Adoráveis Mulheres

A cara que mistura espanto e admiração de Laurie (personagem de Timothée Chalamet) em sua primeira visita à residencia dos March resume bem a experiência de assistir à Adoráveis Mulheres. A adaptação de Greta Gerwig (Lady Bird: É Hora de Voar), para o clássico da literatura estadunidense, é um belo vislumbre do cotidiano simples, porém encantador das irmãs Meg, Jo, Beth e Amy.

Acompanhamos as irmãs March, e aqueles que a cercam durante sua transição da adolescência para a vida adulta, durante a Guerra Civil estadunidense. Convivendo e aprendendo a lidar tanto com as dificuldades da vida, quanto com o embate de suas personalidades distintas.

O roteiro de Gerwig oscila entre dois momentos distintos na vida das personagens. Um mais próximo da infância, retratado com cores quentes e de forma mais lúdica. E o início da fase adulta, de tons frios e azulados. Mantendo as mesmas atrizes nos dois períodos, a mudança de fotografia é geralmente o único indicativo da divergência de tempo, o que pode confundir os desatento. Mesmo a caracterização das moças pouco diverge para marcar seu amadurecimento, ou a diferença de idade entre elas. Felizmente, este é uma das poucas falhas da produção, e pode ser facilmente contornado pelos espectadores atentos e interessados.

E sim, a vida destas jovens geram interesse e empatia, retratando momento, situações e relações com que todos podem se identificar. A parte complicada é dar espaço a tantas protagonistas, por isso o roteiro escolhe Jo a escritora impetuosa e reflexo da aurora real Louisa May Alcott, como guia. É ela, quem simultaneamente vive, escreve e conta esta história. Consequentemente, é Saoirse Ronan quem tem mais espaço para brilhar, entregando um equilíbrio acertado entre os ímpetos e medos de uma moça que não "se encaixa" na sociedade da época.

Florence Pugh se esforça para marcar bem a diferença de idade de sua personagem nas duas linhas narrativas, mas não consegue evitar um pouco de exagero em sua versão mais jovem. Eliza Scanlen é eficiente no papel da mais tímida, bondosa e frágil das irmãs, Beth. Emma Watson, é quem menos tem espaço no papel da irmã mais velha, Meg. Chalamet esbanja charme em seu papel de "bendito ao fruto" em meio as moças. Enquanto um elenco de veteranos que conta com nomes como Laura Dern, Tracy Letts, Meryl Streep e Chris Cooper, dão sustentação ao trabalho destes jovens talentos.

Embora não marque bem a idade das personagens, figurino e maquiagem trabalham para ajudar o espectador a compreender a diferença entre suas personalidades, e sua evolução pessoal. Das roupas de pouco adornos e cabelo desgrenhado de Jo, aos vestidos armados e pentiados pomposos de Amy. Bem como o design de produção constrói cenários que definem sem precisar de grandes explicações, a situadões financeira e sociais em que cada personagem se encontra.

Com toda esta construção de mundo bem executada, Gerwig tem liberdade para navegar entre diferentes momentos da vida das March, fazendo conexões, informando apenas o que precisa e quando precisa. Um exemplo disto, é o desfecho da passagem do pai da família na guerra, só revelando quando conveniente.

Uma pena apenas, que o tempo limitado para adaptar o livro, obrigue a diretora/roteirista, e beneficiar algumas histórias e simplificar outras. Assim Beth tem mais função quando ausente que presente. Pouco se vê das consequências do casamento por amor de Meg. E o triangulo amoroso entre Jo, Laurie e Amy, é resolvido em um par de cenas. Não são falhas, são escolhas, que acabam deixando um desejo por mais.

Já os temas que evidenciam a época em que Louisa May Alcott escreveu sua história, como o "papel da mulher na sociedade", sua "moral e bons costumes", são contornados de forma inteligente. Seguindo o final original, mas abrindo espaço para interpretações e discussões. Atualizando a temática, e fazendo uma crítica às exigências do mercado editorial da época: "mulher precisa se casar ou morrer". Inevitavelmente refletindo sobre nas ainda injustas exigências de mercado atuais.

Honesto, porém doce e lúdico, Adoráveis Mulheres é um bem construído panorama do livro em que se baseou. Não explora a fundo todos os seus temas, mas inicia as discussões de todos eles, e acrescenta algumas próprias. Além de despertar o interesse daqueles que ainda não conheciam as desventuras das irãs March.

Adoráveis Mulheres (Little Women)
2019 - EUA - 135min
Drama, Romance


*Adoráveis Mulheres foi o filme de abertura da edição 2019 do Festival do Rio. Sua estreia nos cinema brasileiros está prevista para 09 de Janeiro de 2020.
Adoráveis Mulheres Adoráveis Mulheres Reviewed by Fabiane Bastos on segunda-feira, dezembro 16, 2019 Rating: 5

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