quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente (2017)

Hercule Poirot (Kenneth Branagh) bem que tenta, mas não tem descanso. Mal soluciona um mistério e outro caso já cai em seus ombros. Não é atoa que protagonizou nada menos que 39 livros de Agatha Christie e volta e meia tem suas histórias adaptadas para outros veículos. Mesmo assim, já fazia algum tempo que o excêntrico detetive não dava as caras na tela grande.

Requisitado em Londres com urgência, Poirot consegue com dificuldade uma vaga no Expresso do Oriente, estranhamente lotado para a época do ano. Como já diz o título, alguém é assassinado no trem, que fica preso em uma nevasca. Encurralando os suspeitos com o detetive mais famoso do mundo. Hercule Poirot tem apenas algumas horas para desvendar o crime antes de chegar à próxima estação.

Após uma demonstração curta porém eficiente das idiossincrasias e modus operante de seu protagonista, Assassinato no Expresso do Oriente apresenta de forma dinâmica seus muitos personagens. Gasta algum tempo apresentando o ambiente da locomotiva e seus passageiros antes de seguir a trama propriamente dita. Dando ao expectador um gostinho dos hábitos observadores de Poirot, antes mesmo de ele de fato começar a analisar as circunstâncias.

Crime realizado, é hora de analisar as provas e conversar com os suspeitos, é nesse ponto que muitos podem achar o longa arrastado, embora a mudança de ritmo seja coerente com a obra literária que o inspirou. A lentidão nasce da repetição de uma situação inevitável: Poirot precisa interrogar passageiros e funcionários do vagão. O longa até tenta criar uma dinâmica mais leve, mudando a locação dos interrogatórios, chegando a sair da locomotiva. Á certa altura, a edição tenta agilizar o ritmo alternando os depoimentos, exigindo mais atenção do expectador para não se perder nos detalhes.

Mas esta é a única grande falha do filme, e não deve afetar aqueles que já conhecem a história. Infelizmente também são essas pessoas, que não vão se surpreender com o desfecho, bem construído graças à esse segundo ato mais detalhado. Os já iniciados também vão se surpreender com uma ou outra cena de ação, claramente incluídas para das mais dinamismo à uma obra composta apenas de longas exposições. Criadas de forma criativa para explorar os poucos ambientes que o veículo oferece.

Aliás, criativos também são os ângulos e movimentos de câmeras escolhidos por Branagh, que também é diretor do filme. Seja para encontrar o melhor ângulo para mostrar a cena do crime, ou para dar ao expectador a sensação de ser mais um passageiro, mesmo que clandestino, no Expresso Oriente. Um traço já característico do diretor, que funciona muito bem no ambiente confinado em que a história se passa.


De volta aos suspeitos, o elenco de peso é um dos atrativos para os não aficionados pelas obras de Agatha Christie. Além de Branagh que conduz a trama muito bem, Penélope Cruz, Willem Dafoe, como Gerhard Hardman, Judi Dench, Johnny Depp, Josh Gad, Derek Jacobi como Edward Masterman, Michelle Pfeiffer, e Daisy Ridley são os nomes mais conhecidos do elenco afinado. Sem grandes atuações, todos executam de forma eficiente o trabalho no pouco tempo de tela que tem, em meio à tantos suspeitos. Os destaques ficam por conta de Gad, em um personagem de tom bastante distinto dos daqueles a que estamos acostumados; Ridley, intérprete de Ray em Star Wars, mostra que não pretende ficar marcada apenas por um personagem. E Pfeiffer, que acerta cada vez mais tanto na atuação, quanto na escolha de seus trabalhos.

Um design de produção impecável completa o pacote. Mesmo sabendo que houve um crime nele, e que existe a possibilidade de ficar atolado na neve, é impossível não querer embarcar no luxuoso trem. Concebido com riqueza de detalhes em seu interior, dos figurinos aos utensílios de cozinha. E o exterior criado com computação gráfica eficiente sob os trilhos, incluindo os cenários por qual ele passa. Já o bigode de Hercule Poirot dispensa comentários.

O longa é visualmente deslumbrante e tecnicamente bem feito. O roteiro tem sim uma mudança de ritmo herdada de seu material original, que pode desagradar alguns, mas no geral não compromete a excelente trama de Agatha Christie, nem diminui o mérito das boas atuações. Assassinato no Expresso do Oriente é uma excelente porta de entrada para uma nova franquia já confirmada. Morte no Nilo deve ser a próxima aventura do detetive excêntrico e nada modesto. Que venham mais mistérios!

Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express)
EUA - 2017 - 114min
Suspense


Leia a crítica do livro Assassinato no Expresso do Oriente
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