a tirar a própria vida.Do lado de cá do globo, o impacto dessa mudança de vida é menor, mas ainda relevante. A reação do personagem para nós pode soar como uma hipérbole, mas também é uma excelente crítica ao mercado de trabalho. Assim como lá, aqui, muitas vezes, é exigido comprometimento máximo, para recompensas mínimas. O que nos leva ao comportamento da geração Z, que cresceu assistindo os milênials sofrendo pelo fim, a estabilidade e do plano de carreira, e respondeu a altura: salário mínimo, esforço mínimo!
Uma pena apenas, que essa crítica e a trama principal da eliminação dos concorrentes percam um pouco de fôlego, especialente na segunda metade do filme, ao dividir espaço com outras pequenas tramas. A condição especial da filha, a suposta infidelidade da esposa, as atitudes do filho, e até o fato de o menino não ser filho biológico do protagonista, desviam o foco e pouco contribuem para a trama principal. Extendendo o filme mais que o necessário, e causando certo cansaço no espectador. Não chega a estragar a obra, mas é uma queda notável ritmo.
É curioso como um retrato de algo tão específico, o mercado de trabalho sul-coreano, pode conversar tão bem com temas que discutimos aqui, do outro lado do globo. Com interpretações e contornos que talvez não estivessem na mente do criador, A Única Saída entrega críticas contundentes à sociedade. Além de uma comédia de erros violênta, caprichada e cheia de boas atuações. Pode não ser o melhor do diretor, mas é sim uma obra merecedora de todo o burburinho em seu entorno.
A Única Saída (Eojjeolsuga eobsda)
2025 - Coréia do Sul - 139min
Suspense, comédia, drama





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