quarta-feira, 20 de junho de 2018

Sol da Meia-noite

Xeroderma pigmentoso, ou XP, é uma desordem genética, que torna deficiente a capacidade do organismo para recuperar o dano causado pela radiação ultravioleta. Nos casos mais severos da doença a pessoa precisa evitar por completo a exposição à luz solar e a outras fontes da radiação UV e a expectativa de vida é inferior à 20 anos. Esta é condição que determina a vida da protagonista de Sol da Meia-noite. Infelizmente, foi preciso uma breve pesquisa para compreender melhor a condição, já que o roteiro parece escolher fornecer apenas as informações que melhor o atendem.

Katie Price (Bella Thorne) de dezessete anos é portadora desta rara desordem e passou praticamente toda a vida protegida dos raios solares dentro de casa. A maior parte de seu contato com o mundo se dava através de seu dedicado pai Jack (Rob Riggle), sua única amiga Morgan (Quinn Shephard), da janela do seu quarto e durante as noites. É em uma destas saídas noturnas que ela conhece Charlie (Patrick Schwarzenegger), com que engaja um romance que muda sua vida.

A partir deste encontro, a garota começa a "viver de verdade", descobrir coisas e pessoas novas e vivenciar uma amor pelo qual vale a penas correr riscos. Ok, a produção se encaixa nos romances juvenis com dilemas que abrangem a morte eminente, como Se eu ficar, Como eu era antes de você e Tudo e Todas as Coisas! Mas, diferente de seus colegas inspiradas em obras literárias, este remake de um mangá e longa japonês de 2006 (Taiyo no uta) carece de contextualização.

Faltam informações sobre a doença e a vida sob as condições que ela impõe, sobre a relação com o pai e a amiga, sobre as habilidades e preocupações da moça, e a ausência da mãe falecida. Katie parece completamente deslocada da sociedade, e logo em seguida descobrimos que ela pode sair durante as noites, ainda sim evita conhecer e se relacionar com pessoas de sua idade, sem motivo aparente. Nem mesmo na internet a moça se relaciona, situação pouco realistas para adolescentes do século XXI. A produção tem apenas noventa minutos de duração, existe sim tempo para apresentar melhor o mundo e medos da protagonista. Mas o roteiro parece apressado em partir para o romance, e deixando de lado a possibilidade de criar uma empatia melhor entre o espectador e os personagens.

Mesmo a doença de Katie, uma condição real - a mesma que as crianças do terror Os Outros possuem - é mal apresentada. É apenas lá pela metade da história que descobrimos que mesmo com todos os cuidados a expectativa de vida nesses casos é curta, já as consequências de se expor são explicadas pela protagonista de forma confusa e simplista. A compreensão geral, é que a moça vai entrar em combustão espontânea diante de qualquer tipo de exposição a luz do sol. Também ficam de fora informações sobre tratamentos necessários e prevenção à outras fontes de radiação ultravioleta. Tudo que não é essencial para o romance que o roteiro resolveu contar fica de fora. Empobrecendo, potencial informativo que este tipo de obra costuma defender.

Se a doença e os relacionamentos que moldaram a vida da jovem não tem espaço, resta ao romance carregar o filme. Mas o casal falha em sustentar o filme. Vivido pelo fraco Patrick Schwarzenegger - filho do Arnold - Charlie é o clichê de amor platônico adolescente supostamente inalcançável, que eventualmente é alcançado. Já a ex-estrela do Disney Channel Bella Thorne em alguns momentos tenta ser fofa por sua inabilidade social, em outros tenta emular a garota incrível e deslumbrante que ninguém conhecia, a oscilação soa abobada e pouco cativante. Nada que afaste, no entanto, os fãs da moça, que vão gostar do "empurrãozinho" que o filme tenta dar em sua carreira musical. Inclua aqui uma forçada cena em que a moça canta em público e logo atrai uma platéia entusiasmada.

A jornada amorosa da dupla fica no lugar comum gênero, com muitas montagens de passeios românticos. Sempre se esforçando ao máximo para forçar o espectador a sentir algo. Ao invés de arrancar lágrimas, o filme gera irritação de quem percebe a tentativa de manipulação mal ajambrada. Especialmente porque o grande empecilho para um final feliz está a uma frase de distância. Basta Katie parar de inventar desculpas implausíveis para esconder sua doença.
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No elenco, Riggle e Shephard até se esforçam, mas como seus personagens são subestimados pelo roteiro, não há muito o que a os atores possam fazer. A direção de Scott Speer é pouco inspirada, e na da sutil em suas intenções. Enquanto a trilha sonora recheada com canções no estilo Taylor Swift, é bastante esquecível.

Cheio de boas intenções, Sol da Meia-noite desperdiça boas discussões, e pouco faz pela conscientização da XP. O filme escolhe apostar no romance clichê, vivenciado por protagonistas poucos carismáticos. Não chega a ser impossível de assitir, mas é provável que você o esqueça antes mesmo de conseguir pesquisar sobre Xeroderma pigmentoso no google.

Sol da Meia-noite (Midnight Sun)
2018 - EUA - 93min
Drama, Romance


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