Dia D

A  verdade está lá fora! E Steven Spielberg tem obsessão de contar sobre ela pra gente. Ele já fez isso em uma ficção científica cheia de suspense (Contatos Imediatos do Terceiro Grau - 1977). Em uma aventura familiar sobre amizade (E.T. - O Extraterrestre - 1982), e em um drama apocalíptico de sobrevivência entre pai e filha (Guerra dos Mundos - 2005). Agora o diretor resolve nos contar essa "verdade", de forma mais filosófica, através da possibilidade de uma revelação mundial sobre a existência, e presença de seres extraterrestres no nosso planeta. 

A proposta de Dia D, é usar a ficção científica de alienígenas, para pensar sobre empatia, aceitação, fé, conspirações, conhecimento, comunicação, entre outros assuntos interessantes. O problema, é que o roteiro de David Koepp não parece estar disposto a discutir de fato esses temas. Se preocupando mais em apontá-los, do que de fato mostrar suas implicações. Até mesmo quanto a revelação do título em inglês. Disclousure Day, em tradução literal, é Dia da Divulgação. Realmente, a gente vê este dia, e boa parte da jornada para chegar até ele, mas não é nos mostrado algo muito mais interessante, as consequencias dele. 

Mas estou me adiantando, afinal qual é o argumento desse filme? Um especialista em segurança cibernética, Dr. Daniel Kellner (Josh O'Connor), está em fuga, pois tem em mãos provas do grande acobertamento de uma empresa particular sobre a verdade quanto à seres de outros planetas. Ao mesmo tempo, uma meteorologista da TV, Margaret Fairchild (Emily Blunt), passa por um evento que a transforma totalmente, a moça passa a ter conhecimentos e habilidade sobre humanas. Se encontrar e fugir para conseguir revelar a grande verdade passa a ser o objetivo da dupla. 

Mas fugir de quem? É aí que entra o líder corporativo Noah Scanlon (Colin Firth), que comanda a empresa que esconde essas informações até mesmo do governo. Entre aliados, inimigos e muito, muito mistério sobre o que realmente está acontecendo, Kellner e Margaret superam os maiores percalços para revelar a verdade ao mundo. 

E assim, ao longo da aventura(?), o roteiro faz mistério, levanta perguntas, promete grandes reações, mas não lida de verdade com nada disso. A tal grande verdade já estava revelada nos trailers. Existem alienígenas na Terra! E é apenas isso. Como ou porque vieram? O que aconteceu nesse período em que foram ocultados? Como sua presença afeta a sociedade, antes e depois de se tornarem conhecimento geral? A produção não trabalha nada disso. O que é uma decepção para quem comprou a promessa de um novo sci-fi do diretor, e acompanhou a preparação para algo grandioso por mais de duas horas. 

Para ser justa, o roteiro até tenta conversar sobre empatia, e principalmente fé, através de Jane, personagem de Eve Hewson. Mas além de rasa e breve, a discussão é interrompida pela conveniência de roteiro, que descarta a moça assim que ela deixa de ser necessária para o jogo de gato e rato que estamos acompanhando. 

Tem ainda um artefato multiuso que serve tanto como mcguffin, quanto como atalho de conveniência que nunca de fato é explicado, já que suas propriedades precisam se adaptar às necessidades da história. Além de um vilão incansável que, no grande embate, simplesmente senta para assistir. 

Entre os acertos, tirar do governo o poder sobre a verdade, faz uma crítica interessante sobre a submissão dos governos do mundo real às grandes corporações. Por outro lado, também pode ser interpretado como uma proteção a esses mesmos governos, já que tira deles a responsabilidade pela conspiração e consequentemente o papel de vilão da história. 

Se o roteiro é o grande ponto fraco deixando discusões e críticas apenas na superfície, e apostando em conveniências, e escolhas não tão coerentes com o mundo de hoje, (é sério que em 2026, na era da comunicação, o grande plano de revelação é realizado em um canal de TV interiorano dos Estados Unidos?), o filme é dirigido por um mestre, e conta com um elenco de qualidade. 

Josh O'Connor e Emily Blunt se destacam já que seus personagens oferecem mais com que trabalhar. Ele conquistando nossa confiança imediatamente. Enquanto ela surpreende ao alternar entre o ar blasè de quem sabe um grande segredo, e o desespero de uma pessoa que está tentando se entender diante de uma enorme mudança de vida. Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo e Wyatt Russell são eficientes diante do que o roteiro pede. 

Enquanto Spielberg é o Spilberg! Dia D é extremamente bem filmado, apesar do roteiro frágil. Desde os takes criativos como o da luta em primeira pessoa que abre o filme. Passando por marcas registradas do diretor como as sequências que entram e saem de carros em movimento. Até referências a outras obras de ficção científica, a teorias e mistérios do mundo real, como os sinais em plantações, e outros filmes do diretor, como as naves envoltas em nuvens de Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Além de boas sequências de ação, com destaque para aquela envolvendo um trem. 

É a qualidade da forma de contar histórias do diretor, somado ao carisma do elenco que nos mantém conectados à história até o desfecho. Envolvimento que pode ou não aumentar o fator frustação pela falta de respostas. Eu reconheço, o filme não conseguiria responder tudo de forma satisfatória, e algumas questões crescem ao se manter desconhecidas. Como a fala do alienígena no final. Qualquer coisa que o roteiro inventasse não seria tão bom quanto a dúvida. 

Ainda sim, era preciso que Dia D, discutisse melhor, se aprofundasse mais e talvez trouxesse uma ou outra resposta. Ao menos em relação à jornada. Porque aquela dupla foi escolhida? A conspiração existe ha mais de 70 anos, porque revelar somente agora? E qual o plano a partir disso? São algumas das questões que poderiam ser trabalhadas sem atrapalhar o tom misterioso e o final em aberto. 

Dia D é a quarta, e talvez a última, incursão no mundo dos E.T.s de um diretor obcecado pelo assunto (Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal não conta, já que são alienígenas por não serem dessa dimensão, mas não necessariamente por ser de um planeta diferente), e por isso esperávamos mais da obra. Que entretém, diverte, abre discussões, mas promete muito e entrega pouco.

Vai agradar alguns, mas deixar outros completamente confusos ao fim da sessão. Eu fiquei, e passei um bom tempo tentando compreender meus sentimentos em relação ao filme. Eu gostei, mas não amei! Spielberg tem obras mais interessantes sobre o mesmo tema. 

Dia D (Disclosure Day)
2026 - EUA - 145min
Ficção-científica, Suspense, Ação

Quer conhecer mais do trabalho de Steven Spilberg com extraterrestres? Assistas meus vídeos sobre  Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. - O Extraterrestre .

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