O Silêncio - Ah! E por falar nisso...

sexta-feira, 12 de abril de 2019

O Silêncio

Não fossem monstros de anatomias distintas e com origens diferentes, O Silêncio bem que poderia funcionar como um prelúdio de Um Lugar Silencioso por sua premissa. Entretanto sua execução se assemelha muita mais à Bird Box, outra produção de terror da Netflix.

Criaturas voadoras que caçam humanos guiados pelo som invadem o planeta. Acompanhamos à luta por sobrevivência da família Andrews, que tem uma vantagem inesperada. Eles sabem se comunicar silenciosamente, já que a adolescente Ally (Kiernan Shipka, O Estranho Mundo de Sabrina) perdeu a audição anos atrás, e toda a família aprendeu a se comunicar com linguagem de sinais.

As comparações com o Um Lugar Silencioso são inevitáveis. Ambas as produções acompanham uma família com uma adolescente deficiente auditiva em um mundo onde sobreviver depende de não fazer barulho. A diferença está principalmente no período de tempo em que as tramas se passam. Enquanto a família liderada por John Krasinski, já está adaptada ao mundo pós-apocalíptico, a de Stanley Tucci encara o momento de instauração da nova ordem e todo caos pertinente à ele.

É essa distinção ente os momentos de uma nova realidade semelhante, que afasta as duas produções e aproxima O Silêncio da produção estrelada por Sandra Bullock. Acompanhamos o ataque, o desconhecimento sobre o que está acontecendo, a descoberta de como lidar com essa nova ameaça, a perda de alguns personagens e finalmente a ameaça que outros humanos representam em um momento de escassez de recursos. Desta vez o que diferencia as produções é o grupo, um centrado em uma família, outro em sobreviventes reunidos ao acaso. E principalmente a forma mais simples (leia-se linear) que a produção silenciosa escolhe para contar sua história.


Agora que já eliminamos as comparações inevitáveis, vamos aos méritos e deméritos próprios do filme em questão. É o elenco competente o que mais chama atenção. Além de Tucci e Shipka, estão em cena Miranda Otto, John Corbett, Kate Trotter, Billy MacLellan e o pequeno Kyle Breitkopf. Todos entregando o que seus personagens exigem deles, infelizmente o roteiro não os aproveita da melhor forma.

Formada por estereótipos, pai esforçado, mãe amorosa, vovô doente, tio descolado, irmãozinho fofo, o roteiro pouco explora as personalidades e relações destas pessoas no limite. Então temos a apresentação doença da avó, que é apresentada mas não chega à abalar a família. Assim como a perda de seu cachorro. Ao mesmo tempo, que o nascimento de fanatismo religioso resultante do apocalipse, é apenas brevemente mencionado, antes de se tornar uma ameaça real aos personagens.

Mesmo Ally, que narra a história e teria uma perspectiva diferente dos demais pela falta de audição, é mal desenvolvida pelo roteiro que a trata quase todo o tempo como uma adolescente comum. A garota inclusive fala, e lê lábios, eliminando à necessidade de se comunicar apenas silenciosamente com ela. O silêncio aliás, é relativo. Uma respiração mais acelerada, em alguns momentos se mostra mais perigosa que diálogos inteiros em sussurros. Sem que sejam dadas grandes explicações para a divergência.


O roteiro é linear e bastante episódico, com novos obstáculos surgindo assim que o problema anterior é solucionado. O formato não chega a ser um grande problema já que se trata da jornada de uma mesma família. São algumas conveniências, escolhas de roteiro e falas de lógica que realmente comprometem. Os meios de comunicação que falham e voltam à funcionar conforme o roteiro precisa, ou não, dar informações para a família. Personagens são descartados sem que haja grandes consequências ou desdobramentos, criando mortes gratuitas criadas apenas para chocar o espectador. Enquanto Ally em alguns momentos consegue ler lábios, mesmo sem estar olhando para o rosto da pessoa.

A produção é competente na criação do mundo pós-apocalíptico, com uma fotografia cinzenta e deprimente. Já o design das criaturas criadas em CGI pouco convencem, seja pelo seu realismo, seja pelo potencial de ameaça. O que fica evidente, quando o personagem de Tucci consegue eliminar dezenas delas com uma ferramenta de jardim. Porque não usar uma centena dessas e exterminar de uma vez toda a espécie?

O Silêncio tem bons argumentos e boa intenção, mas se perde na execução entregando entregando algo genérico E ainda com o agravante de trazer muitas semelhanças com boas obras recentes e bastante populares. Tornando-o um passatempo interessante, e apenas isso. Curiosamente, deixa possibilidades para uma sequencia, embora funcione bem sem ela. Resta saber se vai agradar público suficiente para justificar a produção de uma parte dois.

O Silêncio (The Silence)
2019 - EUA - 90min
Terror, Suspense

Nenhum comentário:

Post Top Ad