Little Fires Everywhere

Uma minissérie fora de seu tempo, no melhor dos sentidos. Little Fires Everywhere, em português Pequenos Incêndios Por Toda Parte  traz um enredo típico de série dos anos de 1990, mas com uma roupagem atual, mais complexa e crítica. 


A dona de casa perfeita, abastada e branca, Elena Richardson (Reese Witherspoon) aluga uma casa em Shaker Heights, bairro de classe alta, para a mãe solteira negra Mia Warren (Kerry Washington). É claro, a relação entre as duas famílias logo vai além que a de inquilino e locador. Interação "incomum" suficiente para causar atrito na vida de ambas. 

Um confronto de realidades que traz à tona conflitos entre personalidades, internos e sociais. Todos interligados, costurando os eventos que culminarão no misterioso incêndio que abre a série. No entanto, nenhum conflito é maior, que o embate entre as duas matriarcas, que de certa forma guia a trama.


O atrito entre Mia e Elena, vai além das diferenças entre elas, a mãe solteira e a dona de casa tradicional. Envolve suas diferentes bagagens, posições sociais, privilégios, preconceito de ambas as partes e racismo estrutural. Washington e Witherspoon conseguem aplicar todas estas nuances em suas atuações.

É impressionante notar a dualidade de Elena, que se vê como uma pessoa boa, e age como tal, mas é incapaz de perceber o racismo enraizado em suas ações, ou reconhecer os privilégios de que desfruta. Bem como sua frustação por ocupar obrigatoriamente o papel de esposa e mãe perfeita, que a sociedade reservou para ela, em detrimento de suas ambições pessoais. 



Já Mia, tem ações que parecem desconexas à princípio, como abraçar a luta de alguém que mal conhece. Que começa a fazer sentido, quando o mistério em relação ao seu passado é revelado no excelente The Uncanny. O sexto episódio traz um longo flashback, que esclarece as motivações das duas matriarcas, através de seus passados. E traz atuações excelentes de Tiffany Boone e AnnaSophia Robb dando vida às versões jovens das personagens.

Este embate entre mundos se estende para os arcos de outros personagens. Desde a relação entre os filhos, até o conflito entre Elena e a caçula Izzy, que não se encaixa no ideal familiar do subúrbio. Trazendo as mesmas discussões semelhantes, sobre novas perspectivas. Racismo estrutural, divergência de classes, e o papel de cada um naquela sociedade permeiam os dramas juvenis, que também trazem conflitos típicos da idade, como gravidez na adolescência, descoberta da sexualidade e relacionamentos amorosos. 



A direção de arte é eficiente ao recriar uma década ainda pouco explorada em séries de TV. Desde que saímos da década de 1990, não a exploramos muito na TV e no cinema. A década permeia não apenas o visual da série, mas tem influencia em seu ritmo, e abraça apropriadamente seus temas, mas com um olhar mais atento. 


Conflitos de classe, de gerações, dilemas adolescentes, a falsa vida perfeita do subúrbio, as dificuldades de uma mãe solteira, são todos temas bastante abordados em programas dos anos de 1990. Mas a análise crítica destas discussões Little Fires Everywhere, traz um olhar mais atual e complexo de 2020.



Baseado no romance homônimo de Celeste Ng, Little Fires Everywhere (Pequenos Incêndios Por Toda Parte) é bastante ciente do período histórico que aborda, e resolve repensá-lo sob a perspectiva de hoje. Trazendo discussões atuais e complexas, mudando drasticamente aquele cenário familiar.  É inteligente, consciente e faz criticas contundentes, necessárias e assustadoramente atuais. 

A minisérie de oito episódios é uma produção original da Hulu, no Brasil está disponível na Amazon Prime Video.

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