Um olhar mais atento sobre Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível

 Texto publicado originalmente em junho de 2020, no site Pllano Geral. Sob a perspectiva dos primeiros meses da pandemia de Covid-19!


Estou escrevendo este artigo em uma fase bastante pessimista. E quem não está? Como não vislumbrar um futuro sombrio do ponto em que estamos. Foi com este sentimento que esbarrei em uma reprise de Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível, e notei que esta produção merece um olhar mais atento.

Para quem ainda não conhece, Tomorrowland é uma produção inspirada em uma atração de mesmo nome dos parques da Disney. Estrelada por George Clooney, e dirigida por Brad Bird (O Gigante de Ferro, Os Incríveis) a mistura de aventura com ficção-cientifica tem uma visão rara do futuro na cultura pop atual.

Pausa para a sinopse: Casey Newton (Britt Robertson) é inteligente, determinada e o mais importante, otimista. Por isso é selecionada por Athena (Raffey Cassidy), para uma "missão" em Tomorrowland. Uma realidade paralela utópica que Frank Walker (George Clooney) conheceu, mas não tem a mínima intenção de retornar. É claro que ele é o único capaz de ajudar a dupla a chegar lá. Assim o trio embarca em uma tradicional aventura cheia de obstáculos, inimigos, perigos e descobertas.

Pense em filmes conhecidos que abordam o futuro, Mad Max, O Exterminador do Futuro, Jogos Vorazes. O amanhã geralmente é apocalíptico ou distópico, por vezes ambos. É aqui que Tomorrowland se diferencia de outras produções, seu futuro é utópico. É verdade, essa utopia está ameaçada e precisa dos protagonistas para se realizar, mas a visão de mundo do longa é otimista. 

Não é uma versão do futuro desconhecida para nós, é aquela que tínhamos antes da paranoia da Guerra Fria. Um mundo ensolarado, colorido, com invenções que realizam sonhos e uma sociedade em harmonia. Sim, a humanidade já pensou deste jeito, tanto que a Feira Mundial de Nova Iorque de 1964 que aparece no início do filme, aconteceu de verdade. 

Mas a aventura mesmo, acontece em um mundo bem parecido com o nosso, onde apocalipse como produto de consumo, em séries, filmes, games, e uma visão conformada no pessimismo foi adotada por quase todos. Cabe à otimista protagonista Casey buscar pela utopia. Como ela faz isso? Fazendo aquilo que temos preguiça, tentando. 

A sequência da jovem na escola representa bem esta atitude. Ao ser bombardeada por informações pessimistas de diferentes professores, ela é a única a indagar: entendi, tá ruim, mas como consertamos isso? – e é devidamente ignorada por todos. O que nos leva ao discurso do vilão, que apesar de um tanto quanto unidimensional, é coerente em suas motivações contra a sociedade. Abraçamos o apocalipse!

Sabemos dos problemas, temos conhecimento e tecnologia para contornar a maioria deles, mas preferimos aceitar o fim do mundo, apenas porque essa opção exige menos da gente. Tudo isso, didaticamente ilustrado com um excelente monólogo de Hugh Laurie, que depois de interpretar o Dr. House por oito anos, sabe muito bem como jogar horríveis verdades no colo do público. Por algum tempo, cheguei a pensar que o didatismo da mensagem era exagerado, mas agora começo a pensar que talvez precisemos destas lições absurdamente diretas. 

À época do lançamento do filme a mensagem era focada no meio ambiente, mas é impossível não lembrar dela neste momento em que um pequeno esforço, o isolamento social, nos foi exigido. E falhamos miseravelmente, como sociedade, com políticos e empresas que visam poder e lucro. E como indivíduos, que não querem abrir mão de seus confortos contemporâneos, mesmo que por pouco tempo. O mesmo pode ser aplicado para outras lutas que constantemente travamos, como respeito e igualdade. 

É claro, no longa a humanidade é inocentada. Não é completamente culpa dela a vontade de abraçar o fim do mundo. Afinal, é um filme Disney de visão otimista. Do lado de cá da tela, no entanto, não temos desculpas. Buscamos o caminho mais cômodo, mesmo que isso signifique a extinção. E principalmente, se tivermos aquela falsa certeza de que o problema só vai atingir o vizinho, ou gerações futuras.

De volta ao filme, apesar da forte mensagem, Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível, ainda é uma aventura divertida para toda a família (tem crítica aqui no blog). Ouso dizer, aqueles que embarcarem com a mente aberta e cheia de possibilidades de um olhar infantil são os que melhor vão aproveitar. 

Tem excelentes protagonistas femininas (outro ponto a favor), George Clooney em um papel que foge ao estereótipo de galã. Além de excelentes efeitos especiais e design de produção criativo e impecável. Há também espaço para pensarmos, sobre excelência, inclusão, e valorização de habilidades individuais. 

Divertido, original, otimista e com muito a dizer. Esta é minha indicação, dar uma segunda chance, e dedicar um olhar mais atento à esta produção que passou despercebida por muitos. Quem sabe, após a sessão, não comecemos a encarar o mundo e nosso papel nele com novos olhos.

Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível está disponível no Disney+ 

Leia a crítica do filme.


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