sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Legítimo Rei

Coração Valente, Reign, Outlander, o ainda inédito Duas Rainhas, não faltam filmes e séries que tratem de diferentes momentos da longa disputa entre Escócia e Inglaterra. Ainda sim, para quem não estuda a história destes países, a compreensão do que realmente se passou em cada época, ou o conhecimento quando suas figuras históricas é escasso. Legítimo Rei falha na tarefa de situar o espectador não iniciado, dificultando a empatia com seus heróis e ofuscando sua bem construída e filmada reconstrução de época.

Após anos de luta, derrotados os escoceses juram fidelidade ao Rei Eduardo I (Stephen Dillane, o Stanis de Game of Thrones) da Inglaterra. Entretanto, uma série de fatores, inclusive a morte de William Wallace (aquele mesmo, que já foi interpretado por Mel Gibson em Coração Valente), levam Robert de Bruce (Chris Pine) reivindicar o trono e reiniciar a batalha pela independência da Escócia.

Históricamente, Legítimo Rei pode até ser considerada uma continuação, não oficial, de Coração Valente (1995), já que suas histórias se completam. O longa da Netflix começa, inclusive, com uma narração sobre a luta de Wallace e seus companheiros. Entretanto a pesquisa e reconstrução histórica aqui é mais correta e eficiente, se comparado ao impreciso filme dos anos 90. Esforço que se faz logo nos primeiros minutos, com um um impressionante plano sequência, que apresenta bem os detalhes e atmosfera daquele mundo cinzento e lamacento.

A qualidade vista na direção de arte, fotografia e na forma de filmar as sequencias de batalha, são o ponto alto do filme. Cruel, sujos e viscerais as sequencias tem uma beleza plástica e uma coerências impecáveis. Mesmo misturando planos longos, câmera na mão, takes aéreos e feitos práticos e de computação, as lutas nunca parecem confusas ou mal coreografadas. Vale lembrar, são batalhas corpo-a-corpo, com cavalos, flechas, lanças e lama, muita lama, ditante de tudo isso o longa entrega um caos bem orquestrado e surpreendentemente belo.

Não tão bem sucedida é o roteiro, que parte do pressuposto de que todos tem alguma noção do evento histórico em mente. Não introduz muito bem a situação política da época, muito menos toma tempo para apresentar os personagens e suas escolhas. As decisões parecem tomadas às pressas sem muita construção das situações que levaram a elas. Acompanhamos Robert de Bruce, pois este é o protagonista, e por ser o Chris Pine. O ator realmente se esforça para dar veracidade ao seu rei fora da lei, mas o roteiro constrói sua jornada e decisões de forma apressada. Já os demais personagens se perdem na caracterização simplória e com pouco tempo de construção.

Entre estes se destacam pela caricatura exagerada, Billy Howle e seu cruel e incompetente Principe de Gales, e Aaron Taylor-Johnson (o Kick-Ass), que dá vida ao brucutu gritalhão James Douglas. Florence Pugh, intérprete de Elizabeth, esposa de Robert, até consegue passar o desconforto do casamento arranjado com um homem mais velho, e o sentimento de impotência de alguém que tem mais a oferecer, mas é descartada por ser mulher, nas poucas cenas que tem. Mas seu romance com o protagonista não convence.

Dos demais personagens mal lembramos os nomes, graças à apresentação fraca, que oferece personagens genéricos e pouco empáticos. O ruivo, o velho, o garoto... é o máximo que conseguimos recordar. Falha que fica evidente, quando um personagem dado como morto, reaparece e pouco nos importamos. Já que nem a relação deste com demais personagens nos é devidamente apresentada. Ele é um amigo? Irmão? Primo? Outro momento que escancara o problema é quando Douglas (cujo nome só decorei porque ele grita o tempo todo nas batalhas), encontra aquele que aparentemente seria seu arqui-inimigo em cena. Digo aparentemente, pois a rixa particular entre eles, se apresentada antes, passou batida.

O resultado é uma jornada visualmente bela, com batalhas empolgantes, protagonizada por personagens com os quais não nos importamos. Um filme de roteiro apressado, que não tramite o peso da jornada de seu protagonista como deveria.

O roteiro de Legítimo Rei, parece não saber lidar com o fato de se tratar de um pequeno episódio de uma história muito maior, com muita história anterior e posterior a ser esclarecida. Tanto, que começa e termina com narrações explicativas. Ao mesmo tempo, exige um conhecimento prévio que o espectador nem sempre possuí. Parece um filme pensado para quem já conhece um contexto, ingleses e escoceses que provavelmente estudam estas figuras históricas no currículo escolar obrigatório. Entre nós, aqueles que ficarem curiosos, ou perdidos, podem smpre aproveitar a oportunidade para conhecer melhor este momento na história britânica, usando o filme como ponto de partida para pesquisa. Ou ainda, simplesmente deixar de lado e aproveitar o visual caprichado, as cenas de batalha bem executadas e o carisma de Pine.

Legítimo Rei (Outlaw King)
2018 - EUA - 121min
Drama, Biografia, Guerra

Legítimo Rei foi lançado na Netflix.
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