Cemitério Maldito - Ah! E por falar nisso...

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Cemitério Maldito

Até onde você estaria disposto a ir para contornar uma perda? Especialmente se você tem dificuldades até com o conceito da morte. Mais que o terror, o lado psicológico é o foco da nova adaptação Cemitério Maldito, obra de Stephen King, para o cinema.

O Dr. Louis Creed (Jason Clarke), sua esposa Rachel (Amy Seimetz) e os filhos Ellie (Jeté Laurence) e Gage (Lucas e Hugo Lavoie) se mudam para o interior em busca de uma vida mais tranquila. Nos muitos hectares de terra de sua nova propriedade, um curioso cemitério de animais de estimação guarda um mistério macabro, e é a causa de acontecimentos estranhos com os novos residentes.

Rituais sinistros, incidentes sobrenaturais e resgates de antigos traumas estão entre os eventos que precedem a desgraça da família. Todos abordados em uma longa construção para conferir peso e coerência, às ações futuras do patriarca. Dar ao roteiro o tempo necessário para desenvolver universo, argumento e personagens é sempre um acerto. E Cemitério Maldito, escolhe gastar metade do filme apenas para conhecer a família Creed, sua nova rotina, sua relação com o vizinho Judd (John Lithgow), e a área sobrenatural em que agora vivem. Deixando de lado, a facilidade de jumpscares, e imagens macabras gratuitas. O objetivo aqui, não é te assustar ou enojar, mas te manter com um medo constante, mesmo que você não saiba pelo que teme.

Entretanto, esta apresentação peca pela falta de foco e objetividade. Há o vizinho solitário, que toma atitudes estranhas. O trauma de infância da esposa, e sua dificuldade em falar sobre morte, em contraponto ao pensamento cético do pai médico. A morte do gato da família, Churchil. Alucinações, e o mal estar de toda a família nesta nova e estranha casa. Estes vários elementos alternados são eficientes para construir o mistério sobrenatural, mas deixam de lado uma construção crucial, os Creed como família. Faltou reforçar o lado afetivo destas relações, e tornar ainda impactante e coerente as escolha de Louis, quando um determinado evento desestabiliza a família.

Quando a ação exacerbada do pai, que é o verdadeiro tema do filme, finalmente se apresenta, falta peso na relação entre os envolvidos. Além de um certo sentimento de arrasto, já que à esta altura já estamos na metade da projeção. Falta também, tempo para apresentar um pouco melhor o tal Cemitério Maldito. Não apenas seu conceito, mas o espaço em si. Os enquadramentos fechados, e a fotografia escura pouco mostram do local, e não ajudam a criar este cenário mistico tão importante a trama. Por outro lado, também é a fotografia a maior responsável pela acertada atmosfera do restante da produção. Mesmo nos dias ensolarados, esta cidadezinha do interior soa cinzenta e melancólica, como se houvesse algo errado a todo tempo.

É essa atmosfera, este mundo sem esperança, o que realmente vai te envolver na história. Juntamente com o bom trabalho do elenco, que entrega o que seus personagens exigem. Os destaques ficam com a pequena Jeté Laurence, que consegue entregar mais do que a maioria das crianças em filmes do gênero. E, principalmente, John Lithgow que dá um ar cansado e um pouco perdido no mundo ao visinho Judd. É a atuação dele, que nos faz perdoar as escolhas absurdas do personagem, típicas de "habitantes de filmes de horror". Judd não hesita em apresentar o Cemitério e suas propriedades para o novo vizinho, mas também é ele quem tenta dissuadir Louis de revisitá-lo mais tarde. Ignorando o fato de que o novo amigo, sequer saberia de sua existência, não fosse por ele.

Particularmente, me incômoda a forma como os flashbacks que apresentam os traumas de Rachel tratam a irmã da moça. Ao invés de uma pessoa doente, que naturalmente seriam o fardo e um desafio para a caçula tomar conta, a produção transforma a enferma em uma criatura demoníaca, com o único intuito de assustar e até enojar o espectador. Como o roteiro deixa claro, que a moça sofria realmente de uma doença e não de um "evento sobrenatural", esta caracterização soa inapropriada e apelativa demais.

Com alterações propositais, uma produção caprichada, bom elenco e uma atmosfera acertada, tornam Cemitério Maldito uma boa adaptação da obra de Stephen King. Lançado exatamente trinta anos após a primeira versão, é uma atualização bem vinda, que deve apresentar a obra para novos públicos. Seu ritmo mais lento, especialmente na primeira metade, e o foco no terror psicológico ao invés dos populares sustos fáceis podem afastar alguns, mas seu desfecho recompensa aqueles que perseverarem.

Cemitério Maldito (Pet Sematary)
2019 - EUA - 101min
Terror

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