Uma Casa na Pradaria

 Eu admito, recentemente tenho tido dificuldade de encarar novas séries na Netflix. Tanto pelo formato de lançamento com todos os episódios, que nos faz sentir a obrigação de assistir tudo de uma vez. Quanto pela incerteza de que a história terá continuidade, e quanto esses novos episódios virão. Considerando que a plataforma mais cancela do que renova suas obras, e quando o faz, leva anos para trazer novos episódios.

Mas já que o streaming confirmou a segunda temporada de Uma Casa na Pradaria mesmo antes de sua estreia, apesar de não definir uma data para isso. E graças ao marketing que apela para a ausência que o enceramento de  Anne With an E deixou, resolvi arriscar as oito horas de vida necessárias para assistir a primeira temporada completa. 

A série adapta a série de livros semiautobiográficos de Laura Ingalls Wilder. Acompanhando a família em sua mudança para o isolado oeste estadunidense. Atraídos pela promessa de terras férteis, Charles (Luke Bracey), Caroline (Crosby Fitzgerald), as filhas Mary (Skywalker Hughes) e Laura (Alice Halsey), e o cachorro Jack encontra desafios que nunca imaginaram. 

Ambiente inóspito, animais selvagens, doenças desconhecidas, falta de recursos, inimizade com os nativos. A cada episódio um ou mais desafios sem impõem e se entrepõem, e a família encontra a melhor forma de lidar com eles. Com ou sem ajuda de terceiros. 

Aliás a presença de terceiros é bastante curiosa, já que raramente há conflitos reais explorados entre eles. Pequenos embates são até insinuados, mas logo resolvidos. A sensação é de que todos que migraram para a área, e até os donos originais dela, os indígenas, tem uma enorme boa vontade e anseiam para que o mundo seja pacífico, colaborativo e lindo. Nada realista, ou mesmo interessante narrativamente. À certa altura, paramos de temer pelos problemas, já que compreendemos que as consequências serão brandas. 

O único conflito real, que de fato alimenta a trama ao longo de toda temporada, é a mentira sobre a disponibilidade das terras. Um grande complô de uma grande companhia para tomar o território dos nativos. Deste temos um desfecho não tão positivo, mas a família protagonista pouco se afeta por ele, já que partem para uma nova aventura/temporada em outro lugar. 

Um detalhe curioso sobre este conflito, é que o povo que está sendo expulso são os Osage. O mesmo que em Assassino da Lua das Flores de Scorcese, e na vida real, se tornou próspero por um perído, graças a descoberta de petróleo nas terras a que foram designados injustamente. Impossível não pensar que estamos vendo o capítulo anterior aos eventos mostrados no longa metragem.

Além do quarteto principal, Uma Casa na Pradaria também investe em outros personagens interessantes. Emily Henderson (Barrett Doss), é uma mulher negra dona do comércio local que sofre preconceito velado das demais mulheres por causa de sua etnia. E apenas isso, nada muito significativo é feito a respeito. Mas ela ganha um interesse amoroso um dos únicos outros negros em cena (Emily tem um irmão que pouco dá as caras), o Dr. George Tann (Jocko Sims). Curiosamente ele não parece sofrer do mesmo preconceito que ela. 

Caleb (Kowen Cadorath) é um órfão que vira interesse amoroso de Mary. Enquanto Laura faz amizade com Good Eagle (Wren Zhawenim Gotts), garota de origem indígena. Essa relação infantil força um laço de amizade entre as duas famílias. A família Osage tem um passado triste, perdeu uma filha, mas isso também é explorado de forma rasa.

Mas novamente, todos esses desenvolvimentos, ainda que frágeis são bruscamente abandonados pelo desfecho da série. A partida da família da região de Independence deixa a sensação de que acompanhamos estes personagens apenas para abandoná-los. Sim, eu sei que isso é fiel ao livro. Mas, talvez nas páginas, essas histórias tenham sido exploradas de forma mais complexa, dando a sensação de encerramento, e não de interrupção.

É o solitário John Edwards (Warren Christie) o único dos coadjuvantes com um arco mais coeso. Um párea em luto, que começa a sair da depressão com a influencia dos Ingals. Sua história de perda reflete em Charles, já que este pode ser seu destino caso esta empreitada com a família não dê certo.  John Edwards também é o único que se mantém na história para a próxima temporada. 

A reconstrução de época, figurinos, cenários e até a escolha de locações são eficientes para construir um velho-oeste realista e cotidiano. Muito diferente das jornadas de cavaleiros solitários. Mas a direção das cenas nem sempre faz o melhor uso desta atmosfera. Escolhendo os caminhos mais burocráticos para se contar essa história.

Depois de ler tudo isso, você deve estar imaginando que odiei Uma Casa na Pradaria, o que não é verdade. A série tem sim suas falhas, mas é eficiente em se tornar uma "série conforto" tal qual Anne With an E. A inspiração da série da ruivinha é assumida, tanto que convidaram Megan Follows que interpretou Anne nos anos 80. 

Uma pena apenas que o número enxuto de episódios, oito apenas, somado ao formato de maratona não ajude para nosso maior envolvimento com o programa. Como foi o caso de Pioneiros, série dos anos setenta que adaptava o mesmo livro, e durou uma década com 24 episódios por temporada, que eram anuais. Mas isso é mais um problema do "formato Netflix" do que da série especificamente. 

Uma Casa na Pradaria é gostosa de assistir, tem o narrativa, e o otimismo de uma série conforto. Falta ajustar um pouco o formato. O que pode ser feito em uma já temporada futura. Só esperemos que o segundo ano não demore tanto quanto a longa viagem do Ingals rumo ao oeste.

Uma Casa na Pradaria tem oito episódios com cerca de uma hora cada, todos já disponíveis na Netflix. E o segundo ano já foi confirmado. 

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